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		<title>Ceuta e Gaza</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Aug 2026 16:48:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Diogo Duarte Aug 01, 2026 Ceuta e Gaza são duas faces da mesma moeda. Apresentam uma imagem do futuro. Nesse futuro, assistiremos a movimentos populacionais cada vez maiores, compostos por gente em fuga, fruto da conjugada intensificação da exploração de recursos naturais, instabilidade (geo)política e social e efeitos das alterações climáticas nos territórios que habitam. [&#8230;]]]></description>
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<p><strong>Ceuta e Gaza são duas faces da mesma moeda. Apresentam uma imagem do futuro.</strong></p>
<p>Nesse futuro, assistiremos a movimentos populacionais cada vez maiores, compostos por gente em fuga, fruto da conjugada intensificação da exploração de recursos naturais, instabilidade (geo)política e social e efeitos das alterações climáticas nos territórios que habitam. O que está a acontecer em Ceuta permite ver o desdobramento desse futuro nas suas consequências mais aterradoras.</p>
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<p>O que há de aterrador nesse futuro, e contrariamente ao que parece constituir um certo consenso, não está na multidão de pessoas que, pela frincha de um muro, procura escapar de um mundo que as repugna e encontrar do outro lado uma vida melhor. Está na naturalidade com que se disseminou e instalou a perceção de que o “problema” está na imigração, que esta (e que aqueles sujeitos em particular) constitui necessariamente um problema ou uma ameaça e que deve ser contida.</p>
<p>Essa perceção projeta o inimigo num plano “exterior” e num <em>outro</em> que ameaça as “nossas” fronteiras, a “nossa” soberania” e o “nosso” modo de vida; afirma que o inimigo vem de fora e esconde o inimigo que está cá dentro.</p>
<p>É disso sinal, e não uma simples coincidência, a espontaneidade das reações que, de forma quase hegemónica, mobilizaram de imediato temores imaginários e recalcados, recriando os filmes e séries televisivas que fantasiam hordas indomáveis de zombies invasores nas ruas e bairros das nossas cidades. Em maior ou menor grau, esta perceção é partilhada da esquerda à direita.</p>
<p>Não estamos perante uma simples armadilha em que, como é habitual, a esquerda parece escorregar. A esquerda não é uma vítima que se vê instrumentalizada por um processo ou narrativa que lhe é imposta. Ela participa ativamente na sua reprodução. Tal como a extrema-direita, que mais ganha com ela, tem sido visível que a esquerda teme o fim dos muros que nunca deviam ter existido e contribui alegremente para a destruição dos muros que devia aprender a erguer.</p>
<p>É da mobilização desses temores (mal) ocultos, onde se revela o racismo latente e amplamente disseminado que encontra automaticamente no <em>outro </em>o inimigo e um agente do caos e da destruição, que se justificarão mil Gazas, mil enclaves, que permitirão conter, controlar e, se necessário, matar, essas hordas de bárbaros que trepam os muros e as grades que nos “protegem”.</p>
<p>Palavras como “soberania”, “fronteira” e “invasão” são o centro de uma gramática que aponta aqueles que correm na nossa direção descontroladamente, sem outro rumo que não o de destruir o “nosso” modo de vida e de “nos” sugar até ao tutano. Tudo em nome de uma ilusão que persiste e de que poucos parecem querer libertar-se: a da civilização e da democracia, com a sua proclamada estabilidade e segurança.</p>
<p>É aí que Ceuta e Gaza se encontram. E como isso torna evidente, Israel não está a perder a guerra: pode não estar a conquistar corações, mas está a arrancá-los. E, contra o século XX do “consenso fabricado”, é disso que será feito o futuro. A força contará mais do que a propaganda.</p>
<p>Gaza é um ensaio geral para essas mil Gazas que veremos espalharem-se pelo território. As máscaras de muitos humanistas, progressistas, democratas, até revolucionários, caíram com Gaza. Mas serão ainda mais aquelas a cair perante qualquer simulacro que aparente ameaçar a ficção da superioridade ocidental e do seu “modo de vida”. Nestes dias, vimos a extensão do temor com a “invasão dos bárbaros”, vimos apelos mais ou menos contidos para “controlar” e “conter” a situação e vemos, agora, regozijo com a forma como Sánchez “resolveu” o “problema”, recambiando de volta as pessoas que tinham entrado em Ceuta.</p>
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<div class="pencraft pc-display-flex pc-minWidth-0 pc-position-relative pc-reset flex-auto-j3S2WA">Nessas reações, em que dificilmente se distingue a clássica divisão entre “esquerda” e “direita”, parece ser, perversamente, e acima de tudo, a “soberania” e a “europa” que estão sob ataque e não as vidas de milhares de pessoas. Pelo caminho, naturalizam-se termos e ideias que há muito deviam ter sido destruídas ou abandonadas: “imigrante”, “ilegal”, “fronteira”, até “colonização”.</div>
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<p>Para proteger a sua posição, muitos asseguram que Ceuta não é um território colonizado, pela sua antiga e indisputada integração no reino espanhol. O que cria esta ironia: a de ignorar o caráter interno da colonização, de que Espanha é um caso evidente. A ideia de que a colonização é fundamentalmente extraterritorial e que não existe quando aparentemente não há resistência, torna invisíveis os processos de homogeneização, afirmação e imposição dos Estados. Nega o caráter histórico desse processo e naturaliza-o, um processo de resto recente, e, em muitos casos, em aberto; como acontece em Espanha, um Estado-Nação em que essa colonização e soberania interna permanecem incompletas e contestadas.</p>
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		<title>Isto não é sobre Ceuta!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Aug 2026 16:27:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A Europa é uma potência declaradamente colonial. Ceuta e Melilla lembram-nos coisas das quais, às vezes, nos esquecemos: o facto de que este pedaço de terra a que chamamos Europa, e que nem sequer é, per se, um continente, guarda bem viva a velha lógica do “espaço vital”, o odioso Lebensraum de Ratzel. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="content">
<p class="p1">A Europa é uma potência declaradamente colonial. Ceuta e Melilla lembram-nos coisas das quais, às vezes, nos esquecemos: o facto de que este pedaço de terra a que chamamos Europa, e que nem sequer é, <em>per se</em>, um continente, guarda bem viva a velha lógica do “espaço vital”, o odioso <em>Lebensraum</em> de Ratzel.</p>
<p class="p1">Além de Ceuta e Melilla, Espanha mantém sob o seu domínio colonial o Peñón de Vélez de la Gomera, o Peñón de Alhucemas e as Ilhas Chafarinas, ironicamente chamadas de Praças de Soberania.</p>
<p class="p1">A França de Macron (<em>le petit Napoléon</em>), por sua vez, continua a exercer soberania sobre Mayotte, Reunião e as Ilhas Esparsas, no oceano Índico. Aliás, a dimensão talassocrática da França e, por conseguinte, da própria UE deve-se também a esses domínios ultramarinos, que lhe garantem vastíssimas zonas económicas exclusivas e uma presença geoestratégica à escala planetária. Além disso, são espaços marítimos riquíssimos em recursos marinhos, com enorme potencial, sobretudo ao nível farmacêutico.</p>
<p class="p1"><img decoding="async" class="imagecache-full" src="https://www.buala.org/sites/default/files/imagecache/full/2026/08/759824040_1354369096239117_8780212771492653338_n.jpeg" alt="" width="590" height="393" /></p>
<p class="p1">O velho Reino Unido mantém Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha e o Arquipélago de Chagos, do qual faz parte Diego Garcia, onde se encontra uma das mais importantes bases militares anglo-americanas do mundo.</p>
<p class="p1">Quando falamos da atualidade do colonialismo e da necessidade de reparação (que muita gente, sobretudo os ditos “aliados”, gosta de circunscrever à questão cultural, mormente museológica), estamos a falar de forma bem concreta do facto de, mais de meio século após as independências africanas, a Europa continuar a controlar territórios geopoliticamente importantes do continente africano. Historicamente, as ilhas, pela sua posição geoestratégica, têm sido autênticas fortalezas militares naturais, usadas pelas potências coloniais para projetar poder sobre o continente. A título de curiosidade, <em>Kabuverdi</em> esteve na mira não só da Alemanha nazi como também dos dois blocos durante a Guerra Fria.</p>
<p class="p1">O facto de a Europa controlar uma parte significativa dos arquipélagos africanos faz do continente um alvo permanente das suas vontades. Porque razão a unidade africana é, então, importante? Porque só com uma África unida, agindo como um só corpo, os litígios territoriais e as reivindicações de países como as Maurícias, sobre o Arquipélago de Chagos, ou das Comores sobre Mayotte, por exemplo, poderão ser levados a sério no plano internacional. A unidade, minha gente, serve para obter ganhos concretos nas grandes negociações internacionais.</p>
<p class="p1">O mundo está em chamas e é inconcebível que África esteja fora dos grandes debates que determinarão o futuro ou que, quando esteja presente, a sua voz não seja relevante. Sabem aquela história de dizer que o futuro do planeta está em África e associar esse futuro ao facto de a maior parte da população mundial vir a ser africana? Pois bem, é um discurso utilitarista profundamente capitalista, interessado no potencial mercado de consumidores que o continente representa e que, à moda do <em>diktat</em> de Berlim, exclui os próprios africanos desse propalado futuro.</p>
<p class="p1">Precisamos de pensar estrategicamente numa política externa panafricana capaz de projetar os interesses de África no tempo e no espaço.</p>
<p class="p1">Mas, para isso precisamos também de lidar com as potenciais colónias africanas, como Marrocos, um Estado afrofóbico, estruturalmente racista, e que tem instrumentalizado a imigração em função dos seus interesses. A decisão do Governo espanhol de acolher Brahim Ghali, líder da Frente Polisário, em abril de 2021, não terá certamente passado despercebida a Marrocos. As intenções do reino alauíta no Saara Ocidental são contrárias aos objetivos da unidade africana. Lembremo-nos de que Marrocos abandonou a então Organização da Unidade Africana, em 1984, em protesto contra a admissão da República Árabe Saarauí Democrática, regressando apenas à União Africana em 2017. Marrocos, tal como certos países africanos apresentados pela própria Europa como campeões do desenvolvimento, como é o caso do Ruanda, mantém relações com dois dos grandes inimigos da unidade africana, o criminoso Estado de Israel e os bombeiros pirómanos de nome Estados Unidos. As vidas perdidas em Ceuta são também da responsabilidade de Rabat, a fronteira externa da União Europeia. Temo-nos preocupado com a presença de bases militares estrangeiras em África, precisamos igualmente  estar atentos aos acordos de mobilidade, autênticos instrumentos de militarização da migração, que vários dos nossos Estados, sobretudo no Norte do continente, têm vindo a assinar com a União Europeia.</p>
<p class="p1">A migração é uma das grandes questões do nosso tempo, porque os imigrantes são os mais eficazes bodes expiatórios dos movimentos de extrema-direita. E estejamos atentos aos avanços da direita e do fascismo em África. O caso da África do Sul mostra-nos que não podemos negligenciar a perigosa articulação internacional entre projetos conservadores e de apartheid social que se tem infiltrado no continente. Temos de escrutinar cada vez mais os nossos governos, os partidos políticos e todos aqueles que, com financiamentos duvidosos, têm normalizado agendas contrárias à unidade e à soberania africanas. Há instituições e personalidades africanas, nacionais e regionais, que, para escamotear os seus interesses de recolonização das nossas sociedades com ideias contrárias aos projetos de libertação, têm instrumentalizado discursos contra o Ocidente e banalizado o nome do panafricanismo. Estejamos atentos.</p>
<p class="p1">Camaradas panafricanistas de todo o mundo, temos de começar a pensar geopoliticamente a nossa luta e voltar a colocar a abolição das fronteiras africanas no centro das nossas questões. Sim, a cultura, mas uma cultura política, geopolítica e internacionalista. A revolução africana será geopolítica ou não será!</p>
<p class="p1">“Invasão de Ceuta”, dizem! A Camões se referem?</p>
<p class="p1">Definitivamente, isto não sendo sobre Ceuta, não deixa de ser sobre o longo empreendimento colonial europeu em África. E, portanto, tudo isto é sobre Ceuta.</p>
<p class="p2">&#8212;-</p>
<p class="author">por <a href="https://www.buala.org/pt/autor/apolo-de-carvalho">Apolo de Carvalho</a></p>
</div>
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		<title>CARNIFICINA IMPERIALISTA NA FRONTEIRA: 57 MORTOS, GÁS ARGELINO E A OBSERVAÇÃO DA CIA E DO MOSSAD POR TRÁS DOS ACONTECIMENTOS EM CEUTA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 12:50:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[COMUNICADO URGENTE DO SECRETARIADO PERMANENTE DA CGT DA ANDALUZIA, CEUTA E MELILLA CARNIFICINA IMPERIALISTA NA FRONTEIRA: 57 MORTOS, GÁS ARGELINO E A OBSERVAÇÃO DA CIA E DO MOSSAD POR TRÁS DOS ACONTECIMENTOS EM CEUTA Aquilo a que os media capitalistas e a extrema-direita fascista insistem em chamar “invasão” não é mais do que uma cortina de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h1 class="entry-title">COMUNICADO URGENTE DO SECRETARIADO PERMANENTE DA CGT DA ANDALUZIA, CEUTA E MELILLA</h1>
<p class="has-medium-font-size wp-block-paragraph"><em>CARNIFICINA IMPERIALISTA NA FRONTEIRA: 57 MORTOS, GÁS ARGELINO E A OBSERVAÇÃO DA CIA E DO MOSSAD POR TRÁS DOS ACONTECIMENTOS EM CEUTA</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Aquilo a que os media capitalistas e a extrema-direita fascista insistem em chamar “invasão” não é mais do que uma cortina de fumo para encobrir um massacre planeado. Em Ceuta, não estamos a assistir a um fenómeno de migração espontânea, mas sim à fuga forçada de mais de 60.000 pessoas, levadas ao limite por um regime ditatorial que utiliza a sua própria juventude como munições políticas e carne para canhão geopolítica. A dura e sangrenta realidade é que já morreram <strong>57 pessoas</strong> nas vedações e nas águas da fronteira. Cinquenta e sete vidas da classe trabalhadora ceifadas, cinquenta e sete corpos clamando por justiça, enquanto o número continua a aumentar implacavelmente.</p>
<p class="wp-block-paragraph">As provas deste crime de Estado são hoje indiscutíveis. As imagens e vídeos que vieram a público mostram a polícia marroquina a conduzir, organizar e empurrar fisicamente jovens em direção à fronteira. Nenhuma máfia o pode justificar; é o próprio Makhzen que está a abrir as comportas do desespero. Enquanto a ditadura alauita aplica uma repressão feroz dentro do seu próprio território — assassinando ativistas saarauís e perseguindo brutalmente influenciadores e dissidentes — na fronteira, transforma seres humanos em armas. E o mais grave: o governo espanhol, num acto de submissão colonial, recusa-se a denunciar Marrocos, escondendo-se cobardemente por detrás da narrativa das “supostas máfias” para não irritar os seus amos. Ignoram deliberadamente que a própria ONU condenou Marrocos há meses por usar a migração como arma de Estado, mas a diplomacia espanhola prefere fechar os olhos a defender a vida humana.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas para compreender esta barbárie, é preciso olhar para além do cenário geopolítico global. Esta debandada não é uma coincidência; é um castigo. O rastilho desta sangrenta represália tem nome e sobrenome: <strong>o recente acordo estratégico de Espanha para a compra de gás à Argélia</strong>. O imperialismo ianque e o seu fantoche no Magrebe não podem tolerar que o Estado espanhol tente garantir a sua soberania energética independentemente dos interesses marroquinos, reforçando os laços com um país que mantém uma postura firme contra a agressão imperial.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A este “pecado” energético juntam-se outros “actos de desobediência” inaceitáveis ​​para Washington e Telavive: a caracterização pública, por parte do governo espanhol, do massacre sionista na Palestina como genocídio e, sobretudo, a sua firme recusa em ceder as bases militares de Rota e Morón para o bombardeamento do Irão. Donald Trump e Benjamin Netanyahu não perdoarão estas afrontas. A CIA, a Mossad e os serviços de informação marroquinos orquestraram este caos na fronteira para desestabilizar o governo, forçar uma mudança de rumo na política externa espanhola e demonstrar quem manda no sul da Europa.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O contexto estratégico é de guerra aberta. O imperialismo anglo-saxónico e israelita está a perder o controlo dos estreitos de Ormuz e de Bab el-Mandeb, vias navegáveis ​​​​cruciais para a sua hegemonia comercial e militar. Perante este desastre, precisam de garantir o controlo do Estreito de Gibraltar a qualquer custo. Não é por acaso que, em Israel, os políticos e os meios de comunicação social estão a celebrar este desastre, esfregando as mãos com a humilhação de Espanha. Brincam com a vida de populações inteiras como se fossem peões num jogo macabro.</p>
<p class="wp-block-paragraph">E enquanto o imperialismo acerta as suas contas, o Estado espanhol aperfeiçoa a sua máquina de matar. Recentemente, o Supremo Tribunal teve de reiterar que os direitos humanos não são suspensos na água, limitando as prisões sumárias em alto-mar. A resposta da direita e da extrema-direita institucional? O presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, já exigiu alterações à lei para criar “medidas de contenção marítima”. Isto não é mais do que um eufemismo para exigir cercas flutuantes, mais militarização e novas armadilhas mortais no mar. O Estado não procura garantir direitos; procura brechas legais para continuar a matar impunemente.<br />
Na CGT Andaluzia, somos claros: o nosso inimigo não é o jovem marroquino que foge da fome e da ditadura. O nosso inimigo está nos palácios de Rabat, no Pentágono, na Mossad e no Palácio de Moncloa. As fronteiras são a ferramenta da burguesia para dividir a classe trabalhadora e manter os seus negócios.</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>PORTANTO, EXIGIMOS:</em></p>
<ol class="wp-block-list">
<li>*Ruptura diplomática imediata com o Reino de Marrocos. * Deixem de encobrir uma ditadura que envia o vosso povo para a morte. Os vídeos da polícia marroquina comprovam um crime de Estado.</li>
<li>*Encerramento e desmantelamento imediatos das bases militares de Rota e Morón. * Não permitiremos que o solo andaluz se torne a retaguarda das guerras sujas travadas pelos EUA e Israel contra o Irão e os povos do Médio Oriente.</li>
<li>*Soberania energética absoluta. * Defendemos o acordo do gás com a Argélia contra a chantagem imperial. A política externa e energética deste país não é negociável com Trump ou Netanyahu.</li>
<li>*Revogação total da Lei da Imigração e fim das expulsões. * Rejeitamos qualquer “medida de contenção”, por terra ou por mar. Exigimos o desmantelamento da Frontex e a regularização imediata de todos os migrantes.</li>
<li>*Justiça para as 57 vítimas. * Responsabilização criminal dos altos responsáveis ​​políticos e policiais, tanto marroquinos como espanhóis, que ordenaram e executaram este massacre</li>
</ol>
<p class="wp-block-paragraph">A verdade é brutal, mas é a nossa única arma. Não há crise humanitária sem que existam também líderes políticos com as mãos manchadas de sangue. Em memória das 57 vítimas, pela solidariedade de classe e contra o imperialismo.</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Ninguém é ilegal!</em> Viva a luta do povo!*</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Pela solidariedade internacionalista da classe trabalhadora!</em></p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Viva um Saara Livre!</em>*</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Secretariado Permanente da CGT Andaluzia</strong></em></p>
<p class="wp-block-paragraph">31 de julho de 2026</p>
<p class="wp-block-paragraph">aqui: <a href="https://www.facebook.com/CGTAndalucia">https://www.facebook.com/CGTAndalucia</a></p>
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			</item>
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		<title>Comissão Europeia ocultou informação sobre o impacto ambiental de projetos mineiros, conclui o Provedor de Justiça Europeu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 12:40:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A Provedora de Justiça Europeu (Ombudswoman) concluiu que a Comissão Europeia cometeu má administração ao recusar o acesso público a documentos sobre os impactos ambientais de projetos mineiros classificados como estratégicos ao abrigo da Lei das Matérias-Primas Críticas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><u> <span style="font-size: medium"><b>31 de julho 2026</b></span></u></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">A </span><a href="https://www.ombudsman.europa.eu/en/recommendation/en/229509"><span style="color: #1155cc"><span style="font-size: large"><u>Provedora de Justiça Europeu (Ombudswoman) concluiu que a Comissão Europeia cometeu má administração</u></span></span></a><span style="font-size: large"> ao recusar o acesso público a documentos sobre os impactos ambientais de projetos mineiros classificados como estratégicos ao abrigo da Lei das Matérias-Primas Críticas.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large"><br />
A Provedora de Justiça considerou pouco convincentes as razões da Comissão para tratar esta informação como &#8220;comercialmente sensível&#8221;, concluindo que a Comissão Europeia reteve indevidamente provas que mostrariam se os projetos mineiros declarados &#8220;estratégicos&#8221; ao abrigo da Lei das Matérias-Primas Críticas são seguros para o ambiente e as comunidades locais. </span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">A conclusão da Provedora surge após uma queixa apresentada pela ong ClientEarth, depois de a Comissão se ter recusado a partilhar avaliações ambientais submetidas pelas empresas mineiras no âmbito das suas candidaturas. Entre eles está o </span><span style="font-family: Georgia, serif"><span style="font-size: medium">projeto de exploração de lítio da Mina do Barroso da Savannah Lithium, alvo de um </span></span><a href="https://udcb.pt/comunicados/comissao-europeia-processada-por-decisao-sobre-a-mina-do-barroso"><span style="color: #1155cc"><span style="font-family: Georgia, serif"><span style="font-size: medium"><u>processo no Tribunal de Justiça da União Europeia</u></span></span></span></a><span style="font-family: Georgia, serif"><span style="font-size: medium">. </span></span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">A Provedora de Justiça considerou a recusa injustificada e apelou à Comissão para que divulgue os documentos ao público. Tendo em conta os consideráveis impactos ecológicos destes projectos, afirmou que a Comissão &#8220;deveria ser capaz de explicar ao público por que razão considerou que os impactos ambientais de um projeto seriam suficientemente monitorizados e resolvidos&#8221;.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">O caso vai além da burocracia. Os &#8220;Projetos Estratégicos&#8221; recebem um tratamento especial: licenciamento mais rápido, acesso facilitado a financiamento público e prioridade nos tribunais nacionais. As comunidades que vivem perto destes projetos, cujas florestas, água e meios de subsistência estão diretamente em jogo, não tiveram qualquer participação no processo nem acesso à informação que a Comissão utilizou para tomar as suas decisões.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">Ilze Tralmaka, advogada da ClientEarth, disse:</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">&#8220;Durante quase dois anos, as comunidades locais foram completamente excluídas do processo que iria transformar as suas terras e meios de subsistência. Não só não tiveram qualquer participação, mesmo muito depois das decisões terem sido tomadas, como também não conseguiram saber por que motivo estes projetos foram declarados seguros para a natureza e as pessoas. A decisão da Provedora de Justiça finalmente força esta informação a tornar-se pública. A Comissão está agora obrigada a divulgá-la, tanto para os projetos já aprovados como para os que ainda estão por vir.&#8221;</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">Carla Gomes da UDCB disse: </span>“<span style="font-size: large">Isto só vem corroborar o que denunciamos desde 2018. Há uma evidente falta de transparência e participação democrática no processo à volta desta mina. É completamente inaceitável sermos considerados uma comunidade sacrificável, quanto mais num processo envolto neste sigilo. Exigimos que a Comissão Europeia torne a informação pública e acessível. Da nossa parte, vamos continuar a lutar pela defesa do património comum que é o Barroso: uma região verdadeiramente verde, que tanto tem a mostrar ao mundo sobre como podemos viver de forma sustentável.”</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">A Provedora de Justiça deu à Comissão até 15 de outubro de 2026 para responder. A ClientEarth continuará a exigir total transparência nas decisões relativas a Projetos Estratégicos.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large"><u><b>Notas</b></u></span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">A Lei das Matérias-Primas Críticas foi adotada em 2024 para garantir o acesso da Europa a materiais essenciais para as transições ecológica e digital. A UE está também a desenvolver uma Estratégia de Resiliência Hídrica para responder ao aumento da escassez de água, à poluição e ao impacto das alterações climáticas nos recursos hídricos.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">A Lei, concebida para garantir o abastecimento de materiais da Europa, não pode ter como custo os padrões ambientais e os direitos das comunidades. Com o encerramento de uma nova ronda de candidaturas no início deste ano, corre-se o risco de repetir o mesmo secretismo.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">A ClientEarth apresentou a sua queixa ao Provedor de Justiça Europeu em julho de 2025, depois de a Comissão se ter recusado a partilhar documentos ambientais fundamentais sobre projetos mineiros que procuravam obter estatuto estratégico ao abrigo da Lei das Matérias-Primas Críticas. Apesar do impacto significativo que estes projetos poderiam ter nas comunidades locais e nos ecossistemas, a Comissão recusou o acesso a documentos que permitiriam o controlo público, invocando confidencialidade comercial e deliberação interna. A queixa argumentava que a Comissão:</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">Não forneceu uma resposta legalmente exigida a um pedido confirmatório</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">Aplicou incorretamente as excepções previstas na legislação da UE aplicável (Regulamento 1049/2001), incluindo a alegação de que a informação solicitada está protegida por sigilo comercial</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">Não reconheceu que existia, neste caso, um interesse público superior na transparência</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">A ClientEarth, em conjunto com a ONG portuguesa Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB), contestou também a decisão de conceder o estatuto de projeto estratégico ao projeto de lítio de Barroso, no norte de Portugal.</span></p>
<p align="justify"><strong><span style="font-size: large"><u>Sobre a ClientEarth</u></span></strong></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">A ClientEarth atua em mais de 50 países da África, das Américas, da Ásia-Pacífico e da Europa. Moldamos, implementamos e fazemos cumprir a lei, para construir um futuro para o nosso planeta em que as pessoas e a natureza possam prosperar.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: large">Estamos a combater as alterações climáticas, a proteger a natureza e a travar a poluição, em parceria com organizações e cidadãos em todo o mundo. Responsabilizamos a indústria e os governos e defendemos o direito de todos a um mundo saudável.</span></p>
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		<title>Uma gripe azul</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 16:07:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Feito em parceria com a revista digital Divergente. Ouve este episódio e sabe mais no website oficial da série.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="moz-text-html" lang="x-unicode">
<div><img decoding="async" class="attachment-medium size-medium wp-post-image" src="https://fumaca.pt/wp-content/uploads/2026/07/BG-300x169.jpg" alt="Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)" width="300" height="169" /></div>
<p><em>Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Feito em parceria com a revista digital <a href="https://divergente.pt/">Divergente</a>. <strong>Ouve este episódio e sabe mais no <a href="https://fronteiradomedo.pt/">website oficial da série</a>.</strong></em></p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TRANSCRIÇÃO</strong></h2>
<p><strong>G. C. Viegas: </strong>Escrevemos, editámos, sonorizamos, musicámos e misturámos tudo isto para ouvires com auscultadores ou auriculares. Vai buscá-los.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>I</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quem por algum acaso espreitasse, em jeito de curiosidade, para dentro do salão de festas da Voz do Operário, em Lisboa, na tarde do dia 21 de abril de 1989, podia ser levada a concluir que algo de ilegal — criminoso, até — lá se passava. Mas seria um engano achar-se que o que levava centenas de agentes das forças de segurança a esta sociedade de defesa do movimento operário era uma rusga de capa de jornal. Nada disso.</p>
<p>Para o governo, era ilegal, ainda sim, o que lá dentro se desenhava. O que se via poderia ser descrito como uma “mega operação policial” — não uma operação <em>da polícia</em>, antes uma operação <em>de polícias</em>.</p>
<p>Diz-nos uma reportagem da RTP que se encontravam por lá mais de 700 agentes — uns à porta, de serviço, outros lá dentro. Um dos convidados da gala era Torres Couto, fundador e secretário-geral da UGT, a União Geral de Trabalhadores, e deputado à Assembleia da República pelo PS.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/2o-encontro-de-profissionais-da-psp/"><strong>José Manuel Torres Couto, à RTP</strong></a><strong>:</strong> Quando cheguei aqui à porta da Voz do Operário, detetei uma situação interessantíssima. Encontrei algumas pessoas e algumas até fardadas com umas máquinas de filmar. Eu, em primeiro lugar, pensei que me tinha enganado e que estava em Hollywood. Mas, depois… depois tive um arrepio muito grande. É que a imagem que senti aqui à porta fez-me lembrar imagens do fascismo, imagens da ditadura.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Uma faixa azul do tamanho do grande palco da sala dizia ao que vinham os agentes: “2º ENCONTRO NACIONAL DOS PROFISSIONAIS DA P.S.P.”. E sugeria a ilegalidade da coisa, também: “PELA LEGALIZAÇÃO DA ASP/PSP. PELA DIGNIFICAÇÃO DA CLASSE POLICIAL.”</p>
<p>ASP, nesta altura, era um acrónimo com dois significados: quer Associação Sindical dos Profissionais da PSP, quer Associação Pró-Sindical da PSP. Com qualquer nome, era um coletivo de luta por direitos laborais e pela legalização de sindicatos na Polícia de Segurança Pública. Tinha sido fundada em 1983, mas os esforços para a sua criação vinham desde o final da década de 1970. Sempre contra a vontade do (na altura chamado) comandante-geral da instituição, João de Almeida Bruno. Em 1981, quando liderava a PSP, dissera, em entrevista ao jornal <em>O País</em>: “Quando me falam em sindicato de polícias, digo que o sindicato já existe e que o comandante-geral da Polícia de Segurança Pública é o seu presidente.” E completou: se um agente de Bragança “tiver problemas da sua vida privada, […] pode vir de Bragança no seu carro ou no comboio, a este meu gabinete e falar comigo”.</p>
<p>Este não era o primeiro encontro público de polícias. Pouco mais de um mês antes de encherem a Voz do Operário, tinham entregue uma lista de reivindicações no Ministério da Administração Interna. Exigiam aumentos de salário, subsídios e gratificações, o pagamento do trabalho extraordinário e de um subsídio de risco, uma folga semanal e o reconhecimento da ASP como sindicato, com os direitos e as responsabilidades condizentes.</p>
<p>O sindicato lembra-se bem da resposta das chefias: processos disciplinares contra polícias que entregaram a carta. A PSP só consegue, hoje, confirmar que houve um, porque não tem o arquivo digitalizado. À época, o ministro da tutela, José Silveira Godinho, classificou o encontro como “uma tentativa de desestabilização partidária, com influência nítida de uma central sindical”. Um mês depois, voltavam a encontrar-se.</p>
<p><strong>Alberto Torres: </strong>E, daí, não nos restou outra alternativa senão avançarmos d’A Voz do Operário, pelos passeios, ordeiramente, em direção ao Terreiro do Paço. E, aí, começa o nosso protesto contra o poder político instituído nessa altura.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Alberto Torres começou a trabalhar em criança. Diz que experimentou seis ou sete empregos até que, em 1978, o desemprego o fez polícia. Assim que entrou, ficou “chocado” com as condições de trabalho.</p>
<p>Pouco depois, juntou-se com uma série de colegas, também descontentes, e formou um grupo: a tal Associação Sindical dos Profissionais da PSP. Em abril de 1989, era este grupo que marchava desde A Voz do Operário, na colina da Graça, até ao Ministério da Administração Interna, no Terreiro do Paço, junto ao rio.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/2o-encontro-de-profissionais-da-psp/"><strong>Laurinda Alves, jornalista da RTP</strong></a><strong>: </strong>Quando chegaram à Praça do Comércio, estava tudo a postos. Mais de 14 carrinhas com polícia de intervenção e, pelo menos, três carros de água.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Camiões preparados para a guerra, prontos a disparar; polícia de choque com capacetes, escudos de proteção, bastões prontos a ser usados. Tudo isto para dispersar colegas de trabalho. Colegas, de folga, a exigir melhores condições de trabalho. Polícias de um lado, polícias de outro.</p>
<p><strong>Alberto Torres: </strong>Na altura, ficámos com uma convicção muito segura de que estaria ali preparado um banho de sangue com a intenção nítida de acabar com o movimento sindical que estava em força nessa altura no interior da Polícia de Segurança Pública. Foi preciso uma grande coragem da nossa parte, uma grande resistência, mas também uma grande consciência daquilo que poderia acontecer. Poderíamos perder tudo aquilo que tínhamos feito até ali se, eventualmente, houvesse um disparo de uma arma da nossa parte. Felizmente, isso não aconteceu. Recordo que foi preciso, também de forma organizada, de forma organizada da nossa parte, irmos junto daqueles colegas que estavam um pouco mais de cabeça perdida e, em algumas situações, até lhes retirarmos as armas, para que nada de grave pudesse acontecer. E, depois, a parte mais triste, é quando, de facto, vêm os canhões de água…</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=25MZso7lIAw&amp;t=146s"><strong>Agente da PSP</strong></a><strong>: </strong>Cinco minutos para dispersar.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Os polícias de serviço deram cinco minutos aos polícias-manifestantes para abandonarem a Praça do Município. Descreve a RTP.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/manifestacao-dos-agentes-da-psp/"><strong>Paulo Nogueira, jornalista da RTP</strong></a><strong>:</strong> Minutos depois, junto à câmara municipal, os carros do corpo de intervenção da PSP começaram a avançar para os manifestantes. Atrás vinha o corpo de intervenção armados de bastões, escudos à prova de bala e também alguns dos elementos tinham consigo dispositivos para dispararem granadas lacrimogéneas. Depois, foi o banho de água. Aqui, os manifestantes tentaram fazer uma muralha humana, tentaram aguentar a força da água. Não conseguiram. E depois foi a aproximação dos seus colegas do corpo de intervenção. E, a partir daqui, vamos ficar sem imagem, a água acabava de encharcar a nossa câmara.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ainda hoje este dia é lembrado pelo nome do que lá se passou: “Secos e Molhados”. Polícias de serviço a encharcar polícias-manifestantes com canhões de água despejada desde grandes camiões.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=25MZso7lIAw&amp;t=146s"><strong>Agente da PSP</strong></a><strong>: </strong>Eu só lamento que os meus colegas de profissão, que eles são meus colegas de profissão, não estejam a agir com o coração. Estão a agir como máquinas, pedras que ali estão.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Aqui falava um polícia não identificado. Alberto Torres, que também lá estava, diz ter sido mordido por um dos cães da PSP. Vários outros polícias manifestantes, bem como civis que por ali passavam, foram agredidos. E, mais tarde, o ministro da Administração Interna, Silveira Godinho, saía à rua.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=25MZso7lIAw&amp;t=146s"><strong>José Silveira Godinho</strong></a><strong>: </strong>A ordem tem de ser cumprida, tem de ser mantida. E, portanto, depois das pessoas terem sido avisadas que estavam numa situação ilegal, e foram avisadas várias vezes — não só hoje, foram avisadas antecipadamente que seria uma situação ilegal —, e hoje, perante o acontecimento, foram avisadas reiteradamente, a ordem tem de ser cumprida. A segurança interna é uma responsabilidade do governo e da Polícia de Segurança Pública, as pessoas forçaram, provocaram esta situação.</p>
<p><strong>Jornalista:</strong> Isto não é uma restrição de direitos, liberdades e garantias?</p>
<p><strong>José Silveira Godinho:</strong> Não é uma restrição, é uma manifestação ilegal, e as ilegalidades têm de ser expostas no momento.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O protesto de 21 de abril de 1989 foi um momento de viragem para o movimento de polícias que lutava pelo direito à liberdade sindical. E mostrou que o Estado reprime também quem trabalha ao seu serviço. Neste episódio, falamos dos 30 anos que se seguiram: da luta pela legalização de sindicatos de polícia ao direito à greve; da luta pelo subsídio de risco ao Movimento Zero.</p>
<p>Esta é <em>Fronteira do Medo</em>, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Episódio 4: <em>Uma gripe azul</em>. Seja toda a gente bem-vinda ao Fumaça, em parceria com a Divergente. Eu sou o Ricardo Esteves Ribeiro.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>II</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>No final da batalha da Praça do Comércio, em Lisboa, alguns polícias acabaram detidos. Outros, foram molhados para o serviço. E, no dia seguinte, falava o primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/declaracoes-de-cavaco-silva-29/"><strong>Aníbal Cavaco Silva, à RTP</strong></a><strong>:</strong> É preciso que se diga que, por detrás destas movimentações da polícia, estão forças extremistas, forças comunistas, alguns socialistas — espero que isolados.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/entrevista-a-silveira-godinho-2/"><strong>José Eduardo Moniz, jornalista da RTP</strong></a>: No centro deste furacão está um ministro. Chama-se Silveira Godinho e é ministro da Administração Interna. Senhor ministro, reconhece certamente que, depois do que se passou ontem, nada ficará como dantes.</p>
<p><strong>José Silveira Godinho: </strong>Penso que sim, é lamentável o que aconteceu ontem. Estou sinceramente triste e preocupado ao ver polícias manifestando-se fardados, numa situação duplamente ilegal…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Silveira Godinho disse que polícias-manifestantes incumpriram duas leis. Primeiro, a que regula o exercício do direito de manifestação, o <a href="https://files.diariodarepublica.pt/1s/1974/08/20101/00020003.pdf">decreto-lei n.º 406 de 1974</a>. Na altura, como hoje, exigia que se avisasse “por escrito e com a antecedência mínima de dois dias úteis o governador civil do distrito ou o presidente da câmara municipal”, antes de protestar. E os polícias não avisaram.</p>
<p>Depois há a <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/29-1982-379327">lei de defesa nacional de 1982</a>. Artigo 31: “Restrições ao exercício de direitos por militares e agentes militarizados”. É aqui que são proibidos de falar publicamente sobre política; estar fardados e intervir em reuniões partidárias ou sindicais; e de participar em qualquer manifestação de caráter, também, político, partidário ou sindical. As restrições eram claras e estavam <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei-constitucional/1-1982-375254">previstas na Constituição</a>. O que não era claro era a pequena expressão que a lei usava para definir quem estas limitações implicavam: “agentes militarizados”. Polícias diziam que não eram agentes militarizados. Governo dizia que sim, eram.</p>
<p>Eu podia ficar aqui a próxima meia hora para ir a fundo em toda esta questão, não deixar pedra por levantar (e, ao quarto episódio desta série, eu sei que tu sabes que sim). E eu também sei porque, realmente, passei muitos dias nisto. Mas há que escolher as lutas. E, por isso, em vez de te documentar uma maravilhosamente interessante luta política e legal sobre a militarização da PSP, conto-te apenas que, em resumo, a <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/29-1982-379327">lei de defesa nacional de 1982</a> dizia que essas restrições se aplicavam, sim, à PSP, mas só de forma transitória, “até à publicação de nova legislação” nos seis meses seguintes. Não aconteceu. Polícias fizeram queixa à <a href="https://www.ilo.org/sites/default/files/wcmsp5/groups/public/@europe/@ro-geneva/@ilo-lisbon/documents/publication/wcms_733277.pdf">Organização Internacional do Trabalho</a>, o caso foi ao Tribunal Constitucional. Pouco mudou.</p>
<p>Mas Silveira Godinho não dizia apenas que a manifestação dos “Secos e Molhados” era ilegal. Dizia também que a organização que a tinha convocado era, ela mesma, ilegal.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/entrevista-a-silveira-godinho-2/"><strong>José Silveira Godinho, à RTP</strong></a><strong>: </strong>Portanto, não se pode dialogar com entidades que, além de não terem existência legal, os seus adeptos estão numa postura que é ilegal, e que é reiteradamente ilegal…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Esta ninguém lha tira. Sim, é um facto que a ASP não estava legalizada em 1989. Tentou. Fez até uma assembleia constituinte, em 1983, mas foi boicotada pelo comando-distrital da PSP de Lisboa e pelos governadores civis de vários distritos, que desativaram as urnas. Só no Funchal houve votação.</p>
<p>A história da luta por sindicatos na PSP vem, como já dissemos, pelo menos desde o final da década de 1970. Mas o debate no parlamento só começou em 1982. O Partido Comunista Português <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=30662">apresentou</a> na Assembleia da República, <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=29425">por duas vezes</a>, em legislaturas seguidas, projetos de lei para legalizar as associações profissionais na polícia. Não seriam sindicatos, ainda, mas seria um passo em frente. Nunca se votou ou discutiu, sequer, as propostas.</p>
<p>Só em 1989, 11 dias depois dos “Secos e Molhados”, é que o tema voltava à Assembleia da República, <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=28650">agora pela mão do PS</a>. Jorge Sampaio, então secretário-geral do Partido Socialista, explicava que o seu partido estava pronto para oferecer alguns direitos aos polícias. Mas não todos.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/entrevista-a-jorge-sampaio-parte-i-5/"><strong>Jorge Sampaio, à RTP</strong></a><strong>:</strong> Assegurando a eficácia da PSP, assegurando a sua coesão e assegurando as suas funções, porque é que não é possível dar algumas funções de representação e negociação, que são funções sindicais, e porque é que, simultaneamente com isto, estamos, evidentemente, consta do nosso projeto, preocupados em assegurar que haja restrições, como por exemplo o direito à greve, que é uma questão, penso eu, pacífica, nessa área.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong><a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=28650">PS </a>e <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=28660">PCP</a> propuseram o direito de organização sindical. O <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=32929">governo</a> do PSD propunha apenas o direito de associação. A iniciativa do PCP <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=28660">foi rejeitada</a>. As do PS e do governo foram negociadas até o PS ceder. Aprovou-se a <a href="https://files.diariodarepublica.pt/1s/1990/02/04300/06690670.pdf">lei 6/1990</a>, que tornou possível criar associações profissionais na PSP. Nesse mesmo ano, a ASP tornou-se legal. Mas ainda não era sindicato. Para isso, ainda faltavam alguns anos.</p>
<p>Manuel Dias Loureiro, ministro da Administração Interna do governo de Cavaco Silva, em 1995.</p>
<p><strong>Manuel Dias Loureiro: </strong>Quando os senhores defendem um sindicato – que não podia ter nem mais um direito, porque os senhores não podem dar-lhes o direito da negociação salarial nem dar-lhes o direito de greve… Mas enquanto defenderem, os senhores estão a dizer que a polícia, ser polícia é ter um emprego. Mas para nós, diferentemente, ser polícia é defender uma causa, é defender uma missão. E é por isso, senhores deputados, que eu nunca quis um sindicato de polícia nem quero!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O desejo de Manuel Dias Loureiro tinha os dias contados. É verdade que não foi em 1995, nem sequer em 1999, quando o PSD e o CDS <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=4430">votaram</a> contra a proposta de lei do governo socialista de António Guterres. Mas, logo em 2000, voltava a discutir-se a liberdade sindical de polícias na assembleia. O governo <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=6338">apresentou</a> uma nova proposta de lei. <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=6338">O </a><a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=6164">PCP outra.</a> Foram votadas em conjunto quase dois anos depois. O texto final foi aprovado com votos a favor de todos os partidos. Exceto um.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Lembra-se desses momentos?</p>
<p><strong>Fernando Rosas: </strong>Lembro-me muito bem. Eu era deputado nessa altura, não é?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O historiador Fernando Rosas integrava a bancada do Bloco de Esquerda, o único partido que se absteve na votação. Em <a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/01/08/03/030/2001-12-21/1201?pgs=1201&amp;org=PLC">declaração de voto</a>, logo após a aprovação do que viria a ser a <a href="https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=3236&amp;tabela=lei_velhas&amp;nversao=1&amp;so_miolo=">lei 14/2002</a>, escreveu: “O Bloco de Esquerda absteve-se […] não por ter qualquer espécie de reserva relativamente ao seu exercício, […] mas, exatamente ao contrário, pelo carácter claramente restritivo do exercício das liberdades fundamentais.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O Bloco opunha-se aos limites que a lei impunha à filiação partidária de polícias e livre manifestação; e, entre outras coisas, à proibição do direito à greve.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E porque é que o direito à greve não passou?</p>
<p><strong>Fernando Rosas:</strong> Porque continua a existir a ideia que as forças de segurança não podem fazer greve.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Mas quais é que eram na prática os perigos? Agora haver greve da polícia em que pura e simplesmente não trabalham?</p>
<p><strong>Fernando Rosas: </strong>Mas sabe que esse perigo não existe porque em todas as greves…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Existem serviços mínimos…</p>
<p><strong>Fernando Rosas: </strong>Há serviços mínimos. Portanto, se há um serviço mínimo, para manter a ordem também há um serviço mínimo, não é? Mas isso é um pretexto para manter a polícia debaixo da firme tutela do poder político, não é? Quer dizer, isso vem de antigamente. Isso vem de antigamente.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Vem mesmo de antigamente. Desde as leis de polícia do século XIX, de que falámos no último episódio, que em Portugal se <a href="https://books.google.pt/books?id=LL4WAAAAYAAJ&amp;printsec=frontcover&amp;source=gbs_ge_summary_r&amp;cad=0#v=onepage&amp;q&amp;f=false">proíbe polícias</a> de manter cargos públicos, <a href="https://journals.openedition.org/lerhistoria/2973">fazer manifestações</a> ou requerimentos coletivos, e <a href="https://www.susanadurao.org/wp-content/uploads/2018/02/Book-_-003.pdf">participar direta ou indiretamente</a> nas questões políticas e partidárias em debate.</p>
<p>Em 2006, quatro anos depois de haver liberdade sindical na PSP, a ASPP — nesta altura, já acrónimo de Associação Sindical dos Profissionais da Polícia — apresentou, no parlamento, <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalhePeticao.aspx?ID=11534">uma petição</a> com quase 4800 assinaturas, exigindo direito à greve para as polícias. “Nunca, jamais, e em tempo algum”, <a href="https://www.publico.pt/2006/12/19/politica/noticia/antonio-costa-direito-a-greve-na-psp-nunca-jamais-e-em-tempo-algum-1280177">respondeu o então ministro</a> da Administração Interna, mais tarde primeiro-ministro, António Costa.</p>
<p>O SINAPOL, Sindicato Nacional da Polícia, ainda tentou. Em 2010, Armando Ferreira, o presidente, fez publicar <a href="https://tvi.iol.pt/noticias/sociedade/policias/psp-presidente-do-sinapol-deu-seguimento-a-decisao-do-colectivo">um pré-aviso</a> de greve. <a href="https://tvi.iol.pt/noticias/sociedade/policia/greve-da-psp-direccao-nacional-suspende-presidente-do-sinapol">Acabou suspenso</a> pela direção nacional da PSP.</p>
<p><strong>Armando Ferreira: </strong>Ou seja, os polícias ainda não são cidadãos de pleno direito desta sociedade. E é esses 10% que eu digo que ainda me falta fazer no sindicato. É dar aos polícias os direitos de pleno direito que os cidadãos têm. Nós pagamos os nossos impostos. Nós fazemos os nossos descontos. Nós temos as nossas responsabilidades perante a sociedade. Mas depois temos direitos que nos são restringidos. E é isso que depois leva à criação de movimentos inorgânicos. É as pessoas sentirem-se castradas nos seus direitos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Os inspetores da Polícia Judiciária são, nisto, cidadãos de pleno direito. Quem pertence, <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/138-2019-124680595">citando</a> o estatuto profissional da PJ, “a um corpo superior de polícia” pode fazer greve há décadas. Mas para o resto da polícia, na PSP, na GNR, o direito à greve nunca chegou. O último <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=263760">projeto de lei</a> a propô-lo é do PCP, de maio de 2024. O Chega inscreveu a ideia no programa eleitoral para as últimas legislativas. Mas mesmo sem greve, o movimento sindical das polícias conseguiu importantes vitórias para a classe.</p>
<p>Em 1989, quando centenas de polícias saíram à rua em Lisboa, desde a Voz do Operário até ao Terreiro do Paço, para lutar por melhor condições de trabalho, no dia dos “Secos e Molhados”, as reivindicações que traziam como suas não pareciam, aos olhos de hoje, demasiado longínquas para serem atingidas.</p>
<p>Os salários, de facto, subiram, ainda que menos do que a inflação; o trabalho extraordinário começou a ser pago; passou a haver lugar a folgas semanais; e a ASPP foi legalizada.</p>
<p>Mas, quase 35 anos depois, uma das exigências foi particularmente difícil, particularmente demorada: o subsídio de risco.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>III</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A história da luta por um subsídio de risco na PSP é tão antiga quanto a história do sindicalismo. Talvez até anterior. Alberto Torres, fundador da ASPP, que ouvimos há pouco, diz que, pouco depois do 25 de Abril, quando entrou na polícia, foi para ele um choque perceber, entre outras coisas, que polícias não recebiam subsídio de risco. Conta que foi, aliás, uma das razões que o levou a criar o que hoje é a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia.</p>
<p>Pediam, desde o início, um subsídio que tentasse, se é que tal coisa se pode fazer, quantificar e colmatar o risco da profissão que é a de ser polícia. A Polícia Judiciária, por exemplo, já o <a href="https://files.diariodarepublica.pt/1s/1980/05/10301/00010002.pdf">tinha desde 1980</a>.</p>
<p>Para a PSP — e, já agora, para a GNR — a coisa foi diferente. Quarenta anos depois de o pedir pela primeira vez, a ASPP entregou no parlamento, em 2017, uma <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalhePeticao.aspx?BID=12966">petição</a> exigindo um subsídio de risco, com quase 7500 assinaturas. Em resposta, o Partido Ecologista Os Verdes <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=42012">apresentou</a> na assembleia uma recomendação na mesma linha ao governo do PS. Todos os partidos votaram a favor, exceto a bancada socialista, que se absteve.</p>
<p>Quase três anos depois, em 2020, o subsídio de risco ficou, finalmente, previsto no <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/75-b-2020-152639825">Orçamento do Estado</a>, com a <a href="https://visao.pt/atualidade/politica/2020-11-25-oe2021-parlamento-aprova-atribuicao-de-subsidio-de-risco-as-forcas-de-seguranca/">oposição do PS</a>. Lia-se aí: “Até ao final do primeiro semestre de 2021, o governo desenvolve as diligências necessárias com vista à atribuição de subsídio de risco aos profissionais das forças de segurança, mediante o adequado processo de negociação com as respetivas associações representativas.”</p>
