Encostados à parede

Fumaça & Divergente
Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)

Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Feito em parceria com a revista digital Divergente. Ouve este episódio e sabe mais no website oficial da série.

TRANSCRIÇÃO

G. C. Viegas: Vêm aí relatos de violência física. Há notas de transparência nos créditos finais. Ouve isto com auscultadores.

I

Elsa Monteiro: Eu penso que tinha um vidro em frente, não sei se era um guiché. […] E depois eu sei que andei para a esquerda, e na esquerda é que, ao fundo, tinha um túnel, que estava mais escuro. […] Aquilo estava mesmo escuro. […] Eu, sinceramente, quando entrei fiquei com mais medo ainda do que quando estava cá fora. […] Eu não sabia até que ponto é que não me iam agredir a mim lá dentro. […] Eu quase que me arrependi de ter pedido para ir lá dentro vê-lo. […] E, depois, lá no fundo, disseram que estava lá o Pedro. E estava, realmente. Estava de pé, estava algemado e estava um polícia sentado ao lado dele. […] Ele estava numa espécie de um túnel que eu só via os óculos dele, por causa do reflexo. […] Eu perguntei-lhe, na altura, se eles o tinham agredido novamente na esquadra e ele disse-me sempre que não. […] Não sei se ele disse, na altura, com medo de estar-me a dizer e depois, quando eu saísse, voltasse a ser agredido. […] Mas eu consegui perceber pelo semblante dele que sim. […] Que sim, que ele tinha sido agredido, que estava mesmo […] desmoralizado.

Ricardo Esteves Ribeiro: Este é Fronteira do Medo, um trabalho de jornalismo de investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Episódio 2: Encostados à parede. Seja toda a gente bem-vinda ao Fumaça, em parceria com a Divergente. Eu sou o Ricardo Esteves Ribeiro.

II

Ricardo Esteves Ribeiro: O rosto de Elsa Monteiro ganha uma nova expressão quando começamos a gravar. Percebe-se, desde o primeiro momento, que está nervosa: vai reviver um episódio difícil — “um bocado traumático”, diz a própria —, cheio de pontas por resolver. As pernas, vestidas com um fato de treino preto, estão cruzadas por baixo da mesa que nos separa. Recebe-nos em casa, mais de três anos depois da noite em que o companheiro, Pedro Lopes, foi detido na Praça Dr. Fernando Amado, à frente do Café Sousa e Monsanto, na Zona J, em Chelas. Estamos em janeiro de 2019.

Sofia da Palma Rodrigues: É aqui. Elsa, bom dia, com licença. Olha, venho com os Ricardos.

Ricardo Venâncio Lopes: Bom dia.

Sofia da Palma Rodrigues: Somos uma banda pimba, a Sofia e os Ricardos.

Ricardo Esteves Ribeiro: Sofia da Palma Rodrigues, que ouvem aqui e ouvirão durante toda a série, é a jornalista da Divergente que fez connosco a investigação deste trabalho. Ricardo Venâncio Lopes ajudou-nos com a logística e a captação de imagem.

Ricardo Venâncio Lopes: Tudo bem?

Elsa Monteiro: Tudo.

Ricardo Esteves Ribeiro: Olá. Tudo bem?

Elsa Monteiro: Sim.

Sofia da Palma Rodrigues: Olha, com licença.

Ricardo Esteves Ribeiro: Obrigado por nos receberes.

Ricardo Esteves Ribeiro: Elsa Monteiro vive com o pai e a mãe. Apesar de ter uma relação com Pedro Lopes há mais de 20 anos, e de este ser o pai dos seus dois filhos, o casal nunca conseguiu independência financeira para sair de casa dos pais. Estamos na cozinha, quando a obrigamos a viajar até ao dia 31 de dezembro de 2015. E quando lhe perguntamos de que se lembra do momento em que chegou à festa, as primeiras palavras que a boca lhe deixa fugir são “Lembro-me de estar contente”. Mas di-lo com tristeza. Os seus olhos grandes já não tocam os nossos. Vagueiam muitas vezes. E é assim que se mantêm durante as quase duas horas em que estamos à conversa.

Elsa Monteiro começa por dizer-nos que não costuma sair para bares ou discotecas na passagem de ano desde que o seu primeiro filho, hoje com 15 anos, nasceu.

Nessa noite, Elsa, Pedro e o filho passaram um tempo com a família, nesta mesma casa onde estamos hoje, antes de caminharem até ao café Sousa e Monsanto e encontrarem os amigos e os filhos dos amigos — no total, umas 20, 25 pessoas, nas contas de Elsa. “Estava o pessoal todo animado”, diz. Até que, por volta das quatro da manhã, a animação foi travada a fundo.

Elsa Monteiro: Estava um grupo a falar e eu, de repente, como estou sempre mais atenta, apercebi-me dos… Comecei a ver lá embaixo a darem a volta duas carrinhas, e até comentei com eles “Olhem, vem aí a polícia”, mas como ninguém estava… Não se passava nada de ilícito, não havia barulho, não havia nada contra a lei, à partida ninguém se preocupou, porque não haveria problemas e nem pensámos que fosse diretamente para nós.

Ricardo Esteves Ribeiro: As carrinhas da PSP vieram em direção à praça, acompanhadas por mais um ou dois carros de patrulha, pela memória de Elsa Monteiro. Foi ela uma das primeiras a dirigir-se aos polícias que avançavam em direção ao grupo.

Elsa Monteiro: Eles, normalmente, quando vêm atuar, não é? Eles nem sequer querem saber se há crianças ou não, e começam a varrer toda a gente que aparece. E eu lembro-me de ter ido ter com um dos agentes e disse: “Olhe, cuidado que há aqui crianças.” E a única coisa que me foi dita foi: “Encoste-se à parede”, sem nenhuma justificação, e eles mandaram toda a gente encostar à parede. […] E foi assim que todos fizemos, não é? Claro que houve quem começasse a questionar: “Mas encostar porquê? Não estamos aqui a fazer nada, estamos aqui a conviver.” […] Começaram a exaltar-se os ânimos e pronto, foi assim tudo muito… Foi num flash.

Ricardo Esteves Ribeiro: Nesta altura, estariam cerca de seis crianças na festa, diz Elsa Monteiro.

Elsa Monteiro: Aconteceu tudo o que aconteceu mesmo estando lá as crianças. Mas, se calhar, se não tivessem as crianças a abordagem teria sido mais… Ainda mais, agressiva, penso eu.

Ricardo Esteves Ribeiro: Várias crianças foram levadas para dentro do carro por uma amiga de Elsa Monteiro e Pedro Lopes. Pela janela, continuavam a poder ver o que se passava lá fora: gente a ser agredida com bastões, gás lacrimogéneo lançado para o ar. Seis pessoas contam-nos terem sido agredidas nessa noite, incluindo Elsa Monteiro. E Pedro Lopes, ao ver a companheira a ser agredida, conta que insistia em erguer o cartão de cidadão, ao mesmo tempo que exigia que os agentes se identificassem.

