Sousa e Monsanto

Fumaça & Divergente
Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)

Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma série de investigação em podcast produzida para ser ouvida. Se puderes, ouve com auscultadores.

TRANSCRIÇÃO

Nuno Viegas: Nesta história há descrições de violência física. Alguns troços são recriações. Ouve com auscultadores. A narração é de Ricardo Esteves Ribeiro.

I

Ricardo Esteves Ribeiro: Quando Paulo Gonçalves saiu à rua, horas antes de ser levado ao hospital, não sabia ainda que a história daquela noite seria maior do que a história daquela noite. Na verdade, não tinha como saber. Paulo Gonçalves não é divino, nem adivinhador de futuros — se acreditarem neles —; é apenas um modesto representante de deus na terra, diria a dada altura o comissário providencial em Ensaio sobre a Lucidez, de Saramago. Um polícia, diria eu. E se é certo que este polícia não pode saber, neste momento, o que sucederá até ao final desta madrugada, tem pelo menos a certeza de que não irá a casa hoje. Talvez exageremos ao dizer que não irá a casa. É provável que Paulo Gonçalves tenha um lugar a que chame “casa” em Lisboa ou perto da capital. Mas, se resolvermos por chamar casa ao sítio onde nascemos ou crescemos ou onde vive a nossa família — como faz uma parte das pessoas deslocadas —, aí sim, é seguro dizer que lá não irá, até porque a sua fica a cerca de 200 quilómetros de onde agora estamos.

Paulo Gonçalves cresceu em Pouca Pena, uma aldeia no concelho de Soure, para os lados de Coimbra, de onde saiu há pelo menos oito anos. E a razão porque não lá irá é até bastante simples, fácil de saber. É que uma passagem de ano é uma passagem de ano. E uma passagem de ano para um agente da PSP em Lisboa é quase sempre razão de serviço. Basta estar um par de horas a conversar com polícias sobre os problemas de polícias para que o desejo de estar perto de casa venha no topo das demandas. A história que contam é frequentemente a mesma: são enviados para Lisboa ou arredores, ficam anos e anos à espera por uma vaga na terra natal, anos e anos de disponibilidade permanente, folgas inconvenientes, pobre compensação e saudade de casa.

A julgar pelos relatos de quem faz disto vida ou de quem, pela profissão, faz disto objeto de estudo é crível que, se estivéssemos dentro de alguma esquadra agora mesmo, feitos moscas curiosas a meterem-se em lugares que não são os seus, a fotografia que tiraríamos não distasse muito da seguinte pintura: uma série de agentes à espera do que apareça, entretendo-se com piadas e traquinices — talvez até com 12 passas no estômago, tomadas umas horas antes, pelo virar de ano — e cada um sabendo que a noite ainda não acabou, por muito que já estejamos madrugada dentro. Dirão vocês que moscas não tiram fotografias e dizem-no bem, é verdade; mas também não é menos verdade que não estamos lá nós numa esquadra nesta noite — é impossível saber o que lá se passa ao certo. E mais verdade ainda é que sobre o que acontece no interior desta esquadra específica, a 34.ª Esquadra da PSP de Lisboa, nos Olivais, a esta hora, às quatro da manhã, não temos relato algum. Mas se há coisa que polícias dizem, quando se lhes pede que retratem o serviço de uma passagem de ano é isto: uma noite longa, de muito trabalho, distúrbios, álcool, e que “vai ser sempre a rolar”. Que ainda não acabou. Não que tenham já lido a história, numa daquelas reportagens que se escrevem anos depois como se estivessemos no próprio dia; ou até que acreditem no destino, que sobre isso teríamos de perguntar a cada um; mas esta é do tipo de certeza que a observação empírica confere a quem já virou muitos frangos, como se costuma dizer. Um feeling, pode também chamar-se. E o feeling, quando é destes, menos positivos, causa formigar na barriga.

A formiga é um bicho fascinante. Basta não mais que umas dezenas de minutos de olhar desatento e o que dantes era uma formiga perdida a rondar uma bolacha esquecida é agora um batalhão delas de volta do prato, como se num estalar de dedos se multiplicassem sem nos apercebermos de onde brotaram. Mas não são meros estalares de dedos que, usualmente, fazem multiplicar os formigueiros nas barrigas dos polícias. É mais do que isso.

Polícia (reconstituição): Mais informo que se encontra na Zona J viatura com matrícula [não se ouve os números] Quebec, Índia. Viatura de marca BMW, cor preta. Seguem três indivíduos caucasianos, com suspeita de arma de fogo. Não pararam à ordem dos colegas. Solicita-se apoio. Desloque-se para a Zona J, Praça Dr. Fernando Amado. É numa ZUS. Equipar devidamente para ir para o local dar apoio. Escuto.

Ricardo Esteves Ribeiro: São quatro da manhã e a missão não era inesperada: os agentes da PSP são chamados com frequência a resolver os problemas que outros criaram; chatices de terras que não as suas. Afinal de contas, estamos em Chelas, na Zona J, uma zona sensível no centro da cidade de Lisboa — um bairro problemático, para ser mais claro; e para o mais estamos na última noite do ano — álcool, drogas e disparos de armas de fogo é o que esperam. Os tiros já se ouviam. Armas na zona havia de certeza.

Os membros da equipa equipam-se a rigor: gás pimenta, bastões, algemas e o que mais for essencial para intervir. Entram na carrinha, encontram-se com outros elementos da esquadra da Zona J e põem-se a caminho da praça.

A praça Dr. Fernando Amado é uma praça de convívio de um bairro habitacional de classe média-baixa em Lisboa: um conjunto de mamarrachos construído disformemente, como se arquitetos os tivessem imaginado de costas voltadas: uns com mais de dez andares, outros, logo à beira, com apenas um par deles; uns branco sujo — não sei se de cor, se de idade —, outros laranja e rosa; e todos — aí sim, houve acordo —, com uma boa quantidade de marquises gastas.

É no lado sul da praça Dr. Fernando Amado que se encontra o café Sousa e Monsanto, para onde esta equipa de polícia é agora chamada. O local estava já referenciado pela PSP. Não exatamente o café, mas o largo que lhe dá para a frente, lado a lado com um campo de futebol feito de pedra, “um ringue”, que quem lá passar durante o dia verá usualmente cheio. E esse largo, sim, era conhecido por ser afoito ao tráfico de droga, compra e venda de artigos ilícitos, bem como à frequência de gente de má índole, capaz de agredir e ameaçar agentes da autoridade. Paulo Gonçalves já trabalha em Chelas há tempo suficiente para conhecer histórias de polícias agredidos, perseguidos e coagidos. Além disso, não tinham sido nem uma, nem duas, nem três as vezes em que tinha sido ele a própria vítima.

Deixemos que as palavras do próprio descrevam a zona.

Paulo Gonçalves: Aquela zona, junto ao café… Os indivíduos que ali frequentam o lugar são um bocado hostis para a polícia. Atiram sempre objetos contra os carros da polícia; trafica-se ali… Há ali tráfico de estupefacientes. Prontos, por diversas ocorrências dessa natureza…

Ricardo Esteves Ribeiro: Pela janela, os agentes da PSP contam perto de 30 pessoas, talvez mais, à porta do café Sousa e Monsanto. São muitos, sim, mas esta não é também a única equipa chamada ao local. No total, 15 a 20 polícias, entre duas carrinhas e dois ou três carros patrulha, com objetivos claros: sem pôr em risco os polícias, encontrar o dono do BMW preto e garantir que nenhuma arma existe no local.

Torna-se claro que a presença da polícia causa desconforto no grupo. Ao verem a carrinha passar, os indivíduos tomam uma postura suspeita: reativos, inquietos, de mãos nos bolsos, como se tivessem algo a esconder. A comitiva aproxima-se.