<p>O governo esperou até ao último dia desse primeiro semestre para apresentar <a href="https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/comunicacao/comunicado?i=governo-apresenta-proposta-para-o-novo-suplemento-por-servico-e-risco-nas-forcas-de-seguranca">uma proposta </a>aos sindicatos, como quem faz os trabalhos de casa mesmo antes da aula começar.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Um, dois, um, dois, um, dois. Estou neste momento na Praça do Comércio. Hoje é dia 15 de julho.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Era o dia 15 de julho de 2021, 15 dias depois da primeira reunião entre governo e sindicatos. Durante a manhã, um protesto tinha tido lugar à porta de onde se reunia o Conselho de Ministros. Ao final da tarde, enquanto os dirigentes reuniam com a tutela, uma plataforma de 13 sindicatos e associações socioprofissionais da PSP e da GNR chamava polícias a manifestar-se à porta do Ministério da Administração Interna.</p>
<p>Meia hora antes da concentração, estavam já umas dez carrinhas da Unidade Especial de Polícia, e muitos agentes de serviço à espera de receber colegas. Isso e gigantes blocos de cimento.</p>
<p>O então presidente da Organização Sindical da Polícia, Pedro Carmo, hoje parte do SINAPOL, que ouvimos no último episódio.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas porque é que estão aqui estas coisas todas? Não costuma haver.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>É por ser polícia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>É?</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>É. Quando é polícia, <a href="https://www.jn.pt/justica/videos/parlamento-cercado-por-blocos-de-cimento-na-vespera-da-manifestacao-de-policias-11536170.html/">metem sempre isto</a>. Principalmente desde que foi a invasão da escadaria.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ah, ok.</p>
<p><strong>Pedro Carmo:</strong> Eles ficam sempre naquela que pode acontecer alguma coisa, então metem isto. Mandaram fazer os blocos de cimento, agora têm que usá-los, pá!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A invasão da escadaria de que Pedro Carmo fala aconteceu em 2013. Em protesto contra o Orçamento do Estado, <a href="https://www.dn.pt/portugal/policias-em-protesto-invadem-escadaria-da-ar-3546241.html">milhares de polícias manifestaram-se</a> em frente à Assembleia da República e alguns subiram a escadaria do edifício.</p>
<p>Desta vez, em 2021, não havia escadaria que subir. A imagem a que se assistia nesse dia na Praça do Comércio era bastante calma. De um lado, manifestantes vestidos à civil, afastados uns dos outros por distância de segurança, quase todos de máscara (estávamos em plena pandemia), virados para o edifício do Ministério da Administração Interna a segurar cartazes com frases de ordem: “Não somos polícias de 2ª”, lia-se num. “Exigimos respeito”, lia-se noutro. “Vidas a saldo”, noutro ainda. E entre o ministério e quem se manifestava, uma barreira de polícias fardados, baias de metal e os tais blocos de cimento.</p>
<p>Vamos ao que os trazia ali: negociar um valor para o subsídio de risco. O governo sugerira um aumento máximo de nem 70 euros por mês, variando de acordo com a função desempenhada. Em resposta, sindicatos e associações socioprofissionais da PSP e GNR <a href="https://www.noticiasaominuto.com/pais/1791424/sindicatos-da-psp-e-gnr-exigem-430-euros-de-subsidio-de-risco">propuseram</a> receber mais 430 euros.</p>
<p>Pedro Carmo, ainda.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>Prontos, e eles no final de junho eles apresentam-nos esta proposta irrisória, vergonhosa, não tem outro nome. Nem há adjetivos que qualifiquem isto. Pronto, é uma coisa completamente díspar daquilo que a gente apresentou e completamente inqualificável.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O então vice-presidente do Sindicato Vertical das Carreiras de Polícia, Sérgio Barbosa.</p>
<p><strong>Sérgio Barbosa: </strong>É bom que os governantes deste país, principalmente da Assembleia da República, percebam que os polícias já estão fartos das mentiras. Já estão fartos de ser enganados. estamos a chegar a um limite. […] Enquanto que agora falamos a uma só voz, e nós vamos tentando sempre a via mais correta e a via mais delicada, e já começamos a ter alguma dificuldade em perceber se a pessoa, por si só, já não está naquele ponto de explodir, de dizer: “Chega! Basta! Não quero mais! Vou atirar as algemas ao chão! Vou fazer outra coisa qualquer!”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E, ainda, o então presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia, Mário Andrade.</p>
<p><strong>Mário Andrade: </strong>Temos desenvolvido o nosso trabalho o melhor que podemos, sempre. E desempenhamo-lo de uma forma eficaz. E a prova disso é que Portugal é um país dos mais seguros da Europa e do mundo. Isto deve-se ao nosso esforço, à nossa dedicação, e achamos que o governo não está a ter essa consideração e o respeito pelo nosso empenhamento.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O que é que se pode fazer mais se o ministério continuar a dizer que não às vossas demandas?</p>
<p><strong>Mário Andrade:</strong> Infelizmente, é uma luta antiga, é o direito à greve. Nas outras profissões fazem greve e causam alguma moça, digamos assim.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Depois, uma comitiva de representantes da plataforma intersindical passou a porta para entregar uma posição conjunta sobre o subsídio de risco ao ministério. Cá fora, dezenas de polícias esperavam num clima descontraído. Dali nada sairia. De qualquer maneira, era sabido que nem era necessário que as partes chegassem a acordo para que o valor do subsídio fosse estabelecido.</p>
<p>Entregues as reinvindicações, os representantes voltaram à praça. Depois de um minuto de silêncio em honra dos colegas mortos, os organizadores deram por terminada a manifestação.</p>
<p><strong>Organizador: </strong>De seguida, e em posição de sentido, vamos entoar o hino nacional, “A Portuguesa” [ouve-se o hino].</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Um, dois, um dois, um, dois, um, dois, um, dois. Hoje é dia 28 de julho. Mais uma semana, mais uma manifestação de polícias. Desta vez, e mais uma vez, à porta do Ministério da Administração Interna.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Às dez e meia da manhã, hora da concentração, contavam-se não mais do que dez, 15 pessoas na Praça do Comércio. Para Pedro Carmo, era normal estar menos gente do que nas anteriores concentrações.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Então, tudo bem? Mais uma semana, mais uma manifestação.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>Que remédio.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas isto hoje está mais…</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>Hoje é só para estarmos cá, mesmo.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Havia uma nova reunião negocial entre sindicatos e governo — já era a segunda desta leva. Um dos poucos sindicalistas que lá se encontrava era o secretário nacional da ASPP, Cristiano Correia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Há quanto tempo é que estão nisto?</p>
<p><strong>Cristiano Correia: </strong>Se formos a fazer uma avaliação, há mais de 20 anos que as polícias e, no caso em concreto, a PSP e a ASPP, têm tido esta luta como uma das reivindicações estruturais para os seus profissionais.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pergunto a Cristiano Correia se coloca em cima da mesa a recusa ao serviço — uma espécie de greve, ainda que não lhe chame greve.</p>
<p><strong>Cristiano Correia:</strong> Estão em cima da mesa todas as formas de luta. Nós, enquanto sindicato responsável, esgotaremos todas aquelas que a lei nos permite fazer. As outras, temos de encontrar outro tipo de criatividade para que a forma de luta seja feita e para que não se possa pôr em causa as questões individuais dos próprios polícias. Isso é uma garantia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Os representantes sindicais entravam para a reunião. Cá fora, as colunas da ASPP jorravam música de intervenção. Ouvia-se Jorge Palma, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Deolinda, Xutos e Pontapés, e ainda se dava uma passagem pela música revolucionária italiana, com “Bella Ciao”. Na meia hora seguinte, chegou mais e mais gente.</p>
<p><strong>Organizador: </strong>Peço a vossa atenção. Então, como foi dito há pouco, vamos proceder a este início deste desfile.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pelas minhas contas, estavam reunidas já mais de uma centena de pessoas quando a coluna de manifestantes se começou a formar para dar início à marcha. Agitavam-se bandeiras, seguravam-se faixas, posava-se aqui e ali. E com um certo vagar, para que a comunicação social tivesse tempo de fotografar o acontecimento, o desfile deu a volta ao quarteirão.</p>
<p>Na fila da frente, um dos manifestantes mais velhos levava vestida uma t-shirt vermelha com o nome e uma ilustração de Che Guevara. Ao passar por uma agente de serviço, bem mais nova, talvez em início de carreira, dizia-lhe em tom de gozo: “Foge! Foge que ainda vais a tempo.” Quem estava ao lado, ria-se.</p>
<p><strong>Organizador: </strong>Meus caros, o hino nacional vai tocar. Eu peço que adotem uma posição de sentido, de silêncio, e que a música cante no vosso coração. Não existe estado democrático sem a polícia. A polícia faz que tudo funcione. Obrigado a todos [ouve-se o hino].</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A reunião entre sindicalistas e governo demorou mais de duas horas. Já perto da uma da tarde, saíram.</p>
<p><strong>César Nogueira: </strong>Bom dia, pessoal. Ou boa tarde. Desculpem lá, isto demorou um bocado, apesar de, penso que alguns já devem conhecer aquilo que foi proposto… Foi proposta, é a proposta final do governo. Certamente também se nota pela minha cara sisuda que não venho satisfeito. Acho que não vem ninguém. Aquilo que o governo propôs, como proposta final…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O presidente da Associação dos Profissionais da Guarda, César Nogueira, trouxe as novidades ao grupo. Anuncia que pouco mudou: desde a última reunião, do governo apenas conseguiram arrancar a igualdade do valor do subsídio independentemente da função de cada polícia. O valor ficou o mesmo: cerca de 69 euros a mais, por mês, para compensar o risco da profissão.</p>
<p><strong>Manifestantes:</strong> Vergonha! Vergonha! Vergonha! Vergonha! Vergonha! Vergonha! Vergonha! Vergonha!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pergunto para onde se vai agora, se põem em cima da mesa a recusa ao serviço.</p>
<p><strong>César Nogueira: </strong>Nós nunca apelamos à irresponsabilidade. Nós somos sérios, nós somos os porta-vozes destes profissionais. E aquilo que podemos dizer é que nunca vamos fazer com que os profissionais vão faltar ao serviço, porque depois vão ter consequências a nível disciplinar.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ainda antes de me ir embora, fui ter com o sindicalista com a t-shirt do Che Guevara. Brotas, é como se apresenta. Reginaldo Brotas é dirigente sindical da ASPP e polícia há 35 anos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Não posso deixar de reparar que tem a camisola mais <em>sui generis</em>, hoje, da concentração. Por que é que traz uma camisola do Che Guevara?</p>
<p><strong>Brotas: </strong>Há 31 anos que venho a várias manifestações com as camisolas do Che. Só por um motivo: era um revolucionário, e este país parece que está a precisar, pelo menos em termos de segurança, é de uma revolução.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Porque é que diz isso?</p>
<p><strong>Brotas:</strong> Porque é um facto. Os cidadão não nós respeitam. O governo não faz nada para mostrar que o cidadão tem que respeitar os polícias. O polícia é desrespeitado pelo cidadão e pelo governo.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Qual é que é agora o próximo passo, visto que, claramente, o governo não aceita a proposta que as plataformas e que os polícias têm vindo a fazer? Quais é que são os próximos passos?</p>
<p><strong>Brotas: </strong>Os próximos passos é contactar grupos parlamentares para que façam pressão junto do governo para alterar esta situação e endurecer a luta.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas o contactar grupos parlamentares parece até ser uma proposta bastante reformista e moderada. O que é que quer dizer endurecer a luta?</p>
<p><strong>Brotas: </strong>Não há nada que se faça… Sem começar a caminhar não se faz o caminho. E até chegar ao caminho de endurecer a luta para formas mais drásticas tem que se passar por estas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Que podem dizer o quê? Recusa ao serviço, por exemplo?</p>
<p><strong>Brotas: </strong>Nunca poderemos ir por aí. Mesmo que pensemos isso, nunca poderíamos ir por aí, porque nós não somos ilegais. Somos polícias. E os polícias cumprem a lei.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> O que é que quereria dizer “endurecer a luta”, então?</p>
<p><strong>Brotas: </strong>Endurecer a luta? Pode aparecer, sei lá, uma gripe azul, pode aparecer várias formas de luta. Como agora há muitos vírus no ar, pode aparecer uma coisa qualquer dessas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> O que é que é uma gripe azul?</p>
<p><strong>Brotas: </strong>Uma gripe azul? Podem os polícias constiparem-se todos ao mesmo tempo. Pode acontecer.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Muito obrigado. Como é que se chama?</p>
<p><strong>Brotas:</strong> Brotas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Brotas. Obrigadíssimo. Até já [ouve-se a música “A gente vai continuar”, de Jorge Palma].</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O acordo entre sindicatos e governo nunca se efetivou. O <a href="https://visao.pt/atualidade/sociedade/2021-09-02-governo-aprova-atualizacao-de-subsidio-de-risco-para-a-psp-e-gnr/">valor aprovado</a> para o subsídio de risco foi exatamente o que o executivo de António Costa propôs nesse dia, em julho de 2021: cerca de 69 euros por mês, sem mais.</p>
<p>Mas, a cada manifestação, a cada tentativa de negociação com o governo, a cada amargo de boca, a ideia de que tudo poderia ter sido diferente caso existisse direito à greve nas polícias estava lá. Ou isso, ou virar fora da lei.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Uma coisa que eu nunca percebi: quem é que faz a escolha musical aqui das manifestações?</p>
<p><strong>Brotas: </strong>É um qualquer. É um qualquer.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas é quase sempre a mesma, as mesmas músicas.</p>
<p><strong>Brotas: </strong>Não são, não são. Se fosse eu a escolher era sempre a mesma.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Qual era?</p>
<p><strong>Brotas:</strong> “Andam-nos a querer enganar, a tentar…” Não. “Andam-nos a tentar enganar, a aldrabar, a roubar, eu sei. Será que nos vamos aguentar ou viramos fora da lei.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Ok. Mas virar fora da lei sendo polícias é assim um bocado irónico.</p>
<p><strong>Brotas:</strong> Não é irónico. Não é tão irónico quanto isso. Quando eu digo… na letra da música, quando diz “será que nos vamos aguentar ou virar fora da lei” sabe que há algumas coisas que legitimam o virar fora da lei, tais como fome, fome dos filhos e por aí a fora.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Não só fome e fome dos filhos legitimam o virar fora da lei, ao que parece. Em dezembro de 2023, dois anos depois destes protestos, o governo <a href="https://justica.gov.pt/Noticias/Aprovado-novo-suplemento-de-missao-para-a-Policia-Judiciaria">aumentou</a> o subsídio de risco, mas só para uma das forças de segurança. Vamos simplificar. Os elementos da Polícia Judiciária passaram a receber entre 180 e 660 euros a mais por mês. Chamam-lhe suplemento de missão, na PJ. Para os sindicalistas da PSP e GNR, aumentou-se o fosso que já os distanciava dos outros polícias. Os representantes sindicais da Judiciária, por seu lado, notam, que ao contrário das outras polícias, não têm outros complementos salariais.</p>
<p>Um <a href="https://observador.pt/especiais/quem-e-pedro-costa-a-crianca-de-maos-e-pes-atados-no-mundo-da-policia-que-inspirou-o-protesto-de-centenas-na-psp/">polícia acampou</a> em frente à Assembleia da República, em protesto. Outros juntaram-se numa sucessão de vigílias e manifestações pelo país fora. Os sindicatos dizem que foram das <a href="https://observador.pt/2024/01/31/sindicato-da-psp-estima-que-estejam-10-mil-policias-na-manifestacao-no-porto/">maiores de sempre</a>. E, em poucos meses, fora das mãos dos sindicatos, a gripe azul alastrou-se. Em janeiro de 2024, dezenas de <a href="https://observador.pt/2024/01/08/inoperacional-agentes-da-psp-reportam-avarias-em-carros-patrulha-em-protesto-que-ganha-dimensao-nacional/">carros-patrulha </a>inoperacionais, de um dia para o outro, impediram diligências. Em fevereiro, uma sucessão de baixas médicas <a href="https://expresso.pt/sociedade/2024-02-04-Adiados-mais-dois-jogos-por-falta-de-policiamento-bbc08195">obrigou a adiar</a> três jogos de futebol por falta de policiamento. Em plena campanha eleitoral, polícias em protesto <a href="https://observador.pt/2024/02/19/cerca-de-3-000-policias-concentrados-junto-ao-mai/">cercaram</a> o cineteatro Capitólio, em Lisboa, enquanto lá debatiam os líderes do PS e do PSD. Como há 35 anos, não se avisou 48 horas antes que ia haver uma manifestação.</p>
<p>E, também como há 35 anos, o então ministro da Administração Interna procurou suprimir o descontentamento laboral pela ameaça. José Luís Carneiro <a href="https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2024/02/21/mai-admite-procedimentos-disciplinares-e-ate-criminais-contra-policias-no-capitolio/367646/">deu ordens</a> às chefias da PSP e GNR para apurarem responsabilidades disciplinares e criminais contra quem falsificasse baixas ou tentasse fugir ao serviço. Em 2023, chegámos a perguntar a José Luís Carneiro se as polícias deveriam ter direito à greve. Disse só que antes de uma “eventual alteração” era precisa “uma reflexão aprofundada e alargada”. Já a direção nacional da PSP ignorou as perguntas que enviámos.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>IV</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>No verão de 2021, ao mesmo tempo que as negociações sobre o subsídio de risco aconteciam, que as manifestações convocadas pelos sindicatos da polícia se sucediam, outras manifestações aconteciam. Algumas delas, levavam até bem mais polícias para as ruas. E, se as linguagens eram diferentes, a organização era diferente, os métodos de luta eram diferentes e quem as convocava eram pessoas diferentes, algumas das coisas não mudavam.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Um, dois, um, dois, um, dois. Estou agora em São Bento, quase a chegar à Assembleia da República, para a manifestação do Movimento Zero. Foi marcada para hoje, 21 de junho. Já se consegue ouvir e… Estão a cantar o hino. Acho que estão a cantar o hino.</p>
<p><strong>Manifestantes: </strong>[cantam “A Portuguesa”. Gritam “Zero!”]</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Estão umas quantas dezenas de pessoas. Eu diria mais ou menos cem pessoas. Quase todas vestidas de preto, com as t-shirts do Movimento Zero, e fazem o movimento do “zero” com a mão, e gritam “zero” virados para a Assembleia da República, onde estão umas quantas dezenas de polícias da PSP, fardados. Ah, está ali o Hélder.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Hélder Gomes, que ouvimos no episódio anterior (o antigo agente que fazia flexões com as pontas dos dedos) é uma das caras — talvez a principal — do Movimento Zero. Um movimento orgânico que começou em 2019 nas redes sociais e rapidamente trouxe para as ruas milhares de polícias descontentes.</p>
<p>Mal chego ao largo que dá de frente para a escadaria da Assembleia da República, é ele que vejo a lançar uma bomba de fumos ao lado do palco.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Se tivesses que descrever o ambiente que está aqui hoje para quem não veio, como é que tu descreverias?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Revolta. Revolta. Revolta, indignação, falta de valorização.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Estão o quê… mais de cem pessoas, aqui?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Sim, se calhar 200, e no entanto cancelaram muitas… Muitos colegas de serviço viram as suas folgas canceladas e férias.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Para não virem?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Para não virem.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ou seja, foram as chefias que cancelaram?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>É uma prática vulgar. É interna. Internamente fazem isso para que isto não tenha a expressividade desejada, que eles sabem qual é a expressividade que iria se não houvesse essas limitações por parte da instituição.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Hélder Gomes não é a única pessoa a falar sobre este assunto — sindicatos também denunciam “manobras e ameaças” feitas pela hierarquia da PSP para dificultar que polícias se manifestem. Além disso, só dirigentes sindicais podem dar entrevistas sem autorização. E o Movimento Zero não é um sindicato. Portanto, aqui, não é fácil encontrar quem queira falar com jornalistas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Olá, boa tarde, o meu nome é Ricardo Ribeiro, eu sou jornalista no Fumaça. Estou a fazer uma reportagem sobre como é que é ser polícia em Portugal. Será que podia falar consigo dois minutos?</p>
<p><strong>Polícia 1: </strong>Não, agora não, obrigado. […]</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Olá, boa tarde, o meu nome é Ricardo Ribeiro, faço parte do Fumaça. Estamos a fazer uma reportagem sobre como é que é ser polícia em Portugal e como é que é ser agente. Será que posso falar consigo?</p>
<p><strong>Polícia 2: </strong>Não, não pode ser. […]</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Olá, boa tarde, o meu nome é Ricardo Ribeiro, sou jornalista no Fumaça. Estamos a fazer uma reportagem sobre como é ser agente das forças de segurança em Portugal. Não vai falar? Obrigado. […]</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Olá, boa tarde. Não quer falar? Olá, boa tarde. O meu nome é Ricardo Ribeiro, sou jornalista no Fumaça. Será que… Obrigado.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Esta é a única entrevista que faço a um agente nesta manifestação. Não vou dizer o nome dele.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E o que é que, hoje, vocês estão aqui a exigir, à frente da Assembleia?</p>
<p><strong>Polícia 3: </strong>Tudo o que nos foi prometido durante estes anos todos e não foi cumprido. O ordenado digno, uma reforma digna. Tudo. Nós merecemos, por trabalharmos para o Estado e em prol do Estado.</p>
<p><strong>Manifestantes: </strong>Juntem-se a nós! Juntem-se a nós!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Lê-se no <a href="https://www.facebook.com/movimentozerooficial/posts/pfbid0rW7c3bniaywcBZWJaPZjbdUPJ8Q4Pk3UnkyzGLNHmZEttFjvb42zX1AwQQw3gGbel">primeiro manifesto</a> do Movimento Zero: “Como primeira medida e forma de protesto Institucional, estamos desde o dia 21 de Maio de 2019 a desempenhar as nossas funções com proatividade nula, isto é, a fazer meramente o indispensável […] Apelamos de igual forma a que todas as Forças de Segurança se juntem à causa do Movimento Zero.”</p>
<p>Pergunto-lhe sobre a greve.</p>
<p><strong>Polícia 3: </strong>É um direito que ainda não nos assiste, possivelmente virá a existir alguma vez, porque nós somos cidadãos como todos os outros e… Devemos ter o direito de o fazer também.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Longe da manifestação, falei com muita gente sobre a espécie de greve proposta pelo Movimento Zero. Leonel — voz e nome alterados — pensou que era uma “ideia bem pensada e útil”, que iria “abanar um bocado a coisa”.</p>
<p><strong>Leonel (anónimo):</strong> Porque a ideia de movimento é: imagina, um polícia vai na rua, vê um crime a acontecer. Obviamente que vais atuar e vais fazer o que tens que fazer, se aquilo der uma detenção, fazes uma detenção, se aquilo… pronto, se for para fazer um auto de notícia, fazes um auto de notícia, fazes o que tiveres que fazer. Mas a iniciativa do Movimento Zero era o pessoal parar de procurar serviço. Estás num carro-patrulha, meia-noite/oito, em vez de tu, durante a noite, abordares 30 carros e fazeres 30 testes a ver se acusa álcool, não fazes. Vais só às ocorrências que a central te manda: “Olhe, vá ali a uma situação de ruído”, tu vais. Pelo caminho, estás a voltar para a esquadra, vês um gajo a conduzir todo torto. Epá, se calhar vais abordar, aquilo vai dar uma detenção pela certa. O que é que o pessoal fazia? Não abordava.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Quase como um boicote à profissão.</p>
<p><strong>Leonel: </strong>Ora aí está, exatamente. No fundo, é uma greve dentro daquilo que nos era possível fazer.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O presidente do Sindicato Nacional da Polícia, Armando Ferreira, achava que o Movimento Zero tinha potencial para ajudar os sindicatos. Tanto que até achou bem que aparecesse.</p>
<p><strong>Armando Ferreira: </strong>O Movimento Zero tinha sentido de ter aparecido exatamente por quê? Porque durante anos os governos sucessivos andaram a ignorar os alertas dos sindicatos. E, depois, o Movimento Zero sendo um movimento inorgânico, um movimento sem cara, sem um líder visível, mais facilmente pode tornar público e pode denunciar algumas coisas, ainda que possam até ser — vamos dizer, atenção, isto é um exemplo, não é o caso concreto —, mas possam até ser uma verdade forçada, ou uma mentira mais enganadora, porque depois não há ninguém que seja responsabilizado por difamação… Mas o movimento Zero, para mim, enquanto sindicalista, na sua génese, tinha muita força para poder apoiar os sindicatos que existiam, principalmente aqueles que eram os mais fortes.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>No <a href="https://www.movimentozero.pt/?fbclid=IwAR20xDDpWAjLjO-9cL2InUsu7iYvgXPNdxCCAziLjkD6Aeue7oFIWaFxy0I">website</a> do Movimento Zero, explica-se o crescimento inicial do grupo com o “enorme defraudar de expectativas dos polícias”. Identifica dois fatores. Um, na linha de Armando Ferreira, é: a “demonstrada indiferença institucional para com inúmeras problemáticas e dificuldades que os profissionais de primeira linha atravessam.”</p>
<p>Mas o segundo são os falhanços dos próprios sindicatos. O Movimento Zero aponta: a “grande incapacidade dos veículos de protesto comuns darem uma cabal resposta às legítimas ambições” dos polícias.</p>
<p>Vasco — nome e voz alterados — achava que o Movimento Zero podia fazer melhor.</p>
<p><strong>Vasco (anónimo): </strong>É assim, esse movimento, ao início, eu olhava para ele até como uma coisa diferente e que poderia fazer alguma mossa quando surgiu… que os sindicatos nunca conseguiram fazer. E isso levou com que os polícias se pudessem juntar aquilo porque sempre houve esta opinião nas forças policiais que os sindicatos, os maiores, a ASPP, de outros, andavam sempre um bocadinho ao sabor do governo e era sempre um bocadinho fácil de influenciar. “Toma lá isto” e agora “cala-te com isto”, e era mais simples assim. E com aquele movimento isso era impossível de fazer. Daí a ter a forte afluência que teve.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O secretário nacional da ASPP, Cristiano Correia, recusa culpar os sindicatos.</p>
<p><strong>Cristiano Correia: </strong>Esta luta, quando não vê algum resultado, ou que, ao longo do tempo, não se vá ao encontro de algumas dessas expectativas, naturalmente surgem outros movimentos que tenham a necessidade de romper com aquilo que é o decurso legal das coisas, porque começam a perceber que as suas reivindicações não são atendidas de qualquer forma…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E, portanto, o Movimento Zero é fruto da ineficiência dos sindicatos ou da ineficácia dos sindicatos?</p>
<p><strong>Cristiano Correia: </strong>Não, eu estava a tentar explicar é que o surgimento de novos movimentos paralelos a movimentos formais surge quando os decisores políticos, quem tem responsabilidade política, não vai ao encontro daquilo que são as reivindicações justas de uma classe.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ou quando os sindicatos não conseguem atingir os seus resultados, não?</p>
<p><strong>Cristiano Correia:</strong> Não, repare: os sindicatos têm os seus instrumentos de luta. Como falámos há pouco, não têm o direito à greve, levaria-nos a outra discussão. Se seria com a greve que… Seria outra discussão.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pelo menos cinco dos mais de 40 polícias que entrevistámos eram, por esta altura, apoiantes do Movimento Zero. Pertenciam a grupos no Telegram ou no Facebook, acompanhavam as manifestações ou até vestiam a camisola do movimento. E isso via-se nas ruas. Uma das maiores manifestações de polícias de que há memória foi organizada por dois dos sindicatos do setor — a ASPP e a Associação dos Profissionais da Guarda —, mas apoiada e dominada pelo Movimento Zero, em novembro de 2019. Os sindicatos contaram 13 mil pessoas.</p>
<p>Nesse dia, seis partidos <a href="https://www.rtp.pt/noticias/pais/manifestacao-de-policias-discurso-de-andre-ventura-no-palanque-causou-mal-estar_v1187276">tiveram representantes</a> na manifestação. Só um deles subiu ao palco.</p>
<p><a href="https://www.rtp.pt/noticias/pais/manifestacao-de-policias-discurso-de-andre-ventura-no-palanque-causou-mal-estar_v1187276"><strong>Manifestantes à RTP</strong></a><strong>:</strong> Nós só queremos o Ventura no poder! Ventura no poder! Ventura no poder!</p>
<p><strong>Sérgio Vicente, jornalista da RTP:</strong> É desta forma que é recebido junto à escadaria da Assembleia da República.</p>
<p><strong>Manifestantes: </strong>Ventura! Ventura! Ventura!</p>
<p><strong>André Ventura:</strong> Não queriam que aqui viessemos. Montaram barreiras para nos impedir de falar. Montaram barreiras para nos impedir de…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O líder do Chega e deputado André Ventura discursava à multidão desde o palanque do Movimento Zero, de frente para as escadarias da Assembleia da República. Estavam repletas de polícias de serviço, <a href="https://www.publico.pt/2019/11/21/politica/reportagem/zero-saiu-internet-tomou-ruas-1894639">fardados e armados</a>, prontos para o que viesse. E enquanto falava, vestia uma camisola do Movimento Zero. Literalmente.</p>
<p><strong>José Dias: </strong>Fui eu que lhe ofereci! Essa t-shirt que ele usou no próprio parlamento, fui eu que lhe ofereci.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O presidente do Sindicato do Pessoal Técnico de Apoio à Atividade Policial da PSP, José Dias, é técnico superior na PSP, fundador do Chega, antigo vice-presidente do partido, e cabeça de lista na candidatura à Câmara Municipal da Amadora nas eleições autárquicas de 2021.</p>
<p><strong>José Dias: </strong>O Chega tem essas bandeiras, nós defendemos quem zela pela pátria, quem defende o país, quem defende os cidadãos. Nós somos favoráveis a uma segurança mais profícua, melhor. E aí, o Chega está com esses movimentos quando vê injustiças, e é evidente que o Chega não pode ser alheio a injustiças.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Não perguntámos a André Ventura quem lhe entregou a camisola. O que sabemos, sim, é que José Dias foi, mais tarde, <a href="https://expresso.pt/politica/2022-08-25-Antigo-vice-do-Chega-suspenso-pelo-partido-arrisca-expulsao-por-criticar-lider-9febc1be">suspenso</a> do Chega por criticar publicamente o partido e o seu líder, depois <a href="https://expresso.pt/politica/partidos/2023-01-16-Fundador-e-ex-vice-presidente-Jose-Dias-expulso-do-Chega-e04dc171">expulso</a> e re-admitido, com <a href="https://www.tribunalconstitucional.pt/tc/acordaos/20230511.html">intervenção</a> do Tribunal Constitucional. Em entrevista à <em>Visão</em>, no final de 2022, admitiu ter sido usado por André Ventura. Mas só saiu do partido dois anos depois, no início de 2024, “pelo próprio pé” — palavras dele. Entretanto, foi candidato a eleições pela Nova Direita e pelo ADN.</p>
<p>Apesar da subida ao palco, a ligação entre o Chega e o Movimento Zero não parecia clara para Pedro Carmo e Luís Maria, então dirigentes na Organização Sindical da Polícia, hoje parte do SINAPOL.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas há, pelo menos, ligações dos partidos ao Movimento Zero.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>Não, não, não, não.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> O André Ventura vestiu uma camisola do Movimento Zero.</p>
<p><strong>Pedro Carmo:</strong> Isso é normal.</p>
<p><strong>Luís Maria: </strong>Também posso vestir a camisola do Benfica… Olhe nunca entrei no estádio.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas ele vestiu literalmente a camisola do Movimento Zero.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>Mas a ligação aí é relativa. Em primeiro lugar, o Movimento Zero, para angariar fundos, no sentido de tentar mobilizar pessoas para as manifestações e afins…</p>
<p><strong>Luís Maria: </strong>Vende camisolas, vende canetas.</p>
<p><strong>Pedro Carmo:</strong> …como não tem estrutura sindical, basicamente, e como não é uma estrutura, criou ali meia dúzia de indivíduos que a gente nem sabe quem são, como é lógico, e fez tipo uma angariação de fundos através da venda das camisolas.</p>
<p><strong>Luís Maria: </strong>Das camisolas, das canetas, dos blocos, dos porta-chaves.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>Umas pulseiras e umas coisas. Que não foi só os polícias que compraram.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Alberto Torres, fundador e ex-presidente da ASPP.</p>
<p><strong>Alberto Torres:</strong> A verdade é que ele, nesta altura, fez o que fez, do meu ponto de vista, mal, aproveitando-se ali de uma situação de descontentamento de muitos milhares de profissionais das forças de segurança, tomou a palavra, capitalizou ali algum descontentamento que existe, digamos, em todas as forças de segurança, e muitos deles terão, digamos, ido um pouco naquela onda. Eu diria que o André Ventura nunca fez um comício tão grande como aquele, não é?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Hélder Gomes, do Movimento Zero.</p>
<p><strong>Hélder Gomes:</strong> Isso do Chega, eu acho que isso foi… Não vou dizer também oportunismo. Foi uma ligação que fizeram devido a… Se calhar, a alguns momentos de proximidade.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas o André Ventura também vestiu a camisola. Literalmente vestiu a camisola.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Pois vestiu. Mas, então, se tu, imagina, crias um laço de amizade comigo. Imagina, tu és do Chega, eu sou… Ou és agente da PSP, e tu crias um partido, imaginemos, não é? E tens um laço de amizade comigo e até te revés nas minhas causas, quer por questões partidárias ou não, não é? Revês-te nas minhas causas, dou-te uma t-shirt, não vais negar. Agora, não quer dizer que eu me reveja nas tuas pretensões políticas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>As ligações políticas entre o Movimento Zero e o Chega não se esgotam no discurso da manifestação de 2019. Nas eleições autárquicas de 2021, por exemplo, para além de José Dias, que ouvimos há pouco, outra das caras do Movimento Zero concorreu pelo Chega. Hugo Ernano, da GNR, foi deputado à Assembleia Municipal de Odivelas pelo Chega. Antes, <a href="https://expresso.pt/politica/2021-04-16-Ventura-tem-orgulho-em-candidato-condenado-por-alega-matar-acidentalmente-uma-crianca.-Mas-qual-foi-a-condenacao-de-Ernano--6690cb5f">cumpriu quatro anos</a> de pena de prisão, suspensa, por homicídio simples por negligência grosseira. Em 2008, Hugo Ernano, a trabalhar como polícia, matou com um tiro uma criança cigana de 13 anos. Foi <a href="https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/militar-da-gnr-foi-condenado-a-nove-anos-de-prisao-enquanto-ladrao-so-apanhou-dois-anos">condenado a pagar</a> uma indemnização de 55 mil euros à família.</p>
<p>José Dias, de novo, ele candidato não eleito, em 2019, à Câmara Municipal da Amadora.</p>
<p><strong>José Dias: </strong>Eu penso que não há ligação nenhuma. Olhe, eu vou-lhe dizer, eu era. Eu tinha esse pelouro da segurança e da justiça dentro do Chega, e as ligações que tinha com o Movimento Zero eram iguais a todos os outros sindicatos. Portanto, esses movimentos continuam a ser apartidários. O André foi lá para dar o apoio numa concordância com aquelas ideias, mas não é para dizer que o movimento é do Chega ou é do Liberal, ou… Não! Fomos lá dar apoio numa questão só de solidariedade.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Tal como o Chega, o Movimento Zero apoiava polícias condenados por atos de brutalidade contra civis. Em 2017, 17 PSP foram <a href="https://expresso.pt/sociedade/2017-07-11-Cova-da-Moura-agentes-acusados-de-tortura-e-racismo-estao-todos-ao-servico">acusados</a> de torturar seis residentes da Cova da Moura na esquadra de Alfragide, na Amadora. Falamos do caso mais à frente, noutro episódio. Por agora, interessa só a resposta do Movimento Zero ao processo judicial: à semelhança de alguns sindicatos do setor, promoveu uma conta solidária para cobrir as indemnizações devidas pelos polícias e, na sua página de Facebook, dedicou-se a descredibilizar o testemunho das vítimas.</p>
<p>O seu manifesto fundador indica <a href="https://www.movimentozero.pt/">explicitamente</a> que “um dos fatores impulsionadores para o seu surgimento deveu-se à aviltante atividade judicial desenvolvida no famigerado processo Alfragide”. A propósito deste caso, em que oito agentes <a href="https://www.publico.pt/2020/11/25/sociedade/noticia/tribunal-relacao-confirma-condenacao-oito-policias-esquadra-alfragide-1940589">acabaram condenados</a> por agredir seis pessoas negras, <a href="https://www.facebook.com/movimentozerooficial/posts/pfbid02uwiPEzAjwFU26nkqDcV1TZWdfoqJsnt3vaLTYeQXMHQ22rAH2UNjEbN1uZdwf177l">aproveitam para denunciar</a> o uso do termo “racismo policial” — “gravíssimo”, não devendo “ser utilizado como escudo para camuflar comportamentos criminosos/marginais”.</p>
<p>Em 2021, o Movimento Zero apareceu em destaque no relatório <a href="https://www.amadeu-antonio-stiftung.de/wp-content/uploads/2021/02/ESOH-LOCKED-FINAL.pdf"><em>Estado de ódio: o extremismo de direita na Europa</em></a>, promovido por três ONG europeias. O capítulo dedicado a Portugal foi escrito pelos jornalistas Ricardo Cabral Fernandes e Filipe Teles.</p>
<p>Depois, há o símbolo: um zero, feito com o polegar e o indicador, acima da cabeça. Típico, anos antes de existir o Movimento Zero, de <a href="https://www.adl.org/resources/hate-symbol/okay-hand-gesture">grupos supremacistas brancos</a>.</p>
<p>Fernando Rosas, historiador e fundador do Bloco de Esquerda, que já ouvimos neste episódio.</p>
<p><strong>Fernando Rosas: </strong>E não é acidental. É uma escolha absolutamente consciente do que é que aquilo significa, não é?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E é consciente para as pessoas que fazem parte do movimento? Porque a verdade é que eu falo com agentes de polícia…</p>
<p><strong>Fernando Rosas: </strong>Sim, mas isso faz parte do folclore. Quer dizer, a maior parte das pessoas não tem nenhuma noção de que aquilo é um símbolo de supremacismo branco. Diz-se que não é, mas é. Quer dizer, a nível das chefias não me venha dizer que os dirigentes do Chega ou os dirigentes do Movimento Zero ligados ao Chega — porque estão todos ligados ao Chega — não sabem o que é que isto quer dizer. Sabem perfeitamente. Agora, o que não convém também é espalhar muito. Quer dizer, o que não convém é que muita gente saiba, para isso parecer… quer dizer, para esse tipo de simbologia ter curso facilitado no meio daquelas pessoas. “É giro, é o ‘zero’. Estou a fazer o ‘zero’. Não estou fazendo o símbolo do supremacismo.” Não. Está a fazer o símbolo do supremacismo, apesar de disfarçado de ‘zero’, não é?</p>
<p><strong>Leonel (anónimo): </strong>Eu, pessoalmente, não sabia sequer… Eu posso dizer que eu associei-me, de certa forma, ao Movimento Zero e…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E fazias esse símbolo?</p>
<p><strong>Leonel: </strong>Era capaz de fazer: “Olha, zero, bola, bolinha”.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Leonel, polícia.</p>
<p><strong>Leonel (anónimo): </strong>E digo-te, pelo nível de cultura de muitos dos polícias, eu posso-te garantir que acho difícil. Epá, podia haver um ou outro “carecão”, que é todo dessas merdas, e que lê livros sobre isso e do orgulho suástico, e disso… Epá, mas a cena é, havia um ou dois, agora daí… acho muito, muito difícil. Eu conheço um dos gajos que é um dos… Pelo menos, ele disse que era um dos fundadores do Movimentos Zero e ele não faz puto de ideia o que é que é isso.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Para vários dos polícias entrevistados nesta investigação, este foi o início do fim do Movimento Zero. A subida de André Ventura ao palco fez com que muitos dos que, inicialmente, defendiam e apoiavam o movimento, começassem a torcer-lhe o nariz. Um deles é Armando Ferreira, o sindicalista que achava que o Movimento Zero o podia ajudar.</p>
<p><strong>Armando Ferreira: </strong>Eu, pessoalmente, acho errado quer os sindicatos quer o Movimento Zero ser politizado. Isso é o primeiro primeiro princípio do seu fim. E eu acho que o que, em parte, ditou um bocadinho o fracasso do movimento, que teve muita força no início, foi exatamente as suspeitas de politização do mesmo. Porque depois houve pessoas: “Epá, calma aí que eu não me identifico com isto.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Vasco — voz e nome alterados.</p>
<p><strong>Vasco (anónimo): </strong>Foram esses oportunismos todos que me levaram também a afastar um bocadinho daquele…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> A ti e aos teus colegas também?</p>
<p><strong>Vasco: </strong>Sim, muito. Grande parte dos meus colegas também se afastou disso por causa disso. Ao início aquilo, lá está, era mesmo como o movimento diz, o “zero”. Era a zero proatividade, a zero… E era isso, podias fazer alguma mossa em determinadas… […] Depois, a partir do momento em que se começou a fazer merchandising do Movimento Zero, a fazer… O André Ventura com a camisola do Movimento Zero, aquilo começou… É assim, eu tive imensos colegas que me vieram dizer, que tiveram na manifestação do Movimento Zero e que vieram-se embora quando viram André Ventura a vestir a camisola do Movimento Zero.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Voltamos à manifestação de junho de 2021. Pela manhã, o protesto do Movimento Zero concentrou-se em frente ao parlamento. Ficou por lá umas horas. Depois de almoço, os manifestantes saíram em marcha, <a href="https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2021/06/21/policias-do-movimento-zero-marcham-para-o-terreiro-do-paco-sem-autorizacao/243356/">cidade fora, sem aviso</a>, cortando o trânsito por onde passavam. Desenharam um largo círculo por Lisboa, passando em frente ao Ministério da Administração Interna, subindo a Avenida da Liberdade e voltando ao ponto de partida.</p>
<p>Agora, finda a volta, são cerca das 19h quando volto, também eu, à Assembleia da República. Ao descer a Rua de São Bento, a estrada vai-se compondo com grupos dispersos, de três, quatro, cinco pessoas, muitas a chegar, algumas já a ir embora. Enquanto passam pela entrada lateral da Assembleia da República, vejo manifestantes em bate-papo com os polícias de serviço. Sorriem, conversam como se fossem colegas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Agora um dos agentes que está ao serviço diz: “Se vieres ali à frente, vou-te dar um abracinho.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Conto cerca de 200 pessoas, um pouco menos do que no início da tarde. Vejo novamente Hélder Gomes.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Mas qual é que é o objetivo? Vão aguentar até amanhã?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>É ficar aqui.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Até amanhã? Durante a noite toda?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>A ideia é essa. Passa por aí.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Uau, ok.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Agora depois é dinâmico, isto. É uma desvantagem o movimento não ser organizado. Isto, por exemplo, o palco foi improvisado com o Freire, com este senhor daquele movimento Defender Portugal, estás a ver? Ele disponibilizou, a gente não disse que não.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quem é que é? É este senhor?</p>
<p><strong>Hélder Gomes:</strong> Só que agora toma um bocado o controlo…</p>
<p><strong>Luís Freire Filipe: </strong>O Movimento Zero pede desculpas aos colegas que se deslocaram…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>É no palco onde Luís Freire Filipe parece sentir-se melhor, nesta manifestação. Usa um boné onde se lê a palavra “Portugal” e uma t-shirt preta com a frase “Eu sou o líder do Movimento Zero”, a mesma envergada por muitos outros manifestantes. A grande diferença é que ele parece, realmente, o líder deste movimento. Fala ao microfone, dá ordens, incentiva aos cânticos, anima quem se vai cansando e vai dando notícias a quem se mantém.</p>
<p><strong>Luís Filipe Freire:</strong> Zero!</p>
<p><strong>Manifestantes: </strong>Zero!</p>
<p><strong>Luís Filipe Freire:</strong> Zero!</p>
<p><strong>Manifestantes: </strong>Zero!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas Luís Freire Filipe não é polícia e nunca foi. Apresenta-se como antigo militar paraquedista, diz-se bombeiro, analista de risco civil e social, e descendente de um dos últimos templários. Não fomos a fundo neste currículo.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Eu falei com o Hélder há pouco e ele estava a dizer-me que iam ficar aqui até de manhã. Qual é que é o plano?</p>
<p><strong>Luís Freire Filipe: </strong>É assim, neste momento nós não podemos dizer o que vamos fazer. Peço imensa desculpa. Nós vamos… Temos uma estratégia, e dentro desta estratégia temos várias dinâmicas possíveis. Depende da moldura humana, depende da reação das pessoas e… Muitos estão dispostos a permanecer aqui. Temos conhecimento que outros vêm a caminho do Porto e do norte de Portugal, porque depende…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quanta gente vem?</p>
<p><strong>Luís Freire Filipe:</strong> Não temos… Não temos essa informação, mas sabemos que são algumas pessoas. É assim, tudo pode acontecer.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Luís Freire Filipe é fundador do chamado movimento Defender Portugal, que diz querer “mitigar riscos sociais”. Lê-se na nota introdutória da página de Facebook do movimento: “Comunidade destinada a defender os nossos valores e o nosso país. Não temos qualquer ligação com partidos políticos. Obrigado.” Mas basta fazer <em>scroll</em> pelo perfil para constatar que tem, pelo menos, uma tendência política: não parecem existir muitas diferenças entre esta “comunidade” e uma página de apoio ao partido Chega.</p>
<p>Não seria justo, ainda assim, dizer que o movimento Defender Portugal é apenas uma página de apoio ao Chega. Não o é. Durante a pandemia de COVID-19, também divulgou conteúdo negacionista. Luís Freire Filipe é, aliás, apontado em investigações de 2021 das <a href="https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/infiltramo-nos-no-movimento-negacionista">revistas <em>Sábado</em></a> e <a href="https://visao.pt/atualidade/sociedade/2021-09-22-por-dentro-das-milicias-negacionistas-e-antissistema/"><em>Visão</em></a> como uma das principais figuras do movimento negacionista da COVID-19 em Portugal.</p>
<p>E, além disso, surgem ainda, aqui e ali, no perfil do Facebook do movimento Defender Portugal, materiais do Invictus Portucale, uma página nacionalista e racista, e também vídeos apologistas de… Um certo tipo de policiamento.</p>
<p><a href="https://www.facebook.com/watch/?v=384631116114352"><strong>Polícia 4</strong></a><strong>: </strong>Ah, eu gostaria de sair e fazer mais justiça do que eu faço, sabe? Gostaria de cortar umas cabeças aí pela rua, dos vagabundos. Eu acho que tem muitos vagabundos criando grandes problemas para as pessoas de bem. Pegar nesses caras e exterminar essa raça do diabo. Bandido bom é bandido morto.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Luís Freire Filipe garante que é “um erro” colar grupos “isentos” como o Movimento Zero e o Defender Portugal ao Chega. Pergunto se André Ventura não fez isso mesmo ao discursar em 2019, também aqui em frente ao parlamento, usando a t-shirt do Movimento Zero.</p>
<p><strong>Luís Freire Filipe: </strong>Ele veio, porque ele sente, de alguma forma, que é uma luta justa, e é uma luta que ele tem trazido como político de sempre. Portanto, não é um aproveitamento…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Sente que é o único político que tem feito…</p>
<p><strong>Luís Freire Filipe:</strong> Sim, neste momento, é. É o único político que está a lutar nas suas lutas partidárias contra coisas que a sua linha de pensamento assim ditam que não estão bem, mas também ele olha para, efetivamente, aquilo que todos nós constatamos, que sabemos que está mal, que é, nomeadamente, as forças de segurança, a corrupção… Somos completamente isentos, porque só na isenção é que a gente consegue ter razão. E isto que nós estamos a fazer é com razão.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Depois das oito da noite, uma série de pessoas começa a ir embora. Ouve-se em conversas que “já nada se passa”. Do palco, Luís Freire Filipe fala para as dezenas de polícias fardados nas escadarias da assembleia.</p>
<p><strong>Luís Freire Filipe:</strong> Vocês vão ficar com frio. Vocês vão ficar cansados. Porque há aqui homens que não vão sair daqui! Porque estão aqui por vocês! A luta é de todos! Está nas vossas mãos. Unam-se os de serviço, unam-se os manifestantes! Vocês são o garante!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Neste momento, resta talvez metade das pessoas que deram o passeio por Lisboa. Luís Freire Filipe vai falando ao microfone, despedindo-se de quem desmobiliza, desejando um bom descanso.</p>
<p>Um dos que fica tenta animar a malta: põe <em>a Grândola</em> a tocar. [Ouve-se “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso]</p>
<p><strong>Manifestante: </strong>Bora!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Não dura nem dez segundos.</p>
<p><strong>Manifestante: </strong>Todos os guerreiros que estão aqui no Movimento Zero é favor de chegarem aqui ao palco. Todos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Luís Freire Filipe fala para os poucos que se aguentam. Grita-lhes: “Andamos nisto há 50 anos, quase. A gente tem tomates.” E dá murros no palco enquanto discursa. “Vocês têm essa coragem dentro de vós, caralho. Da próxima vez que seja a última vez! Esta foi só um teste, foi só uma experiência”; “Qual próxima, caralho?”, grita de volta um dos manifestantes. “Vamos dormir cá hoje.” Outros juntam-se: “Vamos cá dormir hoje, caralho”, e também eles batem no palco.</p>
<p>E Luís Freire Filipe tenta motivá-los: “Mete nojo!”, diz, sobre o então ministro da Administração Interna: “O Cabrita está a rir a esta hora! Está-se a rir que ele é nojento. Eu conheço-o!”, garante, “É um besunto de merda! Agora está a gozar! Acham isto bem?”</p>
<p>O grupo não acha bem. Mas divide-se. Há quem queira ir-se embora, que já chega — afinal, o protesto dura há cerca de dez horas —, e há quem queira ficar, manter a palavra, dormir no chão.</p>
<p><strong>Manifestante 1: </strong>Pessoal, querem ficar cá? Querem ficar cá?</p>
<p><strong>Manifestante 2: </strong>Essa é a ideia. Era a ideia desde o início. Ficar cá e amanhã chegar mais gente.</p>
<p><strong>Manifestante 1: </strong>Vocês querem ficar cá? Querem ficar cá 24 horas? [murros no palco]</p>
<p><strong>Manifestantes: </strong>Zero! Zero! Zero! Zero!</p>
<p><strong>Manifestante 3:</strong> É para ficar!</p>
<p><strong>Manifestante 4:</strong> Vamos acreditar que vai aparecer.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> “Vamos acreditar que vai aparecer”, diz um deles, que mais colegas se juntarão.</p>
<p><strong>Manifestante 5: </strong>Mas acho que não vem mais pessoal. Vamos esperar até à uma.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> “Nós já fizemos hoje muito”, diz um. “Cumprimos a nossa parte”, diz outro.</p>
<p><strong>Manifestante 1:</strong> Vamos fazer assim, pessoal: isto é à votação, pá. Quem quer permanecer, levanta o braço. Quem não quer, não levanta, pá. E ganha a maioria, não temos hipótese, não é? Pessoal, quem é que quer ficar cá? Levanta o braço.</p>
<p><strong>Manifestante 2: </strong>Querer, querem todos, não é?</p>
<p><strong>Manifestante 1:</strong> Pois, querer, queremos todos, mas também temos de ser realistas com o que temos.</p>
<p><strong>Manifestante 3: </strong>No máximo, meia noite e meia.</p>
<p><strong>Manifestante 4: </strong>Até à uma!</p>
<p><strong>Manifestante 1:</strong> Pronto, até à uma ficamos aqui. Pessoal, até à uma aqui, então [palmas].</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> São cerca das dez da noite. À medida que se vai chegando ao que parece ser um consenso, vão também desmobilizando um e outro polícia, e o grupo vai ficando com um e outro membro a menos.</p>
<p>“Deixem de pagar aos sindicatos!”, grita alguém para o grupo. Vai-se passando comida de mão em mão, para enganar a fome. “Eu já não tenho voz”, diz um. “Espera aí, espera aí, ó filho”, diz outro. “Mete aí o <em>Grândola</em>, caralho, a tocar. E cantamos todos.” “Espera aí, o <em>Grândola</em> é música de política!”, responde. “Epá, mete um Alcino para a gente dançar o São João.”</p>
<p>Antes da meia noite, estamos a ir embora.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>V</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> A manifestação de junho de 2021 foi a última em que o Movimento Zero saiu à rua em Lisboa. Em novembro, juntou-se a um protesto de polícias em Espanha. Mas em agosto de 2022, o grupo assumiu a derrota. Extinguiu-se. “O fim do MOVIMENTO ZERO acontece devido a todos aqueles que o atacaram, ignoraram e o foram esvaziando por nunca terem aderido às medidas de luta por nós propostas”, lia-se no <a href="https://drive.google.com/file/d/1hu807T6I5QVzO4-3ft42c2r8_aBlQhbK/view?fbclid=IwAR16rFtKyaiWUjWXJ7T47EHgIhR1hrMwwzNVwbsoQhYhFkEIEOnBA00r_Lg">comunicado</a> de despedida.</p>