Elsa Monteiro: Até, na altura, lembro-me de ele ter mostrado o cartão de cidadão e disse que exigia saber, como cidadão português, o que é que estava a acontecer. Houve um dos polícias que do nada se insurgiu lá do meio do grupo de polícias e começou mesmo à cacetada. Eu lembro-me de ele referir que eles tinham agredido a mim e à minha amiga; que estavam a agredir mulheres e não sei quê, e ainda atiçou mais a raiva desse tal polícia que parecia assim, de todos, o mais… Revoltado, digamos. Não sei, parecia que estava sob efeitos de alguma outra substância.

Ricardo Esteves Ribeiro: O “tal polícia” a quem Elsa Monteiro se refere é o agente Paulo Gonçalves, que ouvimos no episódio anterior. O mesmo que narra uma história diametralmente diferente da de Elsa ou Pedro, o mesmo que diz ter sido ameaçado, injuriado e agredido por Pedro Lopes. E de quem, apesar da especulação de Elsa Monteiro e de Pedro Lopes, não temos qualquer prova de que estava sob o efeito de estupefacientes.

Perguntámos à direção nacional da PSP sobre o relato que Pedro, Elsa e quatro amigos fazem desta noite. Ignora a maior parte das perguntas. Mas admite que recebeu duas queixas contra Paulo Gonçalves, de dois amigos de Pedro Lopes. O Comando Metropolitano de Lisboa abriu um processo disciplinar em fevereiro de 2016. Pedimos para ler as conclusões. A PSP recusou, ora por ter dados pessoais, ora por ser matéria sensível. Fomos duas vezes a tribunal exigir os documentos. Ao fim de três anos e antes de haver uma sentença, a PSP desistiu da batalha legal.

Recebemos um “relatório final” de quatro páginas, assinado pelo comissário Manuel Guedes Monteiro. Aí, três anos após a queixa, o inspetor escreve que Pedro Lopes apresentava, cito, “pequenas lesões […] compatíveis apenas com o uso da força estritamente necessária à sua imobilização”. Concluiu que o agente Paulo Gonçalves usou a força de forma “necessária, tempestiva, proporcional e adequada”. A descrição é do comissário, justificada por Pedro Lopes ter assumindo “uma atitude de confrontação e de agressão”. Com a garantia de que o agente cumpriu as diretivas internas sobre o uso de meios coercivos, o processo disciplinar foi arquivado.

O próprio Paulo Gonçalves recusou dar uma entrevista para esta série. Mas, em tribunal, negou as acusações.

Sofia da Palma Rodrigues: Quando tu dizes que esse polícia tinha uma atitude diferente, tu consegues descrever os gestos dele?

Elsa Monteiro: Para já, foi essa atitude dele de quase que afastar os outros todos e querer ser ele a abordar o Pedro por ele estar sempre a questionar. E era mesmo a expressão dele, era mesmo uma expressão diferente, de raiva.

Ricardo Esteves Ribeiro: É improvável que alguma vez consigamos saber exatamente o que se passou na madrugada do primeiro dia do ano de 2016 — nem é esse o objetivo desta série. Pedro Lopes e os restantes amigos contam uma história oposta à dos polícias que lá estiveram nessa noite e que vamos ouvir mais à frente.

Apesar disso, nem tudo nas versões ouvidas é necessariamente contraditório. Todas concordam na data e hora dos acontecimentos; e todas concordam, também, que a ação policial na praça em frente ao café Sousa e Monsanto terminou com Pedro Lopes detido, algemado e levado para a esquadra. O que muda são os relatos sobre o que se passou antes e depois. O agente Paulo Gonçalves conta ter sido ameaçado por Pedro Lopes, levado ao chão, apertado no pescoço e pontapeado no joelho, detendo-o durante o tempo estritamente necessário. Já Pedro Lopes diz ter sido levado ao chão, pisado, detido sem razão e pontapeado ao entrar na esquadra. Aí, acusa Paulo Gonçalves e outro polícia de o forçarem a ajoelhar-se, de mãos algemadas.

Pedro Lopes: Eu estava de joelhos e eles deram-me socos, pontapés… O que é que uma pessoa assim pode fazer contra duas? Não pode fazer nada. Começaram-me a dar socos, pontapés.
Ricardo Esteves Ribeiro: E diziam-te alguma coisa enquanto…?
Pedro Lopes: Não, eles não diziam nada. Estavam só a bater. Bater, bater, bater… Nisto tudo, eles desaparecem dali, nunca mais os vi aos dois e vêm outros dois agentes que levam-me para baixo, para uma sala, despem-me… Despem-me não, eu é que me despi. Eu estava ali como vim ao mundo… Tive de fazer lá certos movimentos: agachar-me e blá blá blá, coisas assim, para ver se eu não tinha nada comigo. Tudo bem. Depois disto, mandam-me vestir e eu estou de pé ali no meio da sala. Aquilo parecia um corredor… E eles põem lá uma mesa e uma cadeira, está lá um agente sentado e depois vem outro para falar comigo. E ele está a falar comigo de uma forma para que eu me sinta culpado: “Estás a ver o que é que tu fizeste?” E eu olhei para ele e disse mesmo: ”Estou a ver o que eu fiz? Então, vocês é que fazem a porcaria e eu é que estou a ver o que é que eu fiz?”
Sofia da Palma Rodrigues: Foi a primeira vez que tu falaste desde que entraste na esquadra?
Pedro Lopes: Falar, sim senhora. Foi a primeira vez que eu falei. Isto é que foi falar. Conversei com o homem cara a cara. E foi a primeira vez que alguém falou comigo também. Eu perguntei ao outro agente: “Olhe, já agora, porque é que vocês fizeram aquela cena toda?” E ele vira-se: “Ah, nós recebemos uma queixa a dizer que vocês estavam a utilizar armas”. E eu disse: “Então, e as armas estão onde? Vocês apanharam alguma arma, ali?”, “Ah, não”.

Ricardo Esteves Ribeiro: “Então, e era preciso entrarem daquela maneira, com crianças lá e mulheres?”, perguntou Pedro Lopes, conta-nos. “Estás a ver isto aqui?”, terá respondido um dos polícias, apontando para o colete anti-balas que tinha vestido. “Nós quando recebemos chamadas de Chelas ou do Casal dos Machados [um outro bairro lá perto], é assim que temos de ir.” E num corredor escuro, com a cabeça a latejar de pensamentos, Pedro Lopes diz que ali ficou.

Pedro Lopes: Eu não acredito nisto… Eu não fiz nada, eu não devia estar aqui. Não, não me vai acontecer nada porque eu não fiz nada. Eu não devia estar aqui. Eu não devia estar aqui.

Ricardo Esteves Ribeiro: A PSP refere nunca ter registado um processo disciplinar por agressões de policiais no interior da esquadra dos Olivais. Outras questões sobre este relato concreto ficaram por responder.

E Pedro Lopes pensava: “Eu não devia estar aqui. Eu não fiz nada para estar aqui.” E, como se de um pensamento nascesse outro e outro e outro, lembrou-se do trabalho, a que ia faltar dali a umas horas; e dos amigos, que nada fizeram enquanto o viam ser levado em direção ao chão, pisado, humilhado.