Polícias (reconstituição): Polícia! Encostem-se à parede. Afastem as pernas, encostem-se à parede. Tirem as mãos dos bolsos, encostem-se à parede. Está alguém armado? Onde é que está o dono do BMW? BMW preto, é de quem? Mostrem identificação. Identificação.

Ricardo Esteves Ribeiro: Se há poucos segundos a postura era suspeita, agora é mais do que isso. Recusam encostar-se à parede, mãos à mostra, como se lhes tinha sido ordenado. Um deles chega a dar passos em frente, com o peito cheio de confiança de quem não teme enfrentar a autoridade. É bem possível que a confiança não seja de todo sóbria — noite de passagem de ano, há muito excesso de álcool. E é possível também, que tem vindo a ser documentado por quem estuda a psicologia das multidões, que esta seja até multiplicada pelo “efeito de grupo”, “de manada”. Que, finda a festa, as mesmas pessoas que hoje desobedecem e afrontam à autoridade, amanhã, cada um para seu lado, sejam dignas cumpridoras da lei, da autoridade. Mas hoje, agora, que é o que interessa, o sentimento geral é de quem diz que não faz porque não quer. E um deles diz mesmo: “Não me vou encostar, não fiz nada.”

Paulo Gonçalves: Entretanto, havia um indivíduo que se insurgiu e que estava ali a incentivar os outros para que houvesse ali uma oposição e agressões a agentes da autoridade.

Ricardo Esteves Ribeiro: Os agentes resolvem a questão antes que escale: algemam o homem e afastam-no do grupo, para dentro de uma das carrinhas.

Paulo Gonçalves: E depois, quando houve essa situação, os indivíduos estavam naquele grupo, insurgiram-se ainda mais, com pontapés e murros, e tentaram ainda agredir-nos ainda mais. Foi aí que foi necessário haver o uso do bastão, para que os mesmos não houvesse agressões a agentes da autoridade.

Ricardo Esteves Ribeiro: Um dos homens: um tipo de brinco na orelha direita, barbicha espetada para baixo e tranças de cabelo escuro espetadas para cima, não se demove do seu objetivo. Olha o agente Paulo Gonçalves nos olhos e diz:

Homem (reconstituição): Eu marquei-te a cara e vou-te matar. Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar. Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.

Ricardo Esteves Ribeiro: E o agente Paulo Gonçalves sente medo e inquietação. Se o homem sabe que faz serviço de segurança à porta do Minipreço de Chelas, o que o impede de lá aparecer para matá-lo, quando estiver sem reforços? E o agente olha o indicador da mão direita que aponta diretamente para si e teme pela sua vida; percebe que pode morrer, se não aqui, um dia, quando se cumprir a ameaça.

Homem (reconstituição): Eu marquei-te a cara e vou-te matar. Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar. Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.

Paulo Gonçalves: Posto isto, ele não parava com aquele tipo de ação.

Homem (reconstituição): Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar.

Paulo Gonçalves: Não parava com as frases, com aquilo que ele disse.

Homem (reconstituição): Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.

Paulo Gonçalves: E eu dei-lhe voz de detenção e tentei manietá-lo para proceder à minha detenção. Foi aí que ele me desferiu um pontapé no joelho esquerdo, na perna esquerda, na zona dos joelhos. […] E foi aí que a gente se agarrou e ele apertou-me o pescoço. Eu agarrei-o também, caímos os dois para o chão. […] Caí outra vez sobre o joelho esquerdo, porque eu sou esquerdo, faço mais força no lado esquerdo…

Ricardo Esteves Ribeiro: O pé do homem voa contra a perna esquerda de Paulo Gonçalves e os dois envolvem-se numa luta corpo a corpo. Caiem desamparados no chão. O polícia cai sobre o joelho já lesionado. Primeiro sente a dor e, depois, as mãos que lhe agarram o pescoço. O agente tenta libertar-se, mas as mãos apertam, e apertam, e perde-se a noção do tempo — não se pode dizer se passaram um, dois, três, quatro minutos.

Com a ajuda do chefe e de um seu colega, consegue manietar e algemar o insurreto. É levado para a carrinha, onde estava já o outro homem, o tal que tentou no início acicatar os ânimos. Esse é revistado e libertado. O agressor de Paulo Gonçalves fica.

A situação está mais calma. Esta equipa da PSP abandona a praça. Está terminada a ação. Está terminado o pesadelo. Paulo Gonçalves coxeia da perna esquerda, sente dores no pulso direito e tem os lábios cortados. Entra na esquadra dos Olivais e deixa o detido entregue à sua equipa, em segurança, até completar as formalidades legais. O Sistema Estratégico de Informação da PSP mostra o que já se adivinhava: não é a primeira vez que o indivíduo detido causa problemas. Já por três vezes tinha estado envolvido em crimes contra a autoridade pública.

Paulo Gonçalves entra numa ambulância. Passa pouco das seis da manhã quando chega ao Hospital de São José. Dez minutos depois, é atendido. Faz um raio x ao pulso direito. Felizmente, tudo está bem. É o joelho que ainda lhe dói. Mais de uma hora depois, volta à esquadra para terminar os afazeres a que legalmente é obrigado. Assina o auto de notícia por detenção, o registo policial das agressões em frente ao café Sousa e Monsanto. O agente deixa o serviço depois das nove da manhã, já de dia. Ossos do ofício.

II

Ricardo Esteves Ribeiro: Quando Pedro Lopes saiu à rua na noite em que seria levado para a esquadra, não sabia ainda que a história daquela noite seria maior do que a história daquela noite. A noite de passagem de ano foi como há vários anos era. Reza assim a tradição: mata-se o apetite, conversa-se em família, ri-se, dança-se e come-se outra vez, que é aquilo de que mais se gosta. E depois, já comidos e dançados — talvez até com 12 passas no estômago, tomadas pelo virar de ano — vão Pedro Lopes e a família, caminhando bairro fora até à outra casa, a dos sogros, para repetir o ciclo. E come-se e conversa-se e ri-se e dança-se e come-se outra vez. Até que, a dada altura, cumpridos os afazeres familiares, pode calhar sair-se para celebrar com os amigos.

A tradição que começa em casa da família de Pedro Lopes e começa, aliás, em casa da maioria, leva, todos os anos, desde há já algum tempo, umas dezenas de amigos de longa data a celebrar, noite fora, a entrada do ano novo. Se antes a festa se prolongava por bares e discotecas, agora, já com crianças e bebés a cargo, o grupo junta-se numa praça a meio caminho.

Notarão com certeza os conservadores da linguagem o uso indevido da palavra “tradição”. Quem entretanto tenha pegado no dicionário de bolso da língua portuguesa, rapidamente reparará que a descrição produzida por quem oferece significado oficial às palavras pouco se assemelha ao evento descrito até agora — não falamos de um dogma, uma doutrina. Talvez estejamos mais perto de um consenso linguístico adotando o termo que, mais tarde, um dos amigos de Pedro Lopes — ao qual não interessa dar nome agora — usará para descrever a ocasião: ritual.

O ritual faz-se na praça Dr. Fernando Amado, no Bairro do Condado, em Marvila; ou, como insistem em dizer com orgulho, na Zona J, em Chelas. A praça Dr. Fernando Amado é uma praça de convívio de um bairro habitacional de classe média-baixa em Lisboa. É um conjunto de mamarrachos construído disformemente, como se arquitetos os tivessem imaginado de costas voltadas: uns com mais de dez andares, outros, logo à beira, com apenas um par deles; uns branco sujo — não sei se de cor se de idade —, outros laranja e rosa; e todos — aí sim, houve acordo —, com uma boa quantidade de marquises gastas.

