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Sobre os eventos do movimento cibernáutico (COMUNICADO CCCP)

Chegou à nossa atenção a actividade frequente de um “sátiro” por esta página (e todas sabíamos que seria um “sátiro”, só podia). Por muito que o aumento do tráfego na página seja do nosso interesse, mesmo que por publicações que evidentemente ninguém lê e de que ninguém quer saber (sim, ad populum, argumento de maioria, chora mais um pouco), não podemos concordar com as companheiras que aquiesceram a tal permissibilidade caótica, companheiras que, felizmente, confrontadas com os factos, já se viram forçadas a rescindir a sua indiferença inicial.

Apesar de que o conteúdo de tais publicações jocosas nos seja efectivamente indiferente, lamentos de coitadinho, introduzimos agora a nuance de que a sua existência não deva ser ignorada enquanto tal, e até, para nosso desagrado, teceremos alguns comentários sobre o conteúdo de modo a dar este assunto por encerrado de uma vez por todas.

Sabendo todas nós sem excepção quem referimos, não nos parece sensato, como nunca nos pareceu, dirigirmo-nos frontalmente a tão insensata figura. Este comunicado incidirá sobretudo no alerta que devemos àquelas entre nós que, com excesso de ingenuidade, ainda não se deram conta da natureza da besta.

Nunca ninguém se perguntou de onde apareceu ele, de que toca saiu? Alguém de quem não se conhecia qualquer actividade ou afinidade comum? E que, ainda assim acolhido generosamente entre nós, nunca deu qualquer contributo construtivo em qualquer projecto? Nem na confraternização demos por ele para além de cansativas e circulares discussões ideológicas. Alguma vez o viram num concerto, num karaoke, em qualquer actividade em que não fosse possível escudar-se na sua caixa de óculos graduados? Nunca repararam, companheiras, que mesmo quando participava na cozinha, era demasiado preguiçoso para descascar as cebolas como deve ser, preferindo retirar uma camada de uma só vez, reduzindo assim a quantidade de refeições disponíveis?

Estas perguntas respondem-se a elas mesmas. Ele nunca fez nada senão criticar, criticar, criticar, e teve, tem e terá o troco devido. Poder-se-ia até pensar que fosse alguém que pudesse prestar back-up teórico ao movimento, como outras companheiras académicas, mas alguém lhe reconhece essa capacidade? A alguém que repete vezes sem fim as mesmas tiradas sem graça sobre a academia, enquanto à distância de um não-participante ressentido reproduz o jargão universitário? Ou pensaria ele que o disfarçava nos seus próprios textos “satíricos”, essa fusão ingrata de polémicas novecentistas, referênciaas pop-culturais e calão juvenil usado extemporaneamente e com vários anos de atraso em relação ao prazo de validade da sua valoração no uso corrente? Não entendemos de todo qual é a cena desse pokémon, parece que não tem qualquer sentido de auto-crítica. Já repararam que a maior parte da sua “sátira”, senão toda, se cinge à repetição avulsa de declarações e termos do pessoal? Tomemos o termo antes invocado, auto-crítica. Talvez lhe cause estranheza (ou ele finja que assim é) que não só o termo como a prática coerciva adjacente advindos da Revolução Cultural chinesa e de outros contextos antipáticos seja reproduzido tão alargadamente enquanto óbvia e elementar sapiência entre as companheiras. Enquanto isso, qualquer pessoa com dois dedos de testa consegue por si fazer a distinção: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, tal como Bruno Bauer, Bruno Mars, Giordano Bruno e Bruno Filippi tiveram ou têm observações infinitamente mais pertinentes a fazer sobre o estado do mundo que nosso lamurioso aspirante a sátiro mordaz.