Uma das primeiras coisas que Pedro Lopes nos disse, assim que nos sentámos na sala de estar de casa da sua mãe — a sua casa, para efeitos práticos —, foi que “estiveram lá muitas pessoas, mas nem todas vão querer falar” (as palavras são suas). Na altura, não ligámos muito a isto. Respondemos apenas o óbvio: quem não quiser falar, não falará. Mas só mais tarde nos apercebemos do significado real desta frase: Pedro Lopes sentiu-se sozinho. Sentiu-se sozinho na praça, quando foi agredido e levado para dentro da carrinha; e sentiu-se sozinho mais tarde, quando, ao fazer queixa do agente Paulo Gonçalves, queria ter tido mais pessoas a apoiá-lo, a darem a cara. Do nosso lado, podemos dizer apenas que foi realmente difícil chegar a algumas das pessoas que testemunharam o que se passou naquela noite. Com algumas foi preciso insistir várias vezes, outras nunca sequer chegaram a atender o telemóvel.

É o próprio Pedro Lopes quem tenta uma explicação para isto: quem já tem problemas de sobra, poucos mais se quer arriscar a ter. Quem teve já problemas com a polícia, quer é ver-se longe dela. E muitas das pessoas que vivem em bairros como a Zona J, fogem da confusão, têm menos liberdade de falar.

Nessa tal conversa que tivemos, em 2018, Pedro Lopes contou que, ainda uns meses antes, estava sentado num café com amigos a jogar às cartas, quando um grupo de polícias parou para o identificar. Pedro Lopes mostrou o cartão de cidadão. Mas, sem pedir, um dos agentes arrancou-lho da mão, conta. Pedro não gostou, mas nada disse. Deixou que saíssem e, só aí, ligou ao seu advogado, que lhe explicou que, sim, poderia apresentar queixa, mas, para isso, precisaria de testemunhas.

Pedro Lopes: Bem, quando os polícias vão-se embora eu ponho-me ali a falar com o pessoal e ninguém queria-se meter nisso. Uns até diziam: ”Olha, desculpa, mas eu não quero ter nada com esses gajos. Já tive muitos problemas, não quero complicar a minha vida.” Bem, eu fiquei a pensar: é por causa disto que eles continuam a agir da forma que agem… As pessoas têm medo, não é? Não procuram lutar pelos seus direitos. Como é polícia, acham sempre que vão ficar a perder…

Ricardo Esteves Ribeiro: E foi este um dos pensamentos que invadiu Pedro Lopes no dia 1 de janeiro de 2016. Numa esquadra da polícia, numa madrugada que teimava em não terminar, ele, sozinho contra o mundo. Quando, de repente, começou a ouvir vozes do lado de fora.

Pedro Lopes: Eu estava a ouvir pessoal a chamar-me e apercebi-me que eu tinha sido injusto quando disse que o pessoal do meu bairro não fez nada por mim. O que na altura aconteceu foi se calhar terem ficado sem forma de reagir porque há momentos em que uma pessoa não sabe o que fazer perante certas situações, não é? Mas, quando dei conta, estavam lá eles à porta da esquadra a fazer barulho. Deixou-me contente, naquela altura.

Elsa Monteiro: Fomos um grupo de pessoas logo diretamente para a esquadra dos Olivais que é para não haver depois desculpas, de chegarem lá e agredir, porque a gente sabe que, normalmente, quando vão para a esquadra dos Olivais é para serem agredidos novamente, não é para fazerem nenhum auto do que aconteceu, nem nada disso.

Ricardo Esteves Ribeiro: Elsa Monteiro e alguns amigos foram para a esquadra. Pelo menos três queriam fazer queixa contra os polícias — falaremos sobre isto mais à frente na série.

Só ao fim de algum tempo, um dos polícias permitiu que Elsa entrasse para ver o companheiro.

Elsa Monteiro: Aquilo estava mesmo escuro…

Ricardo Esteves Ribeiro: É aqui, neste preciso momento, que começamos o episódio de hoje: num corredor escuro, quase sem gente; onde, ao fundo, se destaca o reflexo dos óculos partidos de Pedro Lopes. Elsa Monteiro teve medo. Conta-nos que quase se arrependeu de lá entrar. Ocorreu-lhe a possibilidade de a agredirem lá dentro. Quando finalmente alcançou o companheiro, algemado, com um agente ao lado, perguntou-lhe se tinha sido agredido. Pedro Lopes disse-lhe que não.

Já era dia quando ele abandonou a esquadra dos Olivais, em Lisboa. “O sol estava a sorrir”, recorda. Esteve umas quatro, cinco horas detido. As dores já se faziam sentir, brotadas de um corpo arrefecido pelo passar das horas e já sem a adrenalina de antes. Não tinha ninguém à sua espera.

As fotografias que pediu à irmã para tirar mostram uma cara inchada e uns pulsos mazelados. Andou um pouco até à praça de táxis mais próxima e pediu que o levassem ao hospital de São José. Aí, contou o que lhe tinha acontecido e na cara de quem o tratava viu indiferença, diz — mais até, uma desconfiança, como se o médico lhe quisesse dizer com o olhar: “Este aqui está a mentir.”

No relatório das urgências do hospital, produzido nessa manhã, lê-se: “31 anos, vítima de agressão referindo traumatismos vários, nomeadamente: ombro esquerdo, punho direito, joelho esquerdo e região cervical. Sem défices de mobilidade.” Também não tinha nada partido. Foi para casa já depois das 11h, a gelo e anti-inflamatório.

Maria Manuela Almeida: Já eram dez horas, e eu pensei: “Não é normal o Pedro não ter chegado até agora.” Onze horas, meio-dia…

Ricardo Esteves Ribeiro: Maria Manuela Almeida é mãe de Pedro Lopes — fala crioulo da Guiné-Bissau. Àquela hora, não era normal que o filho ainda não tivesse aparecido, diz-nos; ainda mais trabalhando nesse dia. Pediu a um dos filhos que ligasse a Elsa Monteiro. Elsa atendeu, mas não a quis preocupar. E Nela — toda a gente a chama de Nela —, pressentindo que algo estava mal, preparava-se para ir bater à porta da esquadra mais próxima.

Maria Manuela Almeida: Quando eu estava a sair para ir para a esquadra, ele bateu à porta. Eu abri a porta e vi-o todo desfigurado.

Ricardo Esteves Ribeiro: E quando estava a sair de casa, Pedro Lopes bateu à porta. “Vi-o todo desfigurado”, diz. “Bateram-lhe muito.” Nela perguntou porque não a tinha avisado do que se passara e o filho respondeu: “Mãe, não te quis matar, tu já sofres muito por nós. Eu não fiz nada…”

Pedro Lopes: É uma coisa estranha. Eu não consigo explicar, mas senti vergonha. Senti vergonha de me verem naquele estado. Por isso é que eu disse à mãe que quis ir logo para a cama, porque eu não queria ver a minha mãe ali a chorar. Chorou, choraram todos, mas… É vergonha que uma pessoa sente e não devia sentir. Epa, é estranho. Apareço com a cara inchada e sentir vergonha…

Ricardo Esteves Ribeiro: Elsa Monteiro.

Elsa Monteiro: Pois, estava assim um bocado transfigurado, mas… Pronto, foi difícil. Porque eu não o tinha visto nesse estado, não é? E quando estive na esquadra não me apercebi realmente que ele estava nesse estado e depois, quando vi foi… Foi um bocado traumático. Foi difícil. É pensar que foste ali acima para comemorar o ano novo com os teus amigos e acabaste no hospital, pronto, agredido por polícias.