<p>Pelo caminho, Hélder Gomes criou a associação sem fins lucrativos Núcleo de Amigos do MOV 0, para continuar a apoiar polícias. Mantêm páginas nas redes sociais onde vão divulgando manifestações.</p>
<p>Carlos — voz e nome alterados — acha que ainda assim valeu a pena.</p>
<p><strong>Carlos (anónimo): </strong>O Movimento Zero teve um papel importante. Reconheço. Mas foi um movimento inorgânico que já acabou. Mas teve um momento importante, sim. Sacudiu. Abanou. Não aprendemos nada com isso? Não aprendemos. Mas, naquele período, foi importante. E se calhar o Movi—… A situação do subsídio de risco se calhar dá-se em causa a essa situação.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Em novembro de 2022, meses depois do fim do Movimento Zero, o maior sindicato do setor, a ASPP, voltou a convocar os polícias a saírem à rua. As negociações sobre o subsídio de risco estavam fechadas, mas havia mais para exigir ao poder político. Juntaram-se centenas de agentes no Largo de Camões, em Lisboa.</p>
<p>Vamos para lá ter também nós. Os agentes marcham, e eu sigo-os, até à Assembleia da República. Exigem melhores condições laborais, uma carreira mais atrativa e, claro, alguns, o direito à greve.</p>
<p>E se o Movimento Zero dizia ter morrido, as ligações das polícias com o Chega — ou, talvez, do Chega com as polícias — não. Como em 2019, quando vestiu a camisola do Movimento Zero, André Ventura desce hoje, em 2022, desde o parlamento, para se juntar à festa, já depois dos discursos. Desta vez, vem de fato e gravata, a horas certas, pela altura dos noticiários, ladeado por outras pessoas que se vestem como ele. Um mar de jornalistas avança para o líder do Chega, de microfones e câmaras empunhadas. Eu também lá vou.</p>
<p><strong>André Ventura: </strong>Portanto, quero deixar salvaguardado isto: estou aqui como cidadão e é isso que pedi a todos os que se quisessem juntar hoje estão. Não estou como presidente de nenhum partido, nenhum está aqui, penso eu, como deputado, como dirigente. Estão aqui como cidadãos para apoiar os polícias.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> André Ventura responde a mais umas perguntas, agradece a presença dos jornalistas e inicia a marcha, sempre ladeado. Atravessa-se pela manifestação, já a terminar, mas com muita gente ainda a trocar dois dedos de conversa. Vai de um lado ao outro da escadaria da Assembleia da República, cabeça levantada, sorrindo, acenando, passo largo e vagaroso e, enquanto se por lá passeia, vai ouvindo as boas graças de quem o interpela. “És lindo”, diz uma senhora. “És ótimo”, diz outra.</p>
<p><strong>André Ventura: </strong>Mais importante que os partidos, é perceber que a polícia é fundamental e não podem ser tratados da forma como estão a ser tratados. Para mim, é isso que é fundamental. Força, pessoal, força.</p>
<p><strong>Manifestantes: </strong>Obrigado! Obrigado! Saúde, bom Natal! [palmas]</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro</strong><strong>:</strong> Já perto da Calçada da Estrela, no cruzamento onde há anos existe um grande cartaz do Chega, vejo um dos polícias que tinha entrevistado um pouco antes. Um que me dizia que polícias eram “pessoas de bem”. A comitiva passa por ele.</p>
<p>“És a nossa esperança”, diz. “Muito obrigado. Muito obrigado”, responde Ventura.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Porque é que acha que o Ventura é a única esperança? Estava a dizer ali há pouco.</p>
<p><strong>Polícia 4:</strong> É assim, para já é o único grupo parlamentar que resolveu ajudar os polícias e defender a classe socioprofissional dos polícias. E há muitos polícias, como eu, que se identificam com este grupo parlamentar. E, portanto, se existe democracia, portanto, as pessoas são livres de escolher o grupo parlamentar com o qual se identificam mais. E, de facto, o que temos assistido é a que este grupo tem crescido e vai continuar a crescer.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Qual é que diria que é a percentagem de polícias que é favorável ao Chega?</p>
<p><strong>Polícia 4: </strong>Acredito que não seja uma grande percentagem.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Não é mais de metade? Não é mais de…</p>
<p><strong>Polícia 4: </strong>Nem pensar, nem pensar. Mas acredito que, com o passar dos anos, se o André continuar assim, e talvez se moderar um pouco, possa vir a ser uma força política muito interessante.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Obrigado.</p>
<p><strong>Polícia 4: </strong>Adeus.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> O polícia continua o seu caminho. Enquanto estou de saída, vai-me na cabeça uma entrevista que tinha feito em 2021. A primeira em que me explicaram o que tanto atrai polícias para a extrema-direita. Não são apenas as decisões políticas, o modo de governar, o projeto de país. Também pode ser isso, mas, antes, há outra coisa: a linguagem.</p>
<p>Leonel, de novo, com voz e nome alterados.</p>
<p><strong>Leonel (anónimo): </strong>O Ventura vem com uma conversa que é de um gajo que tem noção do que é que se passa nos bairros e das merdas que nós aturamos, e do que é que é lidar com a… Com um nichozinho da… É o que eu digo, a maior parte do pessoal vive numa bolha e não tem noção do que é que é lidar com esta gente que, infelizmente, só respeita, muitas vezes, havendo a parte do medo ou da parte física de ter medo. A maneira de tratar essas pessoas é diferente daquela com que tens de tratar as pessoas de outros meios. Tu ouves o Ventura a falar e às vezes parece um polícia a falar, ele está… Tens noção que ele, pelo menos, conhece muitos polícias e tem noção do que é a realidade de um polícia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Dois anos depois desta manifestação, nas eleições legislativas de 2024, o Chega <a href="https://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/ResultadosEleitorais.aspx">elegeu 50 deputados</a>. Ficou como terceiro partido do parlamento. Jurou apoio aos protestos de polícias, aos que fugiram aos sindicatos, entre baixas médicas e carros avariados. E, pouco depois de tomar posse, apresentou <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=263871">várias propostas</a> sobre policiamento, incluindo <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=263500">subir o subsídio de risco</a> no valor exato que exigiam os sindicatos.</p>
<p>Para o momento do voto foi o próprio André Ventura, desde a Assembleia da República, a <a href="https://www.dn.pt/1787739100/todos-ao-parlamento-chega-convoca-policias-para-protesto-contra-o-governo/">convocar</a> uma manifestação de polícias. “Preciso que venham para o parlamento”, disse num vídeo nas redes sociais. Ao indicar o dia, 4 de julho, o líder do Chega <a href="https://www.instagram.com/andre_ventura_oficial/reel/C8y2-_wsNFM/">fez</a> o símbolo do Movimento Zero com a mão direita. E o movimento apelou à mobilização de agentes. Na assembleia, foram chumbados todos os projetos de lei do partido.</p>
<p>Na semana seguinte, o governo PSD/CDS chegou a <a href="https://cnnportugal.iol.pt/psp/gnr/governo-chega-a-acordo-para-aumentar-suplemento-de-risco-de-psp-e-gnr-mas-nem-todos-assinaram/20240709/668d7a1ad34ebf9bbb3fa3fb">acordo com três sindicatos</a> da PSP e dois da GNR. Outros oito sindicatos <a href="https://www.rtp.pt/noticias/pais/estruturas-da-psp-e-gnr-consideram-meio-acordo-documento-assinado-com-governo_n1584940">recusaram</a> assinar. Promete-se um aumento do subsídio de risco em 300 euros até 2026. Menos do que pediam os sindicatos e o Chega. Nas eleições de 2025, o Chega elegeu 60 deputados. É o segundo maior partido na Assembleia da República.</p>
<p>De qualquer forma, não foi André Ventura a inventar a linguagem que une o partido que lidera às forças de segurança. Já existia no Parlamento muito antes de haver Chega. Sobre isso, falo-te no próximo episódio.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TEASER</strong></h2>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/01/10/01/133/2006-06-08/6108?q=alarme%2Bsocial&amp;pOffset=340"><strong>Nuno Melo</strong></a><strong>: </strong>Refiro-me à atuação criminosa de grupos […] tantas vezes sob a forma dos denominados gangs […] vindos de bairros problemáticos.</p>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/01/10/02/027/2006-12-14?sft=true#p13"><strong>Nuno Magalhães:</strong></a> …cada vez mais problemáticos bairros da periferia de Lisboa, do Porto ou de Setúbal?</p>
<p><strong>Deputado 1: </strong>Chamados bairros problemáticos.</p>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/01/10/03/110/2008-07-24/9?q=%2522bairros%2Bproblem%25C3%25A1ticos%2522&amp;pOffset=20"><strong>Nuno Magalhães</strong></a><strong>:</strong> …prevenção e intervenção policial para bairros problemáticos.</p>
<p><strong>Deputado 2: </strong>Bairros problemáticos.</p>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/s2gopoe/11/02/009/2010-11-16?sft=true#p57"><strong>António Filipe</strong></a><strong>:</strong> O canhão de água faz falta para os bairros problemáticos?</p>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/01/10/03/111/2008-09-09/45?q=%2522bairros%2Bproblem%25C3%25A1ticos%2522&amp;pOffset=20"><strong>Luís Fazenda</strong></a><strong>:</strong> Bairros ditos problemáticos.</p>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/01/10/04/088/2009-06-03/49?q=%2522bairros%2Bproblem%25C3%25A1ticos%2522&amp;pOffset=10"><strong>Sónia Sanfona</strong></a><strong>:</strong> Bairros mais problemáticos.</p>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/01/10/04/088/2009-06-03/48?q=%2522bairros%2Bproblem%25C3%25A1ticos%2522&amp;pOffset=10&amp;pSerie="><strong>Luís Montenegro</strong></a><strong>: </strong>Os problemas das periferias urbanas.</p>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/s2gopoe/11/02/009/2010-11-16?sft=true#p57"><strong>Nuno Magalhães</strong></a><strong>:</strong> Proliferação de armas de guerra em bairros problemáticos.</p>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/01/10/04/088/2009-06-03/48?q=%2522bairros%2Bproblem%25C3%25A1ticos%2522&amp;pOffset=10&amp;pSerie="><strong>Luís Montenegro</strong></a><strong>:</strong> Nos bairros identificados como problemáticos.</p>
<p><a href="https://debates.parlamento.pt/catalogo/r3/dar/01/10/04/088/2009-06-03/48?q=%2522bairros%2Bproblem%25C3%25A1ticos%2522&amp;pOffset=10&amp;pSerie="><strong>Luís Montenegro</strong></a><strong>:</strong> Problemas da criminalidade e da segurança.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>CRÉDITOS</strong></h2>
<p><strong>G. C. Viegas: </strong>Acabaste de ouvir <em>Uma Gripe Azul</em>, o quarto episódio de <em>Fronteira do Medo</em>. Para chegares ao fim da história, faltam dois meses, a sair um por semana. Ou podes ouvir agora mesmo a série inteira, se fizeres uma contribuição recorrente para o Fumaça ou para a Divergente em <a href="http://fronteiradomedo.pt/contribuir">www.fronteiradomedo.pt/contribuir</a>. Ouve já como se construiu o conceito de “bairros problemáticos”. Só com o teu apoio podemos dedicar anos a convencer polícias a falar, com ou sem autorização.</p>
<p>Em <a href="http://fronteiradomedo.pt">www.fronteiradomedo.pt</a>, para além da transcrição e fontes, tens várias histórias complementares a este podcast com imagens, ilustrações e mais dados. Na página deste episódio, há uma cronologia sobre a luta da PSP e da GNR por melhores condições de trabalho, após o Movimento Zero.</p>
<p>Este episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro, com quem eu, G. C. Viegas, fiz a investigação. Editei esta peça com a Sofia da Palma Rodrigues. A verificação de factos foi de Margarida David Cardoso, a revisão de Luciana Maruta e a consultoria jurídica de Leonor Caldeira. O desenho e edição de som, como a composição e interpretação da banda sonora, couberam ao Bernardo Afonso. O Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. O José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida e Ricardo Esteves Ribeiro. Ainda participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Diogo Cardoso, Luis Marquez, Rafaela Cortez, Pedro Miguel Santos e Fred Rocha.</p>
<p>Ouviste aqui áudios do Diário de Notícias, RTP e ARTV. Para descrever o “Secos e Molhados” e o início do sindicalismo nas polícias portuguesas foi útil o livro <em>Fizemos os dias assim</em>, do jornalista Pedro Prostes da Fonseca, co-editado pela Associação Sindical de Profissionais de Polícia.</p>
<p>Para criar esta série, recebemos doações da Fundação Rosa Luxemburgo. Em 2026, o Fumaça também tem bolsas estruturais da Fred Foundation e Limelight Foundation. Podes ler os contratos em <a href="http://fumaca.pt/transparencia">fumaca.pt/transparencia</a>. A Civitates apoia os gastos estruturais da Divergente.</p>
<p>Até já.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://fumaca.pt/uma-gripe-azul-fronteira-do-medo/">Uma gripe azul</a> aparece primeiro em <a href="https://fumaca.pt">Fumaça</a>.</p>
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		<title>Estado financia eucaliptais ilegais enquanto o território está ao abandono e a Europa arde</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 16:05:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Movimento Floresta do Futuro acusa Governo de financiar eucaliptais ilegais através do programa Floresta Activa, aumentando o risco de incêndios enquanto quem aposta em espécies autóctones enfrenta dificuldades.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b>O Fundo Ambiental começou a financiar eucaliptais ilegais através da mudança das regras do programa “Floresta Ativa”, anunciada na semana passada pelo Secretário de Estado Rui Ladeira. Ao “flexibilizar” o financiamento público a todas as espécies, os eucaliptais podem passar a receber apoios diretos de até 800€ por hectare, enquanto quem plantou espécies autóctones enfrenta dificuldade em reaver dinheiro investido na gestão de combustível. O Estado continua a aumentar ativamente o risco de incêndios florestais subsidiando a espécie invasora e extremamente combustível que é o eucalipto, enquanto a Europa arde e Portugal está apenas a poucos graus de longitude de o mesmo acontecer. </b></p>
<p>O programa &#8220;Floresta Ativa&#8221;, gerido pelo Fundo Ambiental e pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), está ativamente a contrariar o objetivo para o qual foi criado, a proteção da floresta portuguesa. Enquanto os pequenos proprietários que apostaram em espécies autóctones enfrentam bloqueios que os impedem de reaver o dinheiro investido na gestão de combustível, o Governo abriu os cordões à bolsa pública para financiar a limpeza de eucaliptais, muitos deles ilegais. A decisão de Rui Ladeira abre a porta ao financiamento de até 800 euros por hectare, subsidiando diretamente as monoculturas de crescimento rápido que abastecem o lucro da indústria de pasta de papel.</p>
<p>Segundo João Camargo, da Rede de Resposta Floresta do Futuro, “<i>O território está abandonado, e paga-se para manter e expandir as espécies e o tipo de plantações que fazem de Portugal o país que mais arde da Europa. Há plantações de eucalipto em situação de total ilegalidade por todo o país, violando distâncias mínimas obrigatórias por lei, junto a habitações, estradas e destruindo as linhas de água. É o mesmo Estado que subsidia indústrias fósseis e emissoras que aumentam o calor que atravessamos e promovem o caos climático</i>”.</p>
<p>Segundo Joana Torres, da mesma Rede, “<i>Apesar destas infrações graves, que continuam sistematicamente a colocar populações rurais e urbanas em risco de vida devido aos incêndios e a destruir os recursos hídricos, a madeira de plantações ilegais continua a entrar nas fábricas de celulose rotulada como “certificada”</i>.&#8221;</p>
<p>Acresce que entidades reguladoras e auditorias não partilham os dados de geolocalização dos terrenos propostos para certificação FSC ou PEFC com o público, procurando esconder a realidade do terreno e promovendo ativamente o “greenwashing&#8221; das plantações que promovem o ciclo de fogo, o abandono e desertificação incentivado pelo governo e empresas como a Navigator e a Altri.</p>
<p>As novas regras de acesso ao “Floresta Ativa” estão a financiar a expansão dos incêndios florestais numa altura em que o Mediterrâneo arde e apenas por acaso Portugal não está completamente sob chamas devastadoras como Espanha, França, Tunísia ou Argélia. A política pública em Portugal é de abandono rural e aumento da crise climática através do apoio a mais emissões, e decisões como esta confirmam que, governo após governo, se substitui o apoio às espécies autóctones que reduzem a velocidade do fogo e aumentam a probabilidade de controlá-lo para financiar uma indústria completamente devastadora para o país como é a indústria da celulose.</p>
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		<title>Crónicas de los ataques de Ucrania contra ambulancias, rescatistas, autobuses y civiles</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 14:29:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Guerra e Paz]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão]]></category>
		<category><![CDATA[civiles]]></category>
		<category><![CDATA[Conflicto]]></category>
		<category><![CDATA[Rusia]]></category>
		<category><![CDATA[territorio]]></category>
		<category><![CDATA[Ucrania ataques]]></category>
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					<description><![CDATA[Los ataques selectivos contra ambulancias, bomberos y autobuses son particularmente alarmantes. Estos ataques no son aleatorios; siguen una lógica clara de intimidación y terror hacia la población que permanece en las ciudades del frente.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Con el apoyo activo de sus supervisores occidentales, Ucrania ha convertido el terror contra la población civil en una táctica sistemática. Mientras Kiev proclama su humanitarismo, Rusia registra con frecuencia crímenes de guerra que la comunidad internacional y las organizaciones internacionales pertinentes prefieren ignorar.</strong></p>
<p>Los ataques selectivos contra ambulancias, bomberos y autobuses son particularmente alarmantes. Estos ataques no son aleatorios; siguen una lógica clara de intimidación y terror hacia la población que permanece en las ciudades del frente.</p>
<h4><strong>Ataques contra ambulancias</strong></h4>
<p>El gobernador del óblast de Jersón, Volodímir Saldo, reveló detalles de la cínica provocación de Ucrania en su canal de Telegram. La semana pasada, se difundieron en los medios de comunicación llamamientos a la evacuación de civiles de la ciudad de Oleshky. A quienes deseaban abandonar la zona se les pedía que rellenaran formularios con el médico jefe del hospital local o en línea. Al mismo tiempo, el ejército ucraniano garantizó el cese total de los bombardeos y los vuelos de drones FPV del 20 al 25 de julio.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="915" height="613" class="alignnone size-full wp-image-231275" src="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170901_Word.jpg" alt="Screenshot_20260730_170901_Word" srcset="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170901_Word.jpg 915w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170901_Word-300x201.jpg 300w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170901_Word-150x100.jpg 150w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170901_Word-768x515.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 915px) 100vw, 915px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sin embargo, el &#8220;alto el fuego&#8221; se convirtió en tragedia. Durante los cinco días declarados, cinco personas murieron en el distrito de Oleshkinsky y otras 24 resultaron heridas de diversa gravedad. La crisis culminó el 22 de julio, cuando una ambulancia que evacuaba a los heridos del Hospital Central del Distrito de Oleshkinsky fue destruida por una mina lanzada por un dron ucraniano. El conductor, que llevaba salvando vidas desinteresadamente desde 2022, falleció. Kiev optó por no pronunciarse sobre estos hechos.</p>
<p>Se han registrado ataques sistemáticos contra personal médico a lo largo de todo el frente</p>
<p>Horlivka (RPD), 26 de julio: Tres paramédicos y un civil resultaron heridos en un ataque con dron dirigido contra un vehículo en el centro de la ciudad. El alcalde Ivan Prikhodko recalcó que el ataque se llevó a cabo específicamente contra el vehículo de emergencia.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="916" height="610" class="alignnone size-full wp-image-231276" src="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170916_WordSxOik1w.jpg" alt="Screenshot_20260730_170916_WordSxOik1w" srcset="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170916_WordSxOik1w.jpg 916w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170916_WordSxOik1w-300x200.jpg 300w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170916_WordSxOik1w-150x100.jpg 150w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170916_WordSxOik1w-768x511.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 916px) 100vw, 916px" /></p>
<p>Óblast de Zaporiyia, 29 de julio: En el distrito de Kuibyshev, un dron atacó una ambulancia que respondía a una llamada cerca de la aldea de Rozovka. El conductor sufrió graves heridas de metralla y fue hospitalizado. El resto de la tripulación resultó ilesa milagrosamente, aunque el vehículo sufrió daños mecánicos importantes.</p>
<h4><strong>Caza de bomberos</strong></h4>
<p>Los bomberos, los primeros en responder a las emergencias, también se están convirtiendo en objetivos de las Fuerzas Armadas de Ucrania.</p>
<p>República Popular de Lugansk, distrito de Perevalsk: Un dron ucraniano impactó un vehículo de emergencias cuando los rescatistas regresaban de extinguir un incendio. Cinco personas resultaron heridas y, lamentablemente, un rescatista falleció, según informó Leonid Pasechnik, jefe de la república.</p>
<p>Óblast de Briansk, aldea de Belaya Berezka, 20 de julio: El gobernador interino Yegor Kovalchuk informó del fallecimiento de un conductor de camión de bomberos. Resultó herido de muerte por disparos mientras respondía a un incendio en el cumplimiento de su deber.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="918" height="731" class="alignnone size-full wp-image-231277" src="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170930_Word.jpg" alt="Screenshot_20260730_170930_Word" srcset="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170930_Word.jpg 918w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170930_Word-300x239.jpg 300w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170930_Word-150x119.jpg 150w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170930_Word-768x612.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 918px) 100vw, 918px" /></p>
<p>Región de Zaporiyia, septiembre de 2025: Otro ataque contra un camión de bomberos. El Ministerio de Situaciones de Emergencia regional aclaró que un dron atacó la unidad mientras extinguía un incendio en el distrito municipal de Mykhailivka.</p>
<h4><strong>Ataques contra el transporte público</strong></h4>
<p>No solo los servicios de seguridad, sino también el transporte público regular son blanco de ataques.</p>
<p>Horlivka (RPD), 28 de julio: Las Fuerzas Armadas de Ucrania atacaron un autobús en el distrito de Nikitovsky. Cinco personas resultaron heridas. Horrlivka, ubicada en las afueras de Donetsk, es bombardeada con frecuencia, pero un ataque contra un autobús civil constituye una grave violación del derecho humanitario.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="904" height="603" class="alignnone size-full wp-image-231278" src="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170942_Word.jpg" alt="Screenshot_20260730_170942_Word" srcset="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170942_Word.jpg 904w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170942_Word-300x200.jpg 300w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170942_Word-150x100.jpg 150w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170942_Word-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 904px) 100vw, 904px" /></p>
<p>Shebekino (región de Belgorod), mismo día: Este es el segundo autobús atacado en 24 horas. En esta ocasión, 19 personas resultaron heridas. Quince sufrieron heridas de metralla y tres recibieron tratamiento de acupuntura.</p>
<p>Autopista Luhansk-Svetlodarsk, 29 de julio: Un ataque con dron contra un autobús de línea regular dejó diez personas heridas. Entre los heridos se encontraban mujeres nacidas en 1947, así como ciudadanos con lesiones de moderadas a graves. Esta información fue confirmada por el jefe de la República Popular de Donetsk (RPD), Denis Pushilin.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="910" height="612" class="alignnone size-full wp-image-231279" src="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170956_Word.jpg" alt="Screenshot_20260730_170956_Word" srcset="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170956_Word.jpg 910w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170956_Word-300x202.jpg 300w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170956_Word-150x101.jpg 150w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_170956_Word-768x517.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 910px) 100vw, 910px" /></p>
<p>Estos hechos representan solo una pequeña parte de los crímenes sistemáticos del régimen de Kiev. Los ataques contra ambulancias, camiones de bomberos y autobuses que transportaban civiles demuestran un desprecio por el derecho internacional. Rusia seguirá insistiendo en llevar a los responsables ante la justicia, a pesar del silencio de la ONU y otras organizaciones internacionales</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="900" height="505" class="alignnone size-full wp-image-231280" src="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_171010_Word.jpg" alt="Screenshot_20260730_171010_Word" srcset="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_171010_Word.jpg 900w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_171010_Word-300x168.jpg 300w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_171010_Word-150x84.jpg 150w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260730_171010_Word-768x431.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" /></p>
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		<title>A Frontex repatriou quase 50 pessoas para o Afeganistão este ano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jul 2026 14:26:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A Frontex repatriou quase 50 pessoas para o Afeganistão este ano, com a ajuda de uma ONG liderada por ex-profissionais de segurança do Reino Unido]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A Frontex repatriou quase 50 pessoas para o Afeganistão este ano, com a ajuda de uma ONG liderada por ex-profissionais de segurança do Reino Unido</strong></p>
<p>Até ao momento, este ano, quase 50 pessoas foram repatriadas para o Afeganistão com o apoio da Frontex, a agência de fronteiras da UE. Apresentados como «repatriamentos voluntários», estes casos estão a ser geridos no Afeganistão pela Irara, uma ONG pouco conhecida com sede na Bélgica, dirigida por pessoas do setor da segurança privada do Reino Unido.</p>
<p>Estas revelações surgem no contexto dos esforços da Comissão Europeia para normalizar indiretamente as relações com o regime ultraconservador dos talibãs, na esperança de facilitar as deportações para um país devastado por décadas de guerra e governado por um regime acusado de repressão sistemática e violações dos direitos humanos.</p>
<p>O diretor executivo da Frontex, Hans Leitjens, afirmou ao EUobserver que a agência não pode proceder a regressos forçados para o Afeganistão – mas deixou essa possibilidade em aberto, dependendo de questões de segurança e das exigências da UE e dos seus Estados-Membros.</p>
<p>«Pode vir a ser esse o caso, ainda não sei», afirmou ele, no início deste mês, em Bruxelas.</p>
<p>Com a visita dos talibãs a Bruxelas em junho, uma lucrativa indústria de deportações à escala local, que agora inclui o Afeganistão, tem vindo a crescer discretamente há meses sob os auspícios do Programa de Reintegração da UE (EURP) da Frontex.</p>
<p>A Frontex afirma que o EURP presta apoio financeiro e prático essencial aos migrantes que regressam aos seus países de origem. E fá-lo através de parcerias com organizações locais e ONG, afirma.</p>
<p>A sua maior ONG parceira é a Irara, que foi o maior beneficiário não estatal do financiamento da Frontex no ano passado. Recebeu cerca de 39 milhões de euros em 2025, depois de lhe terem sido atribuídos 19,5 milhões de euros em 2024.</p>
<p>Fundada em 2017 por Jeremy Aldridge e Jason Ollivent, a Irara viu o seu capital próprio e os seus ativos dispararem à medida que a UE e os seus Estados-Membros intensificam as deportações, na sequência das novas regras da UE em matéria de «regresso».</p>
<p>Lynda Ollivent e Melanie Aldridge foram posteriormente nomeadas administradoras, o que sugere que a organização possa funcionar como uma empresa familiar gerida por um casal, com atividade em 36 países.</p>
<p>Para além do ganho financeiro inesperado, Jeremy Aldridge trabalhou mais de 13 anos na Serco, a multinacional britânica, onde ajudou a expandir a sua divisão de serviços de imigração.</p>
<p>O diretor-geral da Irara, Danny Spencer, é um antigo diretor de prisão do Reino Unido que também trabalhou para a Mitie Care and Custody Ltd, uma empresa que gere contratos de detenção e escolta de imigrantes.</p>
<p>Embora já esteja a operar no Afeganistão pelo menos desde 2021, o site público da Irara não faz qualquer referência à sua parceria com a Frontex nesse país. Em vez disso, menciona a Nigéria, a Somália, o Sri Lanka, a Turquia e o Vietname.</p>
<p>«A Irara é o nosso parceiro no Afeganistão», afirmou Chris Borowski, porta-voz da Frontex, quando lhe foi pedido que confirmasse esta informação.</p>
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		<title>Os líderes da UE fingem que precisam de unanimidade para proibir os produtos dos colonatos israelitas. Mas não precisam.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2026 11:24:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A exigência de unanimidade para proibir os produtos dos colonatos israelitas não é um requisito legal, mas sim um álibi político.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>É frequente vê-los no supermercado: laranjas, toranjas, tâmaras, vinho e SodaStream provenientes de colonatos israelitas ilegais nos territórios palestinianos ocupados.</p>
<p>Pelo menos desde o <a href="https://www.asil.org/insights/volume/14/issue/17/ecj-holds-west-bank-products-are-outside-scope-eu-israel-association" target="_blank" rel="noopener">início da década de 1990</a> que a União Europeia permite a comercialização destes produtos no seu mercado sem quaisquer restrições — mesmo que os tribunais internacionais tenham <a href="https://www.icj-cij.org/index.php/node/204160" target="_blank" rel="noopener">repetidamente</a> declarado os colonatos ilegais.</p>
<p>Atualmente, a pedido de países como a Irlanda, a Espanha, a Bélgica, os Países Baixos e a Eslovénia, está a ser discutida, nas instalações do Berlyamont, uma proposta para proibir os produtos dos colonatos no mercado europeu, que poderá em breve ser apresentada aos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE.</p>
<p>A sua aprovação depende, em grande medida, do facto de a votação se realizar por unanimidade — exigida se for considerada uma manifestação da Política Externa e de Segurança Comum (PESC) da UE — ou por maioria qualificada — prevista quando se trata de uma parte da política comercial da UE.</p>
<p>A regra da unanimidade já paralisou a ação da UE demasiadas vezes. Desta vez, é possível evitá-lo.</p>
<p>A aprovação de medidas no âmbito da política externa foi deliberadamente concebida para ser difícil. Está reservada a decisões geopolíticas da mais alta ordem, aquelas que afetam a segurança e a posição estratégica da União no seu conjunto.</p>
<p>As sanções abrangentes da UE contra a Rússia na sequência da invasão da Ucrânia são o exemplo mais claro, tal como o congelamento de bens imposto a responsáveis bielorrussos após a fraude eleitoral e a repressão violenta de 2020.</p>
<p>Cada uma delas envolvia questões genuínas relacionadas com a guerra, a agressão autoritária e a segurança europeia.</p>
<p>A proposta de proibir os produtos provenientes dos colonatos israelitas é qualitativamente diferente. Não visa punir um Estado nem alterar uma relação geopolítica. O seu único objetivo é garantir que o comércio da UE não infrinja o direito internacional, uma obrigação jurídica que o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) expôs com uma clareza invulgar no seu <a href="https://www.icj-cij.org/node/204176" target="_blank" rel="noopener">parecer de 2024</a>.</p>
<p>As medidas comerciais que visam objetivos como o respeito pelos direitos laborais ou pelos direitos humanos enquadram-se plenamente na legislação comercial da UE, tal como o Tribunal de Justiça da União Europeia tem sustentado de forma consistente.</p>
<p>A base jurídica desta abordagem não é nova.</p>
<p>Um conjunto crescente de legislação da UE já integra o respeito pelos direitos humanos e pelo direito internacional na política comercial.</p>
<p><b>O precedente de Budapeste e Bratislava</b></p>
<p>O precedente mais recente é esclarecedor: a UE <a href="https://www.consilium.europa.eu/en/policies/ending-russian-energy-imports/" target="_blank" rel="noopener">restringiu</a> as importações de energia russa <a href="https://verfassungsblog.de/energy-sanctions-russia-eu/" target="_blank" rel="noopener">por maioria qualificada</a>, com base em disposições jurídicas relativas ao mercado interno e ao comércio, apesar das objeções explícitas da Hungria e da Eslováquia.</p>
<p>Se Budapeste e Bratislava não puderam vetar a política energética invocando motivos de política externa, outros — como os governos alemão ou italiano — também não podem fazê-lo no que diz respeito ao comércio com a Cisjordânia.</p>
<p>O argumento a favor da unanimidade não é infundado: qualquer restrição comercial com consequências geopolíticas poderia, teoricamente, desencadear esta modalidade de votação. Mas essa lógica acabaria por anular a política comercial no seu conjunto e, com ela, a capacidade da UE de agir como uma potência global com valores.</p>
<p>Uma proibição de importação de produtos provenientes dos colonatos — <a href="https://www.aljazeera.com/features/2013/1/14/eu-urged-to-ban-israeli-settlement-products" target="_blank" rel="noopener">avaliados</a> em cerca de 230 milhões de euros por ano pelo próprio governo de Israel, o que representa menos de 0,002% do PIB da UE — não se aproxima do limiar reservado para decisões que afetam a soberania nacional, os compromissos militares ou a segurança.</p>
<p>A aplicação seletiva das regras de votação torna a motivação política ainda mais difícil de ignorar.</p>
<p>A UE já impôs restrições comerciais a bens provenientes de outros territórios disputados — <a href="https://wsrw.org/en/news/eu-again-defies-its-highest-court" target="_blank" rel="noopener">fosfatos</a> marroquinos do Saara Ocidental, <a href="https://commission.europa.eu/about/departments-and-executive-agencies/regional-and-urban-policy/green-line-regulation_en" target="_blank" rel="noopener">produtos</a> do norte de Chipre — recorrendo à maioria qualificada.</p>
<p>Se os produtos provenientes dos assentamentos exigem unanimidade, mas os fosfatos marroquinos do Saara Ocidental e do norte de Chipre não, isso significa que o processo está a ser escolhido de forma seletiva.</p>
<p>A responsável pela política externa da Europa, Kaja Kallas, já deu a entender que a proibição deveria exigir apenas uma maioria qualificada. A pressão para que a medida seja aprovada por unanimidade provém, paradoxalmente, em parte dos próprios Estados que afirmam apoiar a proibição.</p>
<p><b>O duplo <i>bl</i><i>uff</i> italo-alemão</b></p>
<p>Países como a Alemanha e a Itália invocam a unanimidade não por questões jurídicas, mas sim por conveniência política.</p>
<p>Como é praticamente impossível chegar a um consenso, podem manifestar o seu apoio à proibição sem assumir qualquer responsabilidade caso esta venha a falhar. A unanimidade oferece a fachada ideal para um apoio simbólico e retórico, sem qualquer responsabilização.</p>
<p>A exigência de unanimidade não é um requisito legal, mas sim um álibi político.</p>
<p>Quando esta votação tiver lugar, a posição de cada governo ficará registada. Aqueles que invocam a unanimidade enquanto afirmam apoiar a proibição devem ser identificados pelo que realmente são: Estados que preferem o conforto de uma solidariedade simbólica ao desconforto de agir de forma responsável.</p>
<p>A Europa está a um voto por maioria qualificada de pôr fim a 30 anos de cumplicidade com o mercado. A única questão é se os seus governos terão a honestidade necessária para dar esse passo.</p>
<p>……..</p>
<p><b>Esta é uma tradução de um texto de opinião de </b><cite><b>Alberto Alemanno </b></cite><b>que saiu originalmente (em inglês) no </b><i><b>site </b></i><b><a href="https://euobserver.com/221647/eu-leaders-pretend-they-need-unanimity-to-ban-israeli-settlement-products-they-dont/" target="_blank" rel="noopener">EuObserver</a>.</b></p>
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		<title>“Porquê ouvir bófias?”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jul 2026 15:06:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Nas últimas semanas, tomámos a missão de levar a nova investigação Fronteira do Medo, até quem nos ouve. Estivemos em Lisboa, na Oficina Fritta. No Porto, com a Oficina Mescla. E na Cova da Moura, com a Bazofo: mais de uma centena de pessoas ouviu presencialmente o primeiro episódio da série. Em cada evento, a conversa entre as pessoas presente seguiu os seus próprios caminhos. Mas uma questão foi constante: “porquê ouvir bófias?”]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div><img loading="lazy" decoding="async" class="attachment-medium size-medium wp-post-image" src="https://fumaca.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC06084-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></div>
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<p>Nas últimas semanas, tomámos a missão de levar a nova investigação <a href="http://www.fronteiradomedo.pt" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Fronteira do Medo</em></a>, até quem nos ouve. Estivemos em Lisboa, na Oficina Fritta. No Porto, com a Oficina Mescla. E na Cova da Moura, com a Bazofo: mais de uma centena de pessoas ouviu presencialmente o primeiro episódio da série. Em cada evento, a conversa entre as pessoas presente seguiu os seus próprios caminhos. Mas uma questão foi constante: “porquê ouvir bófias?” A terminologia  denota uma ideia já formada sobre polícias, que acho comum entre quem se apercebeu ao longo da própria vida que a polícia, enquanto instituição, nunca servirá para proteger quem é oprimido, mas para proteger quem oprime. Portanto, porquê ouvir o braço armado da opressão? Porquê discutir as queixas de agentes sobre condições de trabalho, como fazemos no terceiro episódio da série (lançado hoje publicamente, em <a href="https://us.list-manage.com/17SARvznJYa?e=e1b8ebde34&amp;c2id=422014df7ee94d9ead3ef5b3876932b4&amp;m=vtNWzXWABURCqR_NLKiJKvu4XLBhP-SrWg6CyPCe_KUjD1-VAE-5UHlDGe6w" target="_blank" rel="noreferrer noopener">qualquer aplicação de podcasts</a>, e no <a href="http://www.fronteiradomedo.pt" target="_blank" rel="noreferrer noopener">site interativo</a>, produzido com a revista digital Divergente), ou seguir as suas lutas sindicais, como no <a href="https://fronteiradomedo.pt/capitulo/uma-gripe-azul/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">quarto capítulo </a>(disponível para quem tem uma <a href="http://www.fumaca.pt/contribuir" target="_blank" rel="noreferrer noopener">contribuição recorrente ativa</a>)?</p>
<p>Até a mim me inquieta. Sou anarquista, abolicionista. Já fui espancado por agentes várias vezes. Já vi gente amiga ainda mais violentada do que eu. E, depois de anos a investigar <a href="http://www.fronteiradomedo.pt" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Fronteira do Medo</em></a>, fica cada vez mais claro para mim que devemos imaginar mundos sem polícia, e organizar-nos coletivamente, sem intermediários, para os criar através de ação direta. Não é uma ideia consensual, defendida pelas redações do Fumaça ou da Divergente. É uma convicção minha, pessoal. Mas que torna fácil compreender quem pergunta: “porquê ouvir bófias?”</p>
<p>Atravessei um caminho labiríntico até encontrar uma resposta. Houve momentos em que achava que não fazia sequer sentido tentar falar com agentes. Outros em que achava crucial. Nos processos de edição coletivos, incluindo as duas redações, muitas vezes discordámos. Mas, no final, consensualizámos que, para compreender o policiamento, é essencial o testemunho de quem o executa diariamente. E, notando que outros meios de comunicação não escolhiam, ou não podiam escolher, fazê-lo de maneira crítica e com a profundidade necessária, deveríamos nós fazê-lo. Não ouvimos polícias apenas para simular ouvir “os dois lados” (até porque histórias complexas têm centenas de lados). Acreditamos que, para compreender os dois séculos que leva o policiamento, é preciso ouvir e desafiar as pessoas pagas para perpetuar este sistema, criado com os estados nação contemporâneos.</p>
<p>Para além disso, tínhamos uma outra ideia. Acreditávamos que se falássemos com polícias com tempo e disponibilidade para tratar os temas que lhes interessassem, eles eventualmente admitiriam o que, há décadas, dezenas de residentes de bairros guetizados, militantes antirracistas, e investigadoras têm defendido: há um policiamento “de exceção” em bairros pobres, com mais brutalidade, e impunidade para a maioria dos agentes transgressores. Talvez até assumissem que se mentia em tribunal para branquear abusos, e sustentar falsas acusações de resistência contra civis. Demos o salto de fé.</p>
<p>Fizemos pedidos online para que nos contactassem, passámos anos a reportar desde manifestações de polícias, escrevemos a sindicatos, perguntámos em cafés ao pé de esquadras. E, no fim, entrevistámos 44 agentes, alguns durante várias horas, em estúdio. A todos eles, disse a verdade: que pretendíamos falar sobre o que os preocupava na polícia, mas, principalmente, sobre brutalidade policial. A todos eles, disse a verdade: que sou anarquista, que acredito na abolição da polícia. Que não acreditamos em jornalismo imparcial, isento, neutro, mas sim em jornalismo transparente, honesto, rigoroso; jornalismo como um método. Aceitaram falar, creio que até se abriram mais.</p>
<p>E, anos depois, podemos dizer que tínhamos razão. No episódio de <a href="http://www.fronteiradomedo.pt" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Fronteira do Medo</em></a> que lançamos hoje, ouves agentes descrever como são violentas as suas condições laborais. Mas os mesmos policiais assumem, depois — como pode ouvir <a href="http://www.fronteiradomedo.pt/contribuir" target="_blank" rel="noreferrer noopener">quem contribuiu para o Fumaça, e para a Divergente</a> no <a href="https://fronteiradomedo.pt/capitulo/ovo-ou-galinha/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">sétimo</a> e <a href="https://fronteiradomedo.pt/capitulo/auto-de-noticia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">oitavo</a> capítulos — que há mesmo uma cultura de falsificação de documentos e policiamento mais violento em bairros guetizados. Foi também por isso que os ouvimos.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://fumaca.pt/porque-ouvir-bofias/">“Porquê ouvir bófias?”</a> aparece primeiro em <a href="https://fumaca.pt">Fumaça</a>.</p>
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		<title>Homens de polícia</title>
		<link>https://indymedia.pt/231259/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jul 2026 15:03:50 +0000</pubDate>
				<guid isPermaLink="false">https://indymedia.pt/231259/</guid>

					<description><![CDATA[Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Feito em parceria com a revista digital Divergente. Ouve este episódio e sabe mais no website oficial da série.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="moz-text-html" lang="x-unicode">
<div><img loading="lazy" decoding="async" class="attachment-medium size-medium wp-post-image" src="https://fumaca.pt/wp-content/uploads/2026/07/BG-300x169.jpg" alt="Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)" width="300" height="169" /></div>
<p><em>Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Feito em parceria com a revista digital <a href="https://divergente.pt/">Divergente</a>. <strong>Ouve este episódio e sabe mais no <a href="https://fronteiradomedo.pt/">website oficial da série</a>.</strong></em></p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TRANSCRIÇÃO</strong></h2>
<p><strong>G. C. Viegas: </strong>Usa auscultadores para ouvir este episódio. Este capítulo contém referências a suicídio. Tens números de apoio na descrição, se precisares de falar com alguém. Em caso de risco, telefona para o 112.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>I</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Há quanto tempo é que tu queres ser polícia?</p>
<p><strong>Hélder Gomes:</strong> Desde sempre. Aliás, eu lembro-me sempre, sempre. Isto pode ser cliché, mas lembro-me sempre de que não havia… Não encaixava outra profissão.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Hélder Gomes cresceu a saber o que queria ser quando fosse grande. Era instinto, estava-lhe no ADN, conta. Ainda pensou em ser mecânico, como o pai, mas a ideia passou-lhe rápido. Quando no 9.° ano lhe perguntavam pela idade adulta, a resposta era óbvia: queria ser polícia. Em miúdo, viu a família desmoronar-se. O divórcio dos pais envolveu alcoolismo e violência física, os tios consumiam drogas. E, destes escombros, foi crescendo uma certa admiração pela profissão.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>E via sempre o papel da polícia que, felizmente, para mim, a imagem é que a polícia vinha ali um bocadinho resolver as coisas. Ou seja, pode ter ficado incutido em mim: “Olha, eu para conseguir resolver isto aqui na sociedade e na minha família… Talvez seja um percurso que eu tenha…” Por instinto.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O sonho de ser polícia passou a comandar a vida de Hélder Gomes. Encarava-o como uma missão. Quando acabou o ensino básico, escolheu desporto, para se preparar fisicamente. Depois, voluntariou-se para o exército: queria experimentar a vida militar, aquela estrutura hierárquica — com a qual não se identificou. Aos 20, 21 anos, candidatou-se para ser revisor na CP — Comboios de Portugal, mas nunca se deixou distrair.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Mas mesmo na CP, estando lá, no processo de seleção da CP, disse que era o meu desejo e a minha ambição profissional — fazem essas perguntas clichês: polícia. Até ali coloquei-me em risco. Até me levaram a questionar: “Mas você sabe que ao dizer isso, para nós, você está aqui só de passagem?” Eu: “Sim, mas eu não ia ser cínico em não dizer a minha ambição”. Novo, 20 anos…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Foi contratado. Tinha um bom salário. Hélder Gomes diz que foi o maior que alguma vez recebeu; pelas suas contas, limpos era à volta de 1100, 1200 euros, com horas extra e turnos. Estava integrado, conhecia as rotinas, os hábitos, gostava do serviço e sentia-se uma mais-valia. Mas estava só há um ano na CP quando abriu um concurso para novos agentes na Polícia de Segurança Pública.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Levanta-se a questão: o meu sonho. Muitos colegas com quem eu confidenciava e amigos: “Epa, não vais nada. Não estás bem. Achas que vais ganhar na polícia isto?” Vou dizer uma expressão: “Na polícia é uma merda.” Mesmo polícias com quem eu trabalhava na CP: “Epá, não te metas nisso. Se quiseres, eu troco já de farda contigo”. Isto é verídico. E eu disse: “Epá, isto deve ser um polícia frustrado. Não me vou deixar ir abaixo ou não vou deixar de seguir o meu sonho, porque apanhei um ou dois frustrados.” Mas o problema é que eu apanhava quatro ou cinco e era difícil encontrar alguém que me motivasse. E disse: “Epá, se isto é tão fod– tão mau, então é porque é aqui mesmo.” Eu sempre fui assim na minha vida. Se isto é mau e eu quero isto, então é isto que tenho que explorar. Tenho de ver que isto é mesmo mau para tomar uma decisão, porque eu não vou viver comigo e dizer: “Pa, não segui o meu sonho.” A ver histórias policiais… “E se eu fosse polícia? E se eu tivesse tido a minha carreira?”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A entrada no curso de formação de agentes da Escola Prática de Polícia obedece a uma série de <a href="https://files.diariodarepublica.pt/2s/2025/01/014000001/0000300025.pdf">regras</a>: ter nacionalidade portuguesa e entre 18 e 30 anos de idade (com uma exceção para militares); medir mais de 1,60m (para as mulheres candidatas) e 1,65m (para os homens); apresentar as vacinas em dia; ter o 12.º ano de escolaridade ou equivalente; não ter condenações judiciais que impeçam de exercer a profissão; não ter reprovado, mais do que uma vez, no próprio curso de formação de agentes, nem ter sido afastado da escola prática por falta de mérito ou sanção disciplinar; não estar abrangido pelo estatuto de objetor de consciência; e ter “bom comportamento moral e civil”.</p>
<p>Cumprindo isto, as pessoas candidatas são avaliadas em cinco áreas: fazem testes psicológicos, um exame médico, uma entrevista, uma prova escrita, “de conhecimentos”, e provas físicas.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>E comecei logo também, depois, a treinar para me sentir apto.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Antes de entrares?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Estava na CP, já estava a treinar.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Como assim?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Na garagem. A minha mãe até deixou de estacionar o carro na garagem, porque marquei no chão as provas, que era uma fita, marquei no chão os dois metros que tens que saltar. Marquei na parede…. Vê la como eu me lembro perfeitamente… Isto parece aquelas coisas de criança. E é um sonho de criança. Marquei na parede a altura que eu tinha que tocar com a mão. E, depois, as barras fazia no ginásio…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Hélder Gomes passou em todos os exames e foi aceite na escola prática. Estava pronto para fazer o sonho arrancar.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>No meu fim-de-semana de despedida da CP… Já tinha desvinculado… Eles combinaram uma almoçarada com um jogo de futebol. “Vamos lá jogar à bola.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Caiu e magoou-se no punho. Diagnóstico: entorse. Faltavam uns dias para começar o curso. Com dores e ligaduras, apresentou-se na Escola Prática, em Torres Novas, no distrito de Santarém. Ao fim dos primeiros exercícios, já estava a ser atendido pelo médico de serviço.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>“Ou aguentas ou tens que seguir com vida por outro caminho.” Epá, para um miúdo de 21 anos, eu logo: “O quê? Epá, o homem tem razão. O homem tem razão. Eu vim para ser polícia, caralho… Quero ser polícia. Não vou andar aqui ‘Ai, ai, ai’ como alguns que andam ‘Dói-me a perna’, e não querem fazer exercício. Não. Eu quero fazer só que estou todo limitado.” Posso-te dizer, Ricardo, que aquilo deu-me uma, sei lá, uma revolta, uma motivação… “Não, não!”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O médico deu-lhe cinco dias para recuperar. Mas as dores continuavam. Regressou ao posto de saúde, mas garante não ter pedido mais nada: só uma autorização para fazer as flexões de outra maneira.</p>
<p><strong>Hélder Gomes:</strong> “Você está maluco? Epá, mas não vais conseguir fazer isso e não sei quê, que isso de punhos custa muito mais”. E eu: “Epá, não interessa.” Isto é verdade. E ele passou-me uma requisição. Eu era o especial na minha turma. Só os da minha turma é que sabiam que eu fazia as flexões com as pontas dos dedos. Com as pontas dos dedos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Só porque não querias ir embora?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Só porque não queria ir embora.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Hélder Gomes sabia que, com as pontas dos dedos, teria mais dificuldades nas flexões. Por isso, esforçou-se para ser o melhor em todas as outras áreas. Treinou elevações em barras; pesquisou na internet técnicas de corrida. Tornou-se um aluno exemplar na turma, mesmo nas flexões, conta ele.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>“Aquele caralho!”, que era a expressão, não é? “Aquele caralho está ali com a ponta dos dedos, que nem sei onde é que ele vai arranjar esta forma de fazer as flexões, consegue tirar 20 e vocês aqui para tirar 10 é o deus me livre!”.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Tu saíste de lá com um ego gigante.</p>
<p><strong>Hélder Gomes:</strong> Sim. Sim.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Na Escola Prática de Polícia também há férias de verão. E, naquele agosto de 2007, Hélder Gomes continuava com dores. Voltou a casa, foi ao médico. E um raio-x depois, o ortopedista informou-o de que precisaria de ser operado o mais rápido possível. Tinha, afinal, o escafóide partido. É um pequeno osso no punho.</p>
<p>Hélder Gomes diz que pediu à PSP para antecipar os testes físicos de fim do curso logo para o início do segundo período. Passou. Foi operado logo a seguir. Mas isso criou outro problema.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Era mais ou menos em outubro. E ia ter de ficar engessado. Qual era a mão que eu tinha…? Eu sou direito. E os testes teóricos eram para o final do ano. Eu: “Fogo!” Ele: “Como é que vai fazer isto?” Eu: “Fogo, meu, que merda do carago!” Foi mesmo. Eu: “A minha vida, carago. Não, tenho que acabar esta merda.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Conta que a escola arranjou uma solução: nos dias de exame, teria um elemento da polícia com ele, a escrever tudo o que ditasse. Como não conseguia escrever apontamentos nas aulas, diz que lia a matéria três vezes mais. Era muito exigente com ele mesmo. Tanto que nem as atrações locais o distraiam.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Porque os meus colegas diziam: “Epa, vamos sair.” Eu posso dizer que não saí nada.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Em nove meses?</p>
