Fumaça & Divergente
Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)

Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Feito em parceria com a revista digital Divergente. Ouve este episódio e sabe mais no website oficial da série.

TRANSCRIÇÃO

G. C. Viegas: Usa auscultadores para ouvir este episódio. Este capítulo contém referências a suicídio. Tens números de apoio na descrição, se precisares de falar com alguém. Em caso de risco, telefona para o 112.

I

Ricardo Esteves Ribeiro: Há quanto tempo é que tu queres ser polícia?

Hélder Gomes: Desde sempre. Aliás, eu lembro-me sempre, sempre. Isto pode ser cliché, mas lembro-me sempre de que não havia… Não encaixava outra profissão.

Ricardo Esteves Ribeiro: Hélder Gomes cresceu a saber o que queria ser quando fosse grande. Era instinto, estava-lhe no ADN, conta. Ainda pensou em ser mecânico, como o pai, mas a ideia passou-lhe rápido. Quando no 9.° ano lhe perguntavam pela idade adulta, a resposta era óbvia: queria ser polícia. Em miúdo, viu a família desmoronar-se. O divórcio dos pais envolveu alcoolismo e violência física, os tios consumiam drogas. E, destes escombros, foi crescendo uma certa admiração pela profissão.

Hélder Gomes: E via sempre o papel da polícia que, felizmente, para mim, a imagem é que a polícia vinha ali um bocadinho resolver as coisas. Ou seja, pode ter ficado incutido em mim: “Olha, eu para conseguir resolver isto aqui na sociedade e na minha família… Talvez seja um percurso que eu tenha…” Por instinto.

Ricardo Esteves Ribeiro: O sonho de ser polícia passou a comandar a vida de Hélder Gomes. Encarava-o como uma missão. Quando acabou o ensino básico, escolheu desporto, para se preparar fisicamente. Depois, voluntariou-se para o exército: queria experimentar a vida militar, aquela estrutura hierárquica — com a qual não se identificou. Aos 20, 21 anos, candidatou-se para ser revisor na CP — Comboios de Portugal, mas nunca se deixou distrair.

Hélder Gomes: Mas mesmo na CP, estando lá, no processo de seleção da CP, disse que era o meu desejo e a minha ambição profissional — fazem essas perguntas clichês: polícia. Até ali coloquei-me em risco. Até me levaram a questionar: “Mas você sabe que ao dizer isso, para nós, você está aqui só de passagem?” Eu: “Sim, mas eu não ia ser cínico em não dizer a minha ambição”. Novo, 20 anos…

Ricardo Esteves Ribeiro: Foi contratado. Tinha um bom salário. Hélder Gomes diz que foi o maior que alguma vez recebeu; pelas suas contas, limpos era à volta de 1100, 1200 euros, com horas extra e turnos. Estava integrado, conhecia as rotinas, os hábitos, gostava do serviço e sentia-se uma mais-valia. Mas estava só há um ano na CP quando abriu um concurso para novos agentes na Polícia de Segurança Pública.

Hélder Gomes: Levanta-se a questão: o meu sonho. Muitos colegas com quem eu confidenciava e amigos: “Epa, não vais nada. Não estás bem. Achas que vais ganhar na polícia isto?” Vou dizer uma expressão: “Na polícia é uma merda.” Mesmo polícias com quem eu trabalhava na CP: “Epá, não te metas nisso. Se quiseres, eu troco já de farda contigo”. Isto é verídico. E eu disse: “Epá, isto deve ser um polícia frustrado. Não me vou deixar ir abaixo ou não vou deixar de seguir o meu sonho, porque apanhei um ou dois frustrados.” Mas o problema é que eu apanhava quatro ou cinco e era difícil encontrar alguém que me motivasse. E disse: “Epá, se isto é tão fod– tão mau, então é porque é aqui mesmo.” Eu sempre fui assim na minha vida. Se isto é mau e eu quero isto, então é isto que tenho que explorar. Tenho de ver que isto é mesmo mau para tomar uma decisão, porque eu não vou viver comigo e dizer: “Pa, não segui o meu sonho.” A ver histórias policiais… “E se eu fosse polícia? E se eu tivesse tido a minha carreira?”