É no lado sul da praça Dr. Fernando Amado que se encontra o café Sousa e Monsanto, o ponto de encontro do grupo. Não exatamente o café, que já estaria para lá do seu horário de abertura, mas o largo que lhe dá para a frente, lado a lado com um campo de futebol feito de pedra, “um ringue”, que quem lá passar durante o dia verá usualmente cheio.

Não está cheio quando Pedro Lopes, a companheira e o filho chegam à praça, mas já há vida à frente do café Sousa e Monsanto. Bate a uma da manhã, mais coisa menos coisa, e já se bebe e já se dança, e quatro ou cinco crianças — um bebé e as restantes com menos de 10 anos — já brincam com a adrenalina de, em dia especial, poderem estar acordadas bem para lá da hora d’Os Patinhos.

Pessoas na festa (reconstituição): Bom ano! Como é que é? Bom ano!

Ricardo Esteves Ribeiro: Durante as três horas seguintes, chegará gente e mais gente. Vêm da Zona J ou de outros bairros ali de Chelas, ou das Olaias, lá perto, ou de para onde mais a vida as tenha levado. Quase todas as cerca de 20, 30 pessoas que se vão encontrando à frente do café Sousa e Monsanto cresceram, viveram, trabalharam ou, de alguma forma, pararam, nalguma altura da sua vida, pela Zona J. E quase todas são negras.

Pedro Lopes olha para o relógio que já tinha consultado umas quantas vezes: marca as 3h40. É dos poucos que trabalha nesse dia, pelo que a noite já se faz tarde demais para as horas de sono que conta ter. Mais um par de músicas e abala.

Pedro Lopes: Oh, pá. […] Não, fogo, não é possível. […] Até neste dia eles vêm incomodar-nos?

Ricardo Esteves Ribeiro: Pedro Lopes baixa o volume da música quando vê passar carrinhas da PSP. Não que estivessem a fazer algo de errado, nem que fosse particularmente surpreendente ver a polícia — afinal, estamos na Zona J, em Chelas. Mas, como se costuma dizer, mais vale prevenir do que remediar, e é o que faz.

As carrinhas seguem em frente sem parar. Dão a volta ao fundo da rua. E depois…

Polícias (reconstituição): Polícia! Polícia!

Pessoas na festa (reconstituição): O que é que se está a passar? Hey, o que é que se está a passar? Mas encostar porquê? Não estamos aqui a fazer nada, estamos aqui a conviver.

Polícias (reconstituição): Encostem-se à parede! Encostem-se à parede!

Pessoas na festa (reconstituição): Porque é que estão a fazer isto? O que é que estamos aqui a fazer? Estão aqui miúdos, estão aqui crianças.

Polícias (reconstituição): Está alguém armado? Está alguém armado?

Pessoas na festa (reconstituição): Epá tenham calma, tenham calma! Olhe, cuidado que há aqui crianças. Deixem-me tirar a miúda daqui.

Polícias (reconstituição): Onde é que está o dono do BM? Onde é que está o dono do BMW? Onde é que está o dono do BMW?

Pessoas na festa (reconstituição): Mas porquê? Mas porquê? Mas porquê? Mas porquê? Quem é que é o chefe?

Polícias (reconstituição): Todos encostados à parede

Pessoas na festa (reconstituição): Não, nós queremos saber quem é que é o chefe

Polícias (reconstituição): Não! Todos encostados na parede.

Pessoas na festa (reconstituição): Eu não encontro à parede, eu não fiz nada de mal, não vou encostar-me à parede. Vou-me encostar à parede porquê? Eu não vou encostar à parede. Eu não vou encostar à parede. Estão aqui crianças e mulheres. Oh, tenham calma, tenham calma. Tenham calma!

Ricardo Esteves Ribeiro: Num passo de magia, a festa desaparece. Há dois ou três carros patrulha, talvez umas três carrinhas da Equipa de Intervenção Rápida da PSP, e uma mancha de polícias equipados a rigor: uns de escudo transparente, outros de colete anti-bala com a palavra “Polícia” ao peito, para que não reste dúvidas, e nenhum, absolutamente nenhum, identificado.

Os agentes não hesitam em avançar sobre o grupo onde, será escusado dizê-lo, já não se bebe nem se dança, nem se ouve música. Algumas das crianças que ainda brincavam, lutando contra o sono, são levadas para dentro do carro.

De cassetetes e armas na mão, os agentes cercam o grupo e gritam:

Polícia (reconstituição): Encostem-se à parede! Onde está o dono do BMW? Encostem-se à parede! Onde está o dono do BMW?

Ricardo Esteves Ribeiro: Do grupo, há quem se afaste para proteger a pele, quem peça calma que estão ali crianças, quem jure que não há BMW nenhum, e ainda quem chame pelo chefe da operação, pedindo explicações, e diga que nada fez de mal, que não tem nada que encostar à parede. Há um que protesta mais do que os outros, leva com duas bastonadas, foge, escorrega, é pontapeado pelos agentes, e algemado no chão.

Pessoas na festa (reconstituição): O que é que se está a passar? Porque é que estão a fazer isto? O que é que estamos aqui a fazer? Estão aqui miúdos, estão aqui crianças. Epá tenham calma, tenham calma! Olhe, cuidado que há aqui crianças. Oh, tenham calma, tenham calma. Tenham calma!

Ricardo Esteves Ribeiro: Um dos agentes ergue um bastão. Bate na cara de um homem, abrindo-lhe o sobrolho, na cara de outro, arrancando-lhe os óculos de ver, no corpo de uma mulher e na cara de outra, a companheira de Pedro Lopes. Pedro Lopes, um tipo de brinco na orelha direita, barbicha espetada para baixo e tranças de cabelo escuro espetadas para cima, leva também ele uma bastonada. Deixemos que as palavras do próprio descrevam o momento.

Pedro Lopes: Ele estava descontrolado, eu até cheguei a pensar: “Será que este homem consumiu alguma coisa?” Porque ele estava descontrolado, mesmo descontrolado.

Ricardo Esteves Ribeiro: O agente é puxado para trás por alguns colegas, como que dizendo que nada disto estava planeado, que não era suposto dar passos em frente, que não estava escrito que se ia usar o bastão.

Um outro polícia usa gás lacrimogéneo. Dentro do carro onde foram escondidas, duas das crianças urinam de medo enquanto gritam e choram.

Pedro Lopes: Saquei do meu cartão de cidadão, entreguei na mão de um agente que estava lá que parecia-me ser o agente mais velho, porque era já um senhor de idade. […] E eu insistia, insistia que me dessem o nome do agente. […] Eu estava mesmo nervoso, não vou dizer que não estava, estava mesmo nervoso. Porque eu estava a ver ali a mãe do meu filho… Eu levar com uma bastonada é uma coisa, agora a mãe do meu filho levar, desculpem-me lá… Eu não vou mentir, porque eu não estava calmo. Estava a falar mais e mais alto a exigir que o homem se identificasse… Ninguém disse nada, ninguém disse nada. E eu continuei ali a falar, falar, falar, falar, até que…

Polícia (reconstituição): Tu vens comigo!

Pedro Lopes: Pá, pegaram-me, levaram-me ali para o meio, só que eu estava ali firme e hirto e o homem queria me meter no chão. Ele queria dar-me uma rasteira, então, e eu não deixei que ele fizesse isso. Nisto tudo, de repente, eu sinto que estou no chão, porque mais alguém fez isso… Estou no chão, algemam-me e começam-me a pisar. Tudo bem, até aí tudo bem. Isso são coisas que não doem fisicamente, o que dói mais é aqui dentro, aqui e… Isso é que dói mais… Ya.

Ricardo Esteves Ribeiro: Pedro Lopes encontra um companheiro de festa na carrinha da polícia, para onde o levam. Tinha sido detido logo no início. Esse é revistado e libertado. Já sozinho, não é o corpo que lhe dói — não se lembra já sequer de ter sido pisado e pontapeado, de se lhe terem partido os óculos quando o fizeram cair —; dói-lhe a alma, o coração.