Maria Manuela Almeida: A polícia trata os pretos como animais, ou pior que animais ainda…

Ricardo Esteves Ribeiro: “A polícia trata os pretos como animais, ou pior que animais ainda”, diz Nela. “Bateram-lhe à frente do seu filho, da sua mulher, tudo.” Sofia da Palma Rodrigues pergunta a Nela se tem medo da polícia. E Nela responde: “Tu não me conheces. Os polícias aqui no bairro todos me conhecem. Quando levam os meus filhos na rusga, eu ainda chego à esquadra primeiro do que eles. Eu não tenho medo da polícia. O polícia é um ser humano como eu. Não matei ninguém, não roubei… Não posso ter medo da polícia.”

Maria Manuela Almeida: Eu não tenho medo da polícia, não! Não, eu não tenho medo da polícia. O polícia é um ser humano como eu. Não matei ninguém, não roubei. Não posso ter medo da polícia.

III

Ricardo Esteves Ribeiro: A cozinha de Nela é um puzzle que só ela parece saber decifrar. Tudo é cor: as pequenas figuras e adereços que enchem as bancadas, sem função aparente; os ímanes nas portas elevadas; as pegas e os panos; as flores de plástico em jarras de vidro; e Nela, a própria. Enquanto fala connosco, veste um avental cinzento por cima de uma camisa de flanela aos quadrados brancos e castanhos — e é cor. O cabelo tem-no preso por um lenço verde, brilhante.

Entrevistámos a mãe de Pedro Lopes em janeiro de 2019. Tínhamos já conversado com o filho por horas e horas, na sala da casa onde vivem. Nela mantinha-se sempre na cozinha, a preparar o almoço. Cozinha todo o dia, todos os dias. Não exatamente “Todo o dia, todos os dias”, é verdade, mas essa é a sensação de quem passa em casa de Pedro Lopes uma e outra vez, por muitas e muitas horas.

Sofia da Palma Rodrigues: O que é que fez para o almoço?

Maria Manuela Almeida: Grão com mão de vaca.

Ricardo Esteves Ribeiro: É assim que a entrevista decorre, não poderia ser de outra maneira. Nela cozinha grão com mão de vaca enquanto responde às perguntas da Sofia da Palma Rodrigues, e só muito de quando em vez olha para trás.

Veio para Lisboa em 1983. A 29 de abril de 1983, numa sexta-feira. Nem dez anos tinham passado do 25 de Abril, nem há uma década a Guiné-Bissau tinha conquistado a independência. Nela contava 24 anos e três filhos nascidos numa terra que Portugal deixou para trás, depois de a ter ocupado e explorado o seu povo.

Nela veio à procura de melhor vida, como dezenas de milhares de outras pessoas que até 1974 viveram sob a alçada do regime colonial português. Aterrou no país onde vivia já o seu pai e de onde nunca mais saiu.

Maria Manuela Almeida: Quando eu vim da Guiné? Fogo, eu era uma mulher linda!

Ricardo Esteves Ribeiro: “Quando eu vim da Guiné, era uma mulher linda”, diz-nos. “Todos os homens me tentavam — jogadores de bola, todos.” Até que conheceu o pai de Pedro Lopes num baile, e se juntou ao homem com quem teve quatro filhos.

Maria Manuela Almeida: Aquilo que eu e o pai do Pedro passámos quando eu estava grávida dele? Ehh. Nem é bom contar….

Ricardo Esteves Ribeiro: Nela conta que passou fome quando estava grávida de Pedro Lopes, meses depois de chegar a Lisboa. Teve de roubar pacotes de massa para poder comer, andou de chinelos no inverno, não tinha nem um casaco. Mas nunca pediu ajuda ao pai. Pouco antes de a mãe morrer, aconselhou-a: “Volta para a Guiné, volta para Bissau.” Não voltou. Vive há décadas em Chelas — primeiro no que era conhecido por Corredor da Morte, na Zona J, e agora na Zona N1, ou Bairro da Flamenga.

Anos depois, o companheiro de Nela foi deportado de volta para a Guiné por não ter os documentos que, legalmente, o permitiam permanecer em Portugal, dizem. E Nela, que já fazia das tripas coração, passou a cuidar sozinha da família. Pedro Lopes tinha 10, 11 anos.

Maria Manuela Almeida: A primeira coisa quando eu tinha dinheiro era pôr comida na mesa.

Sofia da Palma Rodrigues: Comida não faltava nunca?

Maria Manuela Almeida: Credo… Comida não faltava nem um dia. Não… Nunca faltou comida aos meus filhos, sempre tiveram boa comida.

Ricardo Esteves Ribeiro: As dificuldades eram muitas, mas os filhos nunca passaram fome. Essa era a prioridade: “A primeira coisa quando tinha dinheiro era pôr comida na mesa”, diz-nos.

Sofia da Palma Rodrigues: Tem uma boa relação com os seus filhos?

Maria Manuela Almeida: São meus amigos.

Sofia da Palma Rodrigues: Está nervosa, Manuela?

Maria Manuela Almeida: Estou a chorar, porque sou eu e os meus filhos. Só. É importante que eles sejam meus amigos. Sou uma mãe galinha. Adoro os meus filhos.

Ricardo Esteves Ribeiro: “Os filhos são meus amigos”, diz Nela. “Todos. Estou sempre disponível para eles. Sempre… Eu sou mãe, sou pai, sou tia, sou avó, sou tudo para os meus filhos.” E chora — não sabemos se de alegria, se da emoção, se do orgulho de falar da família, se da dor de relembrar as dificuldades por que passou ao vê-los crescer.

Nela vendia pastéis, bolos; matava porcos para torresmos, chouriço de sangue e linguiça; trabalhava no restaurante durante o dia, voltava a casa para fazer o jantar, voltava ao restaurante outra vez, trabalhava até à uma da manhã. E, no dia seguinte, estava no trabalho, de novo, às 11h da manhã.

Sofia da Palma Rodrigues: Trabalhava no duro…

Maria Manuela Almeida: Credo… Tu nem sabes…

Sofia da Palma Rodrigues: Para ter dinheiro, fazia muitas coisas.

Maria Manuela Almeida: Trabalhava no restaurante… Saia e vinha cozinhar para os meus filhos e voltava. Chegava à uma da madrugada. No dia seguinte, entrava às 11h. Era assim…

Ricardo Esteves Ribeiro: Pedro Lopes sempre viveu em Chelas. Nunca visitou a terra que a mãe deixou nos anos 1980 — nunca sequer pisou um país africano. Significa também que nunca pôde ir ver o pai, que morreu em 2016, no ano que começou numa esquadra da polícia. O pior ano da sua vida.

Mas quando fala sobre de onde é, que nacionalidade agarra, o sorriso sai-lhe olhos fora.

Pedro Lopes: Eu sou guineense e da Zona J, nem que eu tenha que arrancar a Zona J e colocar na Guiné, ou Guiné colocar na Zona J. Eu sou guineense da Zona J. Tenho muito orgulho nisso.

Ricardo Esteves Ribeiro: O mesmo diz a sua companheira, Elsa Monteiro que, apesar de já ter estado na Guiné-Bissau, de onde vieram os pais, nasceu em Portugal e também sempre viveu em Chelas.