Ricardo Esteves Ribeiro: A entrada no curso de formação de agentes da Escola Prática de Polícia obedece a uma série de regras: ter nacionalidade portuguesa e entre 18 e 30 anos de idade (com uma exceção para militares); medir mais de 1,60m (para as mulheres candidatas) e 1,65m (para os homens); apresentar as vacinas em dia; ter o 12.º ano de escolaridade ou equivalente; não ter condenações judiciais que impeçam de exercer a profissão; não ter reprovado, mais do que uma vez, no próprio curso de formação de agentes, nem ter sido afastado da escola prática por falta de mérito ou sanção disciplinar; não estar abrangido pelo estatuto de objetor de consciência; e ter “bom comportamento moral e civil”.

Cumprindo isto, as pessoas candidatas são avaliadas em cinco áreas: fazem testes psicológicos, um exame médico, uma entrevista, uma prova escrita, “de conhecimentos”, e provas físicas.

Hélder Gomes: E comecei logo também, depois, a treinar para me sentir apto.

Ricardo Esteves Ribeiro: Antes de entrares?

Hélder Gomes: Estava na CP, já estava a treinar.

Ricardo Esteves Ribeiro: Como assim?

Hélder Gomes: Na garagem. A minha mãe até deixou de estacionar o carro na garagem, porque marquei no chão as provas, que era uma fita, marquei no chão os dois metros que tens que saltar. Marquei na parede…. Vê la como eu me lembro perfeitamente… Isto parece aquelas coisas de criança. E é um sonho de criança. Marquei na parede a altura que eu tinha que tocar com a mão. E, depois, as barras fazia no ginásio…

Ricardo Esteves Ribeiro: Hélder Gomes passou em todos os exames e foi aceite na escola prática. Estava pronto para fazer o sonho arrancar.

Hélder Gomes: No meu fim-de-semana de despedida da CP… Já tinha desvinculado… Eles combinaram uma almoçarada com um jogo de futebol. “Vamos lá jogar à bola.”

Ricardo Esteves Ribeiro: Caiu e magoou-se no punho. Diagnóstico: entorse. Faltavam uns dias para começar o curso. Com dores e ligaduras, apresentou-se na Escola Prática, em Torres Novas, no distrito de Santarém. Ao fim dos primeiros exercícios, já estava a ser atendido pelo médico de serviço.

Hélder Gomes: “Ou aguentas ou tens que seguir com vida por outro caminho.” Epá, para um miúdo de 21 anos, eu logo: “O quê? Epá, o homem tem razão. O homem tem razão. Eu vim para ser polícia, caralho… Quero ser polícia. Não vou andar aqui ‘Ai, ai, ai’ como alguns que andam ‘Dói-me a perna’, e não querem fazer exercício. Não. Eu quero fazer só que estou todo limitado.” Posso-te dizer, Ricardo, que aquilo deu-me uma, sei lá, uma revolta, uma motivação… “Não, não!”

Ricardo Esteves Ribeiro: O médico deu-lhe cinco dias para recuperar. Mas as dores continuavam. Regressou ao posto de saúde, mas garante não ter pedido mais nada: só uma autorização para fazer as flexões de outra maneira.

Hélder Gomes: “Você está maluco? Epá, mas não vais conseguir fazer isso e não sei quê, que isso de punhos custa muito mais”. E eu: “Epá, não interessa.” Isto é verdade. E ele passou-me uma requisição. Eu era o especial na minha turma. Só os da minha turma é que sabiam que eu fazia as flexões com as pontas dos dedos. Com as pontas dos dedos.

Ricardo Esteves Ribeiro: Só porque não querias ir embora?