Está algemado, de mãos atrás das costas, numa carrinha da PSP, obrigado a viajar de cabeça baixa, entre as pernas, e, enquanto ali vai, é o agente que tinha usado o bastão — o tal que “estava descontrolado”, o tal que o levou ao chão, o tal que lhe disse “Tu vens comigo!” —, que se apoia nas suas costas, para que não possa sequer ousar olhar em frente. Mas não é isso que o incomoda. É o pensar: “Eu não devia estar aqui. Eu não fiz nada para estar aqui.”

A carrinha leva-o até à esquadra dos Olivais, onde Pedro Lopes tinha já estado por duas vezes, arrastado nas frequentes rusgas da Zona J. Mas tem a ficha limpa. Nunca foi condenado.

Pedro Lopes: Bem, vejo aquela porta e tem uns degraus… Assim que abrem a porta ele dá-me um pezão, dá-me um pezão, eu não sei como é que eu não caí de boca. Eu não sei mesmo. Eu vou para baixo mas, por sorte, consegui-me equilibrar. O andar onde eu estava não era muito bem iluminado. Porque tinha uma porta, acho que era onde se sentava o chefe de turno. E, então, tinha lá luz, porque também havia uma janela e depois tinha umas persianas, mas dava um pouco de iluminação. Mas a iluminação mais forte vinha da parte de baixo, porque havia mais um andar, digamos assim. E eles mandaram-me ajoelhar e olhar para a parede.

Eu estava algemado, ajoelhei-me e olhei para a parede. Mas depois, eu pressenti que vinha alguém atrás. Assim que eu olho para trás, vejo-o a ele, esse tal agente que me agrediu. Manda-me olhar para a frente e começam a agredir-me.

Pontapés e socos.

Pontapés e socos.

Socos, pontapés.

Socos, pontapés.

Naquela altura, o meu corpo estava lá, mas eu não estava lá. Eu não estava lá.

III

Ricardo Esteves Ribeiro: A história que ouviste foi escrita com base nos testemunhos muitas vezes contraditórios dos polícias e de pessoas que nessa noite celebravam a passagem de ano na Zona J, em Chelas, que estiveram na madrugada de 1 de janeiro de 2016 em frente ao café Sousa e Monsanto, e completada pela experiência de outros polícias e investigadores com quem falámos durante esta investigação. As expressões subjetivas, os adjetivos recorrentes, as descrições sem contraditório são reflexo disso mesmo — e não da opinião do narrador… eu, Ricardo Esteves Ribeiro.

O agente Paulo Gonçalves recusou ser entrevistado sobre esta noite. Utilizámos o seu testemunho gravado no processo legal que daqui surgiu. Aí, negou ter agredido Pedro Lopes ou qualquer pessoa. “Alguma [agressão] que pudesse haver”, disse, “seria derivado da queda sofrida por ambos”.

Já a direção nacional da PSP admite que houve duas queixas sobre a intervenção naquela noite de passagem de ano. Deram origem a um processo disciplinar a Paulo Gonçalves. Falamos do resultado mais à frente.

A PSP diz também que nunca houve processos disciplinares por agressões no interior da esquadra dos Olivais. Recusaram responder a outras 40 questões sobre o que acabaste de ouvir. Podes ler as perguntas e respostas em fronteiradomedo.pt.

Os sons que ouviste na praça Dr. Fernando Amado não são gravações dessa passagem de ano, mas recriações baseadas nas declarações de várias das pessoas presentes e de outros polícias.

Durante os próximos 13 episódios, vamos seguir de perto este caso e tudo o que dele resultou. Mas importa deixar já isto claro, antes de avançarmos: se o que procuras é apenas descobrir quem está a dizer a verdade sobre esta noite, quem é culpado ou inocente, este não é o podcast certo para ti. Fronteira do Medo não é uma crónica criminal — ou um podcast de true crime, como se costuma dizer —, nem quer estabelecer a versão definitiva do que se passou durante a passagem de ano de 2015 para 2016. É um trabalho de jornalismo de investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. É sobre como a história desta noite é maior do que a história desta noite.

Vamos tocar em temas complexos, por vezes traumáticos e, acima de tudo, temas sobre os quais podes já ter uma opinião formada. É possível, por isso, que seja difícil ouvir algumas das histórias que contaram. Vamos dar tempo para falar a dezenas de polícias, moradores de bairros guetizados, vítimas de violência policial, investigadores, ativistas, advogados, juízes e representantes políticos. Só se te mantiveres connosco até ao fim é que vais entender toda a história, mesmo que o caminho seja desconfortável. O que pedimos é que confies que vamos ouvir os outros lados, sejam eles quais forem para ti — tens é de esperar, e dar-nos tempo para chegar lá.

No próximo episódio, vamos a Chelas.

TEASER

MC BamBam: Para nós, Chelas é a nossa cidade. Chelas é uma cidade dentro de outra cidade. Capital de Lisboa é Chelas. Capital de Portugal é Lisboa.

Elsa Monteiro: Normalmente, quando vêm atuar, eles nem sequer querem saber se há crianças ou não, e começam a varrer toda a gente que aparece.

Sam The Kid: Eu, quando era mais novo, pensava que os meus amigos saíram de Chelas porque era a coisa a fazer […]. E existir a opção de querermos ficar?

Pedro Lopes: Nós, os negros, vamos ser sempre prejudicados. Só que, há países europeus que sabem fazer as coisas. Portugal tem feito as coisas, como nós dizemos no bairro, mesmo à cara podre.

Elsa Monteiro: Quando vão para a esquadra dos Olivais é para serem agredidos novamente, não é para fazerem nenhum auto do que aconteceu, nem nada disso.

Ricardo Esteves Ribeiro: Tu sentes raiva? […]

Pedro Lopes: Eu sinto raiva, mas a minha raiva é bem canalizada.

CRÉDITOS

Nuno Viegas: Acabaste de ouvir Sousa e Monsanto, o primeiro episódio de Fronteira do Medo, um trabalho do Fumaça com a redação da Divergente.

Para saberes o resto da história, o que aconteceu nesta noite e como se construiu o policiamento que o permite, tens de ouvir os próximos 13 capítulos. Sai um por semana. Vai levar três meses até ao final. Ou podes receber a série completa agora mesmo, se fizeres uma contribuição recorrente em www.fronteiradomedo.pt/contribuir. Frontei

Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)

Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma série de investigação em podcast produzida para ser ouvida. Se puderes, ouve com auscultadores.

TRANSCRIÇÃO

Nuno Viegas: Nesta história há descrições de violência física. Alguns troços são recriações. Ouve com auscultadores. A narração é de Ricardo Esteves Ribeiro.

I

Ricardo Esteves Ribeiro: Quando Paulo Gonçalves saiu à rua, horas antes de ser levado ao hospital, não sabia ainda que a história daquela noite seria maior do que a história daquela noite. Na verdade, não tinha como saber. Paulo Gonçalves não é divino, nem adivinhador de futuros — se acreditarem neles —; é apenas um modesto representante de deus na terra, diria a dada altura o comissário providencial em Ensaio sobre a Lucidez, de Saramago. Um polícia, diria eu. E se é certo que este polícia não pode saber, neste momento, o que sucederá até ao final desta madrugada, tem pelo menos a certeza de que não irá a casa hoje. Talvez exageremos ao dizer que não irá a casa. É provável que Paulo Gonçalves tenha um lugar a que chame “casa” em Lisboa ou perto da capital. Mas, se resolvermos por chamar casa ao sítio onde nascemos ou crescemos ou onde vive a nossa família — como faz uma parte das pessoas deslocadas —, aí sim, é seguro dizer que lá não irá, até porque a sua fica a cerca de 200 quilómetros de onde agora estamos.