Elsa Monteiro: E ouvia isto diariamente: “Vai para a tua terra” e “Não és daqui”, “Vai para a tua terra”. Só que eu nem associava, era tão pequena que eu dizia assim: “Ah, não deve ser para mim. Estou na minha terra, por isso não é para mim.” Com o tempo é que fui crescendo e fui percebendo: “Espera aí, eu nasci aqui, mas esta não é a minha terra”, não é aqui que eu me sinto… Nasci aqui por acaso. Porque, se calhar, se me perguntassem se eu queria ter nascido aqui, eu também dizia logo que não. Não foi a minha opção.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas tu sentes-te mais africana do que portuguesa?

Elsa Monteiro: Portuguesa sou por acaso. Por um acaso. Mas africana… É o sangue que nos corre nas veias, é africano. Isso não se pode negar. A minha cultura é a africana. Sempre foi, desde pequena.

Sofia da Palma Rodrigues: O que é que queres dizer com isso: “A minha cultura é a africana”? Em que é que isso se manifesta?

Elsa Monteiro: Nas tradições, no pensamento. Eu não penso como sendo portuguesa, não tenho… O meu objetivo não é ficar em Portugal a viver. Eu tenho até a mentalidade que, se for possível, ir para África, porque lá é que nós pertencemos, não é? Por mais que a gente ande aí a rodar o mundo todo, a nossa origem é lá, e se calhar é lá que nós nos vamos sentir bem. Ou não, não sei, também. Mas é a ideia que eu tenho. Porque eu também tive em África e fui chamada de branca, não é? Porque para eles eu não sou preta. Não falo crioulo, não nasci lá, já sou considerada branca.

Ricardo Esteves Ribeiro: Para Pedro Lopes, identificar-se como guineense não é só aceitar a cultura, ou o sangue que lhe corre nas veias. É também resultado de um sentimento de rejeição pelo Ocidente, pelo mundo branco. Sente que a cor que carrega na pele lhe está sempre a dizer que não pertence ali.

Pedro Lopes: Nós, no mundo ocidental, nós seremos sempre prejudicados, seja em que país europeu for. Nós, os negros, vamos ser sempre prejudicados. Só que há países europeus que sabem fazer as coisas. Portugal tem feito as coisas, como nós dizemos no bairro, mesmo à cara podre. Tem abusado constantemente.

Ricardo Esteves Ribeiro: Quando falámos em 2018, Pedro Lopes disse-nos que, apesar de não se sentir em casa, nunca antes tinha pensado deixar Portugal. Até que, em 2016, a festa de passagem de ano e tudo o que a ela se seguiu o fez mudar de ideias.

Pedro Lopes: Eu disse: “Eu vou-me embora daqui, não estou a fugir, mas vou para um outro país que eu sei que também é racista, mas onde eu terei mais oportunidades a nível financeiro e até a crescer como ser humano.” Porque aqui não nos dão essa oportunidade. Aqui o que nós temos é lixo. É assim: eu não digo isto para ofender ninguém, eu digo isto porque é mesmo a verdade, não nos deixam crescer.

Ricardo Esteves Ribeiro: Se se pode avaliar uma pessoa pelo que publica nas redes sociais, dir-se-á que Pedro Lopes é um homem intenso: intensamente apaixonado, intensamente zangado. Na sua página de Facebook, manifesta um conjunto de atos de amor: a África, à pele de tons castanhos, à cor preta, ao cabelo crispado, à família, à amizade, à mulher negra, aos revolucionários negros panafricanos, ao rap. Tudo isto misturado com desabafos sobre discriminação no trabalho, sobre discriminação na escola, sobre desigualdade, sobre Deus, sobre as religiões, sobre Bruno Candé — negro, morto com quatro tiros à uma da tarde no meio da rua —, sobre violência policial, sobre racismo judicial, sobre racismo na polícia, sobre o homem branco “genocida nato”, sobre o extermínio de negros…

Ricardo Esteves Ribeiro: Tu sentes raiva?

Pedro Lopes: Eu sinto raiva, mas a minha raiva é bem canalizada. A minha raiva, eu passo para o papel. A minha raiva eu passo para um telemóvel, quando surgem ideias. Porque sou observador. E, sendo observador, há coisas que não nos escapam. Só que as pessoas não podem utilizar a minha raiva como uma arma contra mim. Porque a minha raiva não é uma raiva sem cabeça, digamos assim; é pensada. Eu faço as coisas, eu penso nas coisas. Por mais impetuoso que possa ser e isso até é uma contradição, eu passo tudo para o papel. A minha raiva… As pessoas podem ver a minha raiva, mas é quando eu falo. Porque eu estando com raiva não agrido ninguém…

Ricardo Esteves Ribeiro: A raiva de Pedro Lopes parece-me, de facto, uma “raiva pensada”. De quem se “digladia diariamente”, como escreveu numa das muitas publicações que lemos. E de quem reflete e reflete e reflete sobre a opressão de que sofre. Uma raiva que ganha corpo quando é passada para o papel.

Pedro Lopes: Nada ka na faltano nha ermons [nada nos falta meu irmãos] / No na djumbai sabi na no tabankas [os encontros nas nossas aldeias são sempre bons] / Bo pudi fiam, terra na aranka [podem acreditar em mim, a terra vai para a frente] / Africanos na riba tudo pa si tchon [os africanos vão voltar todos para a sua terra] / La kuidado gora ka na ten [lá ainda não existem condições] / Na bai compui casa di palha [vou construir casa de palha…] / Na sinta kumi bon mango, bon pische [sentamo-nos a comer boa manga, bom peixe] / Na limbi nha cabaza de chabén [lembo a minha cabaça de chabéu] / Estriparemos a mentalidade Ocidental / Pensamento principal será a africanidade / Negro algum será capataz do caucasiano / Negro algum trairá o seu mano / Juntos viveremos felizes e harmoniosos / Saibam que mãe, pai e filho, formarão a verdadeira Trindade / Procriaremos até à eternidade, planeta cheio de melanina e brilho. / Negro algum será capataz do caucasiano / Negro algum trairá o seu mano. / Negro algum será capataz do caucasiano / Negro algum trairá o seu mano.

IV

Sam the Kid, em Chelas: Chelas, Chelas é o sítio, Chelas é o berço / Chelas, o sítio onde eu moro / Procuro a verdade e a informação que’eu devoro / Eu não ignoro, toda a espécie de pessoa / Oiço uma voz que ecoa na rotina que enjoa / É sempre a mesma coisa que se vive e que se passa / E o que mete graça é que não há nada que se faça / Queres droga vai à praça / É assim o sistema / Porque isto é real não confundas com cinema

Ricardo Esteves Ribeiro: A década de 40 do século XIX tinha acabado de começar quando um poeta-escritor decidiu fazer a viagem de uma vida. De caderno na mão, foi, de poiso em poiso, de terra em terra, romanceando sobre as desavenças políticas, cronicando sobre o povo e a corte e filosofando sobre o regime em vigor e o que haveria de vir. Não foi longe o poeta escritor — pelo menos aos olhos de agora —, já que se quedou por Santarém, terra ribatejana por onde a guerra civil passava na altura. Da viagem, ficou a obra Viagens na Minha Terra, parte crónica, parte romance, publicada primeiro em folhetins, pela Revista Universal Lisbonense, depois em livro — um dos mais influentes livros do século XIX. Almeida Garrett, seu autor, pôs-se que a Santarém se iria, partido de Lisboa, já que era na capital que vivia. E saído ele, foi pelas portas orientais da cidade, como descreveria logo na primeira crónica: “Assim o povo, que tem sempre o melhor gosto e mais puro que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno Mar Mediterrâneo; do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados a recordações grandes ou queridas. Que outra saída tem Lisboa que se compare em beleza com esta? Tirado Belém, nenhuma. E ainda assim, Belém é mais árido.”