Hélder Gomes: Só porque não queria ir embora.

Ricardo Esteves Ribeiro: Hélder Gomes sabia que, com as pontas dos dedos, teria mais dificuldades nas flexões. Por isso, esforçou-se para ser o melhor em todas as outras áreas. Treinou elevações em barras; pesquisou na internet técnicas de corrida. Tornou-se um aluno exemplar na turma, mesmo nas flexões, conta ele.

Hélder Gomes: “Aquele caralho!”, que era a expressão, não é? “Aquele caralho está ali com a ponta dos dedos, que nem sei onde é que ele vai arranjar esta forma de fazer as flexões, consegue tirar 20 e vocês aqui para tirar 10 é o deus me livre!”.

Ricardo Esteves Ribeiro: Tu saíste de lá com um ego gigante.

Hélder Gomes: Sim. Sim.

Ricardo Esteves Ribeiro: Na Escola Prática de Polícia também há férias de verão. E, naquele agosto de 2007, Hélder Gomes continuava com dores. Voltou a casa, foi ao médico. E um raio-x depois, o ortopedista informou-o de que precisaria de ser operado o mais rápido possível. Tinha, afinal, o escafóide partido. É um pequeno osso no punho.

Hélder Gomes diz que pediu à PSP para antecipar os testes físicos de fim do curso logo para o início do segundo período. Passou. Foi operado logo a seguir. Mas isso criou outro problema.

Hélder Gomes: Era mais ou menos em outubro. E ia ter de ficar engessado. Qual era a mão que eu tinha…? Eu sou direito. E os testes teóricos eram para o final do ano. Eu: “Fogo!” Ele: “Como é que vai fazer isto?” Eu: “Fogo, meu, que merda do carago!” Foi mesmo. Eu: “A minha vida, carago. Não, tenho que acabar esta merda.”

Ricardo Esteves Ribeiro: Conta que a escola arranjou uma solução: nos dias de exame, teria um elemento da polícia com ele, a escrever tudo o que ditasse. Como não conseguia escrever apontamentos nas aulas, diz que lia a matéria três vezes mais. Era muito exigente com ele mesmo. Tanto que nem as atrações locais o distraiam.

Hélder Gomes: Porque os meus colegas diziam: “Epa, vamos sair.” Eu posso dizer que não saí nada.

Ricardo Esteves Ribeiro: Em nove meses?

Hélder Gomes: Não. Tanto é que eu posso-te confidenciar que quase todos os polícias sabem o que é a Kikas, em Santarém, e eu não sabia o que era a Kikas quando vim para a polícia. “Então, como é que a Kikas?”, o pessoal aqui das praxes. E eu: “O que é a Kikas?”, “Então tu vieste de Torres Novas, não sabes o que é a Kikas?”, “Não, não sei. Se eu estava sempre a estudar, sempre empenhado”.

Ricardo Esteves Ribeiro: O Kikas, ou Bar La Siesta, em Santarém, era, na definição do Notícias do Ribatejo, “a casa de alterne mais famosa do país”. O clube de strip mudou de gerência em agosto de 2023. A dona, Maria da Conceição, ou Kikas, foi acusada pelo Ministério Público de branqueamento de capitais e de lenocínio — de lucrar com e incentivar a prostituicao de outra pessoa. Anunciou a reforma e vendeu o espaço a empresários espanhóis.

Na parte que lhe toca, Hélder Gomes terminou o curso. Ficou no lugar 36 de quase 1000 candidatos, nas notas finais. Quando saiu da escola, foi colocado como agente no comando de Lisboa. Aí, ficou por nove anos, a mais de 300 quilómetros de casa, na Póvoa de Varzim, distrito do Porto. Foram nove anos em que Hélder Gomes conta ter feito de tudo: do trabalho administrativo à patrulha de ruas, passando pela investigação criminal. Mas o que foi constante foi o sentimento de que a profissão com a qual sonhava desde jovem não era exatamente o que imaginara.