Paulo Gonçalves cresceu em Pouca Pena, uma aldeia no concelho de Soure, para os lados de Coimbra, de onde saiu há pelo menos oito anos. E a razão porque não lá irá é até bastante simples, fácil de saber. É que uma passagem de ano é uma passagem de ano. E uma passagem de ano para um agente da PSP em Lisboa é quase sempre razão de serviço. Basta estar um par de horas a conversar com polícias sobre os problemas de polícias para que o desejo de estar perto de casa venha no topo das demandas. A história que contam é frequentemente a mesma: são enviados para Lisboa ou arredores, ficam anos e anos à espera por uma vaga na terra natal, anos e anos de disponibilidade permanente, folgas inconvenientes, pobre compensação e saudade de casa.

A julgar pelos relatos de quem faz disto vida ou de quem, pela profissão, faz disto objeto de estudo é crível que, se estivéssemos dentro de alguma esquadra agora mesmo, feitos moscas curiosas a meterem-se em lugares que não são os seus, a fotografia que tiraríamos não distasse muito da seguinte pintura: uma série de agentes à espera do que apareça, entretendo-se com piadas e traquinices — talvez até com 12 passas no estômago, tomadas umas horas antes, pelo virar de ano — e cada um sabendo que a noite ainda não acabou, por muito que já estejamos madrugada dentro. Dirão vocês que moscas não tiram fotografias e dizem-no bem, é verdade; mas também não é menos verdade que não estamos lá nós numa esquadra nesta noite — é impossível saber o que lá se passa ao certo. E mais verdade ainda é que sobre o que acontece no interior desta esquadra específica, a 34.ª Esquadra da PSP de Lisboa, nos Olivais, a esta hora, às quatro da manhã, não temos relato algum. Mas se há coisa que polícias dizem, quando se lhes pede que retratem o serviço de uma passagem de ano é isto: uma noite longa, de muito trabalho, distúrbios, álcool, e que “vai ser sempre a rolar”. Que ainda não acabou. Não que tenham já lido a história, numa daquelas reportagens que se escrevem anos depois como se estivessemos no próprio dia; ou até que acreditem no destino, que sobre isso teríamos de perguntar a cada um; mas esta é do tipo de certeza que a observação empírica confere a quem já virou muitos frangos, como se costuma dizer. Um feeling, pode também chamar-se. E o feeling, quando é destes, menos positivos, causa formigar na barriga.

A formiga é um bicho fascinante. Basta não mais que umas dezenas de minutos de olhar desatento e o que dantes era uma formiga perdida a rondar uma bolacha esquecida é agora um batalhão delas de volta do prato, como se num estalar de dedos se multiplicassem sem nos apercebermos de onde brotaram. Mas não são meros estalares de dedos que, usualmente, fazem multiplicar os formigueiros nas barrigas dos polícias. É mais do que isso.

Polícia (reconstituição): Mais informo que se encontra na Zona J viatura com matrícula [não se ouve os números] Quebec, Índia. Viatura de marca BMW, cor preta. Seguem três indivíduos caucasianos, com suspeita de arma de fogo. Não pararam à ordem dos colegas. Solicita-se apoio. Desloque-se para a Zona J, Praça Dr. Fernando Amado. É numa ZUS. Equipar devidamente para ir para o local dar apoio. Escuto.

Ricardo Esteves Ribeiro: São quatro da manhã e a missão não era inesperada: os agentes da PSP são chamados com frequência a resolver os problemas que outros criaram; chatices de terras que não as suas. Afinal de contas, estamos em Chelas, na Zona J, uma zona sensível no centro da cidade de Lisboa — um bairro problemático, para ser mais claro; e para o mais estamos na última noite do ano — álcool, drogas e disparos de armas de fogo é o que esperam. Os tiros já se ouviam. Armas na zona havia de certeza.

Os membros da equipa equipam-se a rigor: gás pimenta, bastões, algemas e o que mais for essencial para intervir. Entram na carrinha, encontram-se com outros elementos da esquadra da Zona J e põem-se a caminho da praça.

A praça Dr. Fernando Amado é uma praça de convívio de um bairro habitacional de classe média-baixa em Lisboa: um conjunto de mamarrachos construído disformemente, como se arquitetos os tivessem imaginado de costas voltadas: uns com mais de dez andares, outros, logo à beira, com apenas um par deles; uns branco sujo — não sei se de cor, se de idade —, outros laranja e rosa; e todos — aí sim, houve acordo —, com uma boa quantidade de marquises gastas.

É no lado sul da praça Dr. Fernando Amado que se encontra o café Sousa e Monsanto, para onde esta equipa de polícia é agora chamada. O local estava já referenciado pela PSP. Não exatamente o café, mas o largo que lhe dá para a frente, lado a lado com um campo de futebol feito de pedra, “um ringue”, que quem lá passar durante o dia verá usualmente cheio. E esse largo, sim, era conhecido por ser afoito ao tráfico de droga, compra e venda de artigos ilícitos, bem como à frequência de gente de má índole, capaz de agredir e ameaçar agentes da autoridade. Paulo Gonçalves já trabalha em Chelas há tempo suficiente para conhecer histórias de polícias agredidos, perseguidos e coagidos. Além disso, não tinham sido nem uma, nem duas, nem três as vezes em que tinha sido ele a própria vítima.

Deixemos que as palavras do próprio descrevam a zona.

Paulo Gonçalves: Aquela zona, junto ao café… Os indivíduos que ali frequentam o lugar são um bocado hostis para a polícia. Atiram sempre objetos contra os carros da polícia; trafica-se ali… Há ali tráfico de estupefacientes. Prontos, por diversas ocorrências dessa natureza…

Ricardo Esteves Ribeiro: Pela janela, os agentes da PSP contam perto de 30 pessoas, talvez mais, à porta do café Sousa e Monsanto. São muitos, sim, mas esta não é também a única equipa chamada ao local. No total, 15 a 20 polícias, entre duas carrinhas e dois ou três carros patrulha, com objetivos claros: sem pôr em risco os polícias, encontrar o dono do BMW preto e garantir que nenhuma arma existe no local.

Torna-se claro que a presença da polícia causa desconforto no grupo. Ao verem a carrinha passar, os indivíduos tomam uma postura suspeita: reativos, inquietos, de mãos nos bolsos, como se tivessem algo a esconder. A comitiva aproxima-se.

Polícias (reconstituição): Polícia! Encostem-se à parede. Afastem as pernas, encostem-se à parede. Tirem as mãos dos bolsos, encostem-se à parede. Está alguém armado? Onde é que está o dono do BMW? BMW preto, é de quem? Mostrem identificação. Identificação.

Ricardo Esteves Ribeiro: Se há poucos segundos a postura era suspeita, agora é mais do que isso. Recusam encostar-se à parede, mãos à mostra, como se lhes tinha sido ordenado. Um deles chega a dar passos em frente, com o peito cheio de confiança de quem não teme enfrentar a autoridade. É bem possível que a confiança não seja de todo sóbria — noite de passagem de ano, há muito excesso de álcool. E é possível também, que tem vindo a ser documentado por quem estuda a psicologia das multidões, que esta seja até multiplicada pelo “efeito de grupo”, “de manada”. Que, finda a festa, as mesmas pessoas que hoje desobedecem e afrontam à autoridade, amanhã, cada um para seu lado, sejam dignas cumpridoras da lei, da autoridade. Mas hoje, agora, que é o que interessa, o sentimento geral é de quem diz que não faz porque não quer. E um deles diz mesmo: “Não me vou encostar, não fiz nada.”

Paulo Gonçalves: Entretanto, havia um indivíduo que se insurgiu e que estava ali a incentivar os outros para que houvesse ali uma oposição e agressões a agentes da autoridade.

