«Nem Washington nem Ayatollahs»: resposta à esquerda e aos anarquistas que papagueiam a narrativa do Império sobre o Irão

No final do mês passado, publicámos um extenso artigo que disseca os recentes protestos no Irão. Ao contrário de muitos comunicados – que, desligados da realidade nas ruas do Irão, repetem os chavões da propaganda ocidental – este artigo apresenta cronologicamente os eventos desde o final de Dezembro, desde as razões que despoletaram os protestos dos comerciantes, o ambiente desses primeiros protestos e a forma como estes se foram desenrolando. Todos os eventos que incluímos na cronologia são eventos dos quais conseguimos confirmação visual, e incluímos links para as mesmas, para que cada pessoa possa tirar as suas conclusões.

O que se segue é a terceira parte do artigo, que pode ser lido na íntegra no nosso site. No início do artigo podem encontrar um índice interactivo que permite saltar directamente para as partes que mais vos interessarem.

Índice

1. Cronologia das duas semanas de protestos
1.1 Inteligência artificial e manipulação mediática
1.2 O assassinato de Qassem Soleimani
1.3 Violência extrema e o pico dos protestos
1.4 12 de Janeiro: Milhões nas ruas em apoio à República Islâmica
1.5 Manipulação mediática no Ocidente: dois exemplos
2. Interpretação dos acontecimentos
2.1 «Não se apropriem da nossa voz»: a greve de 9 de Dezembro
2.2 O envolvimento da Mossad é propaganda iraniana?
2.3 Bloqueio da internet
2.4 Números de mortos
2.5 As razões e os verdadeiros objectivos do Império no Irão
3. «Nem Washington nem Ayatollahs»: resposta à esquerda e aos anarquistas que papagueiam a narrativa do Império
3.1 “Se são pró-Irão, são insensíveis ao sofrimento dos iranianos”
3.2 “Então e as mulheres e a comunidade LGBT?”
4. Conclusão

3. «Nem Washington nem Ayatollahs»: resposta à esquerda e aos anarquistas que papagueiam a narrativa do Império

As posições que classificam o Irão como uma “ditadura” – tomadas recentemente por várias vozes do activismo dos direitos humanos, do jornalismo independente, do anarquismo e do movimento LGBT – têm implícita uma falsa dicotomia entre aquilo que supostamente são regimes ditatoriais e o que quer que as pessoas considerem hoje como “democracia” e “liberdade”.

Esta dicotomia é falsa porque fundamentalmente ignora o carácter cada vez mais autoritário e repressivo das “democracias” ocidentais que, além de serem parte integrante do Império que está a perpetrar o genocídio na Faixa de Gaza, reprimem nas metrópoles as vozes anti-imperialistas e defensoras da resistência armada ao colonialismo – jornalistas são interrogados e presos de forma arbitrária; cirurgiões são impedidos de entrar no Espaço Schengen; posições políticas, como a defesa de uma Palestina livre do rio ao mar ou da globalização da intifada, são criminalizadas por regimes ditos de centro ou centro-esquerda, como na Alemanha, em França e no Reino Unido; congressos são reprimidos; e as poucas pessoas que corajosamente passam das palavras aos actos contra a máquina de guerra ocidental são aprisionadas mesmo antes de serem condenadas, como está a acontecer no Reino Unido, perante a indiferença da generalidade das sociedades ocidentais.

A outra falsa premissa que esta posição deixa implícita é que, de alguma maneira, o povo iraniano seria mais livre, e a sua sociedade mais democrática, caso o sistema da República Islâmica fosse desmantelado e substituído por um sistema mais do agrado das elites e das massas liberais ocidentais.

Se quiserem ter uma visão política séria, é necessário terem uma compreensão mais multifacetada do mundo do que simplesmente «tirania é má», porque, como ocidentais, nós próprios somos governados pela estrutura de poder mais tirânica do planeta.
Caitlin Johnstone em On “Leftists” And “Anarchists” Who Cheer For Regime Change In Iran

Contudo, o principal problema de todos estes posicionamentos de “solidariedade com o povo iraniano” que se viram nas últimas semanas é o de estarem completamente desligados da realidade no terreno. Enquanto aceitam e propagam a narrativa de uma revolta generalizada (quando, magicamente, não há imagens dessas marés humanas intermináveis) que romantiza os “manifestantes pela liberdade”, ignoram a dimensão e extensão da violência e destruição perpetradas por esses mesmos manifestantes, amplamente documentada em vídeo. Enquanto proclamam “solidariedade com o povo iraniano”, descartam sem rodeios os milhões de iranianos e iranianas que saíram à rua no dia 12 de Janeiro para condenar os motins, afirmando que “ou foram obrigados, ou estão manipulados” – o que só é possível quando se olha a realidade através de uma lente colonial e orientalista. Não há nada de esquerda ou anti-imperialista em desprezar sujeitos do Sul Global só porque estes não se alinham com as narrativas ocidentais.