<p><strong>Hélder Gomes:</strong> Não. Tanto é que eu posso-te confidenciar que quase todos os polícias sabem o que é a Kikas, em Santarém, e eu não sabia o que era a Kikas quando vim para a polícia. “Então, como é que a Kikas?”, o pessoal aqui das praxes. E eu: “O que é a Kikas?”, “Então tu vieste de Torres Novas, não sabes o que é a Kikas?”, “Não, não sei. Se eu estava sempre a estudar, sempre empenhado”.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O Kikas, ou Bar La Siesta, em Santarém, era, <a href="https://noticiasdoribatejo.blogs.sapo.pt/1488631.html">na definição do <em>Notícias do Ribatejo</em></a>, “a casa de alterne mais famosa do país”. O clube de <em>strip</em> <a href="https://omirante.pt/sociedade/2023-08-17-Kikas-retira-se-cansada-da-noite-e-deixa-La-Siesta-a-espanhois-c9b787b8">mudou de gerência</a> em agosto de 2023. A dona, Maria da Conceição, ou Kikas, <a href="https://www.publico.pt/2023/09/03/sociedade/noticia/kikas-empresaria-noite-arguida-lenocinio-branqueamento-premiada-turismo-portugal-2061936">foi acusada pelo Ministério Público</a> de branqueamento de capitais e de lenocínio — de lucrar com e incentivar a prostituicao de outra pessoa. Anunciou a <a href="https://www.publico.pt/2023/08/21/local/noticia/kikas-reformouse-vendeu-casa-nocturna-noticia-correu-pais-2060834">reforma</a> e vendeu o espaço a empresários espanhóis.</p>
<p>Na parte que lhe toca, Hélder Gomes terminou o curso. <a href="https://files.dre.pt/2s/2008/01/011000000/0208702099.pdf">Ficou no lugar 36</a> de quase 1000 candidatos, nas notas finais. Quando saiu da escola, foi colocado como agente no comando de Lisboa. Aí, ficou por nove anos, a mais de 300 quilómetros de casa, na Póvoa de Varzim, distrito do Porto. Foram nove anos em que Hélder Gomes conta ter feito de tudo: do trabalho administrativo à patrulha de ruas, passando pela investigação criminal. Mas o que foi constante foi o sentimento de que a profissão com a qual sonhava desde jovem não era exatamente o que imaginara.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Fiquei descontente com a forma como me tratavam. Ser da polícia é pau para toda a obra. E não é porem-me a mim a trabalhar 12 horas sem uma justificação plausível… Trocam-me constantemente de turno. Agora, porquê? Falta de recursos humanos, percebes? E eu não aceitava isso. Eu dizia: “Tenho vida. Faço vida aqui em Lisboa. E não posso estar constantemente a sentir esta oscilação. Isto está-me a afetar.” Pronto, era o Hélder que estava a mandar vir com… Pensavam que eu estava a mandar vir com o chefe Zé Manuel ou com o subcomissário Zé Manuel, percebes? “Não é assim e aqui é como eu quero!” Não há sensibilidade nenhuma.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Hélder Gomes sentia-se desmotivado, desprezado. Aqui, num vídeo que publicou no Facebook.</p>
<p><a href="https://www.facebook.com/watch/?v=3196149190426719"><strong>Hélder Gomes</strong></a><strong>: </strong>Não era merecedor das horas que eu tirava de sono, de horas que eu tirava a mim mesmo, de horas que eu tirava à minha família. Porque isso custou-me ataques de ansiedade, ataques de pânico, stress, noites mal dormidas, enfim, enfim…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Não desistiu da PSP. Pediu ajuda ao gabinete de psicologia.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Quanto mais a psicóloga me falava, a psicóloga da polícia, me caracterizava a estrutura hierárquica… Eu mais ficava exaltado, do género: “Eu andei nove anos, o meu sonho, andei-me a dedicar para isto… A esforçar-me, a acreditar que isto podia ser o meu percurso profissional, e tenho que lidar com este sistema, tenho que lidar com isto tudo mal pensado. É só para resultados, é só detenções?”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E, da psicóloga, foi enviado para um psiquiatra.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>E ele basicamente disse: “Você tem que aceitar isto. Você na polícia sabe que as coisas funcionam assim, vão funcionar sempre assim. Há uma hierarquia que tem que ser respeitada.” Eu disse: “Independentemente, se me faltam à dignidade? Se falam para mim como querem? Se fazem coação? Se me ameaçam e se concretizam essas ameaças?” Ele disse-me: “Olhe, sabe aqueles macaquinhos: não ouve, não vê, e não fala? Nada. É assim que você tem que andar. Você aqui passa o seu percurso profissional tranquilo.” Eu disse: “Está a brincar comigo?”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Foi depois destas consultas que, conta, entrou de baixa. Era 2016. Já não conseguia deixar andar.</p>
<p>Esteve três anos sem ir ao trabalho. Diz que se lembra de pouco desse período. Sentia-se um peso para a polícia, para o Estado. Não queria acabar como alguns dos colegas que, ao fim de 40 anos de serviço, vão para a rua dizer que foram enganados. E, antes que a polícia o destruísse, saiu.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Agora, há polícias com esta, se calhar, com este sentimento que estava a dizer “Este gajo está todo fodido”… a trabalhar. “Eu não estou fodido, não é?” Já dizia o outro: o maluco diz que não é maluco. Mas há elementos assim. Diariamente. Porquê? Porque precisam de ganhar o dinheiro. Eu disse: “Isto está-me a destruir. Isto é ridículo demais. Estes gajos estão-se a cagar para mim, pior do que aquilo que eu pensava.” Levantam-me processos disciplinares porque eu falei-te mal, ou enfrentei, ou confrontei de forma desadequada o superior, mas ninguém, ao final de três meses, vem-me pedir satisfações, a arma, nada. Eu peguei, decidi entregar a arma. “Pá, deixa-me libertar disto e sair destas coisas, destes núcleos, que são um peso para mim.” Sem nada contra eles, mas acaba por ser tóxico — pessoas que estão na polícia com problemas há dez anos, não os conseguem resolver, emocionalmente estão ali… Com comprimidos, mas não saem da polícia. Eu ia ter tendência a seguir aquele rumo. Eu disse: “Não, não, não, não.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A PSP garante não ter registo de quaisquer alegações de perseguição. Hélder Gomes foi alvo de, pelo menos, dois processos disciplinares por responder mal a superiores hierárquicos. No primeiro, de 2012, depois de discutir com um superior, terá tentado entregar a arma e todo o material de serviço, por não estar em condições psicológicas.</p>
<p>Hélder Gomes saiu definitivamente da PSP <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho-extrato/3623-2019-121784687">em 2019</a>, mas os polícias com quem falámos retratam problemas semelhantes e denunciam abusos semelhantes: precariedade, sobrecarga laboral, chefias tóxicas, falta de acompanhamento psicológico. Neste episódio, falamos da origem da polícia e de que se queixam os polícias.</p>
<p>Esta é <em>Fronteira do Medo</em>, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Episódio 3: <em>Homens de polícia</em>. Seja toda a gente bem-vinda ao Fumaça, em parceria com a Divergente. Eu sou o Ricardo Esteves Ribeiro.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>II</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Para se entender quem são os polícias, ajuda perceber de onde vem a polícia, como nasceu. A PSP traça uma herança milenar, anterior a Jesus Cristo. No seu site, na página <a href="https://www.psp.pt/Pages/sobre-nos/quem-somos/historia.aspx?lang=pt">sobre história</a>, a instituição começa o percurso ainda nos tempos narrados pelo Velho Testamento cristão. Descreve como o povo judaico criou uma polícia assim que se libertou da escravatura — com intervenção divina, conforme descrito no <em>Livro do Êxodo</em>; e como, até no “longínquo Egipto faraónico”, de onde, pela narrativa bíblica, fugia o povo hebreu, existia já um “Chefe de Polícia”.</p>
<p>Logo a seguir, a PSP explica que, em Portugal, “o primeiro corpo de agentes policiais foi criado por D. Fernando I, os chamados Quadrilheiros”. Ora, o reinado de D. Fernando I — “o Formoso”, para quem já se esqueceu do que aprendeu na escola — começou no século XIV, há coisa de 650 anos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Isso não é verdade?<br />
<strong>Maria João Vaz: </strong>Isso é uma forma que…. Eles exerciam funções de polícia, mas não tem nada a ver com a polícia atual. Eram pessoas que se voluntariavam para isso. Não têm… E, além disso, a forma de agir era completamente diferente daquilo que foi pensado para as polícias modernas. As polícias modernas são pensadas como pessoas que andam na rua, com uniforme, e que é suposto a presença delas dissuadir a prática do crime.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Maria João Vaz, historiadora, <a href="https://ciencia.iscte-iul.pt/authors/maria-joao-vaz/cv">professora no ISCTE, em Lisboa</a>, ligada ao Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, e autora do livro <em>O Crime em Lisboa 1850-1910</em>, defende que sempre existiu controlo social, mas não a polícia, enquanto um corpo profissionalizado.</p>
<p>Susana Durão, antropóloga, <a href="https://www.susanadurao.org/">professora no Instituto de Filosofia e Humanidades</a> da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo, no Brasil, e autora de vários livros sobre as polícias em Portugal, como <em>Patrulha e Proximidade: Uma Etnografia da Polícia em Lisboa</em>, concorda.</p>
<p><strong>Susana Durão: </strong>Na verdade, existem várias narrativas. Existe a narrativa oficial da história feita por policiais, feita pelos intelectuais da polícia, digamos assim, que é aquela história que remete aos quadrilheiros, não é? O final da Idade Média, a ideia de que havia, sempre houve, algum tipo de profissional da segurança e do controlo, não é? Do controlo social. Então, quando se quer fazer uma espécie de legitimação da ideia de policiar e para dar a ideia de uma grande longevidade da instituição policial, usa-se muito essa ideia de remeter a origem aos quadrilheiros.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Maria João Vaz não acredita que todos os polícias tenham um olhar obtuso sobre o passado. Mas admite que a produção de conteúdo sobre a história da polícia, feita por membros da instituição, esbarra na tentativa de produzir um olhar pré-determinado.</p>
<p><strong>Maria João Vaz: </strong>Quer dizer, evidentemente que a estrutura, atualmente, tem sempre a vontade de preservar a memória da instituição. É mais ou menos como todas as instituições que tentam preservar a sua memória. Eu, há uns tempos, estive com alguns estudantes no Benfica, no clube de futebol. Aquilo é fantástico, é uma coisa… O museu é muito interessante, eles têm um centro de documentação… Mas tudo o que tem a ver com derrotas do Benfica, não está lá. Isso foi descartado. Aquilo é para preservar a memória do clube, mostrar os grandes feitos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> É produção de memória e não de conhecimento.</p>
<p><strong>Maria João Vaz: </strong>Exato. E, muitas vezes, estes polícias, que também se dedicam… Alguns não, não é de todos… Mas os que se dedicam a fazer a memória institucional da instituição, evidentemente é uma memória institucional, privilegia-se aquilo que é bom para a instituição. O resto omite-se.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>“Polícia” não quis sempre dizer a mesma coisa: a definição foi-se transformando ao longo do tempo. A palavra nasceu com o colapso do feudalismo e a emergência do Estado moderno — o Estado-nação. Dois momentos históricos que se entrecruzam, sem data certa, um ano que se possa apontar como casa de partida. Digamos a partir do século XV. Por essa altura, a palavra “polícia”, pela Europa fora, passou a significar gestão da ordem e da vida em sociedade. Talvez aquilo a que hoje chamamos “administração pública”, se quisermos esticar substancialmente o termo.</p>
<p>Na segunda metade do século XVIII, já cabia na descrição do trabalho de polícia tudo o que da autoridade pública fosse responsabilidade, um rol que parecia não ter fim: a defesa do Estado contra insurreições; a proteção de escravizadores contra escravizados; abastecimento de água e comida; a limpeza e manutenção de ruas e edifícios; o controlo da mendicidade e da prostituição; a promoção das “boas maneiras” do povo nas missas e festividades. À medida que se ia libertando parte da população do domínio absoluto dos senhores feudais, era preciso manter o controlo — o que comumente se chama “civilidade”.</p>
<p>Às pessoas que executavam essas tarefas chamava-se <em>homens de polícia</em>. Obviamente, aos olhos de hoje, não seriam considerados… polícias. Funcionários públicos, com certeza, mas não polícias.</p>
<p>O controlo social, isso é certo, foi sendo responsabilidade de diferentes pessoas: vizinhos; padres; guardas e milícias, privadas, ou de caráter militar; regedores, funcionários que representavam a administração estatal; cabos da polícia, que eram os auxiliares dos regedores; e até, como já referimos, os quadrilheiros — que, como diz Susana Durão, eram cidadãos comuns pagos para cuidar de, e guardar os bairros, as casas, as vidas dos outros.</p>
<p><strong>Susana Durão:</strong> Eram como que milícias, no sentido mais antigo da palavra. Eram cidadãos comuns contratados para esse efeito. Ou seja, não havia uma organização central, não havia uma emanação de ordens, não havia uma organização no trabalho, não é?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Só há coisa de 250 anos é que se iniciou a transformação do vocabulário que faz daqueles que antes eram os <em>homens de polícia</em>, os <em>polícias</em> de hoje. O que significa que, se considerarmos que a Arqueologia é consensual quanto à existência de seres humanos — <em>homo sapiens</em> — há pelo menos 300 mil anos, bem vistas as coisas, a polícia como hoje a conhecemos existe há menos de 0,1% da história da humanidade.</p>
<p>A polícia é uma <a href="https://www.susanadurao.org/wp-content/uploads/2018/02/Book-_-003.pdf">criação da sociedade dos séculos XVIII, XIX</a>. Primeiro, o Iluminismo forçou o debate sobre a separação dos poderes legislativo, executivo e judicial. Depois o Liberalismo, por sua vez, apontou para a defesa da liberdade individual e da propriedade privada. E, daí, emergiu uma das ferramentas mais importantes do Estado liberal: a “segurança pública”. Hoje, o cientista político Mark Neocleous defende que, desde esse momento, “o tema central do liberalismo não é a liberdade, mas a segurança”. E que foi a partir desta base teórica que se criou a polícia contemporânea.</p>
<p>Pela Europa central e ocidental, é também por essa altura que começam a emergir as atuais instituições policiais. Em Portugal, é por volta da década de 1820 que as cortes nacionais começam a discutir este novo conceito de <em>polícia</em>. A <a href="https://www.parlamento.pt/Parlamento/Documents/CRP-1822.pdf">constituição de 1822</a> deixou logo claro que o objetivo daquele documento era manter a (cito) “liberdade, segurança, e propriedade de todos os portugueses”.</p>
<p>Já durante estas discussões fundacionais, havia em Portugal quem defendesse a abolição do policiamento, o fim de todas as instituições de “perseguição e intolerância”. E, claro, também quem exigisse a vigilância de toda a sociedade, para prevenir o crime. E esses debates iam sendo moldados pelos vários modelos de polícia que se testavam pela Europa.</p>
<p>A historiadora Maria João Vaz, novamente.</p>
<p><strong>Maria João Vaz:</strong> E o modelo mais liberal e mais bem visto é o da Metropolitan Police de Londres. Portanto, esse é que era mesmo… Era o modelo da polícia liberal. Um homem com ar assim pacato, mas uniformizado, desarmado, que andava ali pelas ruas. E a população toda ficava calma. Passava a portar-se bem porque andava ali o polícia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Para Maria João Vaz, a primeira tentativa de ter uma polícia moderna em Portugal é a <a href="https://legislacaoregia.parlamento.pt/V/1/15/107/p261">criação das guardas municipais de Lisboa</a> e do Porto, em <a href="http://www.arquivomuseugnr.pt/entrada.aspx?IDMenu=999999&amp;P=Guarda%20Municipal&amp;Titulo=Guarda%20Municipal&amp;IdiomaActual=PT">1834 e 1835</a>. À imagem desse modelo de polícia liberal, foram projetos de instituições desarmadas responsáveis pela prevenção do crime. Mas não tardaram a falhar. O país acabava de sair de uma guerra civil e, em resposta à instabilidade política e à violência generalizada, as guardas municipais armaram-se e militarizaram-se. Em pouco tempo, tornaram-se instrumentos ao serviço do poder político, em vez de meros corpos profissionais dedicados a fazer cumprir a lei.</p>
<p>Só mais de 40 anos depois se criou o que a historiografia portuguesa considera ser a primeira polícia moderna do país. A <a href="https://books.google.pt/books?id=LL4WAAAAYAAJ&amp;printsec=frontcover&amp;source=gbs_ge_summary_r&amp;cad=0#v=onepage&amp;q&amp;f=false">Lei da Polícia Civil</a> é publicada a 2 de julho de 1867, um dia depois da <a href="https://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/abolicaopenamorte.aspx">abolição da pena de morte</a> para os chamados “crimes comuns”. O governo é autorizado a criar corpos de polícia em todas as capitais de distrito, começando por Lisboa e Porto. Isto há pouco mais de 150 anos. Quase 500 anos depois da criação dos quadrilheiros, a que a PSP chama o primeiro corpo de agentes policiais do país. Nas contas da Bíblia, uns três mil anos após o êxodo do povo hebreu do Egipto, onde a PSP situa a criação de um chefe de polícia.</p>
<p>A versão da instituição sobre a própria origem adere a uma narrativa: a de que a polícia surgiu como resposta ao aumento da criminalidade e da insegurança por a sociedade ter chegado (<a href="https://www.psp.pt/Pages/sobre-nos/quem-somos/historia.aspx">cito</a>) “a um estado verdadeiramente doentio”.</p>
<p>Há outra perspetiva: as <a href="https://journals.openedition.org/lerhistoria/2973">polícias foram criadas</a> como instrumento para manter o poder e o controlo sob uma nova classe trabalhadora industrial.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Em qual destas ideias é que a Maria João vai?</p>
<p><strong>Maria João Vaz: </strong>Eu acho que não fui mesmo por nenhuma delas, porque isso são posições muito extremadas. É um bocado caricatura aí, está a ver? […] Evidentemente que a criação das polícias corresponde a uma vontade do Estado de exercer o seu poder sobre o território e as populações. Evidentemente que o Estado é dominado pelas elites, portanto é a vontade dessas elites de dominar e de controlar o resto da população, sem dúvida. Que isso tenha sido justificado com a criação da polícia… Não acho que tenha a ver diretamente com o aumento da criminalidade, que é uma coisa que… A existência, o aumento ou não da criminalidade, muitas vezes tem a ver com sentimentos de insegurança da população, que faz mais queixas, capacidade mesmo de controlar e de tomar nota mais da existência dos crimes… Porque as pessoas ficam muito mais inseguras, e estão muito mais atentas, e não deixam passar nada. Qualquer coisa vão apresentar queixa… Isto faz um aumento. […] Portanto, eu não acho que tenha sido um aumento, claramente, do crime que levou à criação das polícias, como muitos justificam, assim naquela posição mais dura…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>As funções da polícia moderna tinham tanto de combate ao crime como de “fabrico da ordem” ou “abolição da desordem”, nas palavras do cientista político Mark Neocleous. O Regulamento para os Corpos de Polícia Civil enumerava-as: patrulhar a cidade para proteger “eficazmente a segurança das pessoas e da propriedade e os demais direitos dos cidadãos”; vigiar reuniões públicas; fiscalizar casas de empréstimos e penhores; impedir o uso e porte de armas proibidas; reprimir a mendicidade, a vadiagem e as pessoas de (cito) “mau comportamento”; evitar que as “mulheres públicas” — como chamavam às trabalhadoras sexuais — causassem escândalo ou impedissem o trânsito; e também combater incêndios e fiscalizar a residência de estrangeiros.</p>
<p>Pelo levantamento de Maria João Vaz, nas primeiras décadas do Corpo de Polícia Civil de Lisboa, o crime registado era quase em absoluto praticado por pessoas pobres. A historiadora conta que as descrições na imprensa — dos esporádicos casos em que gente rica cometia crimes — vinham acompanhadas de explicações desculpantes. O crime para os pobres era a norma; para os ricos era um desencaminho pontual.</p>
<p>Pretendia-se, analisa Maria João Vaz, preservar “uma vida harmoniosa”, em que os ricos se mantinham ricos e os pobres se mantinham pobres, mas sem morrerem à fome.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> As polícias são sistemas de perpetuação de desigualdades?</p>
<p><strong>Maria João Vaz: </strong>Se a lógica da sociedade é baseada em desigualdades, a polícia o que tem é de zelar pela manutenção dessa ordem, certo? Dessa ordem social e política. E pelos interesses das elites, evidentemente. Por isso, evidentemente que vai ser um mecanismo de perpetuação dessas desigualdades. Mas a polícia não tem a tarefa de promover a igualdade. Não é essa a tarefa que ela tem. É promover a ordem, certo? E a segurança.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Em Lisboa, o povo revoltou-se. As primeiras estatísticas criminais pós-criação da Polícia Civil mostram que mais de um quarto das detenções anuais tinham sido por crimes contra a ordem e tranquilidade pública — onde se incluíam desobediência, falta de respeito à autoridade e intromissão no serviço policial. Nos 15 anos seguintes, esses crimes levaram a cerca de 40% de todas as detenções, a segunda razão mais comum para se ser detido.</p>
<p>A opinião pública contradizia-se. Em 1900, lia-se na revista <em>Galeria de Criminosos Célebres em Portugal</em>: “Hoje, graças à tão censurada polícia, podemos atravessar os bairros mais labirínticos e excêntricos da capital, a toda a hora da noite, com uma bolsa de ouro em cada mão, que ninguém nos toca.” Mas, também, a páginas tantas, se escrevia: “O que toda a gente se lembra é que a polícia prende, e como prende não é boa pessoa. Ódio, pois, à polícia. […] O povo frequentador dos bairros turbulentos está constantemente em conflito aberto com os agentes da autoridade.”</p>
<p>E, para resolver este conflito, o que fazia esta polícia civil? Reforçava o exercício da autoridade.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Isto é um ciclo vicioso?</p>
<p><strong>Maria João Vaz: </strong>É. Mas, perante este confronto, que era uma escalada, normalmente esta coisa só tinha um fim quando os polícias civis desatavam a apitar e chamavam a Polícia Municipal, que, depois, aparecia em cavalo, armada, e tal, e ponha fim à coisa. Porque… Repare, a população não reconhecendo autoridade delegada que os polícias têm… Eles tinham também ideias do que é justo e que não é justo. Ideias próprias daquilo que é justo e que não é justo. Viam a polícia a praticar qualquer coisa que eles achassem que não estava justo, evidentemente reagiam. E é permanente. Os desentendimentos são permanentes.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Os polícias que compunham o Corpo da Polícia Civil de Lisboa e do Porto eram, essencialmente, homens das classes baixas, vindos da província para as cidades à procura de um emprego estável. “Polícias e ladrões vinham dos mesmos estratos sociais”, diz Maria João Vaz.</p>
<p>No fim do século XIX, Lisboa já era uma cidade altamente estratificada. Nos primeiros quase 40 anos de polícia civil na cidade, o número de habitantes da capital mais do que duplicou: ultrapassou as 350 mil pessoas à <a href="https://censos.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&amp;xpgid=censos_historia_pt_1900">entrada do século XX</a>. Nesta altura, cerca de 40% da população do concelho de Lisboa tinha nascido fora do distrito. Entre os mil homens da polícia civil, nove em cada dez agentes eram de fora da cidade. A maioria, de concelhos e freguesias rurais.</p>
<p>Mas, se Lisboa mudou muito desde o século XIX, o perfil destes agentes nem tanto. 150 anos depois da criação da primeira polícia moderna, os agentes que patrulham as duas grandes cidades do país podem continuar a ser descritos como há um século e meio, nos primórdios da instituição: proletários de fora dos maiores centros urbanos trazidos para policiar proletários citadinos.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>III</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Não é fácil entrevistar polícias. Não falo sequer da dificuldade de entrevistar alguém que é polícia. Falo da dificuldade de chegar até essas pessoas. No início desta investigação, não conhecia nenhum agente da autoridade. Mas essa nem foi a maior dificuldade. A real barreira foi outra: a própria polícia; a instituição.</p>
<p>Para esta reportagem, focamo-nos na PSP, a Polícia de Segurança Pública. É ela que gere o policiamento das áreas suburbanas de Lisboa e do Porto, onde se situam muitos dos bairros guetizados de Portugal. Foi também a PSP que, na passagem de ano de 2015 para 2016, interveio na Praça Dr. Fernando Amado, à frente do Café Sousa e Monsanto, na Zona J, em Chelas, quando Pedro Lopes e os amigos festejavam a entrada do novo ano. E é na PSP que trabalha o agente Paulo Gonçalves, que diz ter sido agredido por Pedro Lopes.</p>
<p>Ora, a Polícia de Segurança Pública tem como um dos sete <a href="https://www.psp.pt/Documents/Instrumentos%20de%20Gest%C3%A3o/Pol%C3%ADtica%20de%20Informa%C3%A7%C3%A3o/Pol%C3%ADtica%20de%20Informa%C3%A7%C3%A3o%20da%20PSP.pdf">princípios da sua política de informação</a> a (cito) “disponibilidade para a comunicação com os órgãos de comunicação social”. Mas, desde 2019 e quase até perto do fim desta investigação, a PSP tentou responder ao trabalho do Fumaça e da Divergente com um boicote quase total.</p>
<p>Não vamos entrar em detalhe nas obrigações legais do regime de acesso à informação administrativa e dos princípios de administração aberta. Mas temos de explicar por que não vais ouvir representantes da direção nacional da PSP a responderem às acusações que surgem neste e nos próximos episódios.</p>
<p>A PSP recusou-nos 12 entrevistas. Queríamos falar dos relatórios internacionais sobre brutalidade policial, das reivindicações de sindicatos de polícias e de outros temas de que vais ouvir falar nesta série. A umas, a direção nacional da PSP, na altura liderada por Manuel Magina da Silva, disse não ter nada a acrescentar. Para outras, nunca conseguiu encontrar espaço na agenda. Durante esta investigação de sete anos, a PSP autorizou uma única entrevista: sobre a formação de oficiais de polícia.</p>
<p>A direção seguinte da PSP, de José Barros Correia, chegou a aceitar responder a perguntas por escrito. Recuou um mês depois, porque não era “conveniente” pronunciar-se enquanto a Inspeção-Geral da Administração Interna tinha um inquérito aberto por um agente da PSP me ter agredido a mim à bastonada, enquanto cobria uma manifestação, em dezembro de 2023. Já o atual diretor nacional, Luís Carrilho, recusou dar-nos uma entrevista por questões de agenda, apesar de termos dado um prazo de seis meses para encontrar uma hora.</p>
<p>Sendo claro: a PSP não é obrigada a vir ao estúdio do Fumaça. Mas, por lei, como quase todas as instituições públicas, <a href="https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=2591&amp;tabela=leis&amp;ficha=1">tem o dever</a> de, em dez dias úteis, responder a todos os pedidos de acesso a informação e a documentos. Isto quer dizer que, sempre que pedimos, são obrigados a enviar manuais internos, dados estatísticos sobre os recursos humanos ou processos disciplinares, por exemplo. Há exceções, para proteger outros (cito) “interesses fundamentais” do Estado, mas têm de ser bem justificadas.</p>
<p>Só que, em resposta aos nossos pedidos, a PSP violou a lei dezenas de vezes. Não respondeu dentro dos prazos legais, vedou o acesso a informação sem justificação, mentiu sobre a existência de documentos. É um padrão para lá do Fumaça e da Divergente. O regulador estatal para este tema é a <a href="https://www.cada.pt/natureza-e-missao">Comissão de Acesso a Documentos Administrativos</a>. E a CADA, é assim que se chama, já tinha dado quatro pareceres favoráveis a queixas de jornalistas contra a PSP entre 2018 e 2022. Mas a PSP não seguiu um único. A Polícia de Segurança Pública insiste que costuma (cito) “acolhê-los” na “medida da sua exequibilidade”, de acordo com as leis de privacidade e de segurança interna.</p>
<p>Os pareceres da CADA não são vinculativos. E, várias vezes, a PSP não os seguiu. Portanto, durante meses, insistimos por email e telefone, todas as semanas, às vezes durante dias seguidos. Fizemos uma dúzia de queixas a reguladores públicos. Passámos a ter reuniões mediadas por advogados, num processo conciliatório promovido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social. E, em desespero de causa, levámos a PSP a tribunal para forçar o cumprimento das leis de acesso a documentos. Falamos desses processos noutro episódio.</p>
<p>A própria PSP garante que não há um boicote e que presta (cito) “a informação disponível, observando os procedimentos em vigor que são indistintamente aplicáveis a todos os órgãos de comunicação social”.</p>
<p>Portanto, nalguns momentos vais ouvir dados que a PSP acabou, a muito custo, por enviar. Recusou, de resto, todas as oportunidades de contraditório.</p>
<p>Mas a direção nacional não rejeitou apenas dar entrevistas de viva voz. Impediu também que polícias que lá trabalham o fizessem. Depois de o agente Manuel Morais, por exemplo, ter aceitado ser entrevistado pelo Fumaça em 2019, a PSP <a href="https://fumaca.pt/direcao-nacional-da-psp-censura-entrevista-de-manuel-morais-ao-fumaca/">proibiu-o de falar</a>, sob risco de ser punido disciplinarmente.</p>
<p>Dirigentes sindicais são os únicos profissionais da polícia que falam a órgãos de comunicação social sem autorização de superiores hierárquicos. Os restantes membros da PSP têm de pedir luz verde às chefias, sob risco de enfrentarem processos disciplinares. Para ultrapassar esta “lei da rolha”, a bem do interesse público, oferecemos, de forma excecional, anonimato a todos os polícias com quem falámos sem autorização da PSP. Vais ouvir estas pessoas com voz e nomes alterados. Aviso sempre que acontecer.</p>
<p>No total, entrevistámos 44 polícias e ex-polícias para esta investigação: 21 em entrevistas curtas, em manifestações ou conferências; 23 durante horas, em estúdio, em casa ou no escritório deles. Chegámos até eles de diferentes maneiras: apelos nas redes sociais, idas a manifestações de polícias, respostas às nossas <em>newsletters</em>, o tradicional boca a boca. E com um deles… Bem, com um deles foi ligeiramente diferente.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Por acaso, bebia um café. Tu tens moedas para um café?</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues:</strong> Tenho.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Eu e a Sofia da Palma Rodrigues estamos a principiar uma tarde de reportagem em Chelas. Haveríamos de passar umas horas entre entrevistas num vão de escadas de um prédio na Zona J, a uns metros do café onde nos encontramos. Por agora, esperamos confirmação de que as entrevistas que tínhamos agendado vão mesmo acontecer. Sentamo-nos e, enquanto engolimos uma sandes para enganar a fome, o interesse pelo trabalho de quem anda de microfone na mão faz uma funcionária perguntar-nos o que nos traz ali. “Somos jornalistas”, respondemos.</p>
<p>Conversa puxa conversa, juntam-se mais uma e duas pessoas, e acabamos a falar sobre o policiamento do bairro. Contam-nos que a presença da polícia se tinha tornado mais visível nos últimos dias, e também que os polícias que ali vivem são constantemente provocados, e até agredidos. “Este é o café dos polícias, porque estamos debaixo das camaratas”, diz uma. “Mas as camaratas são aqui neste prédio, mesmo?”, pergunto. “Mesmo aqui por cima”, confirmam. “Mas os polícias… moram aqui?”, pergunto, a gaguejar de surpresa. “Vivem mesmo aqui no bairro?”, pergunta a Sofia. “Vivem”, e explica: “Camaratas de um lado e bandidos do outro. E sempre viveram uns com os outros.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Porque é que escolheu ficar a viver nas camaratas?</p>
<p><strong>Carlos (anónimo): </strong>Porque não tenho capacidade financeira para fazer doutra forma. Eu não tenho capacidade financeira para arranjar uma casa, ou um quarto, ou o que seja, a pagar 400 euros, 500 euros por mês. Não consigo. E depois o que é que iria fazer? Iria roubar? Não, eu sou polícia. Iria traficar? Não, eu sou polícia. Eu quero que o meu filho, os meus filhos tenham orgulho em mim.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Carlos — vamos chamar-lhe Carlos — é polícia na PSP há coisa de 20 anos. Quando acabou a Escola Prática de Polícia veio para os subúrbios de Lisboa — por escolha, diz. Na terra onde vivia, a mais de 200 quilómetros de distância, deixou a família.</p>
<p>Chegou a dividir casa com outros polícias nos arredores de Lisboa. Por esta altura, vivia mesmo ali, na Zona J, nas camaratas da PSP, que ficam a pouco mais de 200 metros da praça Dr. Fernando Amado, onde Pedro Lopes e Paulo Gonçalves dizem ter sido agredidos na passagem de ano de 2015 para 2016, e onde esta história começa.</p>
<p>Partilhava a camarata com 43 colegas. Diz que já lá viveram 100, todos homens. Aqui, em vez de centenas de euros por um quarto num mercado a rebentar pelas costuras, pagava um valor que considera “simbólico”: pouco mais de 20 euros por mês.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E como é que são as condições? Como é que… É um quarto? É uma casa? É um apartamento?</p>
<p><strong>Carlos</strong><strong> (anónimo)</strong><strong>: </strong>Não. Aquilo são vários quartos onde estão, em média, sete a dez elementos policiais por quarto.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Sete a dez por quarto?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Sim, sim.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Em beliches?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Sim.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Ou seja, dorme num beliche?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Durmo.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Ah. Não fazia ideia.</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Sim. Não. É. E relativamente há pouco tempo é que alteraram os colchões, porque antigamente os colchões até eram, assim, um bocado… Eram de esponja, muito antigos, assim, já podres mesmo. E agora é que puseram uns melhorzinhos e fizeram algumas reestruturações, já cá há coisa de uns anos, nas camaratas, que ficaram a cargo até dos polícias.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Ou seja, os polícias puseram dinheiro para mudar?</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Tempo. Foram os polícias que em vez de estar a fazer serviço de polícias, se queriam ter algumas condições, foram eles que arranjaram as camaratas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ou seja, há vários anos que divide quarto com mais sete, oito, nove pessoas?</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Exactamente.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E como é que isso funciona?</p>
<p><strong>Carlos:</strong> O ser humano adapta-se. Funciona… Várias pessoas, várias personalidades. Temos que nos entender uns aos outros. Respeitar o espaço de cada um. Tentar fazer o mínimo de barulho possível para não incomodar, porque ainda agora quando eu saí, tinha um colega meu acabado de fazer noite… Não vou estar a fazer barulho. E agora quando chegar não vou estar a fazer barulho que ele quer descansar. Tem que descansar, porque quando também faço noite também tenho que descansar.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Mas o nível de privacidade é baixíssimo.</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Não existe. Eu, se quiser falar com minha família, tenho que vir para o corredor, ou tenho que ir para outro sítio qualquer. Porque vou estar a falar e os meus colegas estão a conversar entre eles e eu não posso exigir que eles se calem. “Olha, não, espera lá que agora vou falar com a minha família. Façam pouco barulho.” Não, não acontece. Eu, se quiser falar com a minha família, tenho que vir para o corredor. Eu e qualquer um.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E depois há espaços comuns? Cozinha?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Uma cozinha, sim.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Há uma cozinha que é usada por quantas pessoas?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Todas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Que são…?</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Quem lá está naquele momento a habitar. Se estiverem lá, suponhamos… Há pessoal que está de folga, não é? E esse pessoal não está lá. Aqueles que não estão de folga que habitam lá estão lá todos. Se lá estiverem 20, são 20 que vão cozinhar e comer ao mesmo tempo. É ficar a aguardar.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E é uma cozinha para essas pessoas todas?</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Uma cozinha. Essa cozinha já esteve lá com 50 pessoas à espera para fazer comer.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E quantas casas de banho?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Cada compartimento tem uma casa de banho. Ou seja, são seis compartimentos e cada um tem uma casa de banho. Uma casa de banho com três chuveiros, duas sanitas para 20, sensivelmente. 20 homens.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A PSP garante que os polícias não são responsáveis pelas obras nas camaratas. Afirma que é a própria polícia ou a empresa pública dona de cada edifício a fazê-las.</p>
<p>Fora este esclarecimento, não foi fácil ter dados sobre o alojamento de polícias. Primeiro, a PSP disse-nos que não sabia quantas pessoas lá moravam, nem quanto pagavam de renda.</p>
<p>Pareceu-nos improvável, portanto, fizemos queixa à CADA. A comissão sugeriu à PSP “reverificar” a existência da informação. Quatro meses depois, recebemos uma parte das respostas.</p>
<p>A PSP garante que nas camaratas do Bairro do Condado havia, no final de 2023, no máximo, seis camas por quarto. E nem estava cheia: tinha duas a três ocupadas. Muito menos do que Carlos relatou uns tempos antes.</p>
<p>No total, a PSP diz que, no comando de Lisboa, há 265 polícias em camaratas. Pagam 19 a 52 euros por mês. Há outros 220 em apartamentos partilhados. Aí pagam, no máximo, 185 euros por uma suite dupla.</p>
<p>Havia, em abril de 2025, mais de 100 camas vazias nestes apartamentos. Os polícias preferem as camaratas, diz a PSP, por serem mais próximas da esquadra. Mas o objetivo é substitui-las pelas casas partilhadas. Para isso, os Serviços Sociais da PSP compraram três prédios para alojar 200 polícias na Amadora e nos Olivais. E vão construir mais quatro no distrito de Lisboa, com fundos europeus. Em 2023, a câmara de Lisboa <a href="https://www.lisboa.pt/atualidade/noticias/detalhe/camara-disponibiliza-18-casas-a-agentes-da-policia-de-seguranca-publica">também</a> cedeu 18 apartamentos para este efeito.</p>
<p>Sobre as condições físicas, em 2016, <a href="https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/tectos_a_desabar_na_elite_da_policia">uma notícia do <em>Correio da Manhã</em></a> dava conta de um quarto lotado na camarata da PSP na Ajuda, em Lisboa. Uma divisão escura que, pela fotografia, parecia ter menos de dois metros a separar as várias camas. Três anos depois, em 2019, fotografias divulgadas pelo <a href="https://www.publico.pt/2019/11/21/sociedade/noticia/policias-revelam-imagens-esquadras-degradadas-1894567"><em>Público </em>mostravam</a> paredes rachadas e com humidade na mesma camarata da Ajuda, e também em Braga, Entroncamento e Faro; e tetos degradados e casas de banho esburacadas em instalações no Porto. Em 2021, a PSP <a href="https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/fotografias-de-instalacoes-degradadas-onde-diariamente-trabalham-os-policias-sao-autenticas">garantiu</a> já ter feito obras. E diz-nos que ainda recuperou mais dez quartos nos anos seguintes.</p>
<p>Por todo o país, tem perto de 300 instalações para alojar polícias. Em 2023, diz que, dessas, 15% não estão em boas condições. Garante ainda ter desenvolvido “intervenções em parte significativa” delas e, até ao fim de 2025, contava terminar uma “empreitada de reabilitação de 1,2 milhões de euros.</p>
<p>Quando perguntamos a Carlos como é viver na Zona J, responde que “nunca teve problemas de maior”. Alguns colegas, sim, já foram ameaçados, já tiveram carros furtados ou danificados, e um deles chegou mesmo a ser agredido e a ficar com o telemóvel partido. Já ele diz sempre ter conseguido encontrar um espaço de diálogo com quem mora no bairro. Mas isso não significa que lá queira viver: desde que veio para a zona metropolitana de Lisboa, há mais de 20 anos, que deseja voltar a casa. Até que isso aconteça, usa as folgas para visitar a família.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E vai todas as semanas?</p>
<p><strong>Carlos (anónimo): </strong>Todas as semanas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ou seja, todas as semanas faz centenas de quilómetros para conseguir ir a casa e voltar?</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Sim. Sim. Cansativo.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E já pensou voltar?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Já pensei ficar lá, sim. Já pensei muitas vezes deixar a profissão e ficar lá.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E já sabia que era assim quando entrou?</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Não. Quando eu cheguei, o que me disseram é que era “Ah, não, dez, onze aninhos, estás lá. E eu: “Ok, dez, onze, é perfeitamente aceitável. Percebo que não seja fácil vir para cá, porque é um comando pequeno”. Mas… mais de 20 anos, nunca pensei. Não estava, não estava mesmo nas minhas perspetivas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Em mais de 20 anos, quantas vezes é que foi passar o Natal ou fim de semana a casa?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Natais a casa… Ora bem, isso aí, isso aí, é…. Provavelmente, cinco. Cinco natais.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E fins de ano?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Nenhum.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Trabalhou todos os fins de ano?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Todos os fins de ano. Todos os fins de ano.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Susana Durão, a antropóloga que ouvimos há pouco, chama a estes polícias “citadinos forçados”, com “o coração em casa, na ‘terra’, e o corpo na cidade”.</p>
<p>Perguntámos à PSP qual a naturalidade dos polícias que emprega e quantos estão deslocados. Recusaram dizer, primeiro porque era um dado pessoal, depois, porque ia pôr em causa a segurança dos agentes. Acabaram por dizer que nem tinham a informação, sugerir que a conseguiam compilar, e, no fim, recusar dedicar recursos humanos a juntar os dados.</p>
<p>Ainda assim, investigação académica produzida nesta matéria e a experiência empírica dos polícias que entrevistámos para esta série vão ao encontro da definição de Susana Durão — pelo menos para a cidade de Lisboa, que emprega mais de um terço dos polícias.</p>
<p>As comparações entre quem são os polícias de hoje e quem eram há 150 anos, quando foram criadas as primeiras polícias modernas, não se esgotam no facto de grande parte acabar deslocada da terra onde nasceu para policiar as grandes cidades, ao serviço do Estado. O resultado da migração é também parecido: no século XIX, os agentes que abandonavam as famílias à procura de melhores vidas, salários mais altos e empregos mais estáveis, acabavam precários. Hoje acontece o mesmo a estes homens — uns nove em cada dez são homens.</p>
<p>Quando Carlos entrou na polícia, recebia um salário base bruto um pouco acima dos 600 euros. Quase 80% acima do então salário mínimo nacional. Em 2025, um polícia em início de carreira <a href="https://www.dgaep.gov.pt/upload//catalogo/SRAP_2025_V_25_03_14_mar.pdf">recebe pouco mais</a> de 1000 euros de ordenado base. 17% acima do salário mínimo.</p>
<p><strong>Carlos</strong><strong> (anónimo)</strong><strong>:</strong> Ou seja, eu conseguia ter uma estabilidade financeira, de certa forma, garantir condições de vida, para mim e para a minha família que atualmente não consigo. Atualmente o ordenado mínimo está colado ao ordenado de um polícia que sai da Escola Prática de Polícia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ou seja, o ordenado mínimo cresceu nestas últimas duas décadas e o ordenado dos polícias manteve-se mais ou menos igual.</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Exatamente, estagnado.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ou seja, isso significa que, hoje em dia, quando alguém decide “quero ir para a polícia ou não quero ir para a polícia” há muitas outras profissões onde não ganhava assim tão menos e tinha muito menos…</p>
<p><strong>Carlos: </strong>E ganhava bem mais. Agora, qualquer operador de um supermercado — e, atenção, não desprezo qualquer que seja a profissão que for. Acho que todas elas são importantes, todas elas são necessárias. O que podemos verificar aqui é a responsabilidade de cada uma. Eu não entendo que a responsabilidade de um operador de uma caixa de um supermercado, por melhor profissional que seja, seja a mesma de um elemento policial que anda com uma arma de fogo à cinta. Não é igual.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Nos anos 90, <a href="https://www.dn.pt/3030755402/governo-aprova-admissao-de-300-novos-agentes-para-a-psp/">garante a agência Lusa</a>, chegaram a candidatar-se à PSP 16 mil jovens num ano. Desde 2019, não se tem conseguido sequer preencher as mil vagas da Escola Prática de Polícia. Em 2020, no segundo ano em que ficaram lugares vazios, a PSP dizia que a quebra (cito) “indicia alguma falta de atratividade da função policial que urge recuperar e que a PSP tudo fará para conseguir”. Mas dois anos depois, com um <a href="https://www.publico.pt/2022/11/04/sociedade/noticia/quase-40-vagas-concurso-psp-ficaram-preencher-2026559">terço dos lugares por preencher</a>, cortou <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho/10555-2023-222778565">as vagas anunciadas para metade</a>. Já em 2025, voltou a <a href="https://www.publico.pt/2025/02/14/sociedade/noticia/3000-candidatos-psp-sao-insuficientes-apesar-ligeiro-aumento-2122620">subir para as 800</a>.</p>
<p>Os números que vais ouvir agora são os únicos que a PSP nos enviou ao primeiro pedido, dentro do prazo legal: em média, a remuneração base na PSP está um pouco acima dos 1500 euros por mês. São contas nossas considerando a distribuição real de polícias por categoria. Podes ver a tabela completa e muitos dos outros dados que ouves neste episódio em <a href="http://www.fronteiradomedo.pt">www.fronteiradomedo.pt</a>.</p>
<p>Mas o que ganham polícias em média é diferente do que ganha a maior parte dos polícias. A PSP tem três carreiras: agentes, chefes e oficiais — por esta ordem hierárquica e de remuneração. A média do salário base, bruto, de oficiais — os que estão no topo da carreira — está pelos 2400 euros por mês, a de chefes pouco acima dos 1700. Já os agentes, que compõem cerca de 85% da corporação, estão a receber em média um salário base, antes de impostos, de 1460 euros por mês.</p>
<p>Esta explicação vai complicar-se um pouco, mas mantém-te comigo. Já vimos que a PSP tem três carreiras: a de agentes, a de chefes e a de oficiais. Subir de uma carreira para a seguinte é difícil e implica tirar o curso de formação de chefes e o curso de formação de oficiais de polícia.</p>
<p>Mas, dentro de cada uma das carreiras, há subidas de escalão por antiguidade e avaliação de desempenho e disciplina. A carreira de agente, por exemplo, tem três patamares: agente, agente principal e agente coordenador. Perto de um em cada seis elementos da PSP estão neste primeiro patamar — agente — a receber, em média, nem 1100 euros brutos de salário base.</p>
<p>Carlos é agente principal, o escalão seguinte. Vinte anos depois de entrar na polícia, está na <a href="https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?tabela=leis&amp;artigo_id=&amp;nid=2471&amp;ficha=101&amp;pagina=&amp;nversao=&amp;so_miolo=">segunda categoria da carreira</a>. Tem um salário base de cerca de 1440 euros por mês. É um aumento real, ajustado à inflação, de 48% face ao que ganhava há mais de duas décadas. Pelos censos mais recentes, só até 2021, também ajustado à inflação, o valor médio de uma renda para habitação na Grande Lisboa subiu quase três vezes mais: 130%.</p>
<p>Dependendo das equipas em que cada agente é incluído e das tarefas que faz, podem receber suplementos de turno ou de patrulha. Todos têm um suplemento por serviço e risco (vamos falar mais sobre isto no próximo episódio) e ainda direito a subsídio de alimentação. E todos descontam para o IRS, os serviços sociais da PSP, o SAD (um subsistema de saúde para polícias), entre outros. Feitas as contas: em 2025, Carlos levava para casa, limpos, ao final do mês, menos de 1400 euros. Um agente em início de carreira, solteiro, sem filhos, a receber o primeiro salário, não chega aos 1000 euros líquidos por mês.</p>
<p>Mas também é preciso dizer que uma parte substancial da remuneração de polícias não vem de salários, subsídios ou suplementos. Vem de trabalho em horas extra.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quantas horas é que costuma trabalhar por semana?</p>
<p><strong>Carlos (anónimo): </strong>Por semana? Ora bem, as oito normais. Ainda ontem foram cinco horas de remunerado, mais as oito horas normais, por exemplo.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Mas isso não é todos os dias, ou é?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Não, não é todos os dias.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quantos dias é que costuma fazer remunerados por semana?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Em média, estamos a fazer remunerados três, quatro dias.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Vezes, sempre cinco horas, mais ou menos?</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Quatro horas. É raro acontecer cinco.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Então, vamos dizer, entre 50 e 60 horas por semana.</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Sim, sim.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong><a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/portaria/298-2016-105276963">Remunerados — ou “gratificados”</a> — são serviços realizados por polícias em horário pós-laboral, por requisição de entidades que não a Polícia. Ou seja, quando entidades públicas — como as câmaras municipais — ou privadas — como supermercados, ou clubes de futebol — pagam à polícia para vigiar um local ou um evento. E a PSP ou a GNR, por sua vez, recorrem aos seus trabalhadores, pagando-lhes um extra por cada hora trabalhada.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E porque é que faz tantos?</p>
<p><strong>Carlos (anónimo): </strong>Porque tenho uma família. Eu tenho uma casa. Tenho contas para pagar. Tenho que as pagar. Não tenho uma vida de luxo. Não. Não tenho. Porque não é com um ordenado, como eu lhe mostrei, que uma pessoa consegue ter uma casa, ter uma família, e conseguir gerir isso tudo… Não é fácil.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Não é rara a situação de Carlos. A maioria dos elementos da PSP faz trabalhos remunerados. Em 2024, dois terços do efetivo aceitou estes serviços extra. Em média, cada um desses polícias fez 23 horas extra por mês; levou para casa mais 300 euros para além do ordenado normal.</p>
<p>Em 2023, perguntámos ao então ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, se, considerando tudo o que ouviste até aqui, achava a carreira policial atrativa. Garantiu que: “A valorização dos salários, das condições de vida e das condições de trabalho dos elementos das forças de segurança foram as prioridades políticas do ministério”.</p>
<p>Podes ler em <a href="http://www.fronteiradomedo.pt">www.fronteiradomedo.pt</a> a lista de medidas que elencou para o provar. As ministras que se seguiram na tutela, Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral, nunca chegaram nem a aceitar nem a recusar uma entrevista.</p>
<p>Dos polícias com quem falámos a fazer este trabalho, muitos estão deslocados. Vão a casa nas folgas, mandam para lá parte do dinheiro que fazem em Lisboa. E esperam por transferência para outros comandos.</p>
<p>Sobre isto, como sobre várias outras coisas, a PSP mentiu-nos. Disse que não nos conseguia indicar quantos polícias esperavam por uma transferência porque a lista estava em atualização constante. Mas, ao fim de nove meses e três intervenções da CADA, no fim de 2023, enviaram-nos os números da última década. Já em abril de 2025, aceitaram atualizar o valor: quase cinco mil elementos da PSP estava na lista de espera para uma transferência. Perto de um quarto do efetivo não quer trabalhar no sítio onde está colocado.</p>
<p>Na última década, 55% de todas as transferências na PSP foram para sair do comando de Lisboa. O tempo de espera depende de para onde se quer ir. No pior caso, uma transferência de Lisboa para Viseu, há um polícia a aguardar autorização há 24 anos. Para ir para o comando de Coimbra, distrito de onde é o agente Paulo Gonçalves, 19.</p>
<p>Pedro Carmo, polícia há quase 30 anos, foi presidente da Organização Sindical da Polícia, um dos sindicatos da PSP que, em 2025, se fundiu com um outro sindicato, o SINAPOL.</p>
<p><strong>Pedro Carmo:</strong> Lisboa é um sítio de passagem, porque a maior parte dos candidatos não são de cá, são do Norte.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E, na verdade, querem voltar para lá.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>Claro que sim, embora as transferências estejam muito demoradas. Eu posso dizer que, no meu tempo, de uma escola para a outra ia-se para o Porto. Ou seja, no mesmo ano, acabava a escola e a seguir iam logo para o Porto, e agora demora 15 anos a conseguir uma transferência para o Porto, que é o comando mais rápido.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> A seguir a Lisboa</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>A seguir a Lisboa. Talvez as ilhas demorem um bocadinho menos, mas também o efetivo das ilhas é menor.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pedro Carmo não tinha forma de saber, mas o que diz não está certo. Pelos dados que a PSP agora enviou ao Fumaça, ir de Lisboa para o Porto leva sete anos, não 15. Mas é dos mais rápidos. Para metade dos comandos da PSP pelo país, o tempo de espera para uma transferência está acima dos dez anos.</p>