Ricardo Esteves Ribeiro: Os agentes resolvem a questão antes que escale: algemam o homem e afastam-no do grupo, para dentro de uma das carrinhas.

Paulo Gonçalves: E depois, quando houve essa situação, os indivíduos estavam naquele grupo, insurgiram-se ainda mais, com pontapés e murros, e tentaram ainda agredir-nos ainda mais. Foi aí que foi necessário haver o uso do bastão, para que os mesmos não houvesse agressões a agentes da autoridade.

Ricardo Esteves Ribeiro: Um dos homens: um tipo de brinco na orelha direita, barbicha espetada para baixo e tranças de cabelo escuro espetadas para cima, não se demove do seu objetivo. Olha o agente Paulo Gonçalves nos olhos e diz:

Homem (reconstituição): Eu marquei-te a cara e vou-te matar. Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar. Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.

Ricardo Esteves Ribeiro: E o agente Paulo Gonçalves sente medo e inquietação. Se o homem sabe que faz serviço de segurança à porta do Minipreço de Chelas, o que o impede de lá aparecer para matá-lo, quando estiver sem reforços? E o agente olha o indicador da mão direita que aponta diretamente para si e teme pela sua vida; percebe que pode morrer, se não aqui, um dia, quando se cumprir a ameaça.

Homem (reconstituição): Eu marquei-te a cara e vou-te matar. Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar. Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.

Paulo Gonçalves: Posto isto, ele não parava com aquele tipo de ação.

Homem (reconstituição): Vou-te apanhar no gratificado, vou-te matar.

Paulo Gonçalves: Não parava com as frases, com aquilo que ele disse.

Homem (reconstituição): Estás fodido comigo, vou-te fazer a folha.

Paulo Gonçalves: E eu dei-lhe voz de detenção e tentei manietá-lo para proceder à minha detenção. Foi aí que ele me desferiu um pontapé no joelho esquerdo, na perna esquerda, na zona dos joelhos. […] E foi aí que a gente se agarrou e ele apertou-me o pescoço. Eu agarrei-o também, caímos os dois para o chão. […] Caí outra vez sobre o joelho esquerdo, porque eu sou esquerdo, faço mais força no lado esquerdo…

Ricardo Esteves Ribeiro: O pé do homem voa contra a perna esquerda de Paulo Gonçalves e os dois envolvem-se numa luta corpo a corpo. Caiem desamparados no chão. O polícia cai sobre o joelho já lesionado. Primeiro sente a dor e, depois, as mãos que lhe agarram o pescoço. O agente tenta libertar-se, mas as mãos apertam, e apertam, e perde-se a noção do tempo — não se pode dizer se passaram um, dois, três, quatro minutos.

Com a ajuda do chefe e de um seu colega, consegue manietar e algemar o insurreto. É levado para a carrinha, onde estava já o outro homem, o tal que tentou no início acicatar os ânimos. Esse é revistado e libertado. O agressor de Paulo Gonçalves fica.

A situação está mais calma. Esta equipa da PSP abandona a praça. Está terminada a ação. Está terminado o pesadelo. Paulo Gonçalves coxeia da perna esquerda, sente dores no pulso direito e tem os lábios cortados. Entra na esquadra dos Olivais e deixa o detido entregue à sua equipa, em segurança, até completar as formalidades legais. O Sistema Estratégico de Informação da PSP mostra o que já se adivinhava: não é a primeira vez que o indivíduo detido causa problemas. Já por três vezes tinha estado envolvido em crimes contra a autoridade pública.

Paulo Gonçalves entra numa ambulância. Passa pouco das seis da manhã quando chega ao Hospital de São José. Dez minutos depois, é atendido. Faz um raio x ao pulso direito. Felizmente, tudo está bem. É o joelho que ainda lhe dói. Mais de uma hora depois, volta à esquadra para terminar os afazeres a que legalmente é obrigado. Assina o auto de notícia por detenção, o registo policial das agressões em frente ao café Sousa e Monsanto. O agente deixa o serviço depois das nove da manhã, já de dia. Ossos do ofício.

II

Ricardo Esteves Ribeiro: Quando Pedro Lopes saiu à rua na noite em que seria levado para a esquadra, não sabia ainda que a história daquela noite seria maior do que a história daquela noite. A noite de passagem de ano foi como há vários anos era. Reza assim a tradição: mata-se o apetite, conversa-se em família, ri-se, dança-se e come-se outra vez, que é aquilo de que mais se gosta. E depois, já comidos e dançados — talvez até com 12 passas no estômago, tomadas pelo virar de ano — vão Pedro Lopes e a família, caminhando bairro fora até à outra casa, a dos sogros, para repetir o ciclo. E come-se e conversa-se e ri-se e dança-se e come-se outra vez. Até que, a dada altura, cumpridos os afazeres familiares, pode calhar sair-se para celebrar com os amigos.

A tradição que começa em casa da família de Pedro Lopes e começa, aliás, em casa da maioria, leva, todos os anos, desde há já algum tempo, umas dezenas de amigos de longa data a celebrar, noite fora, a entrada do ano novo. Se antes a festa se prolongava por bares e discotecas, agora, já com crianças e bebés a cargo, o grupo junta-se numa praça a meio caminho.

Notarão com certeza os conservadores da linguagem o uso indevido da palavra “tradição”. Quem entretanto tenha pegado no dicionário de bolso da língua portuguesa, rapidamente reparará que a descrição produzida por quem oferece significado oficial às palavras pouco se assemelha ao evento descrito até agora — não falamos de um dogma, uma doutrina. Talvez estejamos mais perto de um consenso linguístico adotando o termo que, mais tarde, um dos amigos de Pedro Lopes — ao qual não interessa dar nome agora — usará para descrever a ocasião: ritual.

O ritual faz-se na praça Dr. Fernando Amado, no Bairro do Condado, em Marvila; ou, como insistem em dizer com orgulho, na Zona J, em Chelas. A praça Dr. Fernando Amado é uma praça de convívio de um bairro habitacional de classe média-baixa em Lisboa. É um conjunto de mamarrachos construído disformemente, como se arquitetos os tivessem imaginado de costas voltadas: uns com mais de dez andares, outros, logo à beira, com apenas um par deles; uns branco sujo — não sei se de cor se de idade —, outros laranja e rosa; e todos — aí sim, houve acordo —, com uma boa quantidade de marquises gastas.

É no lado sul da praça Dr. Fernando Amado que se encontra o café Sousa e Monsanto, o ponto de encontro do grupo. Não exatamente o café, que já estaria para lá do seu horário de abertura, mas o largo que lhe dá para a frente, lado a lado com um campo de futebol feito de pedra, “um ringue”, que quem lá passar durante o dia verá usualmente cheio.

Não está cheio quando Pedro Lopes, a companheira e o filho chegam à praça, mas já há vida à frente do café Sousa e Monsanto. Bate a uma da manhã, mais coisa menos coisa, e já se bebe e já se dança, e quatro ou cinco crianças — um bebé e as restantes com menos de 10 anos — já brincam com a adrenalina de, em dia especial, poderem estar acordadas bem para lá da hora d’Os Patinhos.

Pessoas na festa (reconstituição): Bom ano! Como é que é? Bom ano!

Ricardo Esteves Ribeiro: Durante as três horas seguintes, chegará gente e mais gente. Vêm da Zona J ou de outros bairros ali de Chelas, ou das Olaias, lá perto, ou de para onde mais a vida as tenha levado. Quase todas as cerca de 20, 30 pessoas que se vão encontrando à frente do café Sousa e Monsanto cresceram, viveram, trabalharam ou, de alguma forma, pararam, nalguma altura da sua vida, pela Zona J. E quase todas são negras.

Pedro Lopes olha para o relógio que já tinha consultado umas quantas vezes: marca as 3h40. É dos poucos que trabalha nesse dia, pelo que a noite já se faz tarde demais para as horas de sono que conta ter. Mais um par de músicas e abala.