Vemo-nos perante um Deus do Vazio que, não tendo resultados para apresentar ou funções a desempenhar, se retira aos seus aluados devaneios, em que faz a festa, lança os foguetes e apanha as canas, enquanto nós, até agora que atingimos um limite insuportável, permanecemos impávidas perante tanto pavonear. Pois não mais. É sabido, por quem veja as coisas como elas são, que o movimento acolhe e sempre acolheu todas de braços abertos. Nos quatro cantos do globo, temos um canto para todas, há colectivos para pessoas racializadas, para mulheres, para ecologistas, e a lista continua, até as companheiras mais fora da norma e/ou com divergências do foro neurológico têm os seus colectivos queer. Que ninguém se engane: várias foram as tentativas de arranjar alguma actividade frutífera ou recreativa para este artista de variedades, que sempre as renegou com displicência, na soberba das suas ilusões de pureza. Não podemos no entanto escapar-nos ao facto consumado de que as coisas são o que são, findo este teatro de vaidades e simpatias. Urge que um axioma da luta política seja agora reafirmado: quem não sabe estar em sociedade, não tem qualquer lugar entre nós.

Chegamos ao ponto em que, sem o desconforto de qualquer ambiguidade, decretamos sobre quem falamos o banimento vitalício das nossas heterotopias físicas, as rurais, as citadinas, e as suburbanas, através de toda a geologia; e a sua expulsão imediata aquando de qualquer tentativa de infiltração. Quem se possa compadecer de pobre alma que tenha em mente que esta medida drástica foi ponderada devidamente, e muito já nos pesou, mas que consensualmente a tomamos convencidas que trará a leveza necessária à convivência pacífica entre um movimento diverso, que nós, enquanto colectivo de todos os colectivos, representamos. Tal como aquando das torturas, esta é a mais humana das soluções possíveis. Torturas essas de que ele terá de se reerguer, como todas nós sob o jugo deste cistema opressor – devemos abandonar de imediato a noção de que há algo de excepcional nessas situações repressivas apenas por terem acontecido também às mãos das, e facilitadas pelas, companheiras, ou por qualquer outro motivo tacanho como sejam a brutalidade invulgar entre o contexto em que ocorreram ou a crueldade trocista com que também as companheiras poderão ter respondido sistematicamente, uma e outra vez, ao acontecimento, ou até, imagine-se, porque por qualquer motivação lucrativa além de sádica, as companheiras o tenham mantido refém da roda viva da vigilância intrusiva paralisante do que quer que seja que as circunstâncias permitissem se assemelhasse timidamente a algo que pudesse ser chamado de vida.

Chega de desculpas para este privilegiado. Por esse motivo, expressamos aqui o nosso repúdio aos gestores do Indymedia, que têm permitido descuidadamente este semear de veneno cibernáutico sob a sua alçada, e que por algum motivo não enviaram delegação à reunião de redacção do presente comunicado, mesmo estando nós certas da recepção dos nossos memorandos. Apesar de que nos agraciemos com a absoluta ineficácia destas sementes em particular, de conhecida que é a ladainha direitolas do seu plant-a-dor, tememos que possa abrir um perigoso precedente para que outras pessoas de inclinação individualista e má cultura de segurança por estas bandas causem dano ao nosso movimento. Colocamos então um ultimato em cima da mesa: ou o Indymedia passa a ter uma posição assertiva e decidida na eliminação deste tipo de publicações, ou não nos restará alternativa senão migrar em massa para outra plataforma de publicação livre da nossa criação, em que apenas serão permitidos conteúdos onde impere o bom senso e a urbanidade, de coerência reflexiva da nossa seriedade, sem dissonâncias repetidas e repetitivas entre sujeitos imaginários de um mesmo texto. Se se der esta cisão, a responsabilidade será em exclusivo deste Calimero, e estaremos dispostas a acolher as que agora gerem esta página mediante o devido pedido de desculpas expresso e o cumprimento das regras voluntariamente acordadas.

Porque nos resta ainda a humanidade das revolucionárias, após este rebuliço nebuloso e desnecessário, estaremos dispostas a comparticipar-lhe as despesas de psiquiatra clínico, com a condição única de que ele não tenha qualquer actividade online ou offline danosa para o movimento ou para quem o compõe, tanto durante o período de consultas contemplado, como antes e depois. Para algo mais que isto, teríamos de ser deusas, não do Vazio, mas de tudo e de todas, vociferando contra nós próprias, na incongruência esquizofrénica da nossa rejeição de mestres e deuses, da autoridade não justificada e da hierarquia não produtiva.

Mexeu com todas, mexeu com uma.

Pelo melhor dos mundos possíveis,

Colectivo Conjunto dos Colectivos de Portugal (CCCP)

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