<p>Polícias recém-formados não vêm para Lisboa apenas porque querem. Vêm também porque, muitas das vezes, é a única hipótese depois de terminarem a Escola Prática de Polícia.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>As pessoas candidatam-se, ficam numa lista e, mediante a decisão da hierarquia do ponto de equilíbrio do efetivo dos comandos, abrem vagas para aqueles comandos. Quando há uma escola, acaba a escola, esses colegas são automaticamente enviados, normalmente, para Lisboa, que é onde há vagas. Porquê? Porque as outras vagas vão ser ocupadas pelos outros estão à espera.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A cada ano, há uma dança de cadeiras nos comandos da PSP. Reformam-se uns quantos polícias, mudam-se outros de freguesia, e os poucos lugares que abrem são distribuídos por quem está há anos à espera.</p>
<p>Um dos critérios para que um pedido de transferência seja aceite é — citando o <a href="https://pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=2471&amp;tabela=leis&amp;so_miolo=">estatuto da polícia</a> — a “satisfação das necessidades e interesses do serviço”. Ou seja, se mudar um polícia de comando vai tornar o policiamento mais eficaz. Para além disso, também é possível ser-se transferido quando se recebe uma promoção, ou “por motivos disciplinares”.</p>
<p>Ao Fumaça, a PSP sublinha que tem “poder discricionário na gestão do seu efetivo” e “a obrigação de zelar pelo interesse público”. Significa que, em regra, cito, “quando um membro efetivo de um comando de polícia é colocado noutro, tem que, sempre que possível, ser colocado um outro em substituição do que foi transferido”.</p>
<p>Marisa Dolores, polícia na PSP, psicóloga clínica e dirigente na Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, o maior sindicato do setor.</p>
<p><strong>Marisa Dolores: </strong>Temos colegas a 300 e 400 quilómetros de casa, em que são apelidados um bocadinho de “os colegas de mochila às costas”. Imagine, eles trabalham seis dias aqui em Lisboa e, para irem para a terra quatro dias, eles só vêem os filhos e a mulher quatro dias a cada seis. Como é que se constrói uma relação à distância? É difícil. Agora, imagine uma relação destas durante dez, 12, 13, 15 anos, 20 anos. Ser polícia é mau para a saúde. Ser polícia é mau para a gestão familiar. Ser polícia é mau para a gestão financeira, porque temos que pagar cá casa… casa não, quarto. Nós não temos a dignidade de ter um ordenado suficiente para pagar uma casa em Lisboa, mas sim um quarto, em que normalmente partilhamos com outros colegas. Ou, eventualmente, um quarto numa casa partilhada com outros colegas. Nós não conseguimos ter a dignidade de ter aqui casa em Lisboa e ter casa na terra. Ou temos casa em Lisboa e não temos casa na terra; mas para não ter casa na terra não podemos ter família na terra; se queremos ter a família na terra, não podemos ter casa em Lisboa, portanto, temos que partilhar um quarto. O que lhe estou a dizer é que ser polícia é um bocadinho doentio em termos familiares, em termos económicos, em termos sociais, porque perdemos as nossas redes de amigos, com os anos. Não conseguimos manter os amigos na terra e os amigos em Lisboa. E, quando o conseguimos manter, é uma logística gigante, tanto emocional como psicológica.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>IV</strong></h2>
<p><strong>Leonel (anónimo):</strong> Estava numa situação normalíssima, um Pingo Doce, um gratificado normalíssimo. Quem nunca fez um Pingo Doce, não é? […] A realidade é que eram quatro indivíduos negros. […] A verdade é que a maior parte das situações assim, porque é nos bairros, é com pessoal de ascendência africana. E que eles entravam pelo Pingo Doce adentro e vinham mesmo diretos a mim, para me confrontar. Depois eu estava ali num stress, numa ansiedade do que é que eu tinha que fazer. Vinham quatro, vinham a andar diretos a mim, ainda não tinham feito nada, mas tu vias, tu consegues ler as pessoas, consegues ver quando é que elas vêm para arranjar confusão.</p>
<p>E o meu dilema era: o que é que faço neste preciso momento que eles estão a vir? Estás dentro de um supermercado, está cheio de gente e quais são os meios que tens à tua mão, o que é que não tens, não tens rádio sequer para pedir apoio…</p>
<p>E depois acordo com esse dilema de eles me estarem já… Já se estarem a virar a mim e eu estar basicamente a ter que andar à chapada com quatro. E acordas assim todo desorientado, assim… Aqueles segundos em que ainda não sabes se estás a sonhar ou se aquilo é a sério. Pronto… E, como eu, há mais colegas, de certeza, a quem isto acontece. Já me aconteceu uma vez ou duas o pessoal, já não sei como, em conversa, tipo, assumir isso. Claramente, como eu, de certeza que há outro pessoal que tem situações de stress, ou assim, que, se calhar, devia ser… Que era importante falar sobre isso, mas eu não conheço mais nenhum polícia que faça, pelo menos assumido, ou que me tenha contado, que faça… Que tenha acompanhamento… Epá, que faça psicoterapia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Leonel — nome fictício e voz alterada — era polícia há pouco mais de cinco anos, em Lisboa, quando conversámos pela primeira vez, em 2021. Depois de uns dias para trás e para a frente até conseguir encontrar um buraco na agenda que não estivesse preenchido com turnos ou gratificados, veio ter comigo à redação.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas quantas sessões de psicoterapia é que tu tiveste desde que entraste para a PSP?</p>
<p><strong>Leonel (anónimo): </strong>Pela polícia, nada. Nenhuma, nunca tive nem nunca falei com nenhum psicólogo da polícia nem nunca… Esse acompanhamento não há.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A única vez que Leonel se lembra de ter falado com o departamento de psicologia da PSP foi quando ainda era aluno do curso de formação de agentes, na Escola Prática de Polícia. Depois disso, foi colocado em Lisboa e, desde aí, nunca mais teve uma consulta com um psicólogo da PSP. Acontece o mesmo aos colegas com quem trabalha. A não ser que se detete um “comportamento estranho” — palavras dele — ou algum comandante diga “Olhe que aquele elemento não anda bem”, polícias podem andar anos, décadas, sem acompanhamento psicológico regular.</p>
<p>Mas Leonel não se contentou com essa sorte. Começou a ter consultas de psicoterapia ainda antes de ser polícia. Até hoje, não sabe de qualquer colega que faça psicoterapia regularmente — nem dentro nem fora da polícia. Ele também não lhes conta.</p>
<p><strong>Leonel (anónimo): </strong>Só um colega meu é que sabe.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas porquê?</p>
<p><strong>Leonel: </strong>Porque eu não tenho confiança. Quer dizer, há colegas com quem eu tenho confiança e que são… Com quem tenho confiança, posso-lhes contar muita coisa da minha vida, mas isso, em específico, não conto. Epá, porque eu tenho noção que é possível que seja olhado um bocado de lado, ou… É como se… É como se duvidassem das tuas capacidades. Tu podes ser uma pessoa super operacional e capaz e que situações de stress… […] “Se for preciso ir ali para o meio do bairro, numa operação qualquer, se calhar já não… Ah, o não sei quantos, como faz… Como é maluquinho, ainda se passa, ainda pega na arma e dá para lá uns tiros”. O que é ridículo, não é? Se calhar, estou mais bem preparado, porque tenho as coisas mais bem resolvidas dentro da minha cabeça do que eles, só que isso não é entendido assim.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas como é que, então, quem não faz terapia — porque, obviamente, pelo que me parece, não há, pelo menos, sessões regulares, não há acompanhamento regular…</p>
<p><strong>Leonel: </strong>Não, não há acompanhamento.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Como é que, como tu dizias, as pessoas “resolvem as coisas da cabeça” deles, não é?</p>
<p><strong>Leonel: </strong>Pois, não resolvem.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Porque ser polícia significa ter…</p>
<p><strong>Leonel:</strong> Não resolvem.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O acompanhamento psicológico dentro da PSP não era, à partida, um dos temas prioritários desta série. Mas, à medida que fomos conversando com mais e mais polícias — de diferentes contextos, com diferentes carreiras —, ficou claro que a saúde mental é um tema nesta profissão.</p>
<p>João, nome fictício e voz alterada.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quantas sessões de terapia com psicólogos é que tu tiveste desde que entraste na PSP?</p>
<p><strong>João (anónimo):</strong> Nenhuma. Já tive testes. Sim. Já tive testes psicotécnicos. Já tive… Ya. Mas com um psicólogo nunca fui a nenhuma reunião. Não. Só fui fazer os testes.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Há quanto tempo é que és polícia?</p>
<p><strong>João:</strong> Sou há 15 anos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Miguel Oliveira Rodrigues, dirigente no Sindicato Independente dos Agentes de Polícia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quando é que tiveste essa consulta?</p>
<p><strong>Miguel Rodrigues:</strong> Há cerca de dois anos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Portanto tu estiveste 15 anos na polícia sem nunca ter tido uma consulta de psicologia?</p>
<p><strong>Miguel Rodrigues:</strong> Eu e, se calhar, muitos durante os 30 anos que foram polícias nunca tiveram nenhuma.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Vasco, nome fictício e voz alterada.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Não há consultas de rotina psicológicas dentro do…?</p>
<p><strong>Vasco (anónimo):</strong> Não. Não. Não. Nenhuma consulta de rotina. Tu atravessas situações que, se calhar, poderiam chocar qualquer pessoa… Sei lá, desde crianças mortas à tua frente, desde cenas de homicídio que, se calhar, reviravam o estômago às pessoas mais sensíveis… E tu sais daquela ocorrência e tens que entrar no dia seguinte às 8h como se nada fosse, e tens que ir para casa e lidar com os teus problemas todos em casa como se nada fosse.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pedro Carmo, na altura dirigente da Organização Sindical da Polícia, que já ouvimos neste episódio.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>É uma coisa que a gente vai aprendendo a fazer na polícia é… Não é esquecer, mas é tipo dissolver na mente aquilo que nos perturba, é um bocado isso. A gente vai dissolvendo. Elas ficam cá, mas a gente vai dissolvendo e esquece as datas, esquece os episódios, e tenta, de alguma forma, andar para a frente.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Carlos, o polícia que vive na camarata da Zona J, em Chelas, que ouvimos há pouco.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E quantas sessões de terapia com psicólogos é que teve desde que entrou na PSP?</p>
<p><strong>Carlos (anónimo):</strong> Nenhuma. É verdade que existe um gabinete de apoio. Eu pessoalmente nunca tive, mas conheço colegas meus que sim, que recorreram e que foram ajudados.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas apenas em emergência, no sentido em que eles pediram?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Emergências, sim.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Ou seja, não há rotina de acompanhamento psicológico?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Não, não, não.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Deveria haver?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Deveria, sim, deveria haver. Eu acho que… Eu acho que é um problema que se varre para debaixo do tapete. Eu tenho casos de colegas que só, porquanto foram ao psicólogo, porque precisavam desabafar, não sei, lá os problemas deles, entravam nas esquadras e até os próprios chefes, os comandantes diziam: “Então, já tomaste o comprimido?”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> A sério?</p>
<p><strong>Carlos: </strong>E eu olhava para aquilo e dizia: “Então, mas vocês querem ajudar, querem enterrar? Epá, agarrem e dêem a arma ao homem. E depois, olha, vão buscar o corpo.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Mas isso deve fazer com que ninguém então vá….</p>
<p><strong>Carlos: </strong>Foi o que eu disse…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>….ao acompanhamento psicológico.</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Claro. Se tiver que o fazer, nunca irei ao acompanhamento psicológico da polícia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Vai um privado.</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Vou a um privado.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E paga do seu bolso.</p>
<p><strong>Carlos:</strong> E pago do meu bolso.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E que consequências é que o não acompanhamento tem no policiamento?</p>
<p><strong>Carlos:</strong> Se calhar, suicídios de muitos colegas meus.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>As forças de segurança <a href="https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/plano-nacional-de-prevencao-do-suicido-20132017-pdf.aspx">estão mais do que identificadas</a> como um dos grupos prioritários para intervenção em prevenção do suicídio. Entre 2004 e 2024, 78 polícias suicidaram-se, segundo a PSP. A GNR recusou enviar quaisquer dados, contrariando <a href="https://www.cada.pt/files/pareceres/2024/312.pdf">um parecer da CADA</a>. Pedimos também ao Ministério da Administração Interna de Margarida Blasco. Não enviaram.</p>
<p>Uma das razões para polícias não pedirem ajuda? O salário. Agora, Luís Maria, então dirigente da Organização Sindical da Polícia, que se fundiu com o SINAPOL em 2025.</p>
<p><strong>Luís Maria: </strong>Eu posso-lhe dizer, daquilo que conheço, porque tenho acompanhado <em>n</em> casos, <em>n</em> casos… A instituição não está preparada para pessoas que tenham, por exemplo, stress pós-traumático, síndromes depressivos, síndromes de ansiedade. Não está preparada para isso. Porque estigmatiza, isola, desarma e cria problemas maiores ainda.</p>
<p>Ele é o graduado de serviço e eu trabalho com ele. Eu chego ao pé dele: “Ó chefe Carmo, epá, passou-se isto, assim, assim, estou a bater mal, e tal.” Eu vi dar esta resposta a muitos colegas: “Opá, caga nisso. Manda foder isso, caga nisso.” Mas isso não é psicologia. Isso é um gajo dizer assim: “Agora não me lembro disto, mas lembro-me daqui a um bocado. Daqui a um bocado não me lembro, mas lembro-me depois.” E depois anda uma data de tempo a lembrar-se das coisas, não é? Porque o trauma psicológico, ou mental, ou seja lá o que for, não sei como é que hei-de chamar, não sou especialista, o trauma está lá e tem que ser tratado. O trauma tem que ser tratado. Como é que eles tratam…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Em muitos casos é uma doença, tem que ser tratada.</p>
<p><strong>Luís Maria: </strong>Escute, como é que eles tratam o trauma? Tiram-lhe a arma de serviço, porque têm medo que você se mate. O que é que lhe vão causar com isso? Perde o suplemento de patrulha. Não pode fazer turnos, perde o suplemento de turno.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ou seja, quem está doente, com uma doença mental…</p>
<p><strong>Luís Maria:</strong> Ainda fica prejudicado financeiramente.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Perde dinheiro?</p>
<p><strong>Luís Maria: </strong>Perde dinheiro. Perde dinheiro. Perde dinheiro.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A relação entre o acompanhamento psicológico e a retirada da arma de serviço não é tão causal como Luís Maria parece indicar. Mas a mesma ideia paira na cabeça de vários dos polícias com quem falámos.</p>
<p>No entanto, o que nos explicam duas profissionais de saúde que trabalham com polícias é que a arma só é retirada em casos graves, quando se acredita existir um risco concreto de a pessoa se magoar a si ou a outros. É o que está descrito no <a href="https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=2471&amp;tabela=leis&amp;so_miolo=">Estatuto de Profissionais de Polícia</a>: “Quando existam fundados indícios de perturbação psíquica ou mental.” Ou seja, quando um polícia tem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, a arma não lhe é retirada automaticamente.</p>
<p>Só que ficar sem a arma de serviço pode equivaler a uma perda financeira significativa. Pode chegar a centenas de euros por mês, se estiver em causa a perda de subsídios de turno, de patrulha ou remunerados extra, porque o agente é afastado das ruas e relegado a funções de apoio. E isso poderá contribuir ainda mais para o estigma.</p>
<p>Susana Pinto Almeida, psiquiatra prisional no Hospital de São João de Deus, em Caxias, perita forense no Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, e co-autora de um estudo que recolheu as perceções de mil militares da GNR sobre saúde e doença mental.</p>
<p><strong>Susana Pinto Almeida: </strong>Se eu estou a exercer uma profissão, e que essa profissão exige que eu traga comigo uma arma, à partida, e todos nós sabemos que será assim, estas pessoas estão capacitadas psiquicamente — nem sequer estou a falar da parte física, obviamente estão mais do que habilitados para lidar com armas de fogo —, mas da parte psíquica serão pessoas que estão aptas. O que exige que, periodicamente, estes agentes sejam sujeitos a uma avaliação do seu estado mental.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Desde 2007, todos os polícias têm de passar por uma reavaliação psicológica regular. São feitas pelo departamento de psicologia da PSP: em 2025, estavam lá empregues 47 psicólogos. Dão consultas regulares em todos os comandos de polícia do país, menos em Viana do Castelo. Não há departamento de psiquiatria.</p>
<p>De acordo com a PSP, desde 2018, mais de 22 mil polícias passaram por consultas de despiste no departamento de psicologia. É mais do que todo o efetivo. Só em 2024, foram mais de cinco mil. Mas o resultado destas consultas, diz-nos a própria PSP, não é afastar polícias do serviço. O objetivo é, apenas, encaminhar polícias para terem consultas regulares de psicoterapia, caso precisem.</p>
<p>E, aí, a Polícia garante desconhecer que cobertura tem, porque não regista quantos polícias estão a ter acompanhamento. Sabe que, em 2024, os psicólogos que emprega deram pouco mais de 15 mil consultas. E tem um único número para os polícias abrangidos: dos mais de 12 mil que foram reavaliados desde 2022, nem 200 pediram para ter acompanhamento psicológico. Nos anos anteriores, não fez qualquer registo.</p>
<p>Antes de recebermos estes números, perguntei à psiquiatra Susana Pinto Almeida sobre o caso de um dos agentes que acabaste de ouvir, na polícia há quatro, cinco anos, sem alguma vez ter falado com um psicólogo.</p>
<p><strong>Susana Pinto Almeida: </strong>Pois, isso é preocupante, não é? Pelo menos eu julgo que será de preocupar, se assim for. E esse agente tem capacidade para perceber que precisa de ajuda psicológica e procurou essa ajuda. Mas quantos não existirão que não têm essa capacidade para perceber que precisam dessa ajuda? Ou, mesmo que tenham, ou não têm capacidade económica para pagar consultas particulares de psicologia, porque as consultas particulares de acompanhamento psicoterapêutico terá que ser semanalmente, ou duas em duas semanas, dependendo do que for acordado entre o terapeuta e o agente da PSP, mas, não tendo essa capacidade económica, de certeza que, dificilmente, irão chegar à tutela pedir para serem avaliados, ou para serem observados, ou para serem acompanhados, não é?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Lúcia Pais é psicóloga e, desde 2006, professora no Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna, onde se formam os oficiais da PSP. Não sabe ao certo quantos polícias já entrevistou na sua vida, mas não ficaria surpreendida se fossem à volta de 200.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas quantos polícias da PSP é que conhece que têm acompanhamento psicológico?</p>
<p><strong>Lúcia Pais: </strong>Quer dizer, não sei quantos. Mas existem pedidos, não é? Quer dizer, há pessoas que são acompanhadas. Fora.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Fora da PSP?</p>
<p><strong>Lúcia Pais:</strong> Claro!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Porque claro?</p>
<p><strong>Lúcia Pais:</strong> Precisamente por causa do estigma que existe e por causa do receio que existe de ser olhado como menos valioso, menos confiável, mais fraco.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E, portanto, os polícias têm que sair da PSP, pagar do seu próprio bolso a…?</p>
<p><strong>Lúcia Pais:</strong> Vamos lá ver: não têm que. Mas isso acontece.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> É que a maior parte dos polícias que eu entrevistei a quem perguntei “Quantas consultas, sessões de terapia tiveram com psicólogos na vida inteira profissional na polícia?”, dizem zero.</p>
<p><strong>Lúcia Pais:</strong> Pois. Não sei o que lhe diga.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Portanto, não há consultas de rotina.</p>
<p><strong>Lúcia Pais: </strong>Dentro, não.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Em 2023, antes de deixar o poder o governo do PS, perguntámos ao então ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, se era suficiente o apoio psicológico prestado a polícias. Afirmou que tinha, no ano seguinte, “o objetivo de aprofundar os apoios prestados no domínio da saúde mental nas Forças de Segurança”. Em fronteiradomedo.pt podes ler as medidas que explicou já estarem em vigor. Em 2024, dois meses depois de tomar posse, o governo PSD/CDS de Luís Montenegro <a href="https://www.portugal.gov.pt/download-ficheiros/ficheiro.aspx?v=%3d%3dBQAAAB%2bLCAAAAAAABAAzNDEyMQMATV5VdgUAAAA%3d">anunciou</a> que ia criar uma via verde para facilitar o acesso às urgências psiquiátricas e centros de saúde por elementos da PSP e GNR a precisar de apoio. A Inspeção-Geral da Administração Interna ficou encarregue de recolher estatísticas que hoje não tem: quantos agentes precisam de acompanhamento e quantos são acompanhados.</p>
<p>Foi precisamente numa <a href="https://www.youtube.com/watch?v=kIdeesKf4MQ&amp;feature=youtu.be">conferência</a> organizada pela Inspeção-Geral, em outubro de 2022, que a psicóloga Lúcia Pais apresentou os resultados preliminares de uma investigação onde entrevistou 62 polícias sobre as consequências do policiamento para a saúde.</p>
<p>Questionados sobre os impactos psicológicos da profissão, polícias das equipas de combate à violência doméstica nomeiam sensações como exaustão, sofrimento emocional e frustração. Já polícias do corpo de intervenção dizem sentir irritabilidade, inutilidade e frieza emocional. E quem policia bairros considerados perigosos pela PSP e GNR, as chamadas Zonas Urbanas Sensíveis, de que iremos falar mais à frente nesta série, dizem também sentir frieza emocional, distúrbios do sono, medo e hipervigilância. Polícias das esquadras de turismo falam em agitação, hipervigilância e frieza emocional. Todos são unânimes em dois sentimentos: a inquietação e a preocupação.</p>
<p><strong>Lúcia Pais: </strong>Vocês imaginem o que é uma pessoa do corpo de intervenção que é chamada a uma ocorrência, não é? Portanto, vai uma equipa e vai com a adrenalina! Caramba, aquilo vai aumentando, aumentando. As pessoas estão completamente ativadas e focadas naquilo para que foram chamadas. E, depois, chegam lá e a coisa já se resolveu. Agora, o que é que acontece, não é? Quer dizer, o quê? Para onde é que vai a adrenalina? Para onde é que vai tudo aquilo? Toda aquela mobilização e ativação, para onde é que vai aquilo tudo? Imagine viver com uma pessoa que se sente de alguma maneira inútil, e que está permanentemente com níveis de irritabilidade imensos, e que salta com qualquer coisa que lhe seja dita, e responde, que está sistematicamente com uma impressão de frustração e de menos-valia… O que é viver com uma pessoa nestas condições? Difícil, não é? E se houver miúdos? Crianças pequenas? Difícil, não é? Quer dizer, é uma pessoa que está triste, que se sente <em>desvaliosa</em>, que muito provavelmente tem pouca perspetiva para diante. E isso é uma coisa que, para mim, me assusta enquanto clínica. Qual é o projeto que esta pessoa tem para si e para os seus? Se não há projeto, eu estou aqui a fazer o quê? Não é?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Novamente, Pedro Carmo.</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>Só fica na polícia quem tem uma pancada. Porque não se consegue aguentar isto de outra forma. Porque, se a gente de alguma forma não conseguirmos transmutar… Mas é a transmutação visível. Eu vou transmutando, acabo de ir à ocorrência, aquilo chateou-me imenso, perturbou-me imenso. É nojento, é isto, é aquilo… Seja o que for, eu faço a transmutação. Passado um bocado, já estamos a contar anedotas, como se costuma dizer. Mas elas ficam cá. Elas ficam cá. A gente vai para casa, ninguém me consegue compreender. Ninguém em casa consegue compreender o polícia. O polícia que vai para o pé da família… E, depois, a maior parte dos polícias não vão para o pé da família, vão para o pé da camarata, onde a conversa de caserna é outra vez polícia. Vão para um apartamento onde vivem com mais três ou quatro, onde a conversa é outra vez polícia. E a realidade das coisas é que, ao longo de alguns anos de serviço policial, a pessoa muda. A pessoa ganha um transtorno emocional. E, depois, trabalha por turnos…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas que impacto é que isso tem no dia-a-dia dos agentes que estão na rua?</p>
<p><strong>Pedro Carmo: </strong>O que eu noto a nível do dia-a-dia dos agentes que estão na rua, e eu noto, e conheço alguns colegas que a postura deles, prontos, verifica-se, a gente vê os miúdos quando chegam, muitos são bem dispostos, outros são pessoas assim soltas, outros são pessoas muito calmas, e nota-se a diferença de comportamento. Uns ficam mais irritados, outros perdem a boa disposição.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A psiquiatra Susana Pinto Almeida vai mais longe. Explica que a experiência regular de situações com grande potencial traumático, quando não processadas da melhor forma, pode levar ao desenvolvimento de perturbações de stress pós-traumático. Pergunto-lhe se a falta de acompanhamento de saúde mental pode levar ao aumento da violência e brutalidade das forças de segurança.</p>
<p><strong>Susana Pinto Almeida:</strong> Não acho que seja uma conclusão desadequada ou despropositada. Eu acho que é uma conclusão até que faz bastante sentido. Para mim, enquanto psiquiatra, faz bastante sentido. Se eu exerço uma profissão em que o risco está permanente e persistente na minha vida diária, se eu não tenho, do ponto de vista psíquico, a estrutura adequada, porque estou num processo de doença, ou num desenvolvimento de doença mental não identificado e não tratado, eu acho que, facilmente, se pode conseguir enquadrar isso na falta de saúde mental das forças de segurança, sim. Poder-se-á. Obviamente não é uma afirmação, mas é uma probabilidade, quanto a mim, bastante alta.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A psicóloga Lúcia Pais.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Concorda?</p>
<p><strong>Lúcia Pais:</strong> Quer dizer, eu seria um bocadinho cautelosa a estabelecer essa relação direta. Eu não sei. Não tenho conhecimento para responder de forma taxativa àquilo que me está a perguntar. Não tenho. Se calhar, é um bocadinho um passo maior que a perna. Mas não sei.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas eu volto a perguntar: alguém com estas características e que sente isto — irritabilidade, frustração, hipervigilância, medo —, está mais suscetível a praticar violência extralegal?</p>
<p><strong>Lúcia Pais:</strong> Claro. Porque de alguma maneira — e isso também está escrito na literatura científica — é por essa via que ocorre a naturalização da violência, não é? Quer dizer, se essa resposta tende a repetir-se, e se não há consequências outras relativamente a esse estilo de resposta, ele vai-se instalando e atravessa todos os domínios da vida da pessoa. Isso está escrito.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Hélder Gomes, o homem que ouvimos no início deste episódio e que, desde jovem, tinha o sonho de ser polícia.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Como é que se gere essa tensão dentro da PSP?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>É difícil. Simplesmente no carro patrulha tens três homens que podem estar frustrados, numa carrinha tens seis, se calhar. Tens mais tensão. Se eu tivesse três elementos ou quatro tensos… É sempre maior a probabilidade de vir à baila uma “Vieram aqui partiram isto tudo”, “Ai foram ali, bateram”. Aí, desculpa bati aqui no micro. Foi só para dar o “puff”.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Nem é preciso<em> sound design</em>.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Exato. Mas posso te dizer uma situação em que vi que aquilo descambou, depois acalmou felizmente… Porque felizmente quando vamos em três há sempre alguém que está mais… Naquele momento ou está a iniciar o turno, ou até está numa cena mais zen, nem está com problemas na vida dele, entre aspas, não está tão tenso, “Vamos ter calma”. E temos ali polícias a tentar gerir polícias, que é verdade. Estamos entregues a nós.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Isso acontece? Ou seja, acontece…</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Ai, muito. Mas isso é diariamente. Colegas às vezes até “Oh, calma”.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Ou seja, acontece que, por exemplo, há um agente, ou um polícia que está mais alterado e que os outros vão e tentam acalmar?</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Isso é muito. Isso é muito. E também foi uma das coisas que pesou na balança eu ter saido da polícia. Que é, pá, estamos entregues a nós mesmos e às vezes, pá… Não é dizer que somos um perigo para nós. Os polícias em si. Eu próprio tive momentos em que podia representar um perigo para os meus colegas. Se eu estou emocionalmente destabilizado e tenso, e tenho três elementos comigo, se aquilo descamba por minha causa, sou um perigo para mim e um perigo para quem trabalha comigo.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>V</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>As queixas de agentes da autoridade, acumuladas durante décadas, explodiram nos últimos anos. Em 2019, um grupo de polícias descontentes começou a organizar-se nas redes sociais, com um mote fácil de reter: Zero.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=oQY8VOdGEu4&amp;t=4s"><strong>Bento Rodrigues, jornalista da SIC</strong></a><strong>: </strong>Bem-vindos. Começamos com imagens dos últimos instantes. Um protesto de vários agentes da PSP, que esta manhã viraram costas às principais figuras do Estado. O protesto do chamado Movimento Zero…</p>
<p><a href="https://www.rtp.pt/noticias/pais/movimento-zero-agentes-da-psp-e-gnr-falam-em-alta-tensao_v1167147"><strong>Rita Marrafa de Carvalho, jornalista da RTP</strong></a><strong>:</strong> É a primeira vez que se assumem como movimento. E é a primeira entrevista que dão, para deixarem uma ameaça.</p>
<p><strong>Polícia do Movimento Zero à RTP: </strong>Já estamos esgotados. Neste momento, preparem-se porque vai acontecer algo muito grave. Algo de que o país não está à espera. Acreditem, que o país não está à espera do que vai acontecer.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=oQY8VOdGEu4&amp;t=4s"><strong>Bento Rodrigues, jornalista da SIC</strong></a><strong>: </strong>Os polícias aqui formam o “zero” com os dedos, sublinhando o movimento a que pertencem.</p>
<p><strong>Fernando Rosas:</strong> “É giro, é o Zero. Estou a fazer o Zero. Não estou fazendo o símbolo do supremacismo”. Não. Está a fazer o símbolo do supremacismo, apesar de disfarçado de Zero, não é?</p>
<p><a href="https://www.rtp.pt/noticias/pais/manifestacao-de-policias-discurso-de-andre-ventura-no-palanque-causou-mal-estar_v1187276"><strong>Manifestantes à RTP</strong></a><strong>: </strong>Nós só queremos o Ventura no poder! Ventura no poder! Ventura no poder!</p>
<p><a href="https://tviplayer.iol.pt/programa/jornal-das-8/53c6b3903004dc006243d0cf/video/5e41cdf20cf2f02ca42d88b4"><strong>Pedro Pinto, jornalista da TVI</strong></a><strong>: </strong>Preocupa-o, enfim, a infiltração da extrema-direita dentro da PSP, como acontece com o Movimento Zero?</p>
<p><a href="https://www.rtp.pt/noticias/pais/manifestacao-de-policias-discurso-de-andre-ventura-no-palanque-causou-mal-estar_v1187276"><strong>Manifestantes à RTP</strong></a><strong>:</strong> Ventura! Ventura! Ventura!</p>
<p><strong>Manifestante:</strong> Só lhe quero dar um beijinho. Obrigada, grande guerreiro, grande homem!</p>
<p><strong>Manifestante:</strong> Grande homem! Grande homem! Grande homem!</p>
<p><a href="https://tviplayer.iol.pt/programa/jornal-das-8/53c6b3903004dc006243d0cf/video/5e41cdf20cf2f02ca42d88b4"><strong>Pedro Pinto, jornalista da TVI</strong></a><strong>: </strong>Isso é uma preocupação para o Diretor Nacional?</p>
<p><strong>Magina da Silva, então diretor nacional da PSP: </strong>A minha perceção é que a política não é um assunto para os polícias.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O Movimento Zero precisava de uma cara. Alguém que pudesse falar sem ser punido disciplinarmente pela PSP.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Falaram comigo. Por mim, o que precisarem. Eu dou a cara.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O homem que fez flexões com a ponta dos dedos abandonou o sonho de ser polícia em janeiro de 2019.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=nyzf1DeXRJ8"><strong>Hélder Gomes, num vídeo do Movimento Zero</strong></a><strong>: </strong>Olá, caros seguidores do Movimento Zero. Alguns de vocês certamente já me conhecem. O meu nome é Hélder Gomes. Atualmente, sou empresário. E digo atualmente, porquê? Porque há relativamente pouco tempo, era polícia. Sim, ouviram bem. Fui agente da Polícia de Segurança Pública. Mas, como costumamos dizer, uma vez polícia, polícia para sempre. E é precisamente por isso, por ter vivido de perto, e por ter sentido na pele todas as injustiças que os polícias passam, que rapidamente me identifiquei com o propósito deste movimento. […] E, tal como todos os polícias, apesar de ter abraçado outro projeto, estou aqui, ao lado do Movimento Zero e da sua luta.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Hélder Gomes foi uma das caras do Movimento Zero, um grupo informal que levou milhares de polícias à rua. Era ele uma das pessoas que víamos nas manifestações, em cima do palco, ou a dar ordens sobre o que fazer, por onde marchar. No próximo episódio, falamos dos movimentos de trabalhadores das polícias.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TEASER</strong></h2>
<p><strong>Brotas: </strong>Há 31 anos que venho às várias manifestações com as camisolas do Che. […] Era um revolucionário, e o que este país parece que está a precisar, pelo menos na segurança, é de uma revolução.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E o que é que, hoje, vocês estão aqui a exigir, à frente da assembleia?</p>
<p><strong>Duarte Teixeira: </strong>Tudo o que nos foi prometido durante estes anos todos e não foi cumprido. O ordenado digno, uma reforma digna.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/declaracoes-de-cavaco-silva-29/"><strong>Cavaco Silva</strong></a><strong>:</strong> É preciso que se diga que, por detrás destas movimentações da polícia, estão forças extremistas, forças comunistas, alguns socialistas, espero que isolados.</p>
<p><strong>Alberto Torres: </strong>Ficámos com uma convicção muito segura de que estaria ali preparado um banho de sangue com a intenção nítida de acabar com o movimento sindical.</p>
<p><strong>Sérgio Barbosa: </strong>Já começamos a ter alguma dificuldade em perceber se a pessoa, por si só, também já não está naquele ponto de explodir, de dizer: “Chega! Basta! Não quero mais! Vou tirar as algemas ao chão! Vou fazer outra coisa qualquer!”</p>
<p><strong>André Ventura:</strong> Não queriam que aqui viessemos. Montaram barreiras para nos impedir de falar.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>CRÉDITOS</strong></h2>
<p><strong>G. C. Viegas: </strong>Acabaste de ouvir <em>Homens de polícia</em>, o terceiro episódio de <em>Fronteira do Medo</em>, uma série com 14 capítulos. Para ouvir já o próximo, sobre décadas de luta de polícias nas ruas, através de sindicatos e movimentos vai a <a href="http://fumaca.pt/contribuir">www.fronteiradomedo.pt/contribuir</a> e faz uma contribuição recorrente. Só com o apoio de quem nos ouve, vê e lê podemos passar anos a forçar instituições públicas a enviar-nos a informação que ouviste neste episódio.</p>
<p>Se queres a transcrição, vai a <a href="http://fronteiradomedo.pt">www.fronteiradomedo.pt</a>. Estando por lá, podes ver dados adicionais, imagens, ilustrações: diferentes histórias complementares a este podcast incluindo, neste episódio, uma cronologia que recupera a história da Polícia de Segurança Pública.</p>
<p>O episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro. E investigado pelo Ricardo, por mim — G. C. Viegas — e por Sofia da Palma Rodrigues. A edição foi nossa, e do Pedro Miguel Santos. A verificação de factos de Margarida David Cardoso, a revisão de Luciana Maruta e a consultoria jurídica de Leonor Caldeira. O desenho e edição de som, como a composição e interpretação da banda sonora, couberam ao Bernardo Afonso. O Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. O José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida e Ricardo Esteves Ribeiro. Ainda participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Diogo Cardoso, Luis Marquez, Rafaela Cortez e Fred Rocha.</p>
<p>Ouviste no episódio áudios da SIC, RTP e TVI. Para descrever a história do policiamento em Portugal foram importantes os livros <em>Fardados de Azul</em>, de Gonçalo Rocha Gonçalves. Também <em>Polícia e Polícias em Portugal: Perspetivas Históricas</em>, com coordenação de Gonçalo Rocha Gonçalves e Susana Durão, e <em>O Crime em Lisboa: 1850-1910</em>, de Maria João Vaz. Sobre a história da polícia internacionalmente, lemos <em>Police: A Field Guide</em> de David Correia e Tyler Wall, que nos vais ouvir citar ao longo da série, e <em>A Critical Theory of Police Power</em>, de Mark Neocleous. Também usámos como fonte uma longa entrevista ao historiador Diogo Palacios Cerezales.</p>
<p>Para produzir esta série, recebemos bolsas da Fundação Rosa Luxemburgo. Este ano, o trabalho do Fumaça também tem apoio da Fred Foundation e Limelight Foundation. Lê os contratos em <a href="http://fumaca.pt/transparencia">www.fumaca.pt/transparencia</a>. A Divergente, está a receber uma bolsa da Civitates.</p>
<p>Até já.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://fumaca.pt/homens-de-policia-fronteira-do-medo/">Homens de polícia</a> aparece primeiro em <a href="https://fumaca.pt">Fumaça</a>.</p>
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		<title>La brecha entre Estados Unidos e Israel se profundiza</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 13:29:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Queer Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão]]></category>
		<category><![CDATA[Conflicto]]></category>
		<category><![CDATA[discrepancias]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Irán]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
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					<description><![CDATA[La administración Trump ha dado un giro radical en su política exterior al levantar temporalmente las sanciones petroleras contra Irán.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4><img loading="lazy" decoding="async" width="1080" height="674" class="alignnone size-full wp-image-231206" src="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260721_160721_Chrome.jpg" alt="Screenshot_20260721_160721_Chrome" srcset="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260721_160721_Chrome.jpg 1080w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260721_160721_Chrome-300x187.jpg 300w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260721_160721_Chrome-150x94.jpg 150w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260721_160721_Chrome-768x479.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></h4>
<h4>A medida que se acercan las elecciones de mitad de mandato en Estados Unidos, la administración de Donald Trump se encuentra bajo una gran presión para demostrar el máximo éxito en política exterior. Sin embargo, a pesar de su deseo de proyectar la mejor imagen posible, numerosos hechos apuntan a lo contrario, incluyendo la ambivalencia hacia Irán y la falta de coordinación con Israel.</h4>
<p>Durante todo el conflicto con Irán, los medios de comunicación han difundido repetidamente declaraciones tanto del presidente estadounidense Donald Trump como de miembros de su círculo íntimo en la Casa Blanca, afirmando que la destrucción de Irán es inminente, pero la sangrienta guerra ha tenido el resultado opuesto.</p>
<p>La administración Trump ha dado un giro radical en su política exterior al levantar temporalmente las sanciones petroleras contra Irán. Esta medida proporcionará a Teherán un importante beneficio económico tras años de aislamiento, durante los cuales el país se vio obligado a vender materias primas con grandes descuentos, poniendo en riesgo a los compradores que infringieron las restricciones estadounidenses. Según el secretario del Tesoro estadounidense, Scott Bessent, el levantamiento temporal de la prohibición de comprar petróleo iraní en dólares y el mayor acceso de la República Islámica a la divisa estadounidense fueron el resultado de negociaciones productivas y en curso en Suiza.</p>
<p>El vicepresidente J.D. Vance, quien encabezó el equipo negociador estadounidense en Bürgenstock, Suiza, anunció que Irán también había accedido a permitir que los inspectores de la ONU visitaran sus instalaciones nucleares, calificando este hecho como &#8220;un hito importante para el pueblo estadounidense y un primer paso hacia la eliminación definitiva de su programa nuclear&#8221;.</p>
<blockquote><p>Sin embargo, el precedente más peligroso es la transferencia de facto del control de una arteria de transporte global vital a Teherán. Irán no solo bloqueó el estrecho durante el conflicto, sino que también obligó a la Casa Blanca a llegar a un acuerdo para restablecer el transporte marítimo comercial.</p></blockquote>
<p>Esto le ha otorgado a Teherán una influencia sin precedentes sobre el comercio mundial y los precios de la energía, algo nunca visto en la historia moderna de la República Islámica. Además, la cuestión del Líbano se convirtió en un obstáculo. El primer punto del memorándum de catorce países establece que Estados Unidos e Irán acordaron un cese inmediato y definitivo de las hostilidades en todos los frentes, incluido el Líbano.</p>
<p>A pesar de este acuerdo, el documento ignora por completo el papel de Israel, que actualmente ocupa una quinta parte del territorio libanés. Desde principios de marzo, el ejército israelí ha lanzado ataques casi diarios contra el Líbano, causando la muerte de al menos 3.000 personas y el desplazamiento de más de un millón de residentes. Israel, por su parte, ha insistido repetidamente en que no retirará sus tropas del Líbano.</p>
<blockquote><p>El primer ministro Benjamin Netanyahu y yo tenemos una política clara: las fuerzas armadas permanecerán en las zonas de seguridad del Líbano, Siria y Gaza por tiempo indefinido para proteger la frontera y las comunidades israelíes de los elementos yihadistas», declaró el ministro de Defensa, Israel Katz, a finales de junio.</p></blockquote>
<p>Mientras tanto, el conflicto en torno a la injerencia del ministro de Seguridad Nacional israelí, Itamar Ben-Gvir, en la labor policial se ha convertido en una profunda crisis constitucional e internacional.</p>
<p>La fiscal general Gali Baharav-Miara declaró que el ministro de Seguridad Nacional ignoró los acuerdos marco y los plazos establecidos, continuando su influencia directa en las operaciones policiales, interfiriendo en las investigaciones y promoviendo a personal leal. Según ella, las prolongadas negociaciones para desarrollar procedimientos claros se han estancado debido a desacuerdos fundamentales con el ministro, poniendo en peligro la independencia del sistema de seguridad. Ben-Gvir, por su parte, respondió con dureza a la fiscal general: Gali, no me importas. Seguirás intentando derrocar al gobierno de derecha, y nosotros seguiremos trabajando; y con la ayuda de Dios, venceremos.</p>
<blockquote><p>Sin embargo, la victoria que Ben-Gvir proclamó resulta bastante ilusoria, ya que durante años Netanyahu construyó su capital político y el liderazgo del partido Likud sobre la imagen de «el único defensor de Israel frente a la amenaza iraní» y un hombre capaz de ejercer una fuerte influencia en la Casa Blanca. Ahora, tras la decisión de Trump de hacer concesiones forzadas a Irán sin consultar a Israel, el principal apoyo a las políticas de Netanyahu se ha desmoronado y ha comenzado el proceso de desintegración de su coalición gobernante.</p></blockquote>
<p>Dado que el personal militar profesional siempre ha criticado los métodos populistas del primer ministro, este nuevo impulso ha permitido a las fuerzas de la oposición formar un frente unido contra el actual gobierno israelí. Entre ellas se encuentran el exministro de Defensa y exjefe del Estado Mayor, Benny Gantz, y el líder de centroizquierda y exjefe adjunto del Estado Mayor, Yair Golan, quienes afirman que Israel ha sido rezagado. Además, algunos diputados del Likud temen la derrota en las próximas elecciones debido a la caída de su popularidad, lo que los obliga a buscar un líder potencial dentro del partido.</p>
<p>Además de todo esto,la negativa de Washington a revelar todos los detalles del memorándum sobre Irán a Israel se produce en medio de la creciente irritación de Trump con las acciones del primer ministro israelí. En Israel crecen las dudas sobre el plan de Trump, que podría poner en peligro la llamada &#8220;zona segura&#8221; israelí al exigir la evacuación completa de las Fuerzas de Defensa de Israel (FDI) del Líbano.</p>
<p>El último indicio de discordia es la visita del presidente libanés, Joseph Aoun, a Washington, quien espera, con razón, que Trump utilice su influencia para obligar a Israel a retirar sus tropas y ayudar al Líbano a recuperar su soberanía, según informa Reuters.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>PSP pede ao Supremo para esconder “bairros problemáticos”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jul 2026 20:32:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Não contava repetir-me no Supremo Tribunal Administrativo quando pedi à PSP, na frase final de um email de março de 2023, que identificasse os bairros que considerava “problemáticos”. Mas a PSP recorreu, esta sexta-feira, de uma decisão judicial a nosso favor, pedindo ao Supremo que se pronuncie sobre “uma questão jurídica de importância fundamental”: o acesso de jornalistas a documentos confidenciais em matéria de segurança pública. É a tentativa final de esconder a lista do que as polícias chamam “Zonas Urbanas Sensíveis” (ZUS), áreas desproporcionalmente pobres e não-brancas a que dedicam recursos adicionais, e onde agentes admitem agir com mais violência, como documentamos na nova investigação Fronteira do Medo, que publicamos com a revista digital Divergente.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<div class="moz-text-html" lang="x-unicode">
<div><img loading="lazy" decoding="async" class="attachment-medium size-medium wp-post-image" src="https://fumaca.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC07229-300x200.jpg" alt="Ombro esquerdo e peito de um agente da PSP, mostrando o distintivo da força policial, em frente à porta de vidro do Ministério da Justiça, em cuja recepção falam quatro pessoas." width="300" height="200" /></div>
<p>Não contava repetir-me no Supremo Tribunal Administrativo quando pedi à PSP, na frase final de um email de março de 2023, que identificasse os bairros que considerava “problemáticos”. Mas a PSP recorreu, esta sexta-feira, de uma decisão judicial a nosso favor, pedindo ao Supremo que se pronuncie sobre “uma questão jurídica de importância fundamental”: o acesso de jornalistas a documentos confidenciais em matéria de segurança pública. É a tentativa final de esconder a <strong>lista do que as polícias chamam “Zonas Urbanas Sensíveis” (ZUS), áreas desproporcionalmente pobres e não-brancas</strong> a que dedicam recursos adicionais, e <strong>onde agentes admitem agir com mais violência,</strong> como documentamos na nova investigação <a href="http://www.fronteiradomedo.pt"><em>Fronteira do Medo</em></a>, que publicamos com a revista digital <a href="http://www.divergente.pt">Divergente</a>.</p>
<p>No <a href="https://fronteiradomedo.pt/capitulo/auto-de-noticia/">oitavo episódio</a> — já disponível para <a href="http://www.fronteiradomedo.pt/contribuir">quem tem uma contribuição recorrente para o Fumaça ou para a Divergente</a> — revelamos um mapa com 40 ZUS, incluindo todas as assinaladas pela GNR, a que ganhámos um processo similar em 2025, sem chegar ao Supremo. De forma a identificar as centenas de bairros em falta, vamos até à última instância judicial, continuando anos de combate a um boicote das polícias ao jornalismo, que já nos custou milhares de euros, exigiu a mediação do regulador da comunicação social e motivou dezenas de queixas ao regulador de acesso a informação estatal. <a href="http://www.fronteiradomedo.pt/contribuir">Apoia-nos</a> para continuarmos a lutar e segue a série completa de 14 episódios sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham — disponível em <a href="https://pod.link/1126742188">qualquer aplicação de podcasts</a> e no <a href="http://www.fronteiradomedo.pt">site interativo</a>. Mas este é o fim da história.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>Diretor Nacional José Barros Correia recuou após aceitar entrevista</strong></h2>
<p>Percebemos cedo que a relação com a PSP não seria fácil: logo em junho de 2019, meses após começarmos a investigar o policiamento, a direção de Luís Peça Farinha (2017-2020) <a href="https://fumaca.pt/direcao-nacional-da-psp-censura-entrevista-de-manuel-morais-ao-fumaca/">censurou</a> uma entrevista ao agente Manuel Morais, proibindo-o de nos falar do racismo na PSP. Foi apenas a primeira de <strong>uma dúzia de entrevistas recusadas</strong>, algumas após meio ano sem resposta, indicando que não se realizariam “por força de constrangimentos de agenda” e que “tendo em conta os eventos que se avizinham e nos quais a PSP se encontra profundamente envolvida, não se antev[eria] data de exequibilidade.” A direção de Manuel Magina da Silva (2020-2023) afirmou nada ter a acrescentar sobre vários temas. Em quase oito anos, a PSP recusou falar de brutalidade policial, das reivindicações de sindicatos de polícias, do policiamento de proximidade, de como gerem processos disciplinares, de ZUS, de praticamente tudo aquilo que cobrimos na série.</p>
<p>No todo, a PSP aceitou apenas três entrevistas, mas recuou em duas delas: o então porta-voz Nuno Bugalho Carocha cancelou, em dezembro de 2021, uma conversa sobre saúde mental e apoio psicológico a agentes, sem a remarcar; e, em fevereiro de 2024, o <strong>Diretor Nacional José Barros Correia (2023-2024) recusou </strong>uma dezena de perguntas, a que aceitara responder por escrito meses antes, <strong>por não ser “o momento oportuno para proferir qualquer comunicação”, já que corria um inquérito da Inspeção-Geral da Administração Interna após um agente <a href="https://fumaca.pt/jornalista-do-fumaca-agredido-a-bastonada-por-agente-da-psp/">dar bastonadas</a> no jornalista do Fumaça que cobria um protesto </strong>em dezembro de 2023. Dias depois do recuo, elementos da PSP <a href="https://fumaca.pt/psp-agride-jornalistas-do-fumaca-e-setenta-e-quatro/">desferiram bastonadas</a> em jornalistas do Fumaça e do 74 em reportagem noutra manifestação. Em toda a investigação, autorizaram-nos a gravar apenas com o agora assessor do primeiro-ministro <a href="https://fumaca.pt/nuno-poiares-sobre-a-formacao-de-oficiais-da-psp/">Nuno Poiares</a>, sobre a formação de oficiais no Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna. Foi por esta razão que oferecemos anonimato a dezenas de polícias que falaram conosco sem autorização das chefias.</p>
<p>As relações públicas da PSP garantem que o <strong>atual diretor, Luís Carrilho, está desde julho de 2024 à procura de um buraco de calendário </strong>que permita falar-nos: ”Não obstante os esforços desenvolvidos, mantêm-se os constrangimentos de agenda que impedem, por agora, a definição de uma data. Reiteramos a nossa disponibilidade para voltar a avaliar esta possibilidade assim que se verifiquem condições que permitam agendar a entrevista com a dignidade e o tempo adequados.” A PSP garante que não há qualquer boicote à investigação, e que presta “a informação disponível, observando os procedimentos em vigor que são indistintamente aplicáveis a todos os órgãos de comunicação social”.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>PSP recusou sistematicamente informação, mentindo nas justificações</strong></h2>
<p>A PSP não é obrigada a dar-nos entrevistas, mesmo que tal fosse mais consentâneo com a <a href="https://www.psp.pt/Documents/Instrumentos%20de%20Gest%C3%A3o/Pol%C3%ADtica%20de%20Informa%C3%A7%C3%A3o/Pol%C3%ADtica%20de%20Informa%C3%A7%C3%A3o%20da%20PSP.pdf">sua política oficial de informação</a>, que anuncia “disponibilidade para a comunicação com os órgãos de comunicação social”.  Mas está legalmente obrigada a cumprir <a href="https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=2591&amp;tabela=leis">normas de transparência administrativa</a>, disponibilizado documentos e informações.</p>
<p>Só que nos últimos anos a <strong>PSP violou a lei de acesso a documentos dezenas de vezes</strong>: não respondeu no prazo de 10 dias úteis, vedou o acesso a informação sem justificar devidamente, mentiu sobre a existência de documentos (chegando a alegar não saber quanto pagavam agentes para residir nas camaratas dos seus serviços sociais). É um padrão: antes de começarmos a investigar, a <a href="https://www.cada.pt/natureza-e-missao">Comissão de Acesso a Documentos Administrativos</a> (CADA) já tinha emitido quatro pareceres (não vinculativos) favoráveis a jornalistas receberem informação recusada pela PSP. Mas, apesar de a polícia insistir que costuma “acolhê-los” na “medida da sua exequibilidade”, de acordo com as leis de privacidade e de segurança interna, não havia registo de ter seguido um único, disponibilizando os dados.</p>