Pedro Lopes: Oh, pá. […] Não, fogo, não é possível. […] Até neste dia eles vêm incomodar-nos?

Ricardo Esteves Ribeiro: Pedro Lopes baixa o volume da música quando vê passar carrinhas da PSP. Não que estivessem a fazer algo de errado, nem que fosse particularmente surpreendente ver a polícia — afinal, estamos na Zona J, em Chelas. Mas, como se costuma dizer, mais vale prevenir do que remediar, e é o que faz.

As carrinhas seguem em frente sem parar. Dão a volta ao fundo da rua. E depois…

Polícias (reconstituição): Polícia! Polícia!

Pessoas na festa (reconstituição): O que é que se está a passar? Hey, o que é que se está a passar? Mas encostar porquê? Não estamos aqui a fazer nada, estamos aqui a conviver.

Polícias (reconstituição): Encostem-se à parede! Encostem-se à parede!

Pessoas na festa (reconstituição): Porque é que estão a fazer isto? O que é que estamos aqui a fazer? Estão aqui miúdos, estão aqui crianças.

Polícias (reconstituição): Está alguém armado? Está alguém armado?

Pessoas na festa (reconstituição): Epá tenham calma, tenham calma! Olhe, cuidado que há aqui crianças. Deixem-me tirar a miúda daqui.

Polícias (reconstituição): Onde é que está o dono do BM? Onde é que está o dono do BMW? Onde é que está o dono do BMW?

Pessoas na festa (reconstituição): Mas porquê? Mas porquê? Mas porquê? Mas porquê? Quem é que é o chefe?

Polícias (reconstituição): Todos encostados à parede

Pessoas na festa (reconstituição): Não, nós queremos saber quem é que é o chefe

Polícias (reconstituição): Não! Todos encostados na parede.

Pessoas na festa (reconstituição): Eu não encontro à parede, eu não fiz nada de mal, não vou encostar-me à parede. Vou-me encostar à parede porquê? Eu não vou encostar à parede. Eu não vou encostar à parede. Estão aqui crianças e mulheres. Oh, tenham calma, tenham calma. Tenham calma!

Ricardo Esteves Ribeiro: Num passo de magia, a festa desaparece. Há dois ou três carros patrulha, talvez umas três carrinhas da Equipa de Intervenção Rápida da PSP, e uma mancha de polícias equipados a rigor: uns de escudo transparente, outros de colete anti-bala com a palavra “Polícia” ao peito, para que não reste dúvidas, e nenhum, absolutamente nenhum, identificado.

Os agentes não hesitam em avançar sobre o grupo onde, será escusado dizê-lo, já não se bebe nem se dança, nem se ouve música. Algumas das crianças que ainda brincavam, lutando contra o sono, são levadas para dentro do carro.

De cassetetes e armas na mão, os agentes cercam o grupo e gritam:

Polícia (reconstituição): Encostem-se à parede! Onde está o dono do BMW? Encostem-se à parede! Onde está o dono do BMW?

Ricardo Esteves Ribeiro: Do grupo, há quem se afaste para proteger a pele, quem peça calma que estão ali crianças, quem jure que não há BMW nenhum, e ainda quem chame pelo chefe da operação, pedindo explicações, e diga que nada fez de mal, que não tem nada que encostar à parede. Há um que protesta mais do que os outros, leva com duas bastonadas, foge, escorrega, é pontapeado pelos agentes, e algemado no chão.

Pessoas na festa (reconstituição): O que é que se está a passar? Porque é que estão a fazer isto? O que é que estamos aqui a fazer? Estão aqui miúdos, estão aqui crianças. Epá tenham calma, tenham calma! Olhe, cuidado que há aqui crianças. Oh, tenham calma, tenham calma. Tenham calma!

Ricardo Esteves Ribeiro: Um dos agentes ergue um bastão. Bate na cara de um homem, abrindo-lhe o sobrolho, na cara de outro, arrancando-lhe os óculos de ver, no corpo de uma mulher e na cara de outra, a companheira de Pedro Lopes. Pedro Lopes, um tipo de brinco na orelha direita, barbicha espetada para baixo e tranças de cabelo escuro espetadas para cima, leva também ele uma bastonada. Deixemos que as palavras do próprio descrevam o momento.

Pedro Lopes: Ele estava descontrolado, eu até cheguei a pensar: “Será que este homem consumiu alguma coisa?” Porque ele estava descontrolado, mesmo descontrolado.

Ricardo Esteves Ribeiro: O agente é puxado para trás por alguns colegas, como que dizendo que nada disto estava planeado, que não era suposto dar passos em frente, que não estava escrito que se ia usar o bastão.

Um outro polícia usa gás lacrimogéneo. Dentro do carro onde foram escondidas, duas das crianças urinam de medo enquanto gritam e choram.

Pedro Lopes: Saquei do meu cartão de cidadão, entreguei na mão de um agente que estava lá que parecia-me ser o agente mais velho, porque era já um senhor de idade. […] E eu insistia, insistia que me dessem o nome do agente. […] Eu estava mesmo nervoso, não vou dizer que não estava, estava mesmo nervoso. Porque eu estava a ver ali a mãe do meu filho… Eu levar com uma bastonada é uma coisa, agora a mãe do meu filho levar, desculpem-me lá… Eu não vou mentir, porque eu não estava calmo. Estava a falar mais e mais alto a exigir que o homem se identificasse… Ninguém disse nada, ninguém disse nada. E eu continuei ali a falar, falar, falar, falar, até que…

Polícia (reconstituição): Tu vens comigo!

Pedro Lopes: Pá, pegaram-me, levaram-me ali para o meio, só que eu estava ali firme e hirto e o homem queria me meter no chão. Ele queria dar-me uma rasteira, então, e eu não deixei que ele fizesse isso. Nisto tudo, de repente, eu sinto que estou no chão, porque mais alguém fez isso… Estou no chão, algemam-me e começam-me a pisar. Tudo bem, até aí tudo bem. Isso são coisas que não doem fisicamente, o que dói mais é aqui dentro, aqui e… Isso é que dói mais… Ya.

Ricardo Esteves Ribeiro: Pedro Lopes encontra um companheiro de festa na carrinha da polícia, para onde o levam. Tinha sido detido logo no início. Esse é revistado e libertado. Já sozinho, não é o corpo que lhe dói — não se lembra já sequer de ter sido pisado e pontapeado, de se lhe terem partido os óculos quando o fizeram cair —; dói-lhe a alma, o coração.

Está algemado, de mãos atrás das costas, numa carrinha da PSP, obrigado a viajar de cabeça baixa, entre as pernas, e, enquanto ali vai, é o agente que tinha usado o bastão — o tal que “estava descontrolado”, o tal que o levou ao chão, o tal que lhe disse “Tu vens comigo!” —, que se apoia nas suas costas, para que não possa sequer ousar olhar em frente. Mas não é isso que o incomoda. É o pensar: “Eu não devia estar aqui. Eu não fiz nada para estar aqui.”

A carrinha leva-o até à esquadra dos Olivais, onde Pedro Lopes tinha já estado por duas vezes, arrastado nas frequentes rusgas da Zona J. Mas tem a ficha limpa. Nunca foi condenado.

Pedro Lopes: Bem, vejo aquela porta e tem uns degraus… Assim que abrem a porta ele dá-me um pezão, dá-me um pezão, eu não sei como é que eu não caí de boca. Eu não sei mesmo. Eu vou para baixo mas, por sorte, consegui-me equilibrar. O andar onde eu estava não era muito bem iluminado. Porque tinha uma porta, acho que era onde se sentava o chefe de turno. E, então, tinha lá luz, porque também havia uma janela e depois tinha umas persianas, mas dava um pouco de iluminação. Mas a iluminação mais forte vinha da parte de baixo, porque havia mais um andar, digamos assim. E eles mandaram-me ajoelhar e olhar para a parede.