As hortas, as árvores, os palácios, os mosteiros, em parte, ainda lá estão, uns mais degradados do que outros. De facto, quem hoje passar pelo Vale de Chelas, com o livro de Almeida Garrett na mão, com algum esforço conseguirá imaginar a Chelas de 1840, com o rio Tejo a sul, e tudo o resto por ali acima, para norte e oriente do centro de Lisboa. Chelas já não é a mesma do século XIX, mas que parte da cidade é a mesma do século XIX? Por essa data, viviam na capital entre 150 e 200 mil pessoas, não se descia ainda a Avenida da Liberdade de carro — não existia, aliás Avenida da Liberdade —, não chegavam milhões de turistas todos os anos, a dar à costa no Tejo ou a sobrevoar a cidade rés vés… Bem, vocês perceberam o ponto, era uma Lisboa diferente.

Foi a partir do final do século XIX, início do século XX, que a Chelas das hortas e das árvores e dos palácios e mosteiros passou a albergar também milhares de famílias pobres migradas de outras partes do país à procura de melhores vidas e melhores empregos, principalmente na zona industrial ribeirinha da cidade, e que acabavam por dormir em casas sem condições debaixo de barracas, tendas ou pedaços de lata.

Em 1938, a Câmara Municipal de Lisboa classificava Chelas como um “bairro clandestino”. Era uma das dez zonas da cidade consideradas insalubres. Duas décadas depois, a autarquia encontrou-lhe destino: ser palco de “habitação social”. E fê-lo lá, em Chelas, porque, na zona oriental da cidade, a câmara já era dona de grandes pedaços de terreno expropriados desde o início dos anos 30 pela ditadura militar; e, depois, pelo auto-intitulado Estado Novo. Sim, o regime que promovia a propriedade privada, a casa própria, a herança e a economia concentrada em poucas ricas famílias, era o mesmo que, em Lisboa, expropriava terrenos até chegar ao ponto de um terço do território do concelho ser municipal, segundo o arquiteto Francisco Silva Dias.

Foi ele um dos que trabalhou no Plano de Urbanização de Chelas, apresentado em 1964. Por esta altura, apenas um quarto das casas em toda a chamada “malha de Chelas” teriam condições mínimas de habitabilidade. As restantes seriam barracas ou casas abarracadas. E o desenho que deveria servir de génese à Chelas moderna pregava também pelo crescimento dos espaços verdes que ali existiam, como os que Almeida Garrett descreveu há 175 anos.

Quem seja antigo o suficiente para o ter visto quando saiu lembrar-se-á com certeza d’Os Verdes Anos, filme a preto e branco de Paulo Rocha, lançado em 1963. Era no Vale de Chelas onde se passeavam aos domingos Ilda e Júlio, personagens principais da história, por campos verdes, entre encostas arvoradas de cima a baixo e hortas trabalhadas pelo povo, paredes meias com as casas da gente pobre, vinda do campo para a cidade, à procura de se encaixar numa Lisboa em expansão.

António Luís Rafael, jornalista da RTP: Uns após outros, surgiram os bairros com níveis diferentes e conhecidos por letras do alfabeto. Ligados por antigas azinhagas, hoje transformadas em largas avenidas. Destes, o maior e mais organizado é o I, o primeiro a ser construído.

Ricardo Esteves Ribeiro: A meio da década de 1960, o projeto para a urbanização de Chelas deu os primeiros passos no papel. Denominaram-se os diferentes bairros com letras do alfabeto: Zona I, a primeira; Zona J, a segunda; e, depois, Zona N2, antes ainda da Zona N1, etc. E vários arquitetos passaram a desenhar os prédios, as praças, as lojas. E, depois do desenho da nova Chelas, principiou-se a construção da urbanização, no início dos anos 70. E, depois, enquanto se construía… Deu-se o 25 de Abril.

Manifestantes à RTP: As casas são do povo. As casas queremos já. As casas são do povo. As casas queremos já. As casas são do povo. As casas queremos já. As casas são do povo. As casas queremos já.
Joaquim Vieira, jornalista da RTP: A recém-construída Zona I encontrava-se ainda desabitada no 25 de Abril quando alguns milhares de pessoas em condições de subalojamento ocuparam os 90 lotes destinados a beneficiários da Previdência e pertencentes ao Fundo de Fomento à Habitação…
Manifestante à RTP: Por exemplo, as minhas, onde estou, já estão há duas anos e tal prontas a habitar e ainda não… Por isso mesmo, nós… A necessidade nos obrigou a acorrer àquelas casas, visto já estarem há tanto tempo prontas à habitação. Porque não é por nós, e, sim, pelos nossos filhos que nós realmente acorremos àquelas casas.

Ricardo Esteves Ribeiro: Em maio de 1974, não só uma parte do bairro estava abandonada, apesar de pronta a habitar, como uma outra — muito maior — estava ainda por finalizar. Na verdade, várias das zonas desenhadas e projetadas a partir dos anos 1960 só acabariam de ser construídas no final do século. As frações da Zona J, por exemplo, foram sendo concluídas no início dos anos 80, na mesma altura em que Nela, mãe de Pedro Lopes, estava a chegar ao bairro, vinda da Guiné-Bissau. Pedro Lopes, nascido em 1984, faz parte da primeira geração da Zona J.

Nas zonas seguintes continuaram os atrasos, como mostra esta reportagem da RTP, de 1990.

António Luís Rafael, jornalista da RTP: E estamos noutra zona ainda em construção, a Zona N1. Atualmente, além deste local, está em construção a Zona L, encontrando-se a M em elaboração de plano.

Ricardo Esteves Ribeiro: Com o atraso na urbanização, famílias e famílias chegavam para ocupar as antigas quintas e construir os chamados bairros de lata, como resposta à falta de habitação digna. Umas vinham do interior do país, em busca de trabalho; outras de bairros do resto da cidade; outras ainda dos territórios africanos antes colonizados pelo império português. Chelas tornou-se um bairro de pessoas brancas, negras, ciganas, gente oriunda de muitos lugares, mas, na sua maioria, das classes mais baixas. E, claro, no centro de Lisboa.

G. C. Viegas: Como foi a tua infância e a tua adolescência em Chelas?

Sam The Kid: Foi uma infância muito feliz, muito normal, diria. Não tenho queixas absolutamente nenhumas. Acho que até é um grande privilégio. Sempre senti que tinha tudo, tudo à mão de semear.