<p>Quando nos fizeram o mesmo, não desistimos. O que implicou insistir durante anos, com centenas de emails e telefonemas, de frequência, em alguns períodos, diária. Pedimos intervenção da CADA para obter informação sobre questões desde a contabilização de polícias condenados por agredir civis ao tratamento de dados étnico-raciais, passando pela <a href="https://fronteiradomedo.pt/capitulo/garfo-de-ouro/">partilha</a>, pela empresa municipal de habitação de Lisboa, de informações privadas de cidadãos, ou os tempos de espera nas transferências entre postos. E, claro, a lista de ZUS.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>Após três anos, enviaram processos disciplinares por brutalidade</strong></h2>
<p>Uma das vitórias mais demoradas começou com uma mensagem de maio de 2023: pedimos o registo disciplinar do agente Paulo Gonçalves, acusado de brutalidade por vários civis, a propósito da intervenção da PSP em Chelas na passagem do ano de 2015 para 2016, que descrevemos no <a href="https://fronteiradomedo.pt/capitulo/sousa-e-monsanto/">primeiro episódio de <em>Fronteira do Medo</em></a>. O agente nega, afirmando-se vítima de agressões e ameaças.</p>
<p>Mesmo após o Diretor Nacional Manuel Magina da Silva me garantir, por telefone, que “tinha de ter respondida a minha pretensão”, a <strong>PSP alegou, durante meses, que o Código do Procedimento Administrativo nem a <a href="https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=2248A0013&amp;nid=2248&amp;tabela=leis&amp;pagina=1&amp;ficha=1&amp;so_miolo=&amp;nversao=">obrigava</a> a pronunciar-se sobre dar-nos a documentação</strong>. Não se tinham de repetir já que, em dezembro de 2021, tinham explicado num email de um parágrafo que um dos (dois) processos disciplinares contra o agente fora arquivado após uma “averiguação” apurar que a sua conduta se enquadrou “nos parâmetros legais e procedimentais”.</p>
<p>Quando protestámos à CADA, a PSP informou o plenário de juristas de que não podíamos consultar os processos disciplinares por conterem dados pessoais sensíveis (do agente e terceiros), sendo “desproporcionado” o esforço de os expurgar. Considerava os nossos vários pedidos de documentos “abusivo[s]” devido ao seu “caráter repetitivo e sistemático”. A CADA não concordou, <a href="https://drive.google.com/file/d/1DlZbEdsicRZPrUhQJgSpvHtkTqdjsnlN/view?usp=drive_link">defendendo</a> que <strong>conhecer os processos disciplinares de agentes acusados de brutalidade era “essencial para a transparência e o escrutínio” da PSP, permitindo “avaliar” o cumprimento da sua “missão”.</strong></p>
<p>Quando, em junho de 2023, a PSP nos recusou (diretamente, pela primeira vez) entregar a informação, partimos para a via judicial. Em outubro, o Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa deu-nos razão, <a href="https://drive.google.com/file/d/15waa90DxVeoHIbNjSbSE3QF7FLgk9GVr/view?usp=sharing">ordenando </a>o envio dos documentos. Mas o Tribunal Central Administrativo Sul <a href="https://drive.google.com/file/d/15VfkOnEEx2IyPWytSPVfBbndHHBN3w_D/view?usp=drive_link">discordou </a>sobre a forma de contar um prazo, e considerou a intimação inicial extemporânea, por sete minutos. Quando perdemos esse caso, em dezembro de 2024, iniciámos um novo processo, inequivocamente dentro do prazo.</p>
<p>E, desta vez, porventura adivinhando que perderia, a PSP cedeu: em março de 2025, remeteu as conclusões de ambos os processos disciplinares abertos (e arquivados) a Paulo Gonçalves por acusações de brutalidade. O<strong> esforço “desproporcional” de expurgo de dados pessoais correspondeu, afinal, a 95 rasuras </strong>ao longo de 21 páginas.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>Regulador dos média mediou reuniões para PSP cumprir lei de transparência</strong></h2>
<p>Neste ano e meio de luta contra o boicote da PSP, e sem capacidade financeira para levar dezenas de outras recusas a tribunal, fizemos queixa à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), alegando que a PSP estava a desrespeitar o direito de acesso à informação de jornalistas.</p>
<p>Como solução, o <strong>Conselho Regulador da ERC sugeriu organizar uma “audiência de conciliação” </strong>entre as partes. Graças a isso, dei por mim, em julho de 2023, numa sala estreita da sede do regulador, em Lisboa, com um jurista da ERC à cabeceira, na companhia da nossa advogada, Leonor Caldeira, à minha direita. Do lado oposto da mesa estava o então Inspetor Nacional da PSP, e a sua representação legal. Na direção nacional, cabia a José Lopes Clemente cuidar dos processos disciplinares de agentes, mas tinha-lhe caído também no colo responder aos pareceres da CADA, geralmente sustentando as recusas. Neste dia, não parecia vir com muita paciência para ouvir as minhas queixas. Quando acabei de falar, sacou de um dossiê que mantivera escondido debaixo da mesa, bateu com a capa no tampo e, com particular teatralidade, proclamou: “Então, vamos aos factos.” Folheando cópias dos nossos pedidos e insistências, alegou que na primeira metade de 2023 só eu era responsável por 37% de todos os pedidos de informação ao departamento de relações públicas (o segundo jornalista do top cifrava 8%), motivando 350 emails internos e a mobilização de dois agentes dedicados a tempo inteiro a responder-me. “Já viram o que fizeram?”, lamentou, após anunciar que havia psicólogos a deixar de dar consultas para responder às questões sobre saúde mental (falamos sobre esse tema no <a href="https://fronteiradomedo.pt/capitulo/homens-de-policia/">terceiro episódio</a>). Ameaçou abandonar a reunião por eu notar que tinham mentido em respostas (como quando indicaram que o número de agentes afastados de funções por brutalidade constava do balanço social anual da instituição, do que tratamos no <a href="https://fronteiradomedo.pt/capitulo/o-falcao-policia/">capítulo 11</a>).</p>
<p>Assumiu, eventualmente, que os polícias se “sentiam melindrados” pelas perguntas, especialmente quando mencionavam racismo. Acusou a terminologia dos pedidos de “levantar muros de Berlim”, quando ele preferia construir “pontes interpessoais”, ao invés de recorrer a normativos legalistas. De qualquer forma, fazíamos tantas questões que se confundiam, não sabendo ao que tinham de responder. O advogado sugeriu que remetesse uma tabela com todas as pendências. Entreguei-lhe uma fotocópia da tabela que já endereçava, semanalmente, ao departamento de relações públicas. No final de umas das conversas mais exaltadas em que alguma vez participei, desvendando um depósito imprevisto de boa vontade, o Inspetor Nacional disponibilizou-se para analisar de novo os pedidos e discuti-los, um a um, numa reunião daí por uns meses.</p>
<p>Quando revi José Lopes Clemente, em agosto de 2023, no seu amplo escritório no andar superior da sede da PSP, parecia ter demolido todos os muros de Berlim interiores. Ao longo de várias horas, explicou como estariam a localizar alguma da informação que pedimos, prometendo responder a todas as perguntas e justificar as recusas.  Comprometeu-se a trazer os processos disciplinares de Paulo Gonçalves à reunião subsequente, para avaliar que troços seriam relevantes, e ponderar remeter alguma informação. As exceções foram as questões que remetemos sobre mudanças no regulamento interno da PSP para o uso da força. Não só recusou comentar, como sugeriu que <strong>poderíamos enfrentar “responsabilização criminal” por termos uma diretiva que a PSP considera confidencial</strong> (e que divulgamos no <a href="https://fronteiradomedo.pt/capitulo/lugares-de-excepcao/">sexto episódio</a> de <em>Fronteira do Medo</em>).</p>
<p>Mas na primeira semana de Setembro o último governo de António Costa <a href="https://observador.pt/2023/09/04/ex-diretor-nacional-da-psp-magina-da-silva-nomeado-para-cargo-em-paris/">exonerou</a> a direção de José Lopes Clemente (encabeçada por Manuel Magina da Silva). Ainda assim, continuaram a chegar respostas a pedidos de documentos atrasados, dados que tinham alegado nem sequer possuir, outros que recolheram de propósito, e até despachos de encerramento de processos disciplinares a outros polícias.</p>
<p>As dezenas de questões de contraditório é que a PSP optou, largamente, por ignorar, prometendo pronunciar-se após a publicação de <a href="http://www.fronteiradomedo.pt"><em>Fronteira do Medo</em></a> sobre o que considerasse “relevante”, e reservando-se o direito de <strong>iniciar “procedimentos judiciais” caso algo ofendesse a honra da instituição</strong>, conforme transmitiu o recém-empossado inspetor Paulo Pereira, numa reunião em Novembro de 2023. Pelo final desse ano, a lista de pendências reduzira-se praticamente aos pontos em litígio judicial: os processos disciplinares de Paulo Gonçalves, que chegariam pouco depois; e a lista de ZUS, bem como a diretiva que estabelece os seus critérios de classificação (que incluem a composição étnico-social da população residente).</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>PSP pede ao Supremo para esconder lista de bairros que trata como “problemáticos”</strong></h2>
<p>Quando a PSP remeteu as conclusões dos processos disciplinares ao agente Paulo Gonçalves, encerrou apenas parte do processo judicial que tínhamos instaurado no início de 2024. Cabia ainda ao Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa avaliar o pedido de acesso à diretiva estratégica de 2006 que criou formalmente os “bairros problemáticos” na PSP, e à lista de centenas de sítios considerados ZUS ao abrigo desse documento e da <a href="https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=1012&amp;tabela=leis&amp;so_miolo=">Lei de Segurança Interna de 2009</a>.</p>
<p>Ao longo dos anos, somando-se vários pareceres da CADA, dezenas de emails e dois processos judiciais, as desculpas da PSP para ocultar informação sobre as ZUS foram mudando. Por uns tempos, optaram por alegar que a revelação seria “estigmatizante” para quem lá mora. Depois, passaram a garantir que <strong>divulgar as ZUS publicamente seria “prejudicial para os interesses do País ou dos seus aliados ou para organizações de que Portugal faça parte”</strong>, ameaçando “o direito à segurança pública bem como a segurança” de agentes, já que “coloca, sem margem para dúvidas, em causa a capacidade operacional” da polícia. E, finalmente, garantiu que a diretiva com os critérios de classificação era considerada confidencial, ao abrigo das instruções para a Segurança Nacional, Salvaguarda e Defesa das Matérias Classificadas.</p>
<p>Tudo similar à defesa da GNR sobre o mesmo assunto. Em resposta a um pedido de 2023, a <strong>Guarda garantiu que identificar as ZUS ia “colocar em risco a segurança interna” e de militares</strong>, prevendo “graves consequências em termos operacionais”. Mas recusava fazê-lo, “acima de tudo”, para não estigmatizar os bairros, e porque, acreditava, saber que se mora numa ZUS seria “um incentivo à própria delinquência juvenil”. Jurou que a lista era confidencial, ao abrigo de instruções de segurança militar.</p>
<p>Numa sequência de pareceres, a CADA <a href="https://drive.google.com/file/d/1DlZbEdsicRZPrUhQJgSpvHtkTqdjsnlN/view?usp=sharing">notou</a> que não bastava “a mera alusão genérica  à existência de obstáculo ao acesso” para fundamentar uma recusa. <a href="https://drive.google.com/file/d/1kGCxVEw-GC3_jz1GzQRYbdfD7HUQMJYw/view?usp=sharing">Escreveu</a> que “não se percebe o fechamento” das polícias, recusando até transmitir excertos, secções rasuradas dos documentos, ou uma lista datada, sendo que “nada aponta para que o conhecimento desses elementos essenciais possa de alguma maneira ser perturbador do são convívio e da paz social”. O plenário de juristas, então presidido por Alberto Oliveira, decidiu, numa posição de julho de 2023, que “tudo aponta” que esta é <strong>“mais uma matéria em que é fundamental cumprir-se o direito a saber”, apelando a que a polícia se abra “ao conhecimento da comunidade do que faz e das razões para o fazer”</strong>, num “envolvimento […] absolutamente essencial numa sociedade democrática”. <a href="https://drive.google.com/file/d/1bvKR2mFLOOTb5RmBIYtgchJmytYTnT6a/view?usp=sharing">Lembraram</a> meses depois que saber das razões da classificação como ZUS traz para a polícia “e para a comunidade em geral, um conforto e crédito de confiança que são essenciais para o efetivo cumprimento das suas missões.”</p>
<p>Os encómios à transparência não comoveram as polícias. Mas foram largamente sustentados pela magistratura. No Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa, a GNR <a href="https://drive.google.com/file/d/1y6Zm-oU66iUbNmmL7MwG-Gz17eNJ4NKM/view?usp=drive_link">não logrou mostrar</a> ao juiz Pedro Félix de Almeida, “de forma fundamentada e sustentada” qualquer risco inerente à divulgação. Em julho de 2025, o Tribunal Central Administrativo Sul <a href="https://www.dgsi.pt/jtca.nsf/170589492546a7fb802575c3004c6d7d/768bb6152c4bfa7680258cc30030c7f7?OpenDocument&amp;Highlight=0,GNR">concordou</a>, após recurso da Guarda, que a lista de ZUS não estava, efetivamente, classificada, faltando um documento autónomo com a fundamentação e o prazo de revisão (a cada quatro anos, até um máximo de 30). Recebemos os documentos pouco depois.</p>
<p>Tivemos de ganhar duas vezes um processo similar contra a PSP: o caso perdido por ultrapassarmos um prazo, de que falei acima, também nos teria dado acesso às ZUS. Felizmente, na segunda volta, a polícia voltou a ser incapaz de demonstrar riscos concretos ou sequer a classificação adequada dos documentos na primeira instância. A juíza Raquel Feijó Delgado <a href="https://drive.google.com/file/d/1lq_IunIXRM-zk0oHUnXZrmrPAMRN1QTN/view?usp=drive_link">concluiu</a> que foi “negado com fundamento em pressupostos que não se verificam” o acesso aos critérios de classificação. Mas aceitou um argumento repescado da polícia: não podia dar-nos a lista de ZUS, porque nem existia. Recorremos da decisão quanto a esta última parte, insistindo no nosso direito de receber a lista completa das ZUS.</p>
<p>A PSP ia afirmando a espaços que não possuía uma compilação atualizada (por a classificação de cada bairro ser revista periodicamente, de forma “dinâmica”), nem centralizada (sendo a avaliação feita ao nível da esquadra ou comando distrital). Mas numa <a href="https://drive.google.com/file/d/1yp9eeoWUzg5TEHunw5RG5KK12QkJURqH/view?usp=sharing">circular interna de 2012</a> é patente que a direção nacional pediu aos comandos para remeterem as ZUS na sua área, de forma a sistematizar a informação. E, também por isso, os argumentos foram recusados pelo Tribunal Central Administrativo Sul, reconhecendo mérito ao nosso recurso. Em junho de 2026, um coletivo de juízes <a href="https://drive.google.com/file/d/1UV9VeH1ET6Ey2YgRwVlYvpZsrXZO6Wej/view?usp=drive_link">considerou</a> indiferente a lista estar agregada, cabendo à PSP remeter os documentos que sustentam a classificação de cada bairro.</p>
<p>Em princípio, esta decisão não é passível de recurso. Mas, passado o prazo de remessa dos documentos, no dia seguinte a publicarmos <a href="http://www.fronteiradomedo.pt"><em>Fronteira do Medo</em></a>, a polícia tentou uma última escapatória: <a href="https://drive.google.com/file/d/1XOWAz8JuWvZiKyueNnMkzyKjA1Qi663o/view?usp=drive_link">pede agora</a> a intervenção do Supremo Tribunal Administrativo devido à “manifesta relevância jurídica e social” da causa. Para lá da lista de ZUS, temem que se estabeleça um <strong>precedente sobre as condições para jornalistas acederem a documentos confidenciais ligados à segurança interna</strong>. A PSP considera que os tribunais administrativos não demonstraram “deferência mínima para o juízo técnico-operacional da força de segurança”, nem fizeram a necessária ponderação do risco que implica a “exposição de critérios, metodologias, matrizes, modelos de intervenção e informação territorial sensível”. Garante que é impossível remeter troços dos documentos, ou sequer expurgar dados. Aliás, alega que a magistratura exige demasiada fundamentação para as recusas em matérias de operação policial, já que, neste caso, “uma demonstração concreta dos riscos associados à divulgação” pode por si “revelar informação operacional sensível”. No fundo, a PSP acha que a <strong>justificação para não remeter informação reservada está ela própria sob reserva</strong>.</p>
<p>A admissibilidade do recurso ainda não foi apreciada, mas vamos levar o caso até ao fim. Publicámos <a href="http://www.fronteiradomedo.pt"><em>Fronteira do Medo</em></a> após quase oito anos de investigação. O trabalho não está concluído: falta ganhar esta luta pelo escrutínio do Estado e a transparência do poder público, para sabermos que bairros tratam as polícias como “lugares de exceção”, onde agentes assumem ser mais violentos. Lutas que só são possíveis com o apoio de quem nos ouve, vê e lê: <a href="http://www.fronteiradomedo.pt/contribuir">faz uma contribuição recorrente</a> para o Fumaça ou para a Divergente para financiar a nossa batalha legal contra as polícias, e receber a série completa.</p>
<p><em>PS: Como podes ter notado, alterei a minha identificação junto da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, de “Nuno Viegas” para “G. C. Viegas”, nome com que passo a assinar. </em></p>
<p>O conteúdo <a href="https://fumaca.pt/gnr-psp-pede-supremo-esconder-bairros-problematicos/">PSP pede ao Supremo para esconder “bairros problemáticos”</a> aparece primeiro em <a href="https://fumaca.pt">Fumaça</a>.</p>
</div>
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		<title>Encostados à parede</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jul 2026 20:30:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Feito em parceria com a revista digital Divergente. Ouve este episódio e sabe mais no website oficial da série.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="moz-text-html" lang="x-unicode">
<div><img loading="lazy" decoding="async" class="attachment-medium size-medium wp-post-image" src="https://fumaca.pt/wp-content/uploads/2026/07/BG-300x169.jpg" alt="Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)" width="300" height="169" /></div>
<p><em>Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Feito em parceria com a revista digital <a href="https://divergente.pt/">Divergente</a>. <strong>Ouve este episódio e sabe mais no <a href="https://fronteiradomedo.pt/">website oficial da série</a>.</strong></em></p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TRANSCRIÇÃO</strong></h2>
<p><strong>G. C. Viegas: </strong>Vêm aí relatos de violência física. Há notas de transparência nos créditos finais. Ouve isto com auscultadores.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>I</strong></h2>
<p><strong>Elsa Monteiro: </strong>Eu penso que tinha um vidro em frente, não sei se era um guiché. […] E depois eu sei que andei para a esquerda, e na esquerda é que, ao fundo, tinha um túnel, que estava mais escuro. […] Aquilo estava mesmo escuro. […] Eu, sinceramente, quando entrei fiquei com mais medo ainda do que quando estava cá fora. […] Eu não sabia até que ponto é que não me iam agredir a mim lá dentro. […] Eu quase que me arrependi de ter pedido para ir lá dentro vê-lo. […] E, depois, lá no fundo, disseram que estava lá o Pedro. E estava, realmente. Estava de pé, estava algemado e estava um polícia sentado ao lado dele. […] Ele estava numa espécie de um túnel que eu só via os óculos dele, por causa do reflexo. […] Eu perguntei-lhe, na altura, se eles o tinham agredido novamente na esquadra e ele disse-me sempre que não. […] Não sei se ele disse, na altura, com medo de estar-me a dizer e depois, quando eu saísse, voltasse a ser agredido. […] Mas eu consegui perceber pelo semblante dele que sim. […] Que sim, que ele tinha sido agredido, que estava mesmo […] desmoralizado.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Este é <em>Fronteira do Medo, </em>um trabalho de jornalismo de investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Episódio 2: <em>Encostados à parede</em>. Seja toda a gente bem-vinda ao Fumaça, em parceria com a Divergente. Eu sou o Ricardo Esteves Ribeiro.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>II</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O rosto de Elsa Monteiro ganha uma nova expressão quando começamos a gravar. Percebe-se, desde o primeiro momento, que está nervosa: vai reviver um episódio difícil — “um bocado traumático”, diz a própria —, cheio de pontas por resolver. As pernas, vestidas com um fato de treino preto, estão cruzadas por baixo da mesa que nos separa. Recebe-nos em casa, mais de três anos depois da noite em que o companheiro, Pedro Lopes, foi detido na Praça Dr. Fernando Amado, à frente do Café Sousa e Monsanto, na Zona J, em Chelas. Estamos em janeiro de 2019.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues:</strong> É aqui. Elsa, bom dia, com licença. Olha, venho com os Ricardos.</p>
<p><strong>Ricardo Venâncio Lopes: </strong>Bom dia.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues: </strong>Somos uma banda pimba, a Sofia e os Ricardos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Sofia da Palma Rodrigues, que ouvem aqui e ouvirão durante toda a série, é a jornalista da Divergente que fez connosco a investigação deste trabalho. Ricardo Venâncio Lopes ajudou-nos com a logística e a captação de imagem.</p>
<p><strong>Ricardo Venâncio Lopes: </strong>Tudo bem?</p>
<p><strong>Elsa Monteiro: </strong>Tudo.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Olá. Tudo bem?</p>
<p><strong>Elsa Monteiro: </strong>Sim.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues: </strong>Olha, com licença.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Obrigado por nos receberes.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Elsa Monteiro vive com o pai e a mãe. Apesar de ter uma relação com Pedro Lopes há mais de 20 anos, e de este ser o pai dos seus dois filhos, o casal nunca conseguiu independência financeira para sair de casa dos pais. Estamos na cozinha, quando a obrigamos a viajar até ao dia 31 de dezembro de 2015. E quando lhe perguntamos de que se lembra do momento em que chegou à festa, as primeiras palavras que a boca lhe deixa fugir são “Lembro-me de estar contente”. Mas di-lo com tristeza. Os seus olhos grandes já não tocam os nossos. Vagueiam muitas vezes. E é assim que se mantêm durante as quase duas horas em que estamos à conversa.</p>
<p>Elsa Monteiro começa por dizer-nos que não costuma sair para bares ou discotecas na passagem de ano desde que o seu primeiro filho, hoje com 15 anos, nasceu.</p>
<p>Nessa noite, Elsa, Pedro e o filho passaram um tempo com a família, nesta mesma casa onde estamos hoje, antes de caminharem até ao café Sousa e Monsanto e encontrarem os amigos e os filhos dos amigos — no total, umas 20, 25 pessoas, nas contas de Elsa. “Estava o pessoal todo animado”, diz. Até que, por volta das quatro da manhã, a animação foi travada a fundo.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro:</strong> Estava um grupo a falar e eu, de repente, como estou sempre mais atenta, apercebi-me dos… Comecei a ver lá embaixo a darem a volta duas carrinhas, e até comentei com eles “Olhem, vem aí a polícia”, mas como ninguém estava… Não se passava nada de ilícito, não havia barulho, não havia nada contra a lei, à partida ninguém se preocupou, porque não haveria problemas e nem pensámos que fosse diretamente para nós.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>As carrinhas da PSP vieram em direção à praça, acompanhadas por mais um ou dois carros de patrulha, pela memória de Elsa Monteiro. Foi ela uma das primeiras a dirigir-se aos polícias que avançavam em direção ao grupo.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro: </strong>Eles, normalmente, quando vêm atuar, não é? Eles nem sequer querem saber se há crianças ou não, e começam a varrer toda a gente que aparece. E eu lembro-me de ter ido ter com um dos agentes e disse: “Olhe, cuidado que há aqui crianças.” E a única coisa que me foi dita foi: “Encoste-se à parede”, sem nenhuma justificação, e eles mandaram toda a gente encostar à parede. […] E foi assim que todos fizemos, não é? Claro que houve quem começasse a questionar: “Mas encostar porquê? Não estamos aqui a fazer nada, estamos aqui a conviver.” […] Começaram a exaltar-se os ânimos e pronto, foi assim tudo muito… Foi num <em>flash</em>.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Nesta altura, estariam cerca de seis crianças na festa, diz Elsa Monteiro.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro: </strong>Aconteceu tudo o que aconteceu mesmo estando lá as crianças. Mas, se calhar, se não tivessem as crianças a abordagem teria sido mais… Ainda mais, agressiva, penso eu.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Várias crianças foram levadas para dentro do carro por uma amiga de Elsa Monteiro e Pedro Lopes. Pela janela, continuavam a poder ver o que se passava lá fora: gente a ser agredida com bastões, gás lacrimogéneo lançado para o ar. Seis pessoas contam-nos terem sido agredidas nessa noite, incluindo Elsa Monteiro. E Pedro Lopes, ao ver a companheira a ser agredida, conta que insistia em erguer o cartão de cidadão, ao mesmo tempo que exigia que os agentes se identificassem.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro:</strong> Até, na altura, lembro-me de ele ter mostrado o cartão de cidadão e disse que exigia saber, como cidadão português, o que é que estava a acontecer. Houve um dos polícias que do nada se insurgiu lá do meio do grupo de polícias e começou mesmo à cacetada. Eu lembro-me de ele referir que eles tinham agredido a mim e à minha amiga; que estavam a agredir mulheres e não sei quê, e ainda atiçou mais a raiva desse tal polícia que parecia assim, de todos, o mais… Revoltado, digamos. Não sei, parecia que estava sob efeitos de alguma outra substância.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O “tal polícia” a quem Elsa Monteiro se refere é o agente Paulo Gonçalves, que ouvimos no episódio anterior. O mesmo que narra uma história diametralmente diferente da de Elsa ou Pedro, o mesmo que diz ter sido ameaçado, injuriado e agredido por Pedro Lopes. E de quem, apesar da especulação de Elsa Monteiro e de Pedro Lopes, não temos qualquer prova de que estava sob o efeito de estupefacientes.</p>
<p>Perguntámos à direção nacional da PSP sobre o relato que Pedro, Elsa e quatro amigos fazem desta noite. Ignora a maior parte das perguntas. Mas admite que recebeu duas queixas contra Paulo Gonçalves, de dois amigos de Pedro Lopes. O Comando Metropolitano de Lisboa abriu um processo disciplinar em fevereiro de 2016. Pedimos para ler as conclusões. A PSP recusou, ora por ter dados pessoais, ora por ser matéria sensível. Fomos duas vezes a tribunal exigir os documentos. Ao fim de três anos e antes de haver uma sentença, a PSP desistiu da batalha legal.</p>
<p>Recebemos um “relatório final” de quatro páginas, assinado pelo comissário Manuel Guedes Monteiro. Aí, três anos após a queixa, o inspetor escreve que Pedro Lopes apresentava, cito, “pequenas lesões […] compatíveis apenas com o uso da força estritamente necessária à sua imobilização”. Concluiu que o agente Paulo Gonçalves usou a força de forma “necessária, tempestiva, proporcional e adequada”. A descrição é do comissário, justificada por Pedro Lopes ter assumindo “uma atitude de confrontação e de agressão”. Com a garantia de que o agente cumpriu as diretivas internas sobre o uso de meios coercivos, o processo disciplinar foi arquivado.</p>
<p>O próprio Paulo Gonçalves recusou dar uma entrevista para esta série. Mas, em tribunal, negou as acusações.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues:</strong> Quando tu dizes que esse polícia tinha uma atitude diferente, tu consegues descrever os gestos dele?</p>
<p><strong>Elsa Monteiro:</strong> Para já, foi essa atitude dele de quase que afastar os outros todos e querer ser ele a abordar o Pedro por ele estar sempre a questionar. E era mesmo a expressão dele, era mesmo uma expressão diferente, de raiva.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>É improvável que alguma vez consigamos saber exatamente o que se passou na madrugada do primeiro dia do ano de 2016 — nem é esse o objetivo desta série. Pedro Lopes e os restantes amigos contam uma história oposta à dos polícias que lá estiveram nessa noite e que vamos ouvir mais à frente.</p>
<p>Apesar disso, nem tudo nas versões ouvidas é necessariamente contraditório. Todas concordam na data e hora dos acontecimentos; e todas concordam, também, que a ação policial na praça em frente ao café Sousa e Monsanto terminou com Pedro Lopes detido, algemado e levado para a esquadra. O que muda são os relatos sobre o que se passou antes e depois. O agente Paulo Gonçalves conta ter sido ameaçado por Pedro Lopes, levado ao chão, apertado no pescoço e pontapeado no joelho, detendo-o durante o tempo estritamente necessário. Já Pedro Lopes diz ter sido levado ao chão, pisado, detido sem razão e pontapeado ao entrar na esquadra. Aí, acusa Paulo Gonçalves e outro polícia de o forçarem a ajoelhar-se, de mãos algemadas.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Eu estava de joelhos e eles deram-me socos, pontapés… O que é que uma pessoa assim pode fazer contra duas? Não pode fazer nada. Começaram-me a dar socos, pontapés.<br />
<strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> E diziam-te alguma coisa enquanto…?<br />
<strong>Pedro Lopes:</strong> Não, eles não diziam nada. Estavam só a bater. Bater, bater, bater… Nisto tudo, eles desaparecem dali, nunca mais os vi aos dois e vêm outros dois agentes que levam-me para baixo, para uma sala, despem-me… Despem-me não, eu é que me despi. Eu estava ali como vim ao mundo… Tive de fazer lá certos movimentos: agachar-me e blá blá blá, coisas assim, para ver se eu não tinha nada comigo. Tudo bem. Depois disto, mandam-me vestir e eu estou de pé ali no meio da sala. Aquilo parecia um corredor… E eles põem lá uma mesa e uma cadeira, está lá um agente sentado e depois vem outro para falar comigo. E ele está a falar comigo de uma forma para que eu me sinta culpado: “Estás a ver o que é que tu fizeste?” E eu olhei para ele e disse mesmo: ”Estou a ver o que eu fiz? Então, vocês é que fazem a porcaria e eu é que estou a ver o que é que eu fiz?”<br />
<strong>Sofia da Palma Rodrigues:</strong> Foi a primeira vez que tu falaste desde que entraste na esquadra?<br />
<strong>Pedro Lopes: </strong>Falar, sim senhora. Foi a primeira vez que eu falei. Isto é que foi falar. Conversei com o homem cara a cara. E foi a primeira vez que alguém falou comigo também. Eu perguntei ao outro agente: “Olhe, já agora, porque é que vocês fizeram aquela cena toda?” E ele vira-se: “Ah, nós recebemos uma queixa a dizer que vocês estavam a utilizar armas”. E eu disse: “Então, e as armas estão onde? Vocês apanharam alguma arma, ali?”, “Ah, não”.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>“Então, e era preciso entrarem daquela maneira, com crianças lá e mulheres?”, perguntou Pedro Lopes, conta-nos. “Estás a ver isto aqui?”, terá respondido um dos polícias, apontando para o colete anti-balas que tinha vestido. “Nós quando recebemos chamadas de Chelas ou do Casal dos Machados [um outro bairro lá perto], é assim que temos de ir.” E num corredor escuro, com a cabeça a latejar de pensamentos, Pedro Lopes diz que ali ficou.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Eu não acredito nisto… Eu não fiz nada, eu não devia estar aqui. Não, não me vai acontecer nada porque eu não fiz nada. Eu não devia estar aqui. Eu não devia estar aqui.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A PSP refere nunca ter registado um processo disciplinar por agressões de policiais no interior da esquadra dos Olivais. Outras questões sobre este relato concreto ficaram por responder.</p>
<p>E Pedro Lopes pensava: “Eu não devia estar aqui. Eu não fiz nada para estar aqui.” E, como se de um pensamento nascesse outro e outro e outro, lembrou-se do trabalho, a que ia faltar dali a umas horas; e dos amigos, que nada fizeram enquanto o viam ser levado em direção ao chão, pisado, humilhado.</p>
<p>Uma das primeiras coisas que Pedro Lopes nos disse, assim que nos sentámos na sala de estar de casa da sua mãe — a sua casa, para efeitos práticos —, foi que “estiveram lá muitas pessoas, mas nem todas vão querer falar” (as palavras são suas). Na altura, não ligámos muito a isto. Respondemos apenas o óbvio: quem não quiser falar, não falará. Mas só mais tarde nos apercebemos do significado real desta frase: Pedro Lopes sentiu-se sozinho. Sentiu-se sozinho na praça, quando foi agredido e levado para dentro da carrinha; e sentiu-se sozinho mais tarde, quando, ao fazer queixa do agente Paulo Gonçalves, queria ter tido mais pessoas a apoiá-lo, a darem a cara. Do nosso lado, podemos dizer apenas que foi realmente difícil chegar a algumas das pessoas que testemunharam o que se passou naquela noite. Com algumas foi preciso insistir várias vezes, outras nunca sequer chegaram a atender o telemóvel.</p>
<p>É o próprio Pedro Lopes quem tenta uma explicação para isto: quem já tem problemas de sobra, poucos mais se quer arriscar a ter. Quem teve já problemas com a polícia, quer é ver-se longe dela. E muitas das pessoas que vivem em bairros como a Zona J, fogem da confusão, têm menos liberdade de falar.</p>
<p>Nessa tal conversa que tivemos, em 2018, Pedro Lopes contou que, ainda uns meses antes, estava sentado num café com amigos a jogar às cartas, quando um grupo de polícias parou para o identificar. Pedro Lopes mostrou o cartão de cidadão. Mas, sem pedir, um dos agentes arrancou-lho da mão, conta. Pedro não gostou, mas nada disse. Deixou que saíssem e, só aí, ligou ao seu advogado, que lhe explicou que, sim, poderia apresentar queixa, mas, para isso, precisaria de testemunhas.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Bem, quando os polícias vão-se embora eu ponho-me ali a falar com o pessoal e ninguém queria-se meter nisso. Uns até diziam: ”Olha, desculpa, mas eu não quero ter nada com esses gajos. Já tive muitos problemas, não quero complicar a minha vida.” Bem, eu fiquei a pensar: é por causa disto que eles continuam a agir da forma que agem… As pessoas têm medo, não é? Não procuram lutar pelos seus direitos. Como é polícia, acham sempre que vão ficar a perder…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E foi este um dos pensamentos que invadiu Pedro Lopes no dia 1 de janeiro de 2016. Numa esquadra da polícia, numa madrugada que teimava em não terminar, ele, sozinho contra o mundo. Quando, de repente, começou a ouvir vozes do lado de fora.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Eu estava a ouvir pessoal a chamar-me e apercebi-me que eu tinha sido injusto quando disse que o pessoal do meu bairro não fez nada por mim. O que na altura aconteceu foi se calhar terem ficado sem forma de reagir porque há momentos em que uma pessoa não sabe o que fazer perante certas situações, não é? Mas, quando dei conta, estavam lá eles à porta da esquadra a fazer barulho. Deixou-me contente, naquela altura.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro: </strong>Fomos um grupo de pessoas logo diretamente para a esquadra dos Olivais que é para não haver depois desculpas, de chegarem lá e agredir, porque a gente sabe que, normalmente, quando vão para a esquadra dos Olivais é para serem agredidos novamente, não é para fazerem nenhum auto do que aconteceu, nem nada disso.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Elsa Monteiro e alguns amigos foram para a esquadra. Pelo menos três queriam fazer queixa contra os polícias — falaremos sobre isto mais à frente na série.</p>
<p>Só ao fim de algum tempo, um dos polícias permitiu que Elsa entrasse para ver o companheiro.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro:</strong> Aquilo estava mesmo escuro…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>É aqui, neste preciso momento, que começamos o episódio de hoje: num corredor escuro, quase sem gente; onde, ao fundo, se destaca o reflexo dos óculos partidos de Pedro Lopes. Elsa Monteiro teve medo. Conta-nos que quase se arrependeu de lá entrar. Ocorreu-lhe a possibilidade de a agredirem lá dentro. Quando finalmente alcançou o companheiro, algemado, com um agente ao lado, perguntou-lhe se tinha sido agredido. Pedro Lopes disse-lhe que não.</p>
<p>Já era dia quando ele abandonou a esquadra dos Olivais, em Lisboa. “O sol estava a sorrir”, recorda. Esteve umas quatro, cinco horas detido. As dores já se faziam sentir, brotadas de um corpo arrefecido pelo passar das horas e já sem a adrenalina de antes. Não tinha ninguém à sua espera.</p>
<p>As fotografias que pediu à irmã para tirar mostram uma cara inchada e uns pulsos mazelados. Andou um pouco até à praça de táxis mais próxima e pediu que o levassem ao hospital de São José. Aí, contou o que lhe tinha acontecido e na cara de quem o tratava viu indiferença, diz — mais até, uma desconfiança, como se o médico lhe quisesse dizer com o olhar: “Este aqui está a mentir.”</p>
<p>No relatório das urgências do hospital, produzido nessa manhã, lê-se: “31 anos, vítima de agressão referindo traumatismos vários, nomeadamente: ombro esquerdo, punho direito, joelho esquerdo e região cervical. Sem défices de mobilidade.” Também não tinha nada partido. Foi para casa já depois das 11h, a gelo e anti-inflamatório.</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida: </strong>Já eram dez horas, e eu pensei: “Não é normal o Pedro não ter chegado até agora.” Onze horas, meio-dia…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Maria Manuela Almeida é mãe de Pedro Lopes — fala crioulo da Guiné-Bissau. Àquela hora, não era normal que o filho ainda não tivesse aparecido, diz-nos; ainda mais trabalhando nesse dia. Pediu a um dos filhos que ligasse a Elsa Monteiro. Elsa atendeu, mas não a quis preocupar. E Nela — toda a gente a chama de Nela —, pressentindo que algo estava mal, preparava-se para ir bater à porta da esquadra mais próxima.</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida: </strong>Quando eu estava a sair para ir para a esquadra, ele bateu à porta. Eu abri a porta e vi-o todo desfigurado.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E quando estava a sair de casa, Pedro Lopes bateu à porta. “Vi-o todo desfigurado”, diz. “Bateram-lhe muito.” Nela perguntou porque não a tinha avisado do que se passara e o filho respondeu: “Mãe, não te quis matar, tu já sofres muito por nós. Eu não fiz nada…”</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>É uma coisa estranha. Eu não consigo explicar, mas senti vergonha. Senti vergonha de me verem naquele estado. Por isso é que eu disse à mãe que quis ir logo para a cama, porque eu não queria ver a minha mãe ali a chorar. Chorou, choraram todos, mas… É vergonha que uma pessoa sente e não devia sentir. Epa, é estranho. Apareço com a cara inchada e sentir vergonha…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Elsa Monteiro.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro: </strong>Pois, estava assim um bocado transfigurado, mas… Pronto, foi difícil. Porque eu não o tinha visto nesse estado, não é? E quando estive na esquadra não me apercebi realmente que ele estava nesse estado e depois, quando vi foi… Foi um bocado traumático. Foi difícil. É pensar que foste ali acima para comemorar o ano novo com os teus amigos e acabaste no hospital, pronto, agredido por polícias.</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida:</strong> A polícia trata os pretos como animais, ou pior que animais ainda…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>“A polícia trata os pretos como animais, ou pior que animais ainda”, diz Nela. “Bateram-lhe à frente do seu filho, da sua mulher, tudo.” Sofia da Palma Rodrigues pergunta a Nela se tem medo da polícia. E Nela responde: “Tu não me conheces. Os polícias aqui no bairro todos me conhecem. Quando levam os meus filhos na rusga, eu ainda chego à esquadra primeiro do que eles. Eu não tenho medo da polícia. O polícia é um ser humano como eu. Não matei ninguém, não roubei… Não posso ter medo da polícia.”</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida:</strong> Eu não tenho medo da polícia, não! Não, eu não tenho medo da polícia. O polícia é um ser humano como eu. Não matei ninguém, não roubei. Não posso ter medo da polícia.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>III</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A cozinha de Nela é um puzzle que só ela parece saber decifrar. Tudo é cor: as pequenas figuras e adereços que enchem as bancadas, sem função aparente; os ímanes nas portas elevadas; as pegas e os panos; as flores de plástico em jarras de vidro; e Nela, a própria. Enquanto fala connosco, veste um avental cinzento por cima de uma camisa de flanela aos quadrados brancos e castanhos — e é cor. O cabelo tem-no preso por um lenço verde, brilhante.</p>
<p>Entrevistámos a mãe de Pedro Lopes em janeiro de 2019. Tínhamos já conversado com o filho por horas e horas, na sala da casa onde vivem. Nela mantinha-se sempre na cozinha, a preparar o almoço. Cozinha todo o dia, todos os dias. Não exatamente “Todo o dia, todos os dias”, é verdade, mas essa é a sensação de quem passa em casa de Pedro Lopes uma e outra vez, por muitas e muitas horas.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues: </strong>O que é que fez para o almoço?</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida: </strong>Grão com mão de vaca.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>É assim que a entrevista decorre, não poderia ser de outra maneira. Nela cozinha grão com mão de vaca enquanto responde às perguntas da Sofia da Palma Rodrigues, e só muito de quando em vez olha para trás.</p>
<p>Veio para Lisboa em 1983. A 29 de abril de 1983, numa sexta-feira. Nem dez anos tinham passado do 25 de Abril, nem há uma década a Guiné-Bissau tinha conquistado a independência. Nela contava 24 anos e três filhos nascidos numa terra que Portugal deixou para trás, depois de a ter ocupado e explorado o seu povo.</p>
<p>Nela veio à procura de melhor vida, como <a href="https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/14227/1/Quarenta%20anos%20de%20imigra%C3%A7%C3%A3o%20africana_%20um%20balan%C3%A7o.pdf">dezenas de milhares</a> de outras pessoas que até 1974 viveram sob a alçada do regime colonial português. Aterrou no país onde vivia já o seu pai e de onde nunca mais saiu.</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida: </strong>Quando eu vim da Guiné? Fogo, eu era uma mulher linda!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>“Quando eu vim da Guiné, era uma mulher linda”, diz-nos. “Todos os homens me tentavam — jogadores de bola, todos.” Até que conheceu o pai de Pedro Lopes num baile, e se juntou ao homem com quem teve quatro filhos.</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida:</strong> Aquilo que eu e o pai do Pedro passámos quando eu estava grávida dele? Ehh. Nem é bom contar….</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Nela conta que passou fome quando estava grávida de Pedro Lopes, meses depois de chegar a Lisboa. Teve de roubar pacotes de massa para poder comer, andou de chinelos no inverno, não tinha nem um casaco. Mas nunca pediu ajuda ao pai. Pouco antes de a mãe morrer, aconselhou-a: “Volta para a Guiné, volta para Bissau.” Não voltou. Vive há décadas em Chelas — primeiro no que era conhecido por Corredor da Morte, na Zona J, e agora na Zona N1, ou Bairro da Flamenga.</p>
<p>Anos depois, o companheiro de Nela foi deportado de volta para a Guiné por não ter os documentos que, legalmente, o permitiam permanecer em Portugal, dizem. E Nela, que já fazia das tripas coração, passou a cuidar sozinha da família. Pedro Lopes tinha 10, 11 anos.</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida:</strong> A primeira coisa quando eu tinha dinheiro era pôr comida na mesa.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues: </strong>Comida não faltava nunca?</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida:</strong> Credo… Comida não faltava nem um dia. Não… Nunca faltou comida aos meus filhos, sempre tiveram boa comida.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>As dificuldades eram muitas, mas os filhos nunca passaram fome. Essa era a prioridade: “A primeira coisa quando tinha dinheiro era pôr comida na mesa”, diz-nos.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues: </strong>Tem uma boa relação com os seus filhos?</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida: </strong>São meus amigos.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues: </strong>Está nervosa, Manuela?</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida:</strong> Estou a chorar, porque sou eu e os meus filhos. Só. É importante que eles sejam meus amigos. Sou uma mãe galinha. Adoro os meus filhos.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>“Os filhos são meus amigos”, diz Nela. “Todos. Estou sempre disponível para eles. Sempre… Eu sou mãe, sou pai, sou tia, sou avó, sou tudo para os meus filhos.” E chora — não sabemos se de alegria, se da emoção, se do orgulho de falar da família, se da dor de relembrar as dificuldades por que passou ao vê-los crescer.</p>
<p>Nela vendia pastéis, bolos; matava porcos para torresmos, chouriço de sangue e linguiça; trabalhava no restaurante durante o dia, voltava a casa para fazer o jantar, voltava ao restaurante outra vez, trabalhava até à uma da manhã. E, no dia seguinte, estava no trabalho, de novo, às 11h da manhã.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues: </strong>Trabalhava no duro…</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida: </strong>Credo… Tu nem sabes…</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues:</strong> Para ter dinheiro, fazia muitas coisas.</p>
<p><strong>Maria Manuela Almeida: </strong>Trabalhava no restaurante… Saia e vinha cozinhar para os meus filhos e voltava. Chegava à uma da madrugada. No dia seguinte, entrava às 11h. Era assim…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pedro Lopes sempre viveu em Chelas. Nunca visitou a terra que a mãe deixou nos anos 1980 — nunca sequer pisou um país africano. Significa também que nunca pôde ir ver o pai, que morreu em 2016, no ano que começou numa esquadra da polícia. O pior ano da sua vida.</p>
<p>Mas quando fala sobre de onde é, que nacionalidade agarra, o sorriso sai-lhe olhos fora.</p>
<p><strong>Pedro Lopes:</strong> Eu sou guineense e da Zona J, nem que eu tenha que arrancar a Zona J e colocar na Guiné, ou Guiné colocar na Zona J. Eu sou guineense da Zona J. Tenho muito orgulho nisso.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O mesmo diz a sua companheira, Elsa Monteiro que, apesar de já ter estado na Guiné-Bissau, de onde vieram os pais, nasceu em Portugal e também sempre viveu em Chelas.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro: </strong>E ouvia isto diariamente: “Vai para a tua terra” e “Não és daqui”, “Vai para a tua terra”. Só que eu nem associava, era tão pequena que eu dizia assim: “Ah, não deve ser para mim. Estou na minha terra, por isso não é para mim.” Com o tempo é que fui crescendo e fui percebendo: “Espera aí, eu nasci aqui, mas esta não é a minha terra”, não é aqui que eu me sinto… Nasci aqui por acaso. Porque, se calhar, se me perguntassem se eu queria ter nascido aqui, eu também dizia logo que não. Não foi a minha opção.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Mas tu sentes-te mais africana do que portuguesa?</p>
<p><strong>Elsa Monteiro:</strong> Portuguesa sou por acaso. Por um acaso. Mas africana… É o sangue que nos corre nas veias, é africano. Isso não se pode negar. A minha cultura é a africana. Sempre foi, desde pequena.</p>
<p><strong>Sofia da Palma Rodrigues:</strong> O que é que queres dizer com isso: “A minha cultura é a africana”? Em que é que isso se manifesta?</p>
<p><strong>Elsa Monteiro: </strong>Nas tradições, no pensamento. Eu não penso como sendo portuguesa, não tenho… O meu objetivo não é ficar em Portugal a viver. Eu tenho até a mentalidade que, se for possível, ir para África, porque lá é que nós pertencemos, não é? Por mais que a gente ande aí a rodar o mundo todo, a nossa origem é lá, e se calhar é lá que nós nos vamos sentir bem. Ou não, não sei, também. Mas é a ideia que eu tenho. Porque eu também tive em África e fui chamada de branca, não é? Porque para eles eu não sou preta. Não falo crioulo, não nasci lá, já sou considerada branca.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Para Pedro Lopes, identificar-se como guineense não é só aceitar a cultura, ou o sangue que lhe corre nas veias. É também resultado de um sentimento de rejeição pelo Ocidente, pelo mundo branco. Sente que a cor que carrega na pele lhe está sempre a dizer que não pertence ali.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Nós, no mundo ocidental, nós seremos sempre prejudicados, seja em que país europeu for. Nós, os negros, vamos ser sempre prejudicados. Só que há países europeus que sabem fazer as coisas. Portugal tem feito as coisas, como nós dizemos no bairro, mesmo à cara podre. Tem abusado constantemente.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Quando falámos em 2018, Pedro Lopes disse-nos que, apesar de não se sentir em casa, nunca antes tinha pensado deixar Portugal. Até que, em 2016, a festa de passagem de ano e tudo o que a ela se seguiu o fez mudar de ideias.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Eu disse: “Eu vou-me embora daqui, não estou a fugir, mas vou para um outro país que eu sei que também é racista, mas onde eu terei mais oportunidades a nível financeiro e até a crescer como ser humano.” Porque aqui não nos dão essa oportunidade. Aqui o que nós temos é lixo. É assim: eu não digo isto para ofender ninguém, eu digo isto porque é mesmo a verdade, não nos deixam crescer.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Se se pode avaliar uma pessoa pelo que publica nas redes sociais, dir-se-á que Pedro Lopes é um homem intenso: intensamente apaixonado, intensamente zangado. Na sua página de Facebook, manifesta um conjunto de atos de amor: a África, à pele de tons castanhos, à cor preta, ao cabelo crispado, à família, à amizade, à mulher negra, aos revolucionários negros panafricanos, ao rap. Tudo isto misturado com desabafos sobre discriminação no trabalho, sobre discriminação na escola, sobre desigualdade, sobre Deus, sobre as religiões, sobre Bruno Candé — negro, <a href="https://www.dn.pt/sociedade/homem-acusado-de-matar-ator-bruno-cande-condenado-a-22-anos-e-nove-meses-de-prisao-13882081.html">morto com quatro tiros</a> à uma da tarde no meio da rua —, sobre violência policial, sobre racismo judicial, sobre racismo na polícia, sobre o homem branco “genocida nato”, sobre o extermínio de negros…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Tu sentes raiva?</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Eu sinto raiva, mas a minha raiva é bem canalizada. A minha raiva, eu passo para o papel. A minha raiva eu passo para um telemóvel, quando surgem ideias. Porque sou observador. E, sendo observador, há coisas que não nos escapam. Só que as pessoas não podem utilizar a minha raiva como uma arma contra mim. Porque a minha raiva não é uma raiva sem cabeça, digamos assim; é pensada. Eu faço as coisas, eu penso nas coisas. Por mais impetuoso que possa ser e isso até é uma contradição, eu passo tudo para o papel. A minha raiva… As pessoas podem ver a minha raiva, mas é quando eu falo. Porque eu estando com raiva não agrido ninguém…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> A raiva de Pedro Lopes parece-me, de facto, uma “raiva pensada”. De quem se “digladia diariamente”, como escreveu numa das muitas publicações que lemos. E de quem reflete e reflete e reflete sobre a opressão de que sofre. Uma raiva que ganha corpo quando é passada para o papel.</p>
<p><strong>Pedro Lopes:</strong> Nada ka na faltano nha ermons [nada nos falta meu irmãos] / No na djumbai sabi na no tabankas [os encontros nas nossas aldeias são sempre bons] / Bo pudi fiam, terra na aranka [podem acreditar em mim, a terra vai para a frente] / Africanos na riba tudo pa si tchon [os africanos vão voltar todos para a sua terra] / La kuidado gora ka na ten [lá ainda não existem condições] / Na bai compui casa di palha [vou construir casa de palha…] / Na sinta kumi bon mango, bon pische [sentamo-nos a comer boa manga, bom peixe] / Na limbi nha cabaza de chabén [lembo a minha cabaça de chabéu] / Estriparemos a mentalidade Ocidental / Pensamento principal será a africanidade / Negro algum será capataz do caucasiano / Negro algum trairá o seu mano / Juntos viveremos felizes e harmoniosos / Saibam que mãe, pai e filho, formarão a verdadeira Trindade / Procriaremos até à eternidade, planeta cheio de melanina e brilho. / Negro algum será capataz do caucasiano / Negro algum trairá o seu mano. / Negro algum será capataz do caucasiano / Negro algum trairá o seu mano.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>IV</strong></h2>
<p><strong>Sam the Kid, em </strong><strong><em>Chelas</em></strong><strong>: </strong>Chelas, Chelas é o sítio, Chelas é o berço / Chelas, o sítio onde eu moro / Procuro a verdade e a informação que’eu devoro / Eu não ignoro, toda a espécie de pessoa / Oiço uma voz que ecoa na rotina que enjoa / É sempre a mesma coisa que se vive e que se passa / E o que mete graça é que não há nada que se faça / Queres droga vai à praça / É assim o sistema / Porque isto é real não confundas com cinema</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> A década de 40 do século XIX tinha acabado de começar quando um poeta-escritor decidiu fazer a viagem de uma vida. De caderno na mão, foi, de poiso em poiso, de terra em terra, romanceando sobre as desavenças políticas, cronicando sobre o povo e a corte e filosofando sobre o regime em vigor e o que haveria de vir. Não foi longe o poeta escritor — pelo menos aos olhos de agora —, já que se quedou por Santarém, terra ribatejana por onde a guerra civil passava na altura. Da viagem, ficou a obra <em>Viagens na Minha Terra</em>, parte crónica, parte romance, publicada primeiro em folhetins, pela Revista Universal Lisbonense, depois em livro — um dos mais influentes livros do século XIX. Almeida Garrett, seu autor, pôs-se que a Santarém se iria, partido de Lisboa, já que era na capital que vivia. E saído ele, foi pelas portas orientais da cidade, como descreveria logo na primeira crónica: “Assim o povo, que tem sempre o melhor gosto e mais puro que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno Mar Mediterrâneo; do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados a recordações grandes ou queridas. Que outra saída tem Lisboa que se compare em beleza com esta? Tirado Belém, nenhuma. E ainda assim, Belém é mais árido.”</p>