Eu estava algemado, ajoelhei-me e olhei para a parede. Mas depois, eu pressenti que vinha alguém atrás. Assim que eu olho para trás, vejo-o a ele, esse tal agente que me agrediu. Manda-me olhar para a frente e começam a agredir-me.

Pontapés e socos.

Pontapés e socos.

Socos, pontapés.

Socos, pontapés.

Naquela altura, o meu corpo estava lá, mas eu não estava lá. Eu não estava lá.

III

Ricardo Esteves Ribeiro: A história que ouviste foi escrita com base nos testemunhos muitas vezes contraditórios dos polícias e de pessoas que nessa noite celebravam a passagem de ano na Zona J, em Chelas, que estiveram na madrugada de 1 de janeiro de 2016 em frente ao café Sousa e Monsanto, e completada pela experiência de outros polícias e investigadores com quem falámos durante esta investigação. As expressões subjetivas, os adjetivos recorrentes, as descrições sem contraditório são reflexo disso mesmo — e não da opinião do narrador… eu, Ricardo Esteves Ribeiro.

O agente Paulo Gonçalves recusou ser entrevistado sobre esta noite. Utilizámos o seu testemunho gravado no processo legal que daqui surgiu. Aí, negou ter agredido Pedro Lopes ou qualquer pessoa. “Alguma [agressão] que pudesse haver”, disse, “seria derivado da queda sofrida por ambos”.

Já a direção nacional da PSP admite que houve duas queixas sobre a intervenção naquela noite de passagem de ano. Deram origem a um processo disciplinar a Paulo Gonçalves. Falamos do resultado mais à frente.

A PSP diz também que nunca houve processos disciplinares por agressões no interior da esquadra dos Olivais. Recusaram responder a outras 40 questões sobre o que acabaste de ouvir. Podes ler as perguntas e respostas em fronteiradomedo.pt.

Os sons que ouviste na praça Dr. Fernando Amado não são gravações dessa passagem de ano, mas recriações baseadas nas declarações de várias das pessoas presentes e de outros polícias.

Durante os próximos 13 episódios, vamos seguir de perto este caso e tudo o que dele resultou. Mas importa deixar já isto claro, antes de avançarmos: se o que procuras é apenas descobrir quem está a dizer a verdade sobre esta noite, quem é culpado ou inocente, este não é o podcast certo para ti. Fronteira do Medo não é uma crónica criminal — ou um podcast de true crime, como se costuma dizer —, nem quer estabelecer a versão definitiva do que se passou durante a passagem de ano de 2015 para 2016. É um trabalho de jornalismo de investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. É sobre como a história desta noite é maior do que a história desta noite.

Vamos tocar em temas complexos, por vezes traumáticos e, acima de tudo, temas sobre os quais podes já ter uma opinião formada. É possível, por isso, que seja difícil ouvir algumas das histórias que contaram. Vamos dar tempo para falar a dezenas de polícias, moradores de bairros guetizados, vítimas de violência policial, investigadores, ativistas, advogados, juízes e representantes políticos. Só se te mantiveres connosco até ao fim é que vais entender toda a história, mesmo que o caminho seja desconfortável. O que pedimos é que confies que vamos ouvir os outros lados, sejam eles quais forem para ti — tens é de esperar, e dar-nos tempo para chegar lá.

No próximo episódio, vamos a Chelas.

TEASER

MC BamBam: Para nós, Chelas é a nossa cidade. Chelas é uma cidade dentro de outra cidade. Capital de Lisboa é Chelas. Capital de Portugal é Lisboa.

Elsa Monteiro: Normalmente, quando vêm atuar, eles nem sequer querem saber se há crianças ou não, e começam a varrer toda a gente que aparece.

Sam The Kid: Eu, quando era mais novo, pensava que os meus amigos saíram de Chelas porque era a coisa a fazer […]. E existir a opção de querermos ficar?

Pedro Lopes: Nós, os negros, vamos ser sempre prejudicados. Só que, há países europeus que sabem fazer as coisas. Portugal tem feito as coisas, como nós dizemos no bairro, mesmo à cara podre.

Elsa Monteiro: Quando vão para a esquadra dos Olivais é para serem agredidos novamente, não é para fazerem nenhum auto do que aconteceu, nem nada disso.

Ricardo Esteves Ribeiro: Tu sentes raiva? […]

Pedro Lopes: Eu sinto raiva, mas a minha raiva é bem canalizada.

CRÉDITOS

Nuno Viegas: Acabaste de ouvir Sousa e Monsanto, o primeiro episódio de Fronteira do Medo, um trabalho do Fumaça com a redação da Divergente.

Para saberes o resto da história, o que aconteceu nesta noite e como se construiu o policiamento que o permite, tens de ouvir os próximos 13 capítulos. Sai um por semana. Vai levar três meses até ao final. Ou podes receber a série completa agora mesmo, se fizeres uma contribuição recorrente em www.fronteiradomedo.pt/contribuir. Fronteira do Medo levou mais de sete anos a concluir, com investigação, edição e verificação de factos. Mostra que vale a pena: doa para o Fumaça ou para a Divergente.

Para além do áudio, há um site interativo, que conta histórias complementares a este podcast. Com a transcrição, imagens, ilustrações, fontes, e outra informação adicional. Em www.fronteiradomedo.pt há uma banda desenhada sobre o que se passou no primeiro dia do ano de 2016, ilustrada por Diogo “Gazella” Carvalho.

Este episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro, a partir de investigação dele, da Sofia da Palma Rodrigues, e minha, Nuno Viegas. A edição coube-me a mim, à Sofia e ao Pedro Miguel Santos. A verificação de factos ficou com Margarida David Cardoso, a revisão com Diogo Cardoso e a consultoria jurídica com Leonor Caldeira. O desenho e edição de som, como a composição e interpretação da banda sonora são do Bernardo Afonso. Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida, e Ricardo Esteves Ribeiro. Ainda participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Luis Marquez, Luciana Maruta, Rafaela Cortez e Fred Rocha.

A Fundação Rosa Luxemburgo fez doações para financiar esta série. Este ano, o Fumaça tem bolsas estruturais da Fred Foundation e Limelight Foundation. Podes ler os contratos em www.fumaca.pt/transparencia. A Divergente recebe uma bolsa da Civitates.

Até já.

 

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ra do Medo levou mais de sete anos a concluir, com investigação, edição e verificação de factos. Mostra que vale a pena: doa para o Fumaça ou para a Divergente.

Para além do áudio, há um site interativo, que conta histórias complementares a este podcast. Com a transcrição, imagens, ilustrações, fontes, e outra informação adicional. Em www.fronteiradomedo.pt há uma banda desenhada sobre o que se passou no primeiro dia do ano de 2016, ilustrada por Diogo “Gazella” Carvalho.

Este episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro, a partir de investigação dele, da Sofia da Palma Rodrigues, e minha, Nuno Viegas. A edição coube-me a mim, à Sofia e ao Pedro Miguel Santos. A verificação de factos ficou com Margarida David Cardoso, a revisão com Diogo Cardoso e a consultoria jurídica com Leonor Caldeira. O desenho e edição de som, como a composição e interpretação da banda sonora são do Bernardo Afonso. Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida, e Ricardo Esteves Ribeiro. Ainda participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Luis Marquez, Luciana Maruta, Rafaela Cortez e Fred Rocha.

A Fundação Rosa Luxemburgo fez doações para financiar esta série. Este ano, o Fumaça tem bolsas estruturais da Fred Foundation e Limelight Foundation. Podes ler os contratos em www.fumaca.pt/transparencia. A Divergente recebe uma bolsa da Civitates.

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