Hélder Gomes: Fiquei descontente com a forma como me tratavam. Ser da polícia é pau para toda a obra. E não é porem-me a mim a trabalhar 12 horas sem uma justificação plausível… Trocam-me constantemente de turno. Agora, porquê? Falta de recursos humanos, percebes? E eu não aceitava isso. Eu dizia: “Tenho vida. Faço vida aqui em Lisboa. E não posso estar constantemente a sentir esta oscilação. Isto está-me a afetar.” Pronto, era o Hélder que estava a mandar vir com… Pensavam que eu estava a mandar vir com o chefe Zé Manuel ou com o subcomissário Zé Manuel, percebes? “Não é assim e aqui é como eu quero!” Não há sensibilidade nenhuma.

Ricardo Esteves Ribeiro: Hélder Gomes sentia-se desmotivado, desprezado. Aqui, num vídeo que publicou no Facebook.

Hélder Gomes: Não era merecedor das horas que eu tirava de sono, de horas que eu tirava a mim mesmo, de horas que eu tirava à minha família. Porque isso custou-me ataques de ansiedade, ataques de pânico, stress, noites mal dormidas, enfim, enfim…

Ricardo Esteves Ribeiro: Não desistiu da PSP. Pediu ajuda ao gabinete de psicologia.

Hélder Gomes: Quanto mais a psicóloga me falava, a psicóloga da polícia, me caracterizava a estrutura hierárquica… Eu mais ficava exaltado, do género: “Eu andei nove anos, o meu sonho, andei-me a dedicar para isto… A esforçar-me, a acreditar que isto podia ser o meu percurso profissional, e tenho que lidar com este sistema, tenho que lidar com isto tudo mal pensado. É só para resultados, é só detenções?”

Ricardo Esteves Ribeiro: E, da psicóloga, foi enviado para um psiquiatra.

Hélder Gomes: E ele basicamente disse: “Você tem que aceitar isto. Você na polícia sabe que as coisas funcionam assim, vão funcionar sempre assim. Há uma hierarquia que tem que ser respeitada.” Eu disse: “Independentemente, se me faltam à dignidade? Se falam para mim como querem? Se fazem coação? Se me ameaçam e se concretizam essas ameaças?” Ele disse-me: “Olhe, sabe aqueles macaquinhos: não ouve, não vê, e não fala? Nada. É assim que você tem que andar. Você aqui passa o seu percurso profissional tranquilo.” Eu disse: “Está a brincar comigo?”

Ricardo Esteves Ribeiro: Foi depois destas consultas que, conta, entrou de baixa. Era 2016. Já não conseguia deixar andar.

Esteve três anos sem ir ao trabalho. Diz que se lembra de pouco desse período. Sentia-se um peso para a polícia, para o Estado. Não queria acabar como alguns dos colegas que, ao fim de 40 anos de serviço, vão para a rua dizer que foram enganados. E, antes que a polícia o destruísse, saiu.

Hélder Gomes: Agora, há polícias com esta, se calhar, com este sentimento que estava a dizer “Este gajo está todo fodido”… a trabalhar. “Eu não estou fodido, não é?” Já dizia o outro: o maluco diz que não é maluco. Mas há elementos assim. Diariamente. Porquê? Porque precisam de ganhar o dinheiro. Eu disse: “Isto está-me a destruir. Isto é ridículo demais. Estes gajos estão-se a cagar para mim, pior do que aquilo que eu pensava.” Levantam-me processos disciplinares porque eu falei-te mal, ou enfrentei, ou confrontei de forma desadequada o superior, mas ninguém, ao final de três meses, vem-me pedir satisfações, a arma, nada. Eu peguei, decidi entregar a arma. “Pá, deixa-me libertar disto e sair destas coisas, destes núcleos, que são um peso para mim.” Sem nada contra eles, mas acaba por ser tóxico — pessoas que estão na polícia com problemas há dez anos, não os conseguem resolver, emocionalmente estão ali… Com comprimidos, mas não saem da polícia. Eu ia ter tendência a seguir aquele rumo. Eu disse: “Não, não, não, não.”

