
13 de dezembro de 2017. Foi há 3130 dias que, pela primeira vez, ouvi falar da história que deu início à série que publicamos hoje. Fazia reportagem pela Zona J, em Chelas, Lisboa, entrevistando a gente do Bataclan 1950, um grupo de jovens do bairro que se junta regularmente para escrever música, cantar, apoiar-se mutuamente, estar junto. O desafio tinha vindo da Divergente, revista de jornalismo narrativo, e da Bagabaga Studios, a cooperativa de que detém a Divergente. Estavam, em conjunto com os Bataclan 1950, a criar o que mais tarde viria a tornar-se no documentário Chelas Nha Kau, e perguntaram-nos se queríamos conhecê-los.
Enquanto andávamos pela Zona J eu e a gente da Divergente — Luciana Maruta, Ricardo Venâncio Lopes e Sofia da Palma Rodrigues — entrevistavamos Carlos Djassi, também conhecido como MC BamBam, parte do Bataclan 1950. Ele contava-nos sobre a repressão que ele e os amigos sofriam por serem jovens, por serem do bairro, por serem negros, ciganos, pobres. E, a dada altura, dava-nos o exemplo de uma ação policial que tinha tido palco a poucos metros de nós, pouco tempo antes: era madrugada da passagem do ano de 2015 para 2016, um grupo de gente amiga festejava o ano novo numa praça na Zona J, quando duas carrinhas da PSP chegaram ao local. O resto, bem, demorou-nos anos a investigar.
A primeira mensagem que enviei para a equipa Fumaça sobre esta história, em dezembro de 2018, dizia: “Eu acho que esta é a altura certa para entrar na história, por isso sugiro começar a trabalhar nisto. Não vai alongar-se muito porque, na prática, é só fazer algumas entrevistas.” Entretanto, passaram-se mais de 7 anos.
O que começou como uma pequena história sobre uma ação policial específica, foi-se transformando, gradualmente, num trabalho sobre como a história daquela noite é maior do que a história daquela noite.
Nos últimos 3130 dias fizemos mais de 200 gravações áudio — falámos com dezenas de polícias, moradores de bairros guetizados, vítimas de brutalidade policial, investigadoras, ativistas, advogadas, juízes e representantes políticos. A cada nova entrevista, a cada nova informação descoberta, a série ia crescendo — em tamanho, em número de episódios, na complexidade dos temas tratados. Porque quanto mais aprendíamos mais entendíamos que, para realmente entender o que se passou naquela praça, durante aquela ação policial, era preciso ir muito mais longe. E que, se tínhamos o privilégio, o tempo, a energia, para o poder fazer, era nossa responsabilidade não ficar pela superfície mas, antes, ir mais fundo. Fronteira do Medo é talvez o mais claro exemplo do que chamamos, por vezes, de jornalismo obsessivo.
Falamos sobre o processo de guetização de bairros, sobre o policiamento das zonas que o estado chama de “problemáticas”, sobre racismo nas polícias, sobre a história da polícia e as condições de agentes a seu serviço, sobre gente que conta ter sido agredida, detida e, logo depois, acusada de resistência, sobre como juízes decidem as suas sentenças, sobre reformas do policiamento ou a sua abolição, e muito mais. No fim, construímos um podcast e um website com 14 capítulos.
E, em pano de fundo está uma ação policial: a da noite da passagem do ano de 2015 para 2016.


Mas importa deixar já isto claro: se o que procuras é apenas descobrir quem está a dizer a verdade sobre esta noite, quem é culpado ou inocente, esta não é a investigação certa para ti. Fronteira do Medo não é uma crónica criminal — ou uma reportagem de true crime, como se costuma dizer —, nem quer estabelecer a versão definitiva do que se passou durante a passagem de ano de 2015 para 2016. É um trabalho de jornalismo de investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham.
Hoje, passados 3130 dias desde que conhecemos, pela primeira vez, esta história, publicamos a mais complexa e aprofundada investigação que já fizemos. Ouve Fronteira do Medo aqui ou na tua aplicação de podcasts. No site podes encontrar uma banda desenhada sobre a noite que deu origem a tudo isto.
Por fim, ainda que talvez seja óbvio, digo-o: um trabalho deste tamanho exigiu um esforço financeiro monumental. Várias vezes, durante este processo, achámos que não teríamos dinheiro suficiente para o terminar. Teria sido impossível, sem o apoio da Comunidade Fumaça, ver Fronteira do Medo ser publicada hoje. Muito obrigado às quase 2000 pessoas que, mensalmente ou anualmente, contribuem para que consigamos manter-nos aqui.
Quem tem uma contribuição ativa recebeu já todos os episódios da série. São quase 16 horas de áudio, já disponíveis! Se gostavas de ouvir já os restantes episódios, faz uma contribuição agora para Fumaça ou Divergente. De caminho, ajudas a que jornalismo independente e de investigação possa continuar a existir.
O conteúdo Nova série, 3130 dias depois aparece primeiro em Fumaça.

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