Ricardo Esteves Ribeiro: Não é necessário ter feito parte da génese do hip-hop português — escrevendo, samplando, trocando mixtapes gravadas em casa dos originais da cena — para se conhecer esta voz. Samuel Mira não é só um dos rappers mais conhecidos do país, é uma das vozes de Chelas mais ouvidas de sempre. É rapper, produtor, também conhecido por Sam The Kid, parte da banda Orelha Negra e, talvez mais importante do que tudo o resto, nascido e criado em Chelas — “o sítio”, “o berço”.

Esta entrevista foi feita em junho de 2021, por mim e por G. C. Viegas. Um mês antes, Sam The Kid tinha co-fundado o coletivo “Chelas é o Sitio”, com o objetivo de “trazer mais valor” a Chelas — as palavras são deles.

Sam The Kid: Eu, que nasci mesmo em Chelas, desde o primeiro dia que saí da maternidade fui para Chelas, não é? Tipo, a minha mãe morava lá, o meu pai também, na altura, não é? Ou seja, somos mesmo os verdadeiros filhos da zona… E sempre foi uma coisa multicultural, estás a ver? De vários… Eu, por acaso, acho que, nesse aspeto, sinto que Chelas é especial. Principalmente, porque Chelas é mesmo dentro de Lisboa, embora as pessoas tentem, tentem, às vezes por engano, sei que é por inocência, tentarem dizer que é periferia, mas não é periferia. […] E sempre dissemos, desde miúdos, a cena da “capital de Lisboa”, é uma coisa que nós dizemos na brincadeira e nas novas gerações ainda dizem.

Ricardo Esteves Ribeiro: Esta não foi a primeira vez que ouvimos isto. É, aliás, parte do título de uma das primeiras reportagens de sempre do — na altura — É Apenas Fumaça, em 2018.

Ricardo Esteves Ribeiro: O que é que é 1950?

Carlos Djassi: 1950 é o nosso código postal. Porque é Chelas. É Chelas City, estás a ver? Para nós, Chelas é a nossa cidade. Chelas é uma cidade dentro de outra cidade. Capital de Lisboa é Chelas. Capital de Portugal é Lisboa.

Ricardo Esteves Ribeiro: Este é Carlos Djassi, também conhecido por Mc BamBam, um dos membros do Bataclan 1950, um grupo de jovens que se encontra na Zona J para conviver e cantar a vida através do rap. Afirmar Chelas como a capital de Lisboa parece-me a mim um ato de quase rebeldia, de quem quer desafiar a narrativa que marginaliza o bairro, que o coloca à margem, como periferia. Uma periferia, diz Sam The Kid, construída a partir apenas da descriminação de que é alvo. Como se não pudesse pertencer ao imaginário coletivo a ideia de um bairro do centro de Lisboa onde as cores dos corpos se entrecruzam, onde as origens geográficas questionam o conceito de fronteira, onde as nacionalidades e as culturas afrontam o ideal de Portugal monocultural.

Sam The Kid: Porque é tipo: “Se tem blacks, não pode estar na cidade”. Existe quase essa cena, e isso é uma realidade, que é tipo: “Ya, não pode haver um bairro onde há blacks mesmo em Lisboa, Lisboa, Lisboa, que festeja o Santo António, Lisboa que é a tarifa um do táxi, Lisboa que é Lisboa, Lisboa.”

Ricardo Esteves Ribeiro: Olhando para o mapa, Chelas fica no centro de Lisboa, a pouco mais de dez minutos do Marquês de Pombal, mas nada disso impede que seja colocada à margem. Vários académicos defendem que o atraso na construção das infraestruturas que ligam Chelas ao resto da cidade — que só aconteceu no final do século, com a Expo 98 — e a falta de equipamentos públicos e culturais de proximidade transformaram o bairro numa ilha segregada no meio da capital.

A verdade é esta: se, em 1843, Almeida Garrett falava de Chelas como uma das saídas mais belas de Lisboa, hoje, 180 anos depois, não é raro a palavra Chelas surgir em alguma comunicação social como sinónimo de esfaqueamentos, assaltos à mão armada, tiroteios fora de horas, gangues, delinquência juvenil, tráfico de droga, armas ilegais e, bem, tudo o que de mau venha ao mundo.

E é por isto, garante Sam The Kid, que temos assistido, desde os anos 1990, a uma mudança, um processo a que chama “marketing político”. Se antes parecia claro — às populações, aos políticos, às autoridades estatais — que Chelas era… bem, Chelas, as últimas três décadas mostraram que talvez não seja bem assim.

Sam The Kid: Como limpar o nome do Chelas é muito difícil na visão deles, porque acham que é um nome que está sujo, vamos usar o nome Marvila e vamos pôr em todo o lado, overdose: para a esquerda é Marvila, para a direita é Marvila, nas sinaléticas, e nem faz sentido nenhum. Não há em nenhuma parte de Lisboa, uma freguesia que tenha, na sinalética em que devia estar hospital ou coiso dizer “Marvila”. Tu queres ir para o hospital, mas diz à direita Marvila. Uma freguesia em que já estás há cinco minutos em Marvila e não sabes… Não tem lógica nenhuma.

Ricardo Esteves Ribeiro: A zona que antes tinha nome próprio passou a ouvir da boca e da caneta de um, e depois de outro, e de outro ainda, o nome Marvila; como se lhe tivesse sido imposta uma alcunha contra-vontade. Não que o nome Marvila seja novo, ou tenha sido inventado com este propósito: Marvila existe há muito, a freguesia nasceu oficialmente em 1959 e já existia como local (contendo Chelas e demais bairros) há muitos mais anos; desde Almeida Garrett, por exemplo. Mas a mudança que aponta Sam The Kid — aceite ou não pelas populações — é a de passar a chamar toda aquela zona “Marvila”. Assim, uma loja que toda a vida foi localizada em Chelas, agora, sem ter mudado um metro de sítio, passa a anunciar-se “de Marvila”. É uma estratégia gradual, defende ele, para que, um dia, daqui a dez anos, as populações comecem a questionar-se: “Espera lá, será que isto sempre se chamou Marvila?”. E, depois, com o passar do tempo, ninguém se lembre que Chelas existiu.

Ricardo Esteves Ribeiro: Nunca disseste que eras de Marvila?

Sam The Kid: Não, em nenhum momento da minha vida. Táxis para a Zona I de Chelas, ao pé do liceu D. Dinis. Sempre disse a mesma lengalenga. Algumas vezes não levaram, algumas vezes aconteceu não levarem. E eu revoltava-me sempre: “Mas não levam porquê? Mas não levam porquê? Onde é que começa o medo? Onde é que é a fronteira do medo? Deixa-me aí nessa fronteira”, “Ah não levo, não levo”.

Ricardo Esteves Ribeiro: Não foi só Chelas que passou a Marvila. A Zona L passou a Bairro das Salgadas; a Zona M passou a Bairro do Armador; a Zona N1 passou a Bairro da Flamenga; a Zona N2 passou a Bairro dos Lóios; a Zona I, de Sam The Kid, passou a Bairro das Amendoeiras; e a Zona J, de Pedro Lopes, passou a Bairro do Condado.

Pedro Lopes: Agora o nome do bairro é Bairro do Condado, não é? Se calhar, é para quem chegar lá não saber que é a Zona J.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas tu continuas a chamar Zona J.

Pedro Lopes: É a Zona J. Para qualquer pessoa. Qualquer pessoa sabe que aqui é a Zona J. Até pessoas que não são de lá, que nunca tiveram lá um apartamento, uma mulher, um filho, dizem que são da Zona J, só para tu veres como gostam de estar ali naquele bairro.