Se a malta seguisse fontes que não estão alinhadas com os interesses do Império, teria visto, como já mencionámos, dezenas de vídeos de carros destruídos ou incendiados por esses “manifestantes”, assim como de camiões dos bombeiros, supermercados, autocarros, lojas, clínicas, mesquitas, livrarias e até casas residenciais, além de espancamentos selvagens de polícias e civis. Se as imagens de mesquitas a arder poderão dar alguma satisfação a muita gente na esquerda e no anarquismo ocidental, é difícil dar sentido à destruição de carros das classes populares, de lojas de pequenos comerciantes, ou de camiões dos bombeiros. O que é certo é que esta não é, de todo, uma boa forma de conseguir apoio popular para um movimento dito “revolucionário” contra um “regime opressor”.

Será assim tão descabido que milhões de iranianos não queiram ver o seu país mergulhado numa instabilidade que seria aproveitada pelo Império para o desmantelar? O mesmo Império ocidental (“democrático” e “livre”) que mantém o mundo todo a ferro e fogo, que passou os últimos dois anos a perpetrar e normalizar o genocídio em Gaza, e que aprisiona quem faz frente à máquina de guerra?

Face a esta realidade, os exercícios teóricos abstraccionistas que proclamam “Nem Washington nem Ayatollahs” desmancham-se sozinhos. A realidade material e concreta mostra-nos que não existe uma terceira opção.

Como afirma a jornalista e escritora Caitlyn Johnstone, este tipo de posições só é possível se fingirmos «viver numa terra imaginária onde o governo iraniano podia ser derrubado sem beneficiar o império norte-americano».

Isso é uma fantasia. Não vivemos nesse tipo de mundo. Vivemos no mundo que realmente existe. (…)

Os ocidentais que torcem por uma mudança de regime no Irão estão a torcer pelo avanço da estrutura de poder sob a qual vivem, que por acaso é também o império mais poderoso que já existiu, que por acaso é também a estrutura de poder mais assassina e destrutiva da Terra.
Caitlyn Johnstone, 11 de Janeiro de 2026

Este tipo de posições é útil para quem quer proclamar a sua pureza ideológica, mas o único impacto real que tem é contribuir para o coro ensurdecedor sobre o quão malvado é o Inimigo Número Um do Império a cada momento. Por muito que afirmem ser contra uma eventual intervenção militar norte-americana, contribuem para a demonização da vítima – o factor mais determinante para fabricar consentimento no seio do público ocidental para essa mesma intervenção “libertadora”.

Muitos dos que, durante a última década, se juntaram de viva voz ao coro sobre o “malvado do Assad” passaram o último ano em silêncio sobre os massacres numa Síria tomada por hordas de takfiris armadas pelo Império para libertar o povo sírio da sua “opressiva ditadura”. Num país onde outrora havia um estado laico e igualdade de género perante a lei, proliferam agora as burqas e a escravatura sexual, e a convivência pacífica entre diferentes etnias e religiões foi substituída por violência sectária e limpezas étnicas. Muitos dos arautos da “libertação” da Síria, que passaram anos a chamar “assadistas” a quem alertou para os perigos destas aventuras imperialistas, guardam um silêncio desinteressado agora que esses perigos se materializaram – enquanto atacam o próximo inimigo do Império.

É triste ver tanta gente que se diz de esquerda, anarquista, anti-imperialista e pró-Palestina a alinhar, mais uma vez, com as mesmas narrativas que se ouvem nas bocas de diásporas reaccionárias, de Lisboa a Montreal, de sionistas e de neoconservadores norte-americanos – por muito que, depois de papaguear a sua propaganda, lhes declarem publicamente oposição.

E isto é especialmente trágico nos meios pró-Palestina, que proclamam solidariedade para com as vítimas do genocídio, enquanto invisibilizam sistematicamente (quando não condenam) a resistência que as defende – e que agora se juntam ao coro contra o malvado Irão, o maior aliado da causa palestiniana. Nas palavras de Nizar Banat, uma importante figura da resistência na Cisjordânia, assassinado pela Autoridade Palestiniana em 2021:

Para aqueles (palestinianos) que desaprovam o Irão: quem vos deu os vossos rockets? Não aplaudem os rockets e torcem por eles em apoio à resistência? (…) Deviam ter vergonha!