Ricardo Esteves Ribeiro: A PSP garante não ter registo de quaisquer alegações de perseguição. Hélder Gomes foi alvo de, pelo menos, dois processos disciplinares por responder mal a superiores hierárquicos. No primeiro, de 2012, depois de discutir com um superior, terá tentado entregar a arma e todo o material de serviço, por não estar em condições psicológicas.

Hélder Gomes saiu definitivamente da PSP em 2019, mas os polícias com quem falámos retratam problemas semelhantes e denunciam abusos semelhantes: precariedade, sobrecarga laboral, chefias tóxicas, falta de acompanhamento psicológico. Neste episódio, falamos da origem da polícia e de que se queixam os polícias.

Esta é Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Episódio 3: Homens de polícia. Seja toda a gente bem-vinda ao Fumaça, em parceria com a Divergente. Eu sou o Ricardo Esteves Ribeiro.

II

Ricardo Esteves Ribeiro: Para se entender quem são os polícias, ajuda perceber de onde vem a polícia, como nasceu. A PSP traça uma herança milenar, anterior a Jesus Cristo. No seu site, na página sobre história, a instituição começa o percurso ainda nos tempos narrados pelo Velho Testamento cristão. Descreve como o povo judaico criou uma polícia assim que se libertou da escravatura — com intervenção divina, conforme descrito no Livro do Êxodo; e como, até no “longínquo Egipto faraónico”, de onde, pela narrativa bíblica, fugia o povo hebreu, existia já um “Chefe de Polícia”.

Logo a seguir, a PSP explica que, em Portugal, “o primeiro corpo de agentes policiais foi criado por D. Fernando I, os chamados Quadrilheiros”. Ora, o reinado de D. Fernando I — “o Formoso”, para quem já se esqueceu do que aprendeu na escola — começou no século XIV, há coisa de 650 anos.

Ricardo Esteves Ribeiro: Isso não é verdade?
Maria João Vaz: Isso é uma forma que…. Eles exerciam funções de polícia, mas não tem nada a ver com a polícia atual. Eram pessoas que se voluntariavam para isso. Não têm… E, além disso, a forma de agir era completamente diferente daquilo que foi pensado para as polícias modernas. As polícias modernas são pensadas como pessoas que andam na rua, com uniforme, e que é suposto a presença delas dissuadir a prática do crime.

Ricardo Esteves Ribeiro: Maria João Vaz, historiadora, professora no ISCTE, em Lisboa, ligada ao Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, e autora do livro O Crime em Lisboa 1850-1910, defende que sempre existiu controlo social, mas não a polícia, enquanto um corpo profissionalizado.

Susana Durão, antropóloga, professora no Instituto de Filosofia e Humanidades da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo, no Brasil, e autora de vários livros sobre as polícias em Portugal, como Patrulha e Proximidade: Uma Etnografia da Polícia em Lisboa, concorda.

Susana Durão: Na verdade, existem várias narrativas. Existe a narrativa oficial da história feita por policiais, feita pelos intelectuais da polícia, digamos assim, que é aquela história que remete aos quadrilheiros, não é? O final da Idade Média, a ideia de que havia, sempre houve, algum tipo de profissional da segurança e do controlo, não é? Do controlo social. Então, quando se quer fazer uma espécie de legitimação da ideia de policiar e para dar a ideia de uma grande longevidade da instituição policial, usa-se muito essa ideia de remeter a origem aos quadrilheiros.

Ricardo Esteves Ribeiro: Maria João Vaz não acredita que todos os polícias tenham um olhar obtuso sobre o passado. Mas admite que a produção de conteúdo sobre a história da polícia, feita por membros da instituição, esbarra na tentativa de produzir um olhar pré-determinado.