Ricardo Esteves Ribeiro: Para Pedro Lopes, a mudança de nomes não pode ser desligada de um processo de gentrificação em curso na zona. Apesar da freguesia de Marvila, em que se inclui Chelas, estar a meio da tabela de rendas do concelho de Lisboa, não só estas têm aumentado de preço, como muitas das casas antes públicas, hoje são propriedade de privados. Chelas foi casa para festivais como o Rock in Rio, no Parque da Bela Vista. E os equipamentos — os tais que faltavam nos anos 80 e 90 — são cada vez mais: há hipermercados, agora, um hospital prometido, uma grande superfície da Decathlon à porta do bairro, uma sala de concertos paredes meias, e até um colégio internacional junto à habitação social, o United Lisbon Education Hub.

Aquilo em que resultarão estas mudanças é difícil de prever. Se é verdade que mais e melhores infraestruturas trazem, à partida, mais qualidade de vida, sabemos que se pode traduzir também num aumento de preços repentino e generalizado, que atira para fora do bairro as pessoas que não são capazes de suportar o aumento do preço das rendas e das propriedades.

Pedro Lopes: Isto aqui é tudo um processo de gentrificação. Estão a trabalhar para que o pessoal que ganha menos saia daqui e nem vão fazer esforço algum. Eles sabem bem como fazer as coisas. Eles não precisam de agarrar em nenhum agente para nos tirar de casa, não. As rendas têm de subir, têm de subir as rendas. Porque oferecem isto tudo a um bairro social? Um hospital? Um bairro social que tenha um hospital, essas coisas todas, vocês acham que as rendas vão continuar baixas? Por isso é que eu estou a dizer: se é para sair de Lisboa, prefiro sair do país. Porque tarde ou cedo eu vou ser obrigado a… Eu, quando digo “eu”: e mais outros. Vamos ser obrigados a sair de Lisboa, porque estão-nos a empurrar de uma forma subtil. Estão-nos a empurrar mesmo.

Ricardo Esteves Ribeiro: Esta estratégia não quer apenas limpar “o nome” do bairro, quer limpar a população. É isso que diz Pedro Lopes. É isso que diz Sam The Kid.

Sam The Kid: Eu, quando era mais novo, eu pensava que os meus amigos saíram de Chelas porque era a coisa a fazer, a coisa… “Ya, tens que sair de casa dos teus pais e tens que ir numa beca para longe, porque é assim que é.” Pensei que era mesmo uma escolha. Mas, com o tempo, cada vez mais sinto que não há outra escolha. Se calhar, há uns que realmente é aquilo que querem, porque querem ter uma casa bacana, e para terem a casa boa, com família, com vários quartos para vários filhos, têm que ir para mais longe. Mas aqui a minha questão é: e existir a opção de querermos ficar?

V

Ricardo Esteves Ribeiro: Sam The Kid tem o sonho de ficar. Ouvimo-lo dele, mas também de outras pessoas que se vêem empurradas pelo escalar da gentrificação em Chelas e em toda a Lisboa, para longe das suas casas, dos seus bairros.

Apesar disso, durante os anos em que estivemos a fazer esta série, o sonho de ficar não foi o único que nos chegou aos ouvidos.

Hélder Gomes: Isto parece aquelas coisas de criança. E é um sonho de criança. Porque eu não vou viver comigo e dizer “Não segui o meu sonho”. A ver histórias policiais… “E se eu fosse polícia? E se eu tivesse tido a minha carreira?”

Ricardo Esteves Ribeiro: Entrevistámos quatro dezenas de polícias, que nos falaram sobre o que é isso de querer mudar o mundo com uma farda vestida. Mas também de como este sonho se pode transformar num pesadelo. No próximo episódio, vamos ouvi-los.

TEASER

Marisa Dolores: Ser polícia é mau para a saúde. Ser polícia é mau para a gestão familiar. Ser polícia é mau para a gestão financeira […]. Nós não temos a dignidade de ter um ordenado suficiente para pagar uma casa em Lisboa, mas sim um quarto, em que normalmente partilhamos com outros colegas.

Vasco (anónimo): Desde crianças mortas à tua frente, desde cenas de homicídio que, se calhar, reviravam o estômago às pessoas mais sensíveis, e tu sais daquela ocorrência e tens que entrar no dia seguinte às 8h como se nada fosse.

Luís Maria: A instituição não está preparada para pessoas que tenham, por exemplo, stress pós-traumático, síndromes depressivos, síndromes de ansiedade.

Pedro Carmo: Só fica na polícia quem tem uma pancada. Porque não se consegue aguentar isto de outra forma. […] ao longo de alguns anos de serviço policial, a pessoa muda. A pessoa ganha um transtorno emocional.

Hélder Gomes: Eu próprio tive momentos em que podia representar um perigo para os meus colegas.

CRÉDITOS

G. C. Viegas: Acabaste de ouvir Encostados à Parede, o segundo episódio de Fronteira do Medo, uma série do Fumaça com a Divergente que vai ter 14 capítulos, lançados semanalmente. Ainda falta, não é? E se te disser que podes ouvir já a série até ao fim? Basta fazeres uma contribuição recorrente em www.fronteiradomedo.pt/contribuir. Apoia o jornalismo do Fumaça e da Divergente. No próximo episódio, ouvimos polícias.

Em www.fronteiradomedo.pt encontras várias histórias complementares a este podcast, com transcrições, fontes, imagens, ilustrações e informações adicionais, como uma cronologia sobre a construção do bairro de Chelas, em Lisboa.

Duas notas de transparência. Elsa Monteiro, que ouviste neste episódio, trabalhou até 2018 para a Aguinenso — Associação Guineense de Solidariedade Social. Essa associação, também até 2018, contratou a proprietária legal da Divergente, a cooperativa Bagabaga, para um projeto de intervenção social na Zona J. Também ouviste Carlos Djassi, do grupo de jovens Bataclan 1950. A mesma cooperativa Bagabaga produziu, com os Bataclan 1950, o documentário Chelas Nha Kau, lançado em 2020.

Este episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro, que investigou comigo, G. C. Viegas, e com Sofia da Palma Rodrigues. Eu, a Sofia e o Pedro Miguel Santos editámos a peça. A verificação de factos ficou com Margarida David Cardoso, a revisão com Diogo Cardoso e a consultoria jurídica com Leonor Caldeira. O Bernardo Afonso fez reportagem, para além do desenho e edição de som e da composição e interpretação da banda sonora. O Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. O José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida e Ricardo Esteves Ribeiro. Também participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Luis Marquez, Luciana Maruta, Rafaela Cortez e Fred Rocha.

Ouviste neste episódio sons da RTP, do álbum Sobre(tudo), de Sam the Kid, e os Verdes Anos, de Carlos Paredes.

A Fundação Rosa Luxemburgo doou para fazermos esta série. O Fumaça está a receber bolsas estruturais da Fred Foundation e Limelight Foundation. Os contratos estão disponíveis em www.fumaca.pt/transparencia. A Divergente tem uma bolsa da Civitates.

Até já.

O conteúdo Encostados à parede aparece primeiro em Fumaça.


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