Dizem que o Irão «explora a causa palestiniana para espalhar o xiismo». Se assim é, por que se sujeitaria a 42 anos de sanções? Várias centenas de milhões dos seus dólares foram confiscados e, mesmo assim, continua a tirar da comida do seu povo para apoiar e sustentar a resistência palestiniana. Não têm de o fazer. O Irão é o único país do mundo que tem uma cláusula permanente no seu orçamento, o orçamento do pão do povo iraniano, que se compromete a apoiar a revolução palestiniana, independentemente da sua orientação; seja a Fatah, a FPLP, os comunistas, qualquer um! (…)

O Irão é uma nação com dignidade e honra, e sabe claramente que a presença americana é o problema, que a presença israelita é o problema.

Mais uma vez, para quem ainda não percebeu: este apoio à resistência palestiniana e a outras forças na região é a principal razão para o Irão sofrer sanções, ameaças militares e tentativas de revolução coloridas aplaudidas pelos liberais e “progressistas” no Ocidente. Reparem que a República Islâmica do Irão (xiita) não é sectária: apoiam não só forças palestinianas islâmicas (como o Hamas e a Jihad Islâmica, sunitas) como também forças laicas e de esquerda (como a FPLP e a Fatah), tal como apoiaram a resistência sul-africana ao regime de apartheid e outras lutas anticoloniais. Mas o sectarismo começa a ferver nas veias dos activistas e militantes no Ocidente assim que vêem “islâmico” no nome de alguma coisa.

Na verdade, é pior que sectarismo. Nas palavras da Dra. Rahmeh Aladwan, que já foi detida 4 vezes pelo regime britânico por delito de opinião:

Fundamentalmente, não é da conta de ninguém como as nações árabes ou muçulmanas se governam. Opor-se à autonomia muçulmana nos seus próprios países é a antítese dos valores «democráticos» e «anti-imperialistas» que a esquerda ocidental afirma defender.

O liberalismo está a ser exposto pelo que realmente é: anti-religioso e autoritário, mas de uma forma dissimulada, cínica e ardilosa. A secularização do Ocidente não torna o seu modelo um mandato global.
Dra. Rahmeh Aladwan

Afinal, porque é que não se vêem todos esses colectivos, jornais e influencers publicar textos inflamados contra o “regime” do Burkina Faso, outro país do Sul Global que resiste ao imperialismo ocidental e que facilmente encaixaria nesses rótulos de “ditadura autoritária” – e que, segundo essas lógicas, poderia colocar-se na categoria de sociedades onde “não há liberdade”? Será porque Ibrahim Traoré, apesar de ser um general que chegou ao poder através de um golpe de estado, não lidera um “regime” islâmico? Que ninguém lhes conte que Traoré é muçulmano!

Esta anti-religiosidade torna-se um tanto mais perversa após mais de dois anos do Holocausto dos nossos tempos, durante os quais as únicas forças que prestaram apoio real ao povo palestiniano foram, todas elas, islâmicas. Enquanto nós, deste lado, andámos a escrever artigos e comunicados, enviar postais, assinar petições e organizar manifestações e vigílias – ou, na melhor das hipóteses, a organizar Flotilhas em que os seus tripulantes estavam protegidos pelo estatuto de celebridade –, as forças do Eixo da Resistência pagaram a sua solidariedade com milhares de mártires dos quais nunca ninguém quis saber o nome, e cujo sofrimento nunca ninguém santificou.

Por cá, ninguém está disposto a correr os mesmos riscos que eles para materializar a solidariedade, mas há sempre uma horda de comentadores e activistas dos direitos humanos pronta para chamar “tiranos”, “fascistas” ou “terroristas” a quem enfrenta com os seus corpos, e não com meras palavras, os nazis dos nossos tempos.

É por estas e por outras que a esquerda e o anarquismo ocidental são olhados como são pelo Sul Global.

Após dois anos de barbárie completa e descontrolada – imposta não só sobre Gaza, mas sobre toda a Palestina, o Líbano, o Iémen e a Síria –, durante os quais o Império expôs a sua verdadeira natureza aos olhos do mundo inteiro, basta de andar aqui com paninhos quentes.

O genocídio em Gaza, e todas as suas ramificações, avançam livremente com a total cumplicidade das elites políticas, económicas e mediáticas ocidentais. Ao longo dos últimos dois anos, as massas ocidentais falharam em impor às suas elites quaisquer custos económicos significativos (através de greves ou outras formas de resistência material) ou eleitorais – tornando-nos a todos e todas cúmplices de toda esta barbárie que, se não é fascismo, não sabemos o que será.

Artigo completo: https://guilhotina.info/2026/01/27/liberdade-imperio-protestos-irao/


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