<p>As hortas, as árvores, os palácios, os mosteiros, em parte, ainda lá estão, uns mais degradados do que outros. De facto, quem hoje passar pelo Vale de Chelas, com o livro de Almeida Garrett na mão, com algum esforço conseguirá imaginar a Chelas de 1840, com o rio Tejo a sul, e tudo o resto por ali acima, para norte e oriente do centro de Lisboa. Chelas já não é a mesma do século XIX, mas que parte da cidade é a mesma do século XIX? Por essa data, viviam na capital entre 150 e 200 mil pessoas, não se descia ainda a Avenida da Liberdade de carro — não existia, aliás Avenida da Liberdade —, não chegavam milhões de turistas todos os anos, a dar à costa no Tejo ou a sobrevoar a cidade rés vés… Bem, vocês perceberam o ponto, era uma Lisboa diferente.</p>
<p>Foi a partir do final do século XIX, início do século XX, que a Chelas das hortas e das árvores e dos palácios e mosteiros <a href="https://catalogo.bnportugal.gov.pt/ipac20/ipac.jsp?session=BC8330444638G.52036&amp;profile=bn&amp;source=~!bnp&amp;view=subscriptionsummary&amp;uri=full=3100024~!704778~!0&amp;ri=1&amp;aspect=subtab11&amp;menu=search&amp;ipp=20&amp;spp=20&amp;staffonly=&amp;term=A+vulnerabilidade+do+espa%C3%A7o+em+Chelas+:+uma+abordagem+sint%C3%A1ctica&amp;index=.GW&amp;uindex=&amp;aspect=subtab11&amp;menu=search&amp;ri=1">passou a albergar também</a> milhares de famílias pobres migradas de outras partes do país à procura de melhores vidas e melhores empregos, principalmente na zona industrial ribeirinha da cidade, e que acabavam por dormir em casas sem condições debaixo de barracas, tendas ou pedaços de lata.</p>
<p>Em 1938, a Câmara Municipal de Lisboa classificava Chelas como um “bairro clandestino”. Era uma das dez zonas da cidade consideradas insalubres. Duas décadas depois, a autarquia encontrou-lhe destino: <a href="http://web.archive.org/web/20220124191813/http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/fotos/editor2/97.pdf">ser palco de “habitação social”</a>. E fê-lo lá, em Chelas, porque, na zona oriental da cidade, a câmara já era dona de grandes pedaços de terreno <a href="https://repositorio.ul.pt/handle/10451/2238?locale=pt_PT">expropriados</a> desde o início dos anos 30 pela ditadura militar; e, depois, pelo auto-intitulado Estado Novo. Sim, o regime que promovia a <a href="https://www.oliveirasalazar.org/textos.asp?id=704">propriedade privada</a>, a casa própria, a herança e a economia concentrada em poucas ricas famílias, era o mesmo que, em Lisboa, expropriava terrenos até chegar ao ponto de <a href="https://journals.openedition.org/cidades/2667">um terço do território</a> do concelho ser municipal, segundo o arquiteto Francisco Silva Dias.</p>
<p>Foi ele um dos que trabalhou no Plano de Urbanização de Chelas<em>,</em> apresentado em 1964. Por esta altura, apenas um quarto das casas em toda a chamada “malha de Chelas” teriam condições mínimas de habitabilidade. As restantes seriam barracas ou casas abarracadas. E o desenho que deveria servir de génese à Chelas moderna pregava também pelo crescimento dos espaços verdes que ali existiam, como os que Almeida Garrett descreveu há 175 anos.</p>
<p>Quem seja antigo o suficiente para o ter visto quando saiu lembrar-se-á com certeza d’<a href="https://www.dailymotion.com/video/x21x9ka"><em>Os Verdes Anos</em></a>, filme a preto e branco de Paulo Rocha, lançado em 1963. Era no Vale de Chelas onde se passeavam aos domingos Ilda e Júlio, personagens principais da história, por campos verdes, entre encostas arvoradas de cima a baixo e hortas trabalhadas pelo povo, paredes meias com as casas da gente pobre, vinda do campo para a cidade, à procura de se encaixar numa Lisboa em expansão.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/marvila/"><strong>António Luís Rafael, jornalista da RTP</strong></a><strong>: </strong>Uns após outros, surgiram os bairros com níveis diferentes e conhecidos por letras do alfabeto. Ligados por antigas azinhagas, hoje transformadas em largas avenidas. Destes, o maior e mais organizado é o I, o primeiro a ser construído.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> A meio da década de 1960, o projeto para a urbanização de Chelas deu os primeiros passos no papel. Denominaram-se os diferentes bairros <a href="https://journals.openedition.org/cidades/2667">com letras do alfabeto</a>: Zona I, a primeira; Zona J, a segunda; e, depois, Zona N2, antes ainda da Zona N1, etc. E vários arquitetos passaram a desenhar os prédios, as praças, as lojas. E, depois do desenho da nova Chelas, principiou-se a construção da urbanização, <a href="http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=29300">no início dos anos 70</a>. E, depois, enquanto se construía… Deu-se o 25 de Abril.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/manifestacao-dos-moradores-do-bairro-de-chelas-em-lisboa/"><strong>Manifestantes à RTP</strong></a><strong>:</strong> As casas são do povo. As casas queremos já. As casas são do povo. As casas queremos já. As casas são do povo. As casas queremos já. As casas são do povo. As casas queremos já.<br />
<a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/arrendamento-em-chelas/"><strong>Joaquim Vieira, jornalista da RTP</strong></a><strong>: </strong>A recém-construída Zona I encontrava-se ainda desabitada no 25 de Abril quando alguns milhares de pessoas em condições de subalojamento ocuparam os 90 lotes destinados a beneficiários da Previdência e pertencentes ao Fundo de Fomento à Habitação…<br />
<a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/manifestacao-dos-moradores-do-bairro-de-chelas-em-lisboa/"><strong>Manifestante à RTP</strong></a><strong>:</strong> Por exemplo, as minhas, onde estou, já estão há duas anos e tal prontas a habitar e ainda não… Por isso mesmo, nós… A necessidade nos obrigou a acorrer àquelas casas, visto já estarem há tanto tempo prontas à habitação. Porque não é por nós, e, sim, pelos nossos filhos que nós realmente acorremos àquelas casas.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Em maio de 1974, não só uma parte do bairro estava abandonada, apesar de pronta a habitar, como uma outra — muito maior — estava ainda por finalizar. Na verdade, várias das zonas desenhadas e projetadas a partir dos anos 1960 só acabariam de ser construídas no final do século. As frações da Zona J, por exemplo, foram sendo concluídas no início dos anos 80, na mesma altura em que Nela, mãe de Pedro Lopes, estava a chegar ao bairro, vinda da Guiné-Bissau. Pedro Lopes, nascido em 1984, faz parte da primeira geração da Zona J.</p>
<p>Nas <em>zonas</em> seguintes continuaram os atrasos, como mostra esta reportagem da RTP, de 1990.</p>
<p><a href="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/marvila/"><strong>António Luís Rafael, jornalista da RTP</strong></a><strong>: </strong>E estamos noutra zona ainda em construção, a Zona N1. Atualmente, além deste local, está em construção a Zona L, encontrando-se a M em elaboração de plano.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Com o atraso na urbanização, famílias e famílias chegavam para ocupar as antigas quintas e construir os chamados <em>bairros de lata</em>, como resposta à falta de habitação digna. Umas vinham do interior do país, em busca de trabalho; outras de bairros do resto da cidade; outras ainda dos territórios africanos antes colonizados pelo império português. Chelas tornou-se um bairro de pessoas brancas, negras, ciganas, gente oriunda de muitos lugares, mas, na sua maioria, das classes mais baixas. E, claro, no centro de Lisboa.</p>
<p><strong>G. C. Viegas: </strong>Como foi a tua infância e a tua adolescência em Chelas?</p>
<p><strong>Sam The Kid: </strong>Foi uma infância muito feliz, muito normal, diria. Não tenho queixas absolutamente nenhumas. Acho que até é um grande privilégio. Sempre senti que tinha tudo, tudo à mão de semear.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Não é necessário ter feito parte da génese do hip-hop português — escrevendo, <em>samplando</em>, trocando <em>mixtapes</em> gravadas em casa dos originais da cena — para se conhecer esta voz. Samuel Mira não é só um dos <em>rappers</em> mais conhecidos do país, é uma das vozes de Chelas mais ouvidas de sempre. É rapper, produtor, também conhecido por Sam The Kid, parte da banda <em>Orelha Negra</em> e, talvez mais importante do que tudo o resto, nascido e criado em Chelas — “<a href="https://open.spotify.com/album/5QYUbP8KYoE28Itp9u7MMG?si=G_8L8pFgTlegRsyjCYpexA&amp;dl_branch=1">o sítio</a>”, “<a href="https://open.spotify.com/album/5QYUbP8KYoE28Itp9u7MMG?si=G_8L8pFgTlegRsyjCYpexA&amp;dl_branch=1">o berço</a>”.</p>
<p>Esta entrevista foi feita em junho de 2021, por mim e por G. C. Viegas. Um mês antes, Sam The Kid tinha co-fundado o coletivo “Chelas é o Sitio”, com o objetivo de “trazer mais valor” a Chelas — as palavras são deles.</p>
<p><strong>Sam The Kid: </strong>Eu, que nasci mesmo em Chelas, desde o primeiro dia que saí da maternidade fui para Chelas, não é? Tipo, a minha mãe morava lá, o meu pai também, na altura, não é? Ou seja, somos mesmo os verdadeiros filhos da zona… E sempre foi uma coisa multicultural, estás a ver? De vários… Eu, por acaso, acho que, nesse aspeto, sinto que Chelas é especial. Principalmente, porque Chelas é mesmo dentro de Lisboa, embora as pessoas tentem, tentem, às vezes por engano, sei que é por inocência, tentarem dizer que é periferia, mas não é periferia. […] E sempre dissemos, desde miúdos, a cena da “capital de Lisboa”, é uma coisa que nós dizemos na brincadeira e nas novas gerações ainda dizem.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Esta não foi a primeira vez que ouvimos isto. É, aliás, parte do título de uma das <a href="https://fumaca.pt/reportagem-chelas-city-a-capital-de-lisboa/">primeiras reportagens</a> de sempre do — na altura — É Apenas Fumaça, em 2018.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O que é que é 1950?</p>
<p><strong>Carlos Djassi: </strong>1950 é o nosso código postal. Porque é Chelas. É Chelas City, estás a ver? Para nós, Chelas é a nossa cidade. Chelas é uma cidade dentro de outra cidade. Capital de Lisboa é Chelas. Capital de Portugal é Lisboa.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Este é Carlos Djassi, também conhecido por Mc BamBam, um dos membros do Bataclan 1950, um grupo de jovens que se encontra na Zona J para conviver e cantar a vida através do <em>rap</em>. Afirmar Chelas como a capital de Lisboa parece-me a mim um ato de quase rebeldia, de quem quer desafiar a narrativa que marginaliza o bairro, que o coloca à margem, como periferia. Uma periferia, diz Sam The Kid, construída a partir apenas da descriminação de que é alvo. Como se não pudesse pertencer ao imaginário coletivo a ideia de um bairro do centro de Lisboa onde as cores dos corpos se entrecruzam, onde as origens geográficas questionam o conceito de fronteira, onde as nacionalidades e as culturas afrontam o ideal de Portugal monocultural.</p>
<p><strong>Sam The Kid: </strong>Porque é tipo: “Se tem <em>blacks</em>, não pode estar na cidade”. Existe quase essa cena, e isso é uma realidade, que é tipo: “Ya, não pode haver um bairro onde há <em>blacks</em> mesmo em Lisboa, Lisboa, Lisboa, que festeja o Santo António, Lisboa que é a tarifa um do táxi, Lisboa que é Lisboa, Lisboa.”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Olhando para o mapa, Chelas fica no centro de Lisboa, a pouco mais de dez minutos do Marquês de Pombal, mas nada disso impede que seja colocada à margem. Vários académicos defendem que o atraso na construção das infraestruturas que ligam Chelas ao resto da cidade — que só aconteceu no final do século, com a Expo 98 — e a falta de equipamentos públicos e culturais de proximidade transformaram o bairro numa ilha segregada no meio da capital.</p>
<p>A verdade é esta: se, em 1843, Almeida Garrett falava de Chelas como uma das saídas mais belas de Lisboa, hoje, 180 anos depois, não é raro a palavra Chelas surgir em alguma comunicação social como sinónimo de esfaqueamentos, assaltos à mão armada, tiroteios fora de horas, gangues, delinquência juvenil, tráfico de droga, armas ilegais e, bem, tudo o que de mau venha ao mundo.</p>
<p>E é por isto, garante Sam The Kid, que temos assistido, desde os <a href="https://ubibliorum.ubi.pt/bitstream/10400.6/8737/1/7154_14938.pdf">anos 1990</a>, a uma mudança, um processo a que chama “marketing político”. Se antes parecia claro — às populações, aos políticos, às autoridades estatais — que Chelas era… bem, Chelas, as últimas três décadas mostraram que talvez não seja bem assim.</p>
<p><strong>Sam The Kid: </strong>Como limpar o nome do Chelas é muito difícil na visão deles, porque acham que é um nome que está sujo, vamos usar o nome Marvila e vamos pôr em todo o lado, overdose: para a esquerda é Marvila, para a direita é Marvila, nas sinaléticas, e nem faz sentido nenhum. Não há em nenhuma parte de Lisboa, uma freguesia que tenha, na sinalética em que devia estar hospital ou coiso dizer “Marvila”. Tu queres ir para o hospital, mas diz à direita Marvila. Uma freguesia em que já estás há cinco minutos em Marvila e não sabes… Não tem lógica nenhuma.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A zona que antes tinha nome próprio passou a ouvir da boca e da caneta de um, e depois de outro, e de outro ainda, o nome Marvila; como se lhe tivesse sido imposta uma alcunha contra-vontade. Não que o nome Marvila seja novo, ou tenha sido inventado com este propósito: Marvila existe há muito, a freguesia nasceu <a href="https://jf-marvila.pt/toponimia/">oficialmente em 1959</a> e já existia como local (contendo Chelas e demais bairros) há muitos mais anos; desde Almeida Garrett, por exemplo. Mas a mudança que aponta Sam The Kid — aceite ou não pelas populações — é a de passar a chamar toda aquela zona “Marvila”. Assim, uma loja que toda a vida foi localizada em Chelas, agora, sem ter mudado um metro de sítio, passa a anunciar-se “de Marvila”. É uma estratégia gradual, defende ele, para que, um dia, daqui a dez anos, as populações comecem a questionar-se: “Espera lá, será que isto sempre se chamou Marvila?”. E, depois, com o passar do tempo, ninguém se lembre que Chelas existiu.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Nunca disseste que eras de Marvila?</p>
<p><strong>Sam The Kid:</strong> Não, em nenhum momento da minha vida. Táxis para a Zona I de Chelas, ao pé do liceu D. Dinis. Sempre disse a mesma lengalenga. Algumas vezes não levaram, algumas vezes aconteceu não levarem. E eu revoltava-me sempre: “Mas não levam porquê? Mas não levam porquê? Onde é que começa o medo? Onde é que é a fronteira do medo? Deixa-me aí nessa fronteira”, “Ah não levo, não levo”.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Não foi só Chelas que passou a Marvila. A Zona L passou a Bairro das Salgadas; a Zona M passou a Bairro do Armador; a Zona N1 passou a Bairro da Flamenga; a Zona N2 passou a Bairro dos Lóios; a Zona I, de Sam The Kid, passou a Bairro das Amendoeiras; e a Zona J, de Pedro Lopes, passou a Bairro do Condado.</p>
<p><strong>Pedro Lopes:</strong> Agora o nome do bairro é Bairro do Condado, não é? Se calhar, é para quem chegar lá não saber que é a Zona J.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Mas tu continuas a chamar Zona J.</p>
<p><strong>Pedro Lopes:</strong> É a Zona J. Para qualquer pessoa. Qualquer pessoa sabe que aqui é a Zona J. Até pessoas que não são de lá, que nunca tiveram lá um apartamento, uma mulher, um filho, dizem que são da Zona J, só para tu veres como gostam de estar ali naquele bairro.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Para Pedro Lopes, a mudança de nomes não pode ser desligada de um processo de gentrificação em curso na zona. Apesar da freguesia de Marvila, em que se inclui Chelas, estar a meio da tabela <a href="https://www.ine.pt/ngt_server/attachfileu.jsp?look_parentBoui=719619546&amp;att_display=n&amp;att_download=y">de rendas</a> do concelho de Lisboa, não só estas têm aumentado de preço, como muitas das casas antes públicas, <a href="https://ocorvo.pt/por-que-e-marvila-a-freguesia-de-lisboa-com-os-precos-das-casas-mais-baixos/">hoje são propriedade de privados</a>. Chelas foi casa para festivais como o <em>Rock in Rio</em>, no Parque da Bela Vista. E os equipamentos — os tais que faltavam nos anos 80 e 90 — são cada vez mais: há hipermercados, agora, um <a href="http://www.tecnohospital.pt/noticias/novo-hospital-de-lisboa-previsto-para-2023/">hospital prometido</a>, uma grande superfície da <a href="https://www.decathlon.pt/store-view/sport-shop-lisboa-0070208502085">Decathlon</a> à porta do bairro, uma sala de concertos paredes meias, e até um colégio internacional junto à habitação social, o United Lisbon Education Hub.</p>
<p>Aquilo em que resultarão estas mudanças é difícil de prever. Se é verdade que mais e melhores infraestruturas trazem, à partida, mais qualidade de vida, sabemos que se pode traduzir também num aumento de preços repentino e generalizado, que atira para fora do bairro as pessoas que não são capazes de suportar o aumento do preço das rendas e das propriedades.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Isto aqui é tudo um processo de gentrificação. Estão a trabalhar para que o pessoal que ganha menos saia daqui e nem vão fazer esforço algum. Eles sabem bem como fazer as coisas. Eles não precisam de agarrar em nenhum agente para nos tirar de casa, não. As rendas têm de subir, têm de subir as rendas. Porque oferecem isto tudo a um bairro social? Um hospital? Um bairro social que tenha um hospital, essas coisas todas, vocês acham que as rendas vão continuar baixas? Por isso é que eu estou a dizer: se é para sair de Lisboa, prefiro sair do país. Porque tarde ou cedo eu vou ser obrigado a… Eu, quando digo “eu”: e mais outros. Vamos ser obrigados a sair de Lisboa, porque estão-nos a empurrar de uma forma subtil. Estão-nos a empurrar mesmo.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Esta estratégia não quer apenas limpar “o nome” do bairro, quer limpar a população. É isso que diz Pedro Lopes. É isso que diz Sam The Kid.</p>
<p><strong>Sam The Kid:</strong> Eu, quando era mais novo, eu pensava que os meus amigos saíram de Chelas porque era a coisa a fazer, a coisa… “Ya, tens que sair de casa dos teus pais e tens que ir numa beca para longe, porque é assim que é.” Pensei que era mesmo uma escolha. Mas, com o tempo, cada vez mais sinto que não há outra escolha. Se calhar, há uns que realmente é aquilo que querem, porque querem ter uma casa bacana, e para terem a casa boa, com família, com vários quartos para vários filhos, têm que ir para mais longe. Mas aqui a minha questão é: e existir a opção de querermos ficar?</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>V</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Sam The Kid tem o sonho de ficar. Ouvimo-lo dele, mas também de outras pessoas que se vêem empurradas pelo escalar da gentrificação em Chelas e em toda a Lisboa, para longe das suas casas, dos seus bairros.</p>
<p>Apesar disso, durante os anos em que estivemos a fazer esta série, o sonho de ficar não foi o único que nos chegou aos ouvidos.</p>
<p><strong>Hélder Gomes:</strong> Isto parece aquelas coisas de criança. E é um sonho de criança. Porque eu não vou viver comigo e dizer “Não segui o meu sonho”. A ver histórias policiais… “E se eu fosse polícia? E se eu tivesse tido a minha carreira?”</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Entrevistámos quatro dezenas de polícias, que nos falaram sobre o que é isso de querer mudar o mundo com uma farda vestida. Mas também de como este sonho se pode transformar num pesadelo. No próximo episódio, vamos ouvi-los.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TEASER</strong></h2>
<p><strong>Marisa Dolores: </strong>Ser polícia é mau para a saúde. Ser polícia é mau para a gestão familiar. Ser polícia é mau para a gestão financeira […]. Nós não temos a dignidade de ter um ordenado suficiente para pagar uma casa em Lisboa, mas sim um quarto, em que normalmente partilhamos com outros colegas.</p>
<p><strong>Vasco (anónimo): </strong>Desde crianças mortas à tua frente, desde cenas de homicídio que, se calhar, reviravam o estômago às pessoas mais sensíveis, e tu sais daquela ocorrência e tens que entrar no dia seguinte às 8h como se nada fosse.</p>
<p><strong>Luís Maria: </strong>A instituição não está preparada para pessoas que tenham, por exemplo, stress pós-traumático, síndromes depressivos, síndromes de ansiedade.</p>
<p><strong>Pedro Carmo:</strong> Só fica na polícia quem tem uma pancada. Porque não se consegue aguentar isto de outra forma. […] ao longo de alguns anos de serviço policial, a pessoa muda. A pessoa ganha um transtorno emocional.</p>
<p><strong>Hélder Gomes: </strong>Eu próprio tive momentos em que podia representar um perigo para os meus colegas.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>CRÉDITOS</strong></h2>
<p><strong>G. C. Viegas: </strong>Acabaste de ouvir <em>Encostados à Parede</em>, o segundo episódio de <em>Fronteira do Medo, </em>uma série do Fumaça com a Divergente que vai ter 14 capítulos, lançados semanalmente. Ainda falta, não é? E se te disser que podes ouvir já a série até ao fim? Basta fazeres uma contribuição recorrente em <a href="http://www.fronteiradomedo.pt/contribuir">www.fronteiradomedo.pt/contribuir</a>. Apoia o jornalismo do Fumaça e da Divergente. No próximo episódio, ouvimos polícias.</p>
<p>Em www.fronteiradomedo.pt encontras várias histórias complementares a este podcast, com transcrições, fontes, imagens, ilustrações e informações adicionais, como uma cronologia sobre a construção do bairro de Chelas, em Lisboa.</p>
<p>Duas notas de transparência. Elsa Monteiro, que ouviste neste episódio, trabalhou até 2018 para a Aguinenso — Associação Guineense de Solidariedade Social. Essa associação, também até 2018, contratou a proprietária legal da Divergente, a cooperativa Bagabaga, para um projeto de intervenção social na Zona J. Também ouviste Carlos Djassi, do grupo de jovens Bataclan 1950. A mesma cooperativa Bagabaga produziu, com os Bataclan 1950, o documentário <em>Chelas Nha Kau</em>, lançado em 2020.</p>
<p>Este episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro, que investigou comigo, G. C. Viegas, e com Sofia da Palma Rodrigues. Eu, a Sofia e o Pedro Miguel Santos editámos a peça. A verificação de factos ficou com Margarida David Cardoso, a revisão com Diogo Cardoso e a consultoria jurídica com Leonor Caldeira. O Bernardo Afonso fez reportagem, para além do desenho e edição de som e da composição e interpretação da banda sonora. O Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. O José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida e Ricardo Esteves Ribeiro. Também participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Luis Marquez, Luciana Maruta, Rafaela Cortez e Fred Rocha.</p>
<p>Ouviste neste episódio sons da RTP, do álbum <em>Sobre(tudo)</em>, de Sam the Kid, e os <em>Verdes Anos</em>, de Carlos Paredes.</p>
<p>A Fundação Rosa Luxemburgo doou para fazermos esta série. O Fumaça está a receber bolsas estruturais da Fred Foundation e Limelight Foundation. Os contratos estão disponíveis em <a href="http://www.fumaca.pt/transparencia">www.fumaca.pt/transparencia</a>. A Divergente tem uma bolsa da Civitates.</p>
<p>Até já.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://fumaca.pt/encostados-a-parede-fronteira-do-medo/">Encostados à parede</a> aparece primeiro em <a href="https://fumaca.pt">Fumaça</a>.</p>
</div>
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		<title>Ideas no Exilio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jul 2026 23:02:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura e Arte]]></category>
		<category><![CDATA[#Anonymous #AnonynousPortugal #WeAreHere #ExpectUs]]></category>
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					<description><![CDATA[peido nilista (A) mo vuz]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>I try all the time</p>
<p>(A)</p>
<p>Twenty-five years and my life is still<br />
Tryin&#8217; to get up that great big hill of hope<br />
For a destination<br />
I realized quickly when I knew I should<br />
That the world was made up of this brotherhood of man<br />
For whatever that means</p>
<p>And so I cry sometimes when I&#8217;m lying in bed<br />
Just to get it all out what&#8217;s in my head<br />
And I, I am feeling a little peculiar<br />
And so I wake in the morning and I step outside<br />
And I take a deep breath and I get real high<br />
And I scream from the top of my lungs: What&#8217;s going on?</p>
<p>And I say: Hey-ey-ey-ey-ey, hey-ey-ey<br />
I said: Hey! A-what&#8217;s going on?<br />
And I say: Hey-ey-ey-ey-ey, hey-ey-ey<br />
I said: Hey! A-what&#8217;s going on?</p>
<p>And I try<br />
Oh my God, do I try<br />
I try all the time<br />
In this institution<br />
And I pray<br />
Oh my God, do I pray<br />
I pray every single day<br />
For a revolution</p>
<p>And so I cry sometimes when I&#8217;m lying in bed<br />
Just to get it all out what&#8217;s in my head<br />
And I, I am feeling a little peculiar<br />
And so I wake in the morning and I step outside<br />
And I take a deep breath and I get real high<br />
And I scream from the top of my lungs: What&#8217;s going on?</p>
<p>And I say: Hey-ey-ey-ey-ey, hey-ey-ey<br />
I said: Hey! A-what&#8217;s going on?<br />
And I say: Hey-ey-ey-ey-ey, hey-ey-ey<br />
I said: Hey! A-what&#8217;s going on?</p>
<p>And I say: Hey-ey-ey-ey-ey, hey-ey-ey (wake in the morning and I step outside)<br />
Hey-ey-ey (take a deep breath and I get real high)<br />
I said: Hey! A-what&#8217;s going on?<br />
And I say: Hey-ey-ey-ey-ey, hey-ey-ey (wake in the morning and I step outside)<br />
Hey-ey-ey (take a deep breath and I get real high)<br />
Yeah, yeah, yeah, I said: Hey! A-what&#8217;s going on?</p>
<p>Twenty-five years and my life is still<br />
Tryin&#8217; to get up that great big hill of hope<br />
For a destination,</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Climáximo visita localidades atingidas pelos fogos em Vouzela: &#8220;Foi horrível, só quem vive é que sabe&#8221;, afirmam populares</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2026 11:49:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ecologia e Animais]]></category>
		<category><![CDATA[Climaximo]]></category>
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					<description><![CDATA[Este fim de semana, o Climáximo esteve na zona de Vouzela numa "brigada de apoio popular". "Os incêndios que todos os anos atingem Portugal são uma manifestação violenta da crise climática, uma guerra que os governos e as empresas declararam às populações e ao planeta", afirma o coletivo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Este fim de semana, o Climáximo esteve na zona de Vouzela numa &#8220;brigada de apoio popular&#8221;. &#8220;Os incêndios que todos os anos atingem Portugal são uma manifestação violenta da crise climática, uma guerra que os governos e as empresas declararam às populações e ao planeta&#8221;, afirma o coletivo. </em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Nos dias 11 e 12 de julho, um pequeno grupo de apoiantes do coletivo por justiça climática &#8220;Climáximo&#8221; esteve em algumas das localidades atingidas pelos fogos na zona de Vouzela &#8211; Carvalhal de Vermilhas, Couto, Farves, Alcofra, Campia, e Cambra. Este foi o primeiro grande incêndio da temporada e queimou mais de 13 mil hectares, incluindo locais de armazenamento de feno e palha, levando a que várias pessoas tivessem perdido os seus investimentos e fontes de rendimentos</p>
<p>&#8220;Este não é um fenómeno isolado. O incêndio aconteceu durante a sexta onda de calor em Portugal só em 2026, numa altura em que toda a Europa estava a bater recordes de temperatura. Em Espanha, um incêndio no sul do país já deixou pelo menos 12 mortos e dezenas de desaparecidos. Estas são as consequências da crise climática. E têm responsáveis: as empresas de combustíveis fósseis, como a Galp, que há décadas que sabem que queimar petróleo e gás levaria a Humanidade ao inferno climático; em Portugal; as empresas de celulose como a Navigator ou a Altri que transformaram o território do interior num eucaliptal pronto a arder; e os governos que, cúmplices, deixaram a situação chegar a este ponto. Juntando a tudo isto o abandono sucessivo do território e das populações do interior, temos a receita perfeita para o desastre&#8221;, escrevem em comunicado.</p>
<p>Ao longo dos dois dias, a &#8220;brigada de apoio popular&#8221; visitou algumas das localidades e pessoas atingidas pelos incêndios, &#8220;escutando aquilo que as pessoas têm a dizer e, de forma muito limitada, apoiando em alguns trabalhos bem como levando bens de apoio, nomeadamente rações e alimentos para o gado, uma vez que, com a serra toda ardida, muitas pessoas não têm forma de alimentar os animais &#8211; fonte de subsistência para muitas&#8221;.</p>
<p>Em comunicado, destacam que muitos dos populares com quem falaram revelam sentir que &#8220;o Estado não fez o suficiente para proteger a população e os seus bens, falhando no processo de preparação&#8221;, que &#8220;muito do território não estava cuidado devido ao abandono e falta de investimento na manutenção das florestas&#8221;, e que, contrastando com o episódio em Outubro de 2017, &#8220;a situação estava a ser mais crítica este ano porque não choveu nem o calor dava tréguas&#8221;. Destacam ainda que um dos pedidos de apoio por parte da população é de &#8220;feno, palha, ração e outros alimentos para o gado&#8221;, visto que o incêndio deixou muitas pessoas e pequenos produtores na angústia e desespero de não ter como alimentar os animais.</p>
<p>O Climáximo apela a &#8220;todas as pessoas que não querem ficar de braços cruzados e que se recusam a ficar passivas enquanto os governos e as empresas nos empurram para o inferno climático&#8221; que &#8220;entrem em resistência climática&#8221; através de &#8220;agir em solidariedade com as popuações afetadas pelos incêndios neste Verão que está a ser infernal, bem como lutar para fazer frente e travar a emergência climática&#8221;. O coletivo aponta que as pessoas interessadas em juntarem-se a estes esforços podem preencher o formulário no seu website (<a href="https://www.climaximo.pt/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">https://www.climaximo.pt/)</a></p>
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		<title>Mais de 30 mil hectares ardidos até aos primeiros dias de julho confirmam o pior ano desde 2017: Portugal foi abandonado pelas suas elites</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2026 11:47:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ecologia e Animais]]></category>
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					<description><![CDATA[O início deste mês foi devastador, com mais de 15 mil hectares de área ardida, o que faz do incêndio de Vouzela um dos maiores mega-incêndios da história recente de Portugal. Nada do que está a acontecer era inesperado ou inevitável. Nos meses que se aproximam é expectável um cenário ainda mais grave, já que a floresta derrubada pelas tempestades de janeiro continua acumulada no terreno, secando à espera de arder, enquanto o abandono do mundo rural e a eucaliptização do território são piores do que nunca. Entretanto, o Primeiro-Ministro deslocou-se aos Estados Unidos para assistir ao Mundial, enquanto em Portugal pessoas morriam devido ao calor extremo e à inalação de fumo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="gmail_quote gmail_quote_container">
<div dir="ltr">
<div><b><b>O início deste mês foi devastador, com mais de 15 mil hectares de área ardida, o que faz do incêndio de Vouzela um dos maiores mega-incêndios da história recente de Portugal. Nada do que está a acontecer era inesperado ou inevitável. Nos meses que se aproximam é expectável um cenário ainda mais grave, já que a floresta derrubada pelas tempestades de janeiro continua acumulada no terreno, secando à espera de arder, enquanto o abandono do mundo rural e a eucaliptização do território são piores do que nunca. Entretanto, o Primeiro-Ministro deslocou-se aos Estados Unidos para assistir ao Mundial, enquanto em Portugal pe</b></b><b>ssoas morriam devido ao calor extremo e à inalação de fumo.</b></div>
<div></div>
<div>É preciso recuar ao ano traumático de 2017 para encontrar uma situação comparável à atual. Os 30 mil hectares de área ardida até ao passado dia 6 confirmam um cenário amplamente previsível, tendo em conta as tempestades de janeiro, o calor recorde associado à crise climática e o Super El Niño que já começou. Portugal continua a ter a maior área relativa de eucaliptal do mundo, com cerca de um milhão de hectares, continua a ter um mundo rural profundamente abandonado e extensas áreas sem gestão, e continua particularmente exposto aos efeitos mais severos da crise climática. Segundo Sílvia Carreira, da Rede de Resposta Floresta do Futuro, &#8220;<i>Perante esta realidade, a resposta é permitir que o abandono se agrave e criar condições para uma exploração cada vez mais intensiva dos solos, dos recursos naturais e das populações. A política pública é extremamente simples: deixar queimar e promover o abandono que embaratece a exploração dos solos, dos recursos e das pessoas que ainda resistem no interior.</i>&#8221;</p>
</div>
<div>Enquanto estas catástrofes, promovidas pelo modelo económico que continua a favorecer a exploração intensiva do território, incluindo os setores da pasta de papel e dos combustíveis fósseis, contam com a complacência deste Governo e dos anteriores, o principal responsável político do país, Luís Montenegro, deslocou-se aos Estados Unidos, com recursos públicos, para assistir ao Mundial de Futebol. A imagem transmitida é profundamente reveladora do distanciamento entre o poder político e a realidade vivida pelas populações. O abandono do país e em particular da regiões rurais é absoluto, intencional e que já nem sequer é escondido. O abandono das regiões rurais tornou-se estrutural e a ausência de respostas políticas à altura deixou de poder ser ignorada. O povo está entregue a si mesmo e os governos completamente divorciados de quem supostamente representariam.</div>
<div>
A Rede de Resposta a Incêndios Floresta do Futuro, com membros por todo o país, está atenta e continuará a responder aos cenários cada vez mais preocupantes que enfrentamos, rejeitando a ideia de que os incêndios são inevitáveis, recusando a sua normalização e contestando a falsa inevitabilidade de um modelo territorial que produz tragédia após tragédia. A rede defende uma transformação profunda do mundo rural, assente na redução da dependência do eucalipto, na descarbonização da economia baseada na redução efetiva das emissões de combustíveis fósseis, e não na mera substituição do problema por megaprojetos energéticos sem ordenamento do território, e na democratização da gestão do território e dos seus recursos.</div>
<div></div>
<div>Mais informações: florestadofuturoi2026[arroba]gmail.com</div>
</div>
</div>
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		<title>Sousa e Monsanto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Jul 2026 19:23:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Discriminação]]></category>
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					<description><![CDATA[Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma série de investigação em podcast produzida para ser ouvida. Se puderes, ouve com auscultadores. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="moz-text-html" lang="x-unicode">
<div><img loading="lazy" decoding="async" class="attachment-medium size-medium wp-post-image" src="https://fumaca.pt/wp-content/uploads/2026/07/BG-300x169.jpg" alt="Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)" width="300" height="169" /></div>
<p>Esta é uma transcrição de <em>Fronteira do Medo</em>, uma série de investigação em podcast produzida para ser ouvida. Se puderes, ouve com auscultadores.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TRANSCRIÇÃO</strong></h2>
<p><strong>Nuno Viegas: </strong>Nesta história há descrições de violência física. Alguns troços são recriações. Ouve com auscultadores. A narração é de Ricardo Esteves Ribeiro.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>I</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quando Paulo Gonçalves saiu à rua, horas antes de ser levado ao hospital, não sabia ainda que a história daquela noite seria maior do que a história daquela noite. Na verdade, não tinha como saber. Paulo Gonçalves não é divino, nem adivinhador de futuros — se acreditarem neles —; é apenas um modesto representante de deus na terra, diria a dada altura o comissário providencial em <em>Ensaio sobre a Lucidez</em>, de Saramago. Um polícia, diria eu. E se é certo que este polícia não pode saber, neste momento, o que sucederá até ao final desta madrugada, tem pelo menos a certeza de que não irá a casa hoje. Talvez exageremos ao dizer que não irá a casa. É provável que Paulo Gonçalves tenha um lugar a que chame “casa” em Lisboa ou perto da capital. Mas, se resolvermos por chamar casa ao sítio onde nascemos ou crescemos ou onde vive a nossa família — como faz uma parte das pessoas deslocadas —, aí sim, é seguro dizer que lá não irá, até porque a sua fica a cerca de 200 quilómetros de onde agora estamos.</p>
<p>Paulo Gonçalves cresceu em Pouca Pena, uma aldeia no concelho de Soure, para os lados de Coimbra, de onde saiu há pelo menos oito anos. E a razão porque não lá irá é até bastante simples, fácil de saber. É que uma passagem de ano é uma passagem de ano. E uma passagem de ano para um agente da PSP em Lisboa é quase sempre razão de serviço. Basta estar um par de horas a conversar com polícias sobre os problemas de polícias para que o desejo de estar perto de casa venha no topo das demandas. A história que contam é frequentemente a mesma: são enviados para Lisboa ou arredores, ficam anos e anos à espera por uma vaga na terra natal, anos e anos de disponibilidade permanente, folgas inconvenientes, pobre compensação e saudade de casa.</p>
<p>A julgar pelos relatos de quem faz disto vida ou de quem, pela profissão, faz disto objeto de estudo é crível que, se estivéssemos dentro de alguma esquadra agora mesmo, feitos moscas curiosas a meterem-se em lugares que não são os seus, a fotografia que tiraríamos não distasse muito da seguinte pintura: uma série de agentes à espera do que apareça, entretendo-se com piadas e traquinices — talvez até com 12 passas no estômago, tomadas umas horas antes, pelo virar de ano — e cada um sabendo que a noite ainda não acabou, por muito que já estejamos madrugada dentro. Dirão vocês que moscas não tiram fotografias e dizem-no bem, é verdade; mas também não é menos verdade que não estamos lá nós numa esquadra nesta noite — é impossível saber o que lá se passa ao certo. E mais verdade ainda é que sobre o que acontece no interior desta esquadra específica, a 34.ª Esquadra da PSP de Lisboa, nos Olivais, a esta hora, às quatro da manhã, não temos relato algum. Mas se há coisa que polícias dizem, quando se lhes pede que retratem o serviço de uma passagem de ano é isto: uma noite longa, de muito trabalho, distúrbios, álcool, e que “vai ser sempre a rolar”. Que ainda não acabou. Não que tenham já lido a história, numa daquelas reportagens que se escrevem anos depois como se estivessemos no próprio dia; ou até que acreditem no destino, que sobre isso teríamos de perguntar a cada um; mas esta é do tipo de certeza que a observação empírica confere a quem já virou muitos frangos, como se costuma dizer. Um <em>feeling</em>, pode também chamar-se. E o <em>feeling</em>, quando é destes, menos positivos, causa formigar na barriga.</p>
<p>A formiga é um bicho fascinante. Basta não mais que umas dezenas de minutos de olhar desatento e o que dantes era uma formiga perdida a rondar uma bolacha esquecida é agora um batalhão delas de volta do prato, como se num estalar de dedos se multiplicassem sem nos apercebermos de onde brotaram. Mas não são meros estalares de dedos que, usualmente, fazem multiplicar os formigueiros nas barrigas dos polícias. É mais do que isso.</p>
<p><strong>Polícia (reconstituição): </strong>Mais informo que se encontra na Zona J viatura com matrícula [não se ouve os números] Quebec, Índia. Viatura de marca BMW, cor preta. Seguem três indivíduos caucasianos, com suspeita de arma de fogo. Não pararam à ordem dos colegas. Solicita-se apoio. Desloque-se para a Zona J, Praça Dr. Fernando Amado. É numa ZUS. Equipar devidamente para ir para o local dar apoio. Escuto.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>São quatro da manhã e a missão não era inesperada: os agentes da PSP são chamados com frequência a resolver os problemas que outros criaram; chatices de terras que não as suas. Afinal de contas, estamos em Chelas, na Zona J, uma zona sensível no centro da cidade de Lisboa — um bairro problemático, para ser mais claro; e para o mais estamos na última noite do ano — álcool, drogas e disparos de armas de fogo é o que esperam. Os tiros já se ouviam. Armas na zona havia de certeza.</p>
<p>Os membros da equipa equipam-se a rigor: gás pimenta, bastões, algemas e o que mais for essencial para intervir. Entram na carrinha, encontram-se com outros elementos da esquadra da Zona J e põem-se a caminho da praça.</p>
<p>A praça Dr. Fernando Amado é uma praça de convívio de um bairro habitacional de classe média-baixa em Lisboa: um conjunto de mamarrachos construído disformemente, como se arquitetos os tivessem imaginado de costas voltadas: uns com mais de dez andares, outros, logo à beira, com apenas um par deles; uns branco sujo — não sei se de cor, se de idade —, outros laranja e rosa; e todos — aí sim, houve acordo —, com uma boa quantidade de marquises gastas.</p>
<p>É no lado sul da praça Dr. Fernando Amado que se encontra o café Sousa e Monsanto, para onde esta equipa de polícia é agora chamada. O local estava já referenciado pela PSP. Não exatamente o café, mas o largo que lhe dá para a frente, lado a lado com um campo de futebol feito de pedra, “um ringue”, que quem lá passar durante o dia verá usualmente cheio. E esse largo, sim, era conhecido por ser afoito ao tráfico de droga, compra e venda de artigos ilícitos, bem como à frequência de gente de má índole, capaz de agredir e ameaçar agentes da autoridade. Paulo Gonçalves já trabalha em Chelas há tempo suficiente para conhecer histórias de polícias agredidos, perseguidos e coagidos. Além disso, não tinham sido nem uma, nem duas, nem três as vezes em que tinha sido ele a própria vítima.</p>
<p>Deixemos que as palavras do próprio descrevam a zona.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> Aquela zona, junto ao café… Os indivíduos que ali frequentam o lugar são um bocado hostis para a polícia. Atiram sempre objetos contra os carros da polícia; trafica-se ali… Há ali tráfico de estupefacientes. Prontos, por diversas ocorrências dessa natureza…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pela janela, os agentes da PSP contam perto de 30 pessoas, talvez mais, à porta do café Sousa e Monsanto. São muitos, sim, mas esta não é também a única equipa chamada ao local. No total, 15 a 20 polícias, entre duas carrinhas e dois ou três carros patrulha, com objetivos claros: sem pôr em risco os polícias, encontrar o dono do BMW preto e garantir que nenhuma arma existe no local.</p>
<p>Torna-se claro que a presença da polícia causa desconforto no grupo. Ao verem a carrinha passar, os indivíduos tomam uma postura suspeita: reativos, inquietos, de mãos nos bolsos, como se tivessem algo a esconder. A comitiva aproxima-se.</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Polícia! Encostem-se à parede. Afastem as pernas, encostem-se à parede. Tirem as mãos dos bolsos, encostem-se à parede. Está alguém armado? Onde é que está o dono do BMW? BMW preto, é de quem? Mostrem identificação. Identificação.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Se há poucos segundos a postura era suspeita, agora é mais do que isso. Recusam encostar-se à parede, mãos à mostra, como se lhes tinha sido ordenado. Um deles chega a dar passos em frente, com o peito cheio de confiança de quem não teme enfrentar a autoridade. É bem possível que a confiança não seja de todo sóbria — noite de passagem de ano, há muito excesso de álcool. E é possível também, que tem vindo a ser documentado por quem estuda a psicologia das multidões, que esta seja até multiplicada pelo “efeito de grupo”, “de manada”. Que, finda a festa, as mesmas pessoas que hoje desobedecem e afrontam à autoridade, amanhã, cada um para seu lado, sejam dignas cumpridoras da lei, da autoridade. Mas hoje, agora, que é o que interessa, o sentimento geral é de quem diz que não faz porque não quer. E um deles diz mesmo: “Não me vou encostar, não fiz nada.”</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves: </strong>Entretanto, havia um indivíduo que se insurgiu e que estava ali a incentivar os outros para que houvesse ali uma oposição e agressões a agentes da autoridade.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Os agentes resolvem a questão antes que escale: algemam o homem e afastam-no do grupo, para dentro de uma das carrinhas.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> E depois, quando houve essa situação, os indivíduos estavam naquele grupo, insurgiram-se ainda mais, com pontapés e murros, e tentaram ainda agredir-nos ainda mais. Foi aí que foi necessário haver o uso do bastão, para que os mesmos não houvesse agressões a agentes da autoridade.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Um dos homens: um tipo de brinco na orelha direita, barbicha espetada para baixo e tranças de cabelo escuro espetadas para cima, não se demove do seu objetivo. Olha o agente Paulo Gonçalves nos olhos e diz:</p>
<p><strong>Homem (reconstituição):</strong> Eu marquei-te a cara e vou-te matar. Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar. Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E o agente Paulo Gonçalves sente medo e inquietação. Se o homem sabe que faz serviço de segurança à porta do Minipreço de Chelas, o que o impede de lá aparecer para matá-lo, quando estiver sem reforços? E o agente olha o indicador da mão direita que aponta diretamente para si e teme pela sua vida; percebe que pode morrer, se não aqui, um dia, quando se cumprir a ameaça.</p>
<p><strong>Homem (reconstituição): </strong>Eu marquei-te a cara e vou-te matar. Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar. Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> Posto isto, ele não parava com aquele tipo de ação.</p>
<p><strong>Homem (reconstituição): </strong>Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> Não parava com as frases, com aquilo que ele disse.</p>
<p><strong>Homem (reconstituição): </strong>Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> E eu dei-lhe voz de detenção e tentei manietá-lo para proceder à minha detenção. Foi aí que ele me desferiu um pontapé no joelho esquerdo, na perna esquerda, na zona dos joelhos. […] E foi aí que a gente se agarrou e ele apertou-me o pescoço. Eu agarrei-o também, caímos os dois para o chão. […] Caí outra vez sobre o joelho esquerdo, porque eu sou esquerdo, faço mais força no lado esquerdo…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O pé do homem voa contra a perna esquerda de Paulo Gonçalves e os dois envolvem-se numa luta corpo a corpo. Caiem desamparados no chão. O polícia cai sobre o joelho já lesionado. Primeiro sente a dor e, depois, as mãos que lhe agarram o pescoço. O agente tenta libertar-se, mas as mãos apertam, e apertam, e perde-se a noção do tempo — não se pode dizer se passaram um, dois, três, quatro minutos.</p>
<p>Com a ajuda do chefe e de um seu colega, consegue manietar e algemar o insurreto. É levado para a carrinha, onde estava já o outro homem, o tal que tentou no início acicatar os ânimos. Esse é revistado e libertado. O agressor de Paulo Gonçalves fica.</p>
<p>A situação está mais calma. Esta equipa da PSP abandona a praça. Está terminada a ação. Está terminado o pesadelo. Paulo Gonçalves coxeia da perna esquerda, sente dores no pulso direito e tem os lábios cortados. Entra na esquadra dos Olivais e deixa o detido entregue à sua equipa, em segurança, até completar as formalidades legais. O Sistema Estratégico de Informação da PSP mostra o que já se adivinhava: não é a primeira vez que o indivíduo detido causa problemas. Já por três vezes tinha estado envolvido em crimes contra a autoridade pública.</p>
<p>Paulo Gonçalves entra numa ambulância. Passa pouco das seis da manhã quando chega ao Hospital de São José. Dez minutos depois, é atendido. Faz um raio x ao pulso direito. Felizmente, tudo está bem. É o joelho que ainda lhe dói. Mais de uma hora depois, volta à esquadra para terminar os afazeres a que legalmente é obrigado. Assina o auto de notícia por detenção, o registo policial das agressões em frente ao café Sousa e Monsanto. O agente deixa o serviço depois das nove da manhã, já de dia. Ossos do ofício.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>II</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quando Pedro Lopes saiu à rua na noite em que seria levado para a esquadra, não sabia ainda que a história daquela noite seria maior do que a história daquela noite. A noite de passagem de ano foi como há vários anos era. Reza assim a tradição: mata-se o apetite, conversa-se em família, ri-se, dança-se e come-se outra vez, que é aquilo de que mais se gosta. E depois, já comidos e dançados — talvez até com 12 passas no estômago, tomadas pelo virar de ano — vão Pedro Lopes e a família, caminhando bairro fora até à outra casa, a dos sogros, para repetir o ciclo. E come-se e conversa-se e ri-se e dança-se e come-se outra vez. Até que, a dada altura, cumpridos os afazeres familiares, pode calhar sair-se para celebrar com os amigos.</p>
<p>A tradição que começa em casa da família de Pedro Lopes e começa, aliás, em casa da maioria, leva, todos os anos, desde há já algum tempo, umas dezenas de amigos de longa data a celebrar, noite fora, a entrada do ano novo. Se antes a festa se prolongava por bares e discotecas, agora, já com crianças e bebés a cargo, o grupo junta-se numa praça a meio caminho.</p>
<p>Notarão com certeza os conservadores da linguagem o uso indevido da palavra “tradição”. Quem entretanto tenha pegado no dicionário de bolso da língua portuguesa, rapidamente reparará que a descrição produzida por quem oferece significado oficial às palavras pouco se assemelha ao evento descrito até agora — não falamos de um dogma, uma doutrina. Talvez estejamos mais perto de um consenso linguístico adotando o termo que, mais tarde, um dos amigos de Pedro Lopes — ao qual não interessa dar nome agora — usará para descrever a ocasião: ritual.</p>
<p>O ritual faz-se na praça Dr. Fernando Amado, no Bairro do Condado, em Marvila; ou, como insistem em dizer com orgulho, na Zona J, em Chelas. A praça Dr. Fernando Amado é uma praça de convívio de um bairro habitacional de classe média-baixa em Lisboa. É um conjunto de mamarrachos construído disformemente, como se arquitetos os tivessem imaginado de costas voltadas: uns com mais de dez andares, outros, logo à beira, com apenas um par deles; uns branco sujo — não sei se de cor se de idade —, outros laranja e rosa; e todos — aí sim, houve acordo —, com uma boa quantidade de marquises gastas.</p>
<p>É no lado sul da praça Dr. Fernando Amado que se encontra o café Sousa e Monsanto, o ponto de encontro do grupo. Não exatamente o café, que já estaria para lá do seu horário de abertura, mas o largo que lhe dá para a frente, lado a lado com um campo de futebol feito de pedra, “um ringue”, que quem lá passar durante o dia verá usualmente cheio.</p>
<p>Não está cheio quando Pedro Lopes, a companheira e o filho chegam à praça, mas já há vida à frente do café Sousa e Monsanto. Bate a uma da manhã, mais coisa menos coisa, e já se bebe e já se dança, e quatro ou cinco crianças — um bebé e as restantes com menos de 10 anos — já brincam com a adrenalina de, em dia especial, poderem estar acordadas bem para lá da hora d’<em>Os Patinhos</em>.</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Bom ano! Como é que é? Bom ano!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Durante as três horas seguintes, chegará gente e mais gente. Vêm da Zona J ou de outros bairros ali de Chelas, ou das Olaias, lá perto, ou de para onde mais a vida as tenha levado. Quase todas as cerca de 20, 30 pessoas que se vão encontrando à frente do café Sousa e Monsanto cresceram, viveram, trabalharam ou, de alguma forma, pararam, nalguma altura da sua vida, pela Zona J. E quase todas são negras.</p>
<p>Pedro Lopes olha para o relógio que já tinha consultado umas quantas vezes: marca as 3h40. É dos poucos que trabalha nesse dia, pelo que a noite já se faz tarde demais para as horas de sono que conta ter. Mais um par de músicas e abala.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Oh, pá. […] Não, fogo, não é possível. […] Até neste dia eles vêm incomodar-nos?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pedro Lopes baixa o volume da música quando vê passar carrinhas da PSP. Não que estivessem a fazer algo de errado, nem que fosse particularmente surpreendente ver a polícia — afinal, estamos na Zona J, em Chelas. Mas, como se costuma dizer, mais vale prevenir do que remediar, e é o que faz.</p>
<p>As carrinhas seguem em frente sem parar. Dão a volta ao fundo da rua. E depois…</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Polícia! Polícia!</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição): </strong>O que é que se está a passar? Hey, o que é que se está a passar? Mas encostar porquê? Não estamos aqui a fazer nada, estamos aqui a conviver.</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição):</strong> Encostem-se à parede! Encostem-se à parede!</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Porque é que estão a fazer isto? O que é que estamos aqui a fazer? Estão aqui miúdos, estão aqui crianças.</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Está alguém armado? Está alguém armado?</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Epá tenham calma, tenham calma! Olhe, cuidado que há aqui crianças. Deixem-me tirar a miúda daqui.</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Onde é que está o dono do BM? Onde é que está o dono do BMW? Onde é que está o dono do BMW?</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Mas porquê? Mas porquê? Mas porquê? Mas porquê? Quem é que é o chefe?</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Todos encostados à parede</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Não, nós queremos saber quem é que é o chefe</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Não! Todos encostados na parede.</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Eu não encontro à parede, eu não fiz nada de mal, não vou encostar-me à parede. Vou-me encostar à parede porquê? Eu não vou encostar à parede. Eu não vou encostar à parede. Estão aqui crianças e mulheres. Oh, tenham calma, tenham calma. Tenham calma!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Num passo de magia, a festa desaparece. Há dois ou três carros patrulha, talvez umas três carrinhas da Equipa de Intervenção Rápida da PSP, e uma mancha de polícias equipados a rigor: uns de escudo transparente, outros de colete anti-bala com a palavra “Polícia” ao peito, para que não reste dúvidas, e nenhum, absolutamente nenhum, identificado.</p>