Maria João Vaz: Quer dizer, evidentemente que a estrutura, atualmente, tem sempre a vontade de preservar a memória da instituição. É mais ou menos como todas as instituições que tentam preservar a sua memória. Eu, há uns tempos, estive com alguns estudantes no Benfica, no clube de futebol. Aquilo é fantástico, é uma coisa… O museu é muito interessante, eles têm um centro de documentação… Mas tudo o que tem a ver com derrotas do Benfica, não está lá. Isso foi descartado. Aquilo é para preservar a memória do clube, mostrar os grandes feitos.

Ricardo Esteves Ribeiro: É produção de memória e não de conhecimento.

Maria João Vaz: Exato. E, muitas vezes, estes polícias, que também se dedicam… Alguns não, não é de todos… Mas os que se dedicam a fazer a memória institucional da instituição, evidentemente é uma memória institucional, privilegia-se aquilo que é bom para a instituição. O resto omite-se.

Ricardo Esteves Ribeiro: “Polícia” não quis sempre dizer a mesma coisa: a definição foi-se transformando ao longo do tempo. A palavra nasceu com o colapso do feudalismo e a emergência do Estado moderno — o Estado-nação. Dois momentos históricos que se entrecruzam, sem data certa, um ano que se possa apontar como casa de partida. Digamos a partir do século XV. Por essa altura, a palavra “polícia”, pela Europa fora, passou a significar gestão da ordem e da vida em sociedade. Talvez aquilo a que hoje chamamos “administração pública”, se quisermos esticar substancialmente o termo.

Na segunda metade do século XVIII, já cabia na descrição do trabalho de polícia tudo o que da autoridade pública fosse responsabilidade, um rol que parecia não ter fim: a defesa do Estado contra insurreições; a proteção de escravizadores contra escravizados; abastecimento de água e comida; a limpeza e manutenção de ruas e edifícios; o controlo da mendicidade e da prostituição; a promoção das “boas maneiras” do povo nas missas e festividades. À medida que se ia libertando parte da população do domínio absoluto dos senhores feudais, era preciso manter o controlo — o que comumente se chama “civilidade”.

Às pessoas que executavam essas tarefas chamava-se homens de polícia. Obviamente, aos olhos de hoje, não seriam considerados… polícias. Funcionários públicos, com certeza, mas não polícias.

O controlo social, isso é certo, foi sendo responsabilidade de diferentes pessoas: vizinhos; padres; guardas e milícias, privadas, ou de caráter militar; regedores, funcionários que representavam a administração estatal; cabos da polícia, que eram os auxiliares dos regedores; e até, como já referimos, os quadrilheiros — que, como diz Susana Durão, eram cidadãos comuns pagos para cuidar de, e guardar os bairros, as casas, as vidas dos outros.

Susana Durão: Eram como que milícias, no sentido mais antigo da palavra. Eram cidadãos comuns contratados para esse efeito. Ou seja, não havia uma organização central, não havia uma emanação de ordens, não havia uma organização no trabalho, não é?

Ricardo Esteves Ribeiro: Só há coisa de 250 anos é que se iniciou a transformação do vocabulário que faz daqueles que antes eram os homens de polícia, os polícias de hoje. O que significa que, se considerarmos que a Arqueologia é consensual quanto à existência de seres humanos — homo sapiens — há pelo menos 300 mil anos, bem vistas as coisas, a polícia como hoje a conhecemos existe há menos de 0,1% da história da humanidade.

A polícia é uma criação da sociedade dos séculos XVIII, XIX. Primeiro, o Iluminismo forçou o debate sobre a separação dos poderes legislativo, executivo e judicial. Depois o Liberalismo, por sua vez, apontou para a defesa da liberdade individual e da propriedade privada. E, daí, emergiu uma das ferramentas mais importantes do Estado liberal: a “segurança pública”. Hoje, o cientista político Mark Neocleous