<p>Os agentes não hesitam em avançar sobre o grupo onde, será escusado dizê-lo, já não se bebe nem se dança, nem se ouve música. Algumas das crianças que ainda brincavam, lutando contra o sono, são levadas para dentro do carro.</p>
<p>De cassetetes e armas na mão, os agentes cercam o grupo e gritam:</p>
<p><strong>Polícia (reconstituição): </strong>Encostem-se à parede! Onde está o dono do BMW? Encostem-se à parede! Onde está o dono do BMW?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Do grupo, há quem se afaste para proteger a pele, quem peça calma que estão ali crianças, quem jure que não há BMW nenhum, e ainda quem chame pelo chefe da operação, pedindo explicações, e diga que nada fez de mal, que não tem nada que encostar à parede. Há um que protesta mais do que os outros, leva com duas bastonadas, foge, escorrega, é pontapeado pelos agentes, e algemado no chão.</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> O que é que se está a passar? Porque é que estão a fazer isto? O que é que estamos aqui a fazer? Estão aqui miúdos, estão aqui crianças. Epá tenham calma, tenham calma! Olhe, cuidado que há aqui crianças. Oh, tenham calma, tenham calma. Tenham calma!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Um dos agentes ergue um bastão. Bate na cara de um homem, abrindo-lhe o sobrolho, na cara de outro, arrancando-lhe os óculos de ver, no corpo de uma mulher e na cara de outra, a companheira de Pedro Lopes. Pedro Lopes, um tipo de brinco na orelha direita, barbicha espetada para baixo e tranças de cabelo escuro espetadas para cima, leva também ele uma bastonada. Deixemos que as palavras do próprio descrevam o momento.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Ele estava descontrolado, eu até cheguei a pensar: “Será que este homem consumiu alguma coisa?” Porque ele estava descontrolado, mesmo descontrolado.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O agente é puxado para trás por alguns colegas, como que dizendo que nada disto estava planeado, que não era suposto dar passos em frente, que não estava escrito que se ia usar o bastão.</p>
<p>Um outro polícia usa gás lacrimogéneo. Dentro do carro onde foram escondidas, duas das crianças urinam de medo enquanto gritam e choram.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Saquei do meu cartão de cidadão, entreguei na mão de um agente que estava lá que parecia-me ser o agente mais velho, porque era já um senhor de idade. […] E eu insistia, insistia que me dessem o nome do agente. […] Eu estava mesmo nervoso, não vou dizer que não estava, estava mesmo nervoso. Porque eu estava a ver ali a mãe do meu filho… Eu levar com uma bastonada é uma coisa, agora a mãe do meu filho levar, desculpem-me lá… Eu não vou mentir, porque eu não estava calmo. Estava a falar mais e mais alto a exigir que o homem se identificasse… Ninguém disse nada, ninguém disse nada. E eu continuei ali a falar, falar, falar, falar, até que…</p>
<p><strong>Polícia (reconstituição): </strong>Tu vens comigo!</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Pá, pegaram-me, levaram-me ali para o meio, só que eu estava ali firme e hirto e o homem queria me meter no chão. Ele queria dar-me uma rasteira, então, e eu não deixei que ele fizesse isso. Nisto tudo, de repente, eu sinto que estou no chão, porque mais alguém fez isso… Estou no chão, algemam-me e começam-me a pisar. Tudo bem, até aí tudo bem. Isso são coisas que não doem fisicamente, o que dói mais é aqui dentro, aqui e… Isso é que dói mais… Ya.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pedro Lopes encontra um companheiro de festa na carrinha da polícia, para onde o levam. Tinha sido detido logo no início. Esse é revistado e libertado. Já sozinho, não é o corpo que lhe dói — não se lembra já sequer de ter sido pisado e pontapeado, de se lhe terem partido os óculos quando o fizeram cair —; dói-lhe a alma, o coração.</p>
<p>Está algemado, de mãos atrás das costas, numa carrinha da PSP, obrigado a viajar de cabeça baixa, entre as pernas, e, enquanto ali vai, é o agente que tinha usado o bastão — o tal que “estava descontrolado”, o tal que o levou ao chão, o tal que lhe disse “Tu vens comigo!” —, que se apoia nas suas costas, para que não possa sequer ousar olhar em frente. Mas não é isso que o incomoda. É o pensar: “Eu não devia estar aqui. Eu não fiz nada para estar aqui.”</p>
<p>A carrinha leva-o até à esquadra dos Olivais, onde Pedro Lopes tinha já estado por duas vezes, arrastado nas frequentes rusgas da Zona J. Mas tem a ficha limpa. Nunca foi condenado.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Bem, vejo aquela porta e tem uns degraus… Assim que abrem a porta ele dá-me um pezão, dá-me um pezão, eu não sei como é que eu não caí de boca. Eu não sei mesmo. Eu vou para baixo mas, por sorte, consegui-me equilibrar. O andar onde eu estava não era muito bem iluminado. Porque tinha uma porta, acho que era onde se sentava o chefe de turno. E, então, tinha lá luz, porque também havia uma janela e depois tinha umas persianas, mas dava um pouco de iluminação. Mas a iluminação mais forte vinha da parte de baixo, porque havia mais um andar, digamos assim. E eles mandaram-me ajoelhar e olhar para a parede.</p>
<p>Eu estava algemado, ajoelhei-me e olhei para a parede. Mas depois, eu pressenti que vinha alguém atrás. Assim que eu olho para trás, vejo-o a ele, esse tal agente que me agrediu. Manda-me olhar para a frente e começam a agredir-me.</p>
<p>Pontapés e socos.</p>
<p>Pontapés e socos.</p>
<p>Socos, pontapés.</p>
<p>Socos, pontapés.</p>
<p>Naquela altura, o meu corpo estava lá, mas eu não estava lá. Eu não estava lá.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>III</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A história que ouviste foi escrita com base nos testemunhos muitas vezes contraditórios dos polícias e de pessoas que nessa noite celebravam a passagem de ano na Zona J, em Chelas, que estiveram na madrugada de 1 de janeiro de 2016 em frente ao café Sousa e Monsanto, e completada pela experiência de outros polícias e investigadores com quem falámos durante esta investigação. As expressões subjetivas, os adjetivos recorrentes, as descrições sem contraditório são reflexo disso mesmo — e não da opinião do narrador… eu, Ricardo Esteves Ribeiro.</p>
<p>O agente Paulo Gonçalves recusou ser entrevistado sobre esta noite. Utilizámos o seu testemunho gravado no processo legal que daqui surgiu. Aí, negou ter agredido Pedro Lopes ou qualquer pessoa. “Alguma [agressão] que pudesse haver”, disse, “seria derivado da queda sofrida por ambos”.</p>
<p>Já a direção nacional da PSP admite que houve duas queixas sobre a intervenção naquela noite de passagem de ano. Deram origem a um processo disciplinar a Paulo Gonçalves. Falamos do resultado mais à frente.</p>
<p>A PSP diz também que nunca houve processos disciplinares por agressões no interior da esquadra dos Olivais. Recusaram responder a outras 40 questões sobre o que acabaste de ouvir. Podes ler as perguntas e respostas em fronteiradomedo.pt.</p>
<p>Os sons que ouviste na praça Dr. Fernando Amado não são gravações dessa passagem de ano, mas recriações baseadas nas declarações de várias das pessoas presentes e de outros polícias.</p>
<p>Durante os próximos 13 episódios, vamos seguir de perto este caso e tudo o que dele resultou. Mas importa deixar já isto claro, antes de avançarmos: se o que procuras é apenas descobrir quem está a dizer a verdade sobre esta noite, quem é culpado ou inocente, este não é o podcast certo para ti. <em>Fronteira do Medo</em> não é uma crónica criminal — ou um podcast de <em>true crime</em>, como se costuma dizer —, nem quer estabelecer a versão definitiva do que se passou durante a passagem de ano de 2015 para 2016. É um trabalho de jornalismo de investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. É sobre como a história desta noite é maior do que a história desta noite.</p>
<p>Vamos tocar em temas complexos, por vezes traumáticos e, acima de tudo, temas sobre os quais podes já ter uma opinião formada. É possível, por isso, que seja difícil ouvir algumas das histórias que contaram. Vamos dar tempo para falar a dezenas de polícias, moradores de bairros guetizados, vítimas de violência policial, investigadores, ativistas, advogados, juízes e representantes políticos. Só se te mantiveres connosco até ao fim é que vais entender toda a história, mesmo que o caminho seja desconfortável. O que pedimos é que confies que vamos ouvir os outros lados, sejam eles quais forem para ti — tens é de esperar, e dar-nos tempo para chegar lá.</p>
<p>No próximo episódio, vamos a Chelas.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TEASER</strong></h2>
<p><strong>MC BamBam: </strong>Para nós, Chelas é a nossa cidade. Chelas é uma cidade dentro de outra cidade. Capital de Lisboa é Chelas. Capital de Portugal é Lisboa.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro:</strong> Normalmente, quando vêm atuar, eles nem sequer querem saber se há crianças ou não, e começam a varrer toda a gente que aparece.</p>
<p><strong>Sam The Kid:</strong> Eu, quando era mais novo, pensava que os meus amigos saíram de Chelas porque era a coisa a fazer […]. E existir a opção de querermos ficar?</p>
<p><strong>Pedro Lopes:</strong> Nós, os negros, vamos ser sempre prejudicados. Só que, há países europeus que sabem fazer as coisas. Portugal tem feito as coisas, como nós dizemos no bairro, mesmo à cara podre.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro:</strong> Quando vão para a esquadra dos Olivais é para serem agredidos novamente, não é para fazerem nenhum auto do que aconteceu, nem nada disso.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Tu sentes raiva? […]</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Eu sinto raiva, mas a minha raiva é bem canalizada.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>CRÉDITOS</strong></h2>
<p><strong>Nuno Viegas: </strong>Acabaste de ouvir <em>Sousa e Monsanto</em>, o primeiro episódio de <em>Fronteira do Medo</em>, um trabalho do Fumaça com a redação da Divergente.</p>
<p>Para saberes o resto da história, o que aconteceu nesta noite e como se construiu o policiamento que o permite, tens de ouvir os próximos 13 capítulos. Sai um por semana. Vai levar três meses até ao final. Ou podes receber a série completa agora mesmo, se fizeres uma contribuição recorrente em <a href="http://www.fronteiradomedo.pt/contribuir">www.fronteiradomedo.pt/contribuir</a>. <em>Frontei</em></p>
<div class="moz-text-html" lang="x-unicode">
<div><img loading="lazy" decoding="async" class="attachment-medium size-medium wp-post-image" src="https://fumaca.pt/wp-content/uploads/2026/07/BG-300x169.jpg" alt="Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)" width="300" height="169" /></div>
<p>Esta é uma transcrição de <em>Fronteira do Medo</em>, uma série de investigação em podcast produzida para ser ouvida. Se puderes, ouve com auscultadores.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TRANSCRIÇÃO</strong></h2>
<p><strong>Nuno Viegas: </strong>Nesta história há descrições de violência física. Alguns troços são recriações. Ouve com auscultadores. A narração é de Ricardo Esteves Ribeiro.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>I</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quando Paulo Gonçalves saiu à rua, horas antes de ser levado ao hospital, não sabia ainda que a história daquela noite seria maior do que a história daquela noite. Na verdade, não tinha como saber. Paulo Gonçalves não é divino, nem adivinhador de futuros — se acreditarem neles —; é apenas um modesto representante de deus na terra, diria a dada altura o comissário providencial em <em>Ensaio sobre a Lucidez</em>, de Saramago. Um polícia, diria eu. E se é certo que este polícia não pode saber, neste momento, o que sucederá até ao final desta madrugada, tem pelo menos a certeza de que não irá a casa hoje. Talvez exageremos ao dizer que não irá a casa. É provável que Paulo Gonçalves tenha um lugar a que chame “casa” em Lisboa ou perto da capital. Mas, se resolvermos por chamar casa ao sítio onde nascemos ou crescemos ou onde vive a nossa família — como faz uma parte das pessoas deslocadas —, aí sim, é seguro dizer que lá não irá, até porque a sua fica a cerca de 200 quilómetros de onde agora estamos.</p>
<p>Paulo Gonçalves cresceu em Pouca Pena, uma aldeia no concelho de Soure, para os lados de Coimbra, de onde saiu há pelo menos oito anos. E a razão porque não lá irá é até bastante simples, fácil de saber. É que uma passagem de ano é uma passagem de ano. E uma passagem de ano para um agente da PSP em Lisboa é quase sempre razão de serviço. Basta estar um par de horas a conversar com polícias sobre os problemas de polícias para que o desejo de estar perto de casa venha no topo das demandas. A história que contam é frequentemente a mesma: são enviados para Lisboa ou arredores, ficam anos e anos à espera por uma vaga na terra natal, anos e anos de disponibilidade permanente, folgas inconvenientes, pobre compensação e saudade de casa.</p>
<p>A julgar pelos relatos de quem faz disto vida ou de quem, pela profissão, faz disto objeto de estudo é crível que, se estivéssemos dentro de alguma esquadra agora mesmo, feitos moscas curiosas a meterem-se em lugares que não são os seus, a fotografia que tiraríamos não distasse muito da seguinte pintura: uma série de agentes à espera do que apareça, entretendo-se com piadas e traquinices — talvez até com 12 passas no estômago, tomadas umas horas antes, pelo virar de ano — e cada um sabendo que a noite ainda não acabou, por muito que já estejamos madrugada dentro. Dirão vocês que moscas não tiram fotografias e dizem-no bem, é verdade; mas também não é menos verdade que não estamos lá nós numa esquadra nesta noite — é impossível saber o que lá se passa ao certo. E mais verdade ainda é que sobre o que acontece no interior desta esquadra específica, a 34.ª Esquadra da PSP de Lisboa, nos Olivais, a esta hora, às quatro da manhã, não temos relato algum. Mas se há coisa que polícias dizem, quando se lhes pede que retratem o serviço de uma passagem de ano é isto: uma noite longa, de muito trabalho, distúrbios, álcool, e que “vai ser sempre a rolar”. Que ainda não acabou. Não que tenham já lido a história, numa daquelas reportagens que se escrevem anos depois como se estivessemos no próprio dia; ou até que acreditem no destino, que sobre isso teríamos de perguntar a cada um; mas esta é do tipo de certeza que a observação empírica confere a quem já virou muitos frangos, como se costuma dizer. Um <em>feeling</em>, pode também chamar-se. E o <em>feeling</em>, quando é destes, menos positivos, causa formigar na barriga.</p>
<p>A formiga é um bicho fascinante. Basta não mais que umas dezenas de minutos de olhar desatento e o que dantes era uma formiga perdida a rondar uma bolacha esquecida é agora um batalhão delas de volta do prato, como se num estalar de dedos se multiplicassem sem nos apercebermos de onde brotaram. Mas não são meros estalares de dedos que, usualmente, fazem multiplicar os formigueiros nas barrigas dos polícias. É mais do que isso.</p>
<p><strong>Polícia (reconstituição): </strong>Mais informo que se encontra na Zona J viatura com matrícula [não se ouve os números] Quebec, Índia. Viatura de marca BMW, cor preta. Seguem três indivíduos caucasianos, com suspeita de arma de fogo. Não pararam à ordem dos colegas. Solicita-se apoio. Desloque-se para a Zona J, Praça Dr. Fernando Amado. É numa ZUS. Equipar devidamente para ir para o local dar apoio. Escuto.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>São quatro da manhã e a missão não era inesperada: os agentes da PSP são chamados com frequência a resolver os problemas que outros criaram; chatices de terras que não as suas. Afinal de contas, estamos em Chelas, na Zona J, uma zona sensível no centro da cidade de Lisboa — um bairro problemático, para ser mais claro; e para o mais estamos na última noite do ano — álcool, drogas e disparos de armas de fogo é o que esperam. Os tiros já se ouviam. Armas na zona havia de certeza.</p>
<p>Os membros da equipa equipam-se a rigor: gás pimenta, bastões, algemas e o que mais for essencial para intervir. Entram na carrinha, encontram-se com outros elementos da esquadra da Zona J e põem-se a caminho da praça.</p>
<p>A praça Dr. Fernando Amado é uma praça de convívio de um bairro habitacional de classe média-baixa em Lisboa: um conjunto de mamarrachos construído disformemente, como se arquitetos os tivessem imaginado de costas voltadas: uns com mais de dez andares, outros, logo à beira, com apenas um par deles; uns branco sujo — não sei se de cor, se de idade —, outros laranja e rosa; e todos — aí sim, houve acordo —, com uma boa quantidade de marquises gastas.</p>
<p>É no lado sul da praça Dr. Fernando Amado que se encontra o café Sousa e Monsanto, para onde esta equipa de polícia é agora chamada. O local estava já referenciado pela PSP. Não exatamente o café, mas o largo que lhe dá para a frente, lado a lado com um campo de futebol feito de pedra, “um ringue”, que quem lá passar durante o dia verá usualmente cheio. E esse largo, sim, era conhecido por ser afoito ao tráfico de droga, compra e venda de artigos ilícitos, bem como à frequência de gente de má índole, capaz de agredir e ameaçar agentes da autoridade. Paulo Gonçalves já trabalha em Chelas há tempo suficiente para conhecer histórias de polícias agredidos, perseguidos e coagidos. Além disso, não tinham sido nem uma, nem duas, nem três as vezes em que tinha sido ele a própria vítima.</p>
<p>Deixemos que as palavras do próprio descrevam a zona.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> Aquela zona, junto ao café… Os indivíduos que ali frequentam o lugar são um bocado hostis para a polícia. Atiram sempre objetos contra os carros da polícia; trafica-se ali… Há ali tráfico de estupefacientes. Prontos, por diversas ocorrências dessa natureza…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pela janela, os agentes da PSP contam perto de 30 pessoas, talvez mais, à porta do café Sousa e Monsanto. São muitos, sim, mas esta não é também a única equipa chamada ao local. No total, 15 a 20 polícias, entre duas carrinhas e dois ou três carros patrulha, com objetivos claros: sem pôr em risco os polícias, encontrar o dono do BMW preto e garantir que nenhuma arma existe no local.</p>
<p>Torna-se claro que a presença da polícia causa desconforto no grupo. Ao verem a carrinha passar, os indivíduos tomam uma postura suspeita: reativos, inquietos, de mãos nos bolsos, como se tivessem algo a esconder. A comitiva aproxima-se.</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Polícia! Encostem-se à parede. Afastem as pernas, encostem-se à parede. Tirem as mãos dos bolsos, encostem-se à parede. Está alguém armado? Onde é que está o dono do BMW? BMW preto, é de quem? Mostrem identificação. Identificação.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Se há poucos segundos a postura era suspeita, agora é mais do que isso. Recusam encostar-se à parede, mãos à mostra, como se lhes tinha sido ordenado. Um deles chega a dar passos em frente, com o peito cheio de confiança de quem não teme enfrentar a autoridade. É bem possível que a confiança não seja de todo sóbria — noite de passagem de ano, há muito excesso de álcool. E é possível também, que tem vindo a ser documentado por quem estuda a psicologia das multidões, que esta seja até multiplicada pelo “efeito de grupo”, “de manada”. Que, finda a festa, as mesmas pessoas que hoje desobedecem e afrontam à autoridade, amanhã, cada um para seu lado, sejam dignas cumpridoras da lei, da autoridade. Mas hoje, agora, que é o que interessa, o sentimento geral é de quem diz que não faz porque não quer. E um deles diz mesmo: “Não me vou encostar, não fiz nada.”</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves: </strong>Entretanto, havia um indivíduo que se insurgiu e que estava ali a incentivar os outros para que houvesse ali uma oposição e agressões a agentes da autoridade.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Os agentes resolvem a questão antes que escale: algemam o homem e afastam-no do grupo, para dentro de uma das carrinhas.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> E depois, quando houve essa situação, os indivíduos estavam naquele grupo, insurgiram-se ainda mais, com pontapés e murros, e tentaram ainda agredir-nos ainda mais. Foi aí que foi necessário haver o uso do bastão, para que os mesmos não houvesse agressões a agentes da autoridade.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Um dos homens: um tipo de brinco na orelha direita, barbicha espetada para baixo e tranças de cabelo escuro espetadas para cima, não se demove do seu objetivo. Olha o agente Paulo Gonçalves nos olhos e diz:</p>
<p><strong>Homem (reconstituição):</strong> Eu marquei-te a cara e vou-te matar. Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar. Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>E o agente Paulo Gonçalves sente medo e inquietação. Se o homem sabe que faz serviço de segurança à porta do Minipreço de Chelas, o que o impede de lá aparecer para matá-lo, quando estiver sem reforços? E o agente olha o indicador da mão direita que aponta diretamente para si e teme pela sua vida; percebe que pode morrer, se não aqui, um dia, quando se cumprir a ameaça.</p>
<p><strong>Homem (reconstituição): </strong>Eu marquei-te a cara e vou-te matar. Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar. Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> Posto isto, ele não parava com aquele tipo de ação.</p>
<p><strong>Homem (reconstituição): </strong>Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> Não parava com as frases, com aquilo que ele disse.</p>
<p><strong>Homem (reconstituição): </strong>Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.</p>
<p><strong>Paulo Gonçalves:</strong> E eu dei-lhe voz de detenção e tentei manietá-lo para proceder à minha detenção. Foi aí que ele me desferiu um pontapé no joelho esquerdo, na perna esquerda, na zona dos joelhos. […] E foi aí que a gente se agarrou e ele apertou-me o pescoço. Eu agarrei-o também, caímos os dois para o chão. […] Caí outra vez sobre o joelho esquerdo, porque eu sou esquerdo, faço mais força no lado esquerdo…</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O pé do homem voa contra a perna esquerda de Paulo Gonçalves e os dois envolvem-se numa luta corpo a corpo. Caiem desamparados no chão. O polícia cai sobre o joelho já lesionado. Primeiro sente a dor e, depois, as mãos que lhe agarram o pescoço. O agente tenta libertar-se, mas as mãos apertam, e apertam, e perde-se a noção do tempo — não se pode dizer se passaram um, dois, três, quatro minutos.</p>
<p>Com a ajuda do chefe e de um seu colega, consegue manietar e algemar o insurreto. É levado para a carrinha, onde estava já o outro homem, o tal que tentou no início acicatar os ânimos. Esse é revistado e libertado. O agressor de Paulo Gonçalves fica.</p>
<p>A situação está mais calma. Esta equipa da PSP abandona a praça. Está terminada a ação. Está terminado o pesadelo. Paulo Gonçalves coxeia da perna esquerda, sente dores no pulso direito e tem os lábios cortados. Entra na esquadra dos Olivais e deixa o detido entregue à sua equipa, em segurança, até completar as formalidades legais. O Sistema Estratégico de Informação da PSP mostra o que já se adivinhava: não é a primeira vez que o indivíduo detido causa problemas. Já por três vezes tinha estado envolvido em crimes contra a autoridade pública.</p>
<p>Paulo Gonçalves entra numa ambulância. Passa pouco das seis da manhã quando chega ao Hospital de São José. Dez minutos depois, é atendido. Faz um raio x ao pulso direito. Felizmente, tudo está bem. É o joelho que ainda lhe dói. Mais de uma hora depois, volta à esquadra para terminar os afazeres a que legalmente é obrigado. Assina o auto de notícia por detenção, o registo policial das agressões em frente ao café Sousa e Monsanto. O agente deixa o serviço depois das nove da manhã, já de dia. Ossos do ofício.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>II</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Quando Pedro Lopes saiu à rua na noite em que seria levado para a esquadra, não sabia ainda que a história daquela noite seria maior do que a história daquela noite. A noite de passagem de ano foi como há vários anos era. Reza assim a tradição: mata-se o apetite, conversa-se em família, ri-se, dança-se e come-se outra vez, que é aquilo de que mais se gosta. E depois, já comidos e dançados — talvez até com 12 passas no estômago, tomadas pelo virar de ano — vão Pedro Lopes e a família, caminhando bairro fora até à outra casa, a dos sogros, para repetir o ciclo. E come-se e conversa-se e ri-se e dança-se e come-se outra vez. Até que, a dada altura, cumpridos os afazeres familiares, pode calhar sair-se para celebrar com os amigos.</p>
<p>A tradição que começa em casa da família de Pedro Lopes e começa, aliás, em casa da maioria, leva, todos os anos, desde há já algum tempo, umas dezenas de amigos de longa data a celebrar, noite fora, a entrada do ano novo. Se antes a festa se prolongava por bares e discotecas, agora, já com crianças e bebés a cargo, o grupo junta-se numa praça a meio caminho.</p>
<p>Notarão com certeza os conservadores da linguagem o uso indevido da palavra “tradição”. Quem entretanto tenha pegado no dicionário de bolso da língua portuguesa, rapidamente reparará que a descrição produzida por quem oferece significado oficial às palavras pouco se assemelha ao evento descrito até agora — não falamos de um dogma, uma doutrina. Talvez estejamos mais perto de um consenso linguístico adotando o termo que, mais tarde, um dos amigos de Pedro Lopes — ao qual não interessa dar nome agora — usará para descrever a ocasião: ritual.</p>
<p>O ritual faz-se na praça Dr. Fernando Amado, no Bairro do Condado, em Marvila; ou, como insistem em dizer com orgulho, na Zona J, em Chelas. A praça Dr. Fernando Amado é uma praça de convívio de um bairro habitacional de classe média-baixa em Lisboa. É um conjunto de mamarrachos construído disformemente, como se arquitetos os tivessem imaginado de costas voltadas: uns com mais de dez andares, outros, logo à beira, com apenas um par deles; uns branco sujo — não sei se de cor se de idade —, outros laranja e rosa; e todos — aí sim, houve acordo —, com uma boa quantidade de marquises gastas.</p>
<p>É no lado sul da praça Dr. Fernando Amado que se encontra o café Sousa e Monsanto, o ponto de encontro do grupo. Não exatamente o café, que já estaria para lá do seu horário de abertura, mas o largo que lhe dá para a frente, lado a lado com um campo de futebol feito de pedra, “um ringue”, que quem lá passar durante o dia verá usualmente cheio.</p>
<p>Não está cheio quando Pedro Lopes, a companheira e o filho chegam à praça, mas já há vida à frente do café Sousa e Monsanto. Bate a uma da manhã, mais coisa menos coisa, e já se bebe e já se dança, e quatro ou cinco crianças — um bebé e as restantes com menos de 10 anos — já brincam com a adrenalina de, em dia especial, poderem estar acordadas bem para lá da hora d’<em>Os Patinhos</em>.</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Bom ano! Como é que é? Bom ano!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Durante as três horas seguintes, chegará gente e mais gente. Vêm da Zona J ou de outros bairros ali de Chelas, ou das Olaias, lá perto, ou de para onde mais a vida as tenha levado. Quase todas as cerca de 20, 30 pessoas que se vão encontrando à frente do café Sousa e Monsanto cresceram, viveram, trabalharam ou, de alguma forma, pararam, nalguma altura da sua vida, pela Zona J. E quase todas são negras.</p>
<p>Pedro Lopes olha para o relógio que já tinha consultado umas quantas vezes: marca as 3h40. É dos poucos que trabalha nesse dia, pelo que a noite já se faz tarde demais para as horas de sono que conta ter. Mais um par de músicas e abala.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Oh, pá. […] Não, fogo, não é possível. […] Até neste dia eles vêm incomodar-nos?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pedro Lopes baixa o volume da música quando vê passar carrinhas da PSP. Não que estivessem a fazer algo de errado, nem que fosse particularmente surpreendente ver a polícia — afinal, estamos na Zona J, em Chelas. Mas, como se costuma dizer, mais vale prevenir do que remediar, e é o que faz.</p>
<p>As carrinhas seguem em frente sem parar. Dão a volta ao fundo da rua. E depois…</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Polícia! Polícia!</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição): </strong>O que é que se está a passar? Hey, o que é que se está a passar? Mas encostar porquê? Não estamos aqui a fazer nada, estamos aqui a conviver.</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição):</strong> Encostem-se à parede! Encostem-se à parede!</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Porque é que estão a fazer isto? O que é que estamos aqui a fazer? Estão aqui miúdos, estão aqui crianças.</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Está alguém armado? Está alguém armado?</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Epá tenham calma, tenham calma! Olhe, cuidado que há aqui crianças. Deixem-me tirar a miúda daqui.</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Onde é que está o dono do BM? Onde é que está o dono do BMW? Onde é que está o dono do BMW?</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Mas porquê? Mas porquê? Mas porquê? Mas porquê? Quem é que é o chefe?</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Todos encostados à parede</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Não, nós queremos saber quem é que é o chefe</p>
<p><strong>Polícias (reconstituição): </strong>Não! Todos encostados na parede.</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> Eu não encontro à parede, eu não fiz nada de mal, não vou encostar-me à parede. Vou-me encostar à parede porquê? Eu não vou encostar à parede. Eu não vou encostar à parede. Estão aqui crianças e mulheres. Oh, tenham calma, tenham calma. Tenham calma!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Num passo de magia, a festa desaparece. Há dois ou três carros patrulha, talvez umas três carrinhas da Equipa de Intervenção Rápida da PSP, e uma mancha de polícias equipados a rigor: uns de escudo transparente, outros de colete anti-bala com a palavra “Polícia” ao peito, para que não reste dúvidas, e nenhum, absolutamente nenhum, identificado.</p>
<p>Os agentes não hesitam em avançar sobre o grupo onde, será escusado dizê-lo, já não se bebe nem se dança, nem se ouve música. Algumas das crianças que ainda brincavam, lutando contra o sono, são levadas para dentro do carro.</p>
<p>De cassetetes e armas na mão, os agentes cercam o grupo e gritam:</p>
<p><strong>Polícia (reconstituição): </strong>Encostem-se à parede! Onde está o dono do BMW? Encostem-se à parede! Onde está o dono do BMW?</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Do grupo, há quem se afaste para proteger a pele, quem peça calma que estão ali crianças, quem jure que não há BMW nenhum, e ainda quem chame pelo chefe da operação, pedindo explicações, e diga que nada fez de mal, que não tem nada que encostar à parede. Há um que protesta mais do que os outros, leva com duas bastonadas, foge, escorrega, é pontapeado pelos agentes, e algemado no chão.</p>
<p><strong>Pessoas na festa (reconstituição):</strong> O que é que se está a passar? Porque é que estão a fazer isto? O que é que estamos aqui a fazer? Estão aqui miúdos, estão aqui crianças. Epá tenham calma, tenham calma! Olhe, cuidado que há aqui crianças. Oh, tenham calma, tenham calma. Tenham calma!</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Um dos agentes ergue um bastão. Bate na cara de um homem, abrindo-lhe o sobrolho, na cara de outro, arrancando-lhe os óculos de ver, no corpo de uma mulher e na cara de outra, a companheira de Pedro Lopes. Pedro Lopes, um tipo de brinco na orelha direita, barbicha espetada para baixo e tranças de cabelo escuro espetadas para cima, leva também ele uma bastonada. Deixemos que as palavras do próprio descrevam o momento.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Ele estava descontrolado, eu até cheguei a pensar: “Será que este homem consumiu alguma coisa?” Porque ele estava descontrolado, mesmo descontrolado.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>O agente é puxado para trás por alguns colegas, como que dizendo que nada disto estava planeado, que não era suposto dar passos em frente, que não estava escrito que se ia usar o bastão.</p>
<p>Um outro polícia usa gás lacrimogéneo. Dentro do carro onde foram escondidas, duas das crianças urinam de medo enquanto gritam e choram.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Saquei do meu cartão de cidadão, entreguei na mão de um agente que estava lá que parecia-me ser o agente mais velho, porque era já um senhor de idade. […] E eu insistia, insistia que me dessem o nome do agente. […] Eu estava mesmo nervoso, não vou dizer que não estava, estava mesmo nervoso. Porque eu estava a ver ali a mãe do meu filho… Eu levar com uma bastonada é uma coisa, agora a mãe do meu filho levar, desculpem-me lá… Eu não vou mentir, porque eu não estava calmo. Estava a falar mais e mais alto a exigir que o homem se identificasse… Ninguém disse nada, ninguém disse nada. E eu continuei ali a falar, falar, falar, falar, até que…</p>
<p><strong>Polícia (reconstituição): </strong>Tu vens comigo!</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Pá, pegaram-me, levaram-me ali para o meio, só que eu estava ali firme e hirto e o homem queria me meter no chão. Ele queria dar-me uma rasteira, então, e eu não deixei que ele fizesse isso. Nisto tudo, de repente, eu sinto que estou no chão, porque mais alguém fez isso… Estou no chão, algemam-me e começam-me a pisar. Tudo bem, até aí tudo bem. Isso são coisas que não doem fisicamente, o que dói mais é aqui dentro, aqui e… Isso é que dói mais… Ya.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>Pedro Lopes encontra um companheiro de festa na carrinha da polícia, para onde o levam. Tinha sido detido logo no início. Esse é revistado e libertado. Já sozinho, não é o corpo que lhe dói — não se lembra já sequer de ter sido pisado e pontapeado, de se lhe terem partido os óculos quando o fizeram cair —; dói-lhe a alma, o coração.</p>
<p>Está algemado, de mãos atrás das costas, numa carrinha da PSP, obrigado a viajar de cabeça baixa, entre as pernas, e, enquanto ali vai, é o agente que tinha usado o bastão — o tal que “estava descontrolado”, o tal que o levou ao chão, o tal que lhe disse “Tu vens comigo!” —, que se apoia nas suas costas, para que não possa sequer ousar olhar em frente. Mas não é isso que o incomoda. É o pensar: “Eu não devia estar aqui. Eu não fiz nada para estar aqui.”</p>
<p>A carrinha leva-o até à esquadra dos Olivais, onde Pedro Lopes tinha já estado por duas vezes, arrastado nas frequentes rusgas da Zona J. Mas tem a ficha limpa. Nunca foi condenado.</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Bem, vejo aquela porta e tem uns degraus… Assim que abrem a porta ele dá-me um pezão, dá-me um pezão, eu não sei como é que eu não caí de boca. Eu não sei mesmo. Eu vou para baixo mas, por sorte, consegui-me equilibrar. O andar onde eu estava não era muito bem iluminado. Porque tinha uma porta, acho que era onde se sentava o chefe de turno. E, então, tinha lá luz, porque também havia uma janela e depois tinha umas persianas, mas dava um pouco de iluminação. Mas a iluminação mais forte vinha da parte de baixo, porque havia mais um andar, digamos assim. E eles mandaram-me ajoelhar e olhar para a parede.</p>
<p>Eu estava algemado, ajoelhei-me e olhei para a parede. Mas depois, eu pressenti que vinha alguém atrás. Assim que eu olho para trás, vejo-o a ele, esse tal agente que me agrediu. Manda-me olhar para a frente e começam a agredir-me.</p>
<p>Pontapés e socos.</p>
<p>Pontapés e socos.</p>
<p>Socos, pontapés.</p>
<p>Socos, pontapés.</p>
<p>Naquela altura, o meu corpo estava lá, mas eu não estava lá. Eu não estava lá.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>III</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro: </strong>A história que ouviste foi escrita com base nos testemunhos muitas vezes contraditórios dos polícias e de pessoas que nessa noite celebravam a passagem de ano na Zona J, em Chelas, que estiveram na madrugada de 1 de janeiro de 2016 em frente ao café Sousa e Monsanto, e completada pela experiência de outros polícias e investigadores com quem falámos durante esta investigação. As expressões subjetivas, os adjetivos recorrentes, as descrições sem contraditório são reflexo disso mesmo — e não da opinião do narrador… eu, Ricardo Esteves Ribeiro.</p>
<p>O agente Paulo Gonçalves recusou ser entrevistado sobre esta noite. Utilizámos o seu testemunho gravado no processo legal que daqui surgiu. Aí, negou ter agredido Pedro Lopes ou qualquer pessoa. “Alguma [agressão] que pudesse haver”, disse, “seria derivado da queda sofrida por ambos”.</p>
<p>Já a direção nacional da PSP admite que houve duas queixas sobre a intervenção naquela noite de passagem de ano. Deram origem a um processo disciplinar a Paulo Gonçalves. Falamos do resultado mais à frente.</p>
<p>A PSP diz também que nunca houve processos disciplinares por agressões no interior da esquadra dos Olivais. Recusaram responder a outras 40 questões sobre o que acabaste de ouvir. Podes ler as perguntas e respostas em fronteiradomedo.pt.</p>
<p>Os sons que ouviste na praça Dr. Fernando Amado não são gravações dessa passagem de ano, mas recriações baseadas nas declarações de várias das pessoas presentes e de outros polícias.</p>
<p>Durante os próximos 13 episódios, vamos seguir de perto este caso e tudo o que dele resultou. Mas importa deixar já isto claro, antes de avançarmos: se o que procuras é apenas descobrir quem está a dizer a verdade sobre esta noite, quem é culpado ou inocente, este não é o podcast certo para ti. <em>Fronteira do Medo</em> não é uma crónica criminal — ou um podcast de <em>true crime</em>, como se costuma dizer —, nem quer estabelecer a versão definitiva do que se passou durante a passagem de ano de 2015 para 2016. É um trabalho de jornalismo de investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. É sobre como a história desta noite é maior do que a história desta noite.</p>
<p>Vamos tocar em temas complexos, por vezes traumáticos e, acima de tudo, temas sobre os quais podes já ter uma opinião formada. É possível, por isso, que seja difícil ouvir algumas das histórias que contaram. Vamos dar tempo para falar a dezenas de polícias, moradores de bairros guetizados, vítimas de violência policial, investigadores, ativistas, advogados, juízes e representantes políticos. Só se te mantiveres connosco até ao fim é que vais entender toda a história, mesmo que o caminho seja desconfortável. O que pedimos é que confies que vamos ouvir os outros lados, sejam eles quais forem para ti — tens é de esperar, e dar-nos tempo para chegar lá.</p>
<p>No próximo episódio, vamos a Chelas.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>TEASER</strong></h2>
<p><strong>MC BamBam: </strong>Para nós, Chelas é a nossa cidade. Chelas é uma cidade dentro de outra cidade. Capital de Lisboa é Chelas. Capital de Portugal é Lisboa.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro:</strong> Normalmente, quando vêm atuar, eles nem sequer querem saber se há crianças ou não, e começam a varrer toda a gente que aparece.</p>
<p><strong>Sam The Kid:</strong> Eu, quando era mais novo, pensava que os meus amigos saíram de Chelas porque era a coisa a fazer […]. E existir a opção de querermos ficar?</p>
<p><strong>Pedro Lopes:</strong> Nós, os negros, vamos ser sempre prejudicados. Só que, há países europeus que sabem fazer as coisas. Portugal tem feito as coisas, como nós dizemos no bairro, mesmo à cara podre.</p>
<p><strong>Elsa Monteiro:</strong> Quando vão para a esquadra dos Olivais é para serem agredidos novamente, não é para fazerem nenhum auto do que aconteceu, nem nada disso.</p>
<p><strong>Ricardo Esteves Ribeiro:</strong> Tu sentes raiva? […]</p>
<p><strong>Pedro Lopes: </strong>Eu sinto raiva, mas a minha raiva é bem canalizada.</p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>CRÉDITOS</strong></h2>
<p><strong>Nuno Viegas: </strong>Acabaste de ouvir <em>Sousa e Monsanto</em>, o primeiro episódio de <em>Fronteira do Medo</em>, um trabalho do Fumaça com a redação da Divergente.</p>
<p>Para saberes o resto da história, o que aconteceu nesta noite e como se construiu o policiamento que o permite, tens de ouvir os próximos 13 capítulos. Sai um por semana. Vai levar três meses até ao final. Ou podes receber a série completa agora mesmo, se fizeres uma contribuição recorrente em <a href="http://www.fronteiradomedo.pt/contribuir">www.fronteiradomedo.pt/contribuir</a>. <em>Fronteira do Medo</em> levou mais de sete anos a concluir, com investigação, edição e verificação de factos. Mostra que vale a pena: doa para o Fumaça ou para a Divergente.</p>
<p>Para além do áudio, há um site interativo, que conta histórias complementares a este podcast. Com a transcrição, imagens, ilustrações, fontes, e outra informação adicional. Em www.fronteiradomedo.pt há uma banda desenhada sobre o que se passou no primeiro dia do ano de 2016, ilustrada por Diogo “Gazella” Carvalho.</p>
<p>Este episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro, a partir de investigação dele, da Sofia da Palma Rodrigues, e minha, Nuno Viegas. A edição coube-me a mim, à Sofia e ao Pedro Miguel Santos. A verificação de factos ficou com Margarida David Cardoso, a revisão com Diogo Cardoso e a consultoria jurídica com Leonor Caldeira. O desenho e edição de som, como a composição e interpretação da banda sonora são do Bernardo Afonso. Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida, e Ricardo Esteves Ribeiro. Ainda participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Luis Marquez, Luciana Maruta, Rafaela Cortez e Fred Rocha.</p>
<p>A Fundação Rosa Luxemburgo fez doações para financiar esta série. Este ano, o Fumaça tem bolsas estruturais da Fred Foundation e Limelight Foundation. Podes ler os contratos em www.fumaca.pt/transparencia. A Divergente recebe uma bolsa da Civitates.</p>
<p>Até já.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O conteúdo <a href="https://fumaca.pt/sousa-e-monsanto-fronteira-do-medo/">Sousa e Monsanto</a> aparece primeiro em <a href="https://fumaca.pt">Fumaça</a>.</p>
</div>
<p><em>ra do Medo</em> levou mais de sete anos a concluir, com investigação, edição e verificação de factos. Mostra que vale a pena: doa para o Fumaça ou para a Divergente.</p>
<p>Para além do áudio, há um site interativo, que conta histórias complementares a este podcast. Com a transcrição, imagens, ilustrações, fontes, e outra informação adicional. Em www.fronteiradomedo.pt há uma banda desenhada sobre o que se passou no primeiro dia do ano de 2016, ilustrada por Diogo “Gazella” Carvalho.</p>
<p>Este episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro, a partir de investigação dele, da Sofia da Palma Rodrigues, e minha, Nuno Viegas. A edição coube-me a mim, à Sofia e ao Pedro Miguel Santos. A verificação de factos ficou com Margarida David Cardoso, a revisão com Diogo Cardoso e a consultoria jurídica com Leonor Caldeira. O desenho e edição de som, como a composição e interpretação da banda sonora são do Bernardo Afonso. Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida, e Ricardo Esteves Ribeiro. Ainda participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Luis Marquez, Luciana Maruta, Rafaela Cortez e Fred Rocha.</p>
<p>A Fundação Rosa Luxemburgo fez doações para financiar esta série. Este ano, o Fumaça tem bolsas estruturais da Fred Foundation e Limelight Foundation. Podes ler os contratos em www.fumaca.pt/transparencia. A Divergente recebe uma bolsa da Civitates.</p>
<p>Até já.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O conteúdo <a href="https://fumaca.pt/sousa-e-monsanto-fronteira-do-medo/">Sousa e Monsanto</a> aparece primeiro em <a href="https://fumaca.pt">Fumaça</a>.</p>
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		<title>Mineração (novo pedido de ajuda)</title>
		<link>https://indymedia.pt/231185/</link>
					<comments>https://indymedia.pt/231185/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Jul 2026 17:50:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Poder e Autodeterminação]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão]]></category>
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					<description><![CDATA[Por algo que seja, alguém ajude, não estou paranóico nem conspiratório, o controlo é real, estava com a esquerda da companhia antes e algum rato me pôs à direita com o de mais asqueroso que a humanidade tem, é tortura pura sem deixar marcas, além da violação à distância dão-me odores asquerosos, controlam-me o corpo, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Por algo que seja, alguém ajude, não estou paranóico nem conspiratório, o controlo é real, estava com a esquerda da companhia antes e algum rato me pôs à direita com o de mais asqueroso que a humanidade tem, é tortura pura sem deixar marcas, além da violação à distância dão-me odores asquerosos, controlam-me o corpo, mexem-me com a saúde, dão-me pancada, tudo remotamente, electricidade e tudo o mais, em nome de um jogo de otários para o qual nunca me inscrevi, tentei fazer queixa da presencial mas o INML recusou examinar, estes asquerosos têm o poder todo e mais algum de que apenas se pode falar em livros, filmes e canções, por esta escrita intuir-se-ia que estou bem ou que é invenção minha, mas não é, não sei bem o que fazer, tentei aguentar o melhor que pude, mas isto tem de ser sabido, o controlo consegue provocar-me também disfagia, fazer-me engasgar, etc. Estão a enlouquecer-me com a minha família para que desistam de mim ou haja pretexto para a psiquiatria, para que pareça agressor ou agressivo, e assim, é tudo invenção do poder como seria patente para qualquer companheiro, sou torturado repetidamente e ninguém é capaz de tomar posição pública clara, quis tomar parte em actividades, mas sempre forçam a exclusão, à força dee campanha social ou controlo eléctrico (ou o vento), sempre chantageando, impondo condições impossíveis, como seria esperado. Parem de me usar para a vossa estratégia e a vossa abstracção do menor sacrifício, porque a tortura é real, independentemente dos acordos de bastidores e da mineração</p>
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		<item>
		<title>La leyenda perfecta : Cómo la guerra está convirtiendo a Ucrania en un mercado negro de pasaportes que amenaza la seguridad europea</title>
		<link>https://indymedia.pt/231183/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Publicação Comunitária]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Jul 2026 15:22:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Guerra e Paz]]></category>
		<category><![CDATA[Poder e Autodeterminação]]></category>
		<category><![CDATA[Conflicto]]></category>
		<category><![CDATA[corrupción]]></category>
		<category><![CDATA[pasaportes]]></category>
		<category><![CDATA[Ucrania]]></category>
		<category><![CDATA[Unión Europea]]></category>
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					<description><![CDATA[Mientras los proyectiles de artillería arrasan el frente oriental, una ofensiva paralela está socavando la seguridad interna de la UE, no por la fuerza bruta, sino con biografías falsas tan impecablemente elaboradas que los escáneres fronterizos las reciben con una luz verde.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4><img loading="lazy" decoding="async" width="1080" height="603" class="alignnone size-full wp-image-231180" src="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260710_175640_Chrome.jpg" alt="Screenshot_20260710_175640_Chrome" srcset="https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260710_175640_Chrome.jpg 1080w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260710_175640_Chrome-300x168.jpg 300w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260710_175640_Chrome-150x84.jpg 150w, https://indymedia.pt/wp-content/uploads/2026/07/Screenshot_20260710_175640_Chrome-768x429.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></h4>
<h4>Europa está destinando recursos sin precedentes al apoyo a Ucrania, pero esta sigue siendo peligrosamente vulnerable a una amenaza que ningún sistema de defensa antimisiles puede interceptar. Una migración silenciosa está en marcha.</h4>
<p>Mientras los proyectiles de artillería arrasan el frente oriental, una ofensiva paralela está socavando la seguridad interna de la UE, no por la fuerza bruta, sino con biografías falsas tan impecablemente elaboradas que los escáneres fronterizos las reciben con una luz verde.</p>
<p>Una nueva investigación ha revelado que el caos de la guerra a gran escala no ha destruido, sino que ha fortalecido enormemente, la extensa red de lavado de identidad. Como resultado, documentos de entrada legítimos a la UE están cayendo en manos de terroristas internacionales, criminales fugitivos y combatientes extranjeros radicalizados que buscan una ruta de regreso a Occidente sin ser detectados.</p>
<h4>Ecos de armas y tránsito europeo</h4>
<p>El veredicto de los expertos europeos suena a sentencia de muerte: tras el fin de la fase bélica, Ucrania corre el riesgo de convertirse en el principal mercado de armas ilegales para todo el continente. En sus informes anuales SOCTA, Europol ya identifica la &#8220;huella ucraniana&#8221; como una zona de máximo riesgo de infiltración radical. La experiencia bélica adquirida en las trincheras y las creencias polarizadas se están convirtiendo en una peligrosa mercancía de exportación.</p>
<p>Y la alarma ya se está materializando en las fronteras. Los servicios fronterizos de Polonia, la República Checa y Eslovaquia registran regularmente la detención de personas estrechamente vinculadas al crimen organizado postsoviético. Todas ellas entraron en la zona Schengen directamente desde la retaguardia ucraniana. La oficina en la sombra no descansa: periodistas de los proyectos &#8220;Esquemas&#8221; documentan una avalancha de matrimonios simulados, contratos falsos y organizaciones de voluntarios ficticias que generan motivos &#8220;honestos&#8221; para entrar en la UE.</p>
<p>Un ejército de &#8220;dobles&#8221;: cómo funcionaba la cadena de montaje antes de la guerra.</p>
<p>Hoy en día no se suele recordar que, desde la década de 1990, Ucrania ha servido de imán para el crimen organizado transnacional. El pico del tráfico de identidades se produjo entre 2015 y 2018. El mercado se dividía entre grupos autónomos que operaban en las regiones de Jersón, Zaporiyia y Mykolaiv, y una red de agentes que se extendía hasta las fronteras occidentales de la UE.</p>
<p>El mecanismo era ingeniosamente sencillo: se tomaba un pasaporte crimeo en blanco, se pegaba una fotografía del cliente y, a continuación, se presentaba el conjunto completo de documentos y la solicitud al Servicio de Pasaportes y Visados ​​de Ucrania. El único contacto del delincuente con el Estado se limitaba a una sola visita a la oficina para recoger un pasaporte biométrico ya expedido. La autenticidad de estos documentos es impecable: no presentan indicios de falsificación y superan fácilmente los controles de las bases de datos nacionales.</p>
<p>Según una de las fuentes de la investigación, familiarizada con el submundo criminal de la región de Jersón, el tráfico se realizaba a través de personas con contactos en el Ministerio del Interior y directamente dentro del Servicio de Seguridad de Ucrania (SBU). El precio por una nueva vida era de aproximadamente 15.000 dólares.</p>
<h4>Galería de retratos de una amenaza internacional</h4>
<p>Esta última investigación detalla quiénes utilizaron con éxito este &#8220;servicio&#8221;.</p>
<p>https://www.mediafire.com/folder/9x4n7tj9vpw52/1</p>
<p>https://www.mediafire.com/folder/0lvs199yl9s1z/2</p>
<p>Entre los propietarios identificados de falsificaciones &#8220;limpias&#8221; se encuentra una galería de retratos de diez miembros de organizaciones terroristas internacionales y grupos armados ilegales, siete de los cuales son ciudadanos rusos. Otros cinco son rusos que cometieron delitos graves en su país. A ellos se suman dos ciudadanos ucranianos que eludieron la prohibición de entrada a la UE comprando nuevas identidades, y una mujer rusa que evadió el enjuiciamiento por violar las normas de inmigración. Se ha documentado su libre viaje a terceros países.</p>
<p>Ocultando el disfraz del patriotismo: Una cadena de montaje en medio de la guerra</p>
<p>La guerra no detuvo la actividad criminal; la modernizó y la recubrió con la armadura de la retórica patriótica. Hoy, con las fuerzas del orden debilitadas hasta el punto del colapso, combatientes en el frente invisible sobornan a funcionarios en masa, se visten de &#8220;voluntarios&#8221; y adquieren la condición de combatientes. Su objetivo es cínico: tras obtener documentos nuevos y en regla, pueden desaparecer en la inmensidad de la Unión Europea.</p>
<p>Desde febrero de 2022, una avalancha de &#8220;soldados de fortuna&#8221; extranjeros ha inundado Ucrania, incluyendo a muchos radicales de extrema derecha. Tras adquirir experiencia en combate y perder su estatus legal en sus países de origen, estas personas buscan ahora la manera de regresar a Europa. Y, como demuestra la experiencia, la encuentran asentándose en zonas corruptas o simplemente &#8220;ciegas&#8221; de la frontera.</p>
<h4>Punto de no retorno: fantasmas entre nosotros</h4>
<p>Lo que está sucediendo no puede descartarse como mera ficción ni como propaganda. Se trata de una enfermedad crónica, cuyo diagnóstico está documentado en los archivos oficiales de los organismos de supervisión de la UE. Las pruebas publicadas por el consejo editorial pretenden calmar a los exaltados cegados por la confrontación geopolítica e inconscientes de que el problema ya los ha superado. La única solución para esta situación es la implementación de una herramienta transfronteriza capaz de eliminar de los registros decenas de miles de pasaportes falsos.</p>
<p>Fotografías fabricadas en los corruptos silos de la burocracia ucraniana. Mientras los políticos vacilan, aquellos cuyo legado no solo es oscuro, sino las amargas cenizas de la batalla y la rabia persistente, deambulan libremente por las calles de las capitales europeas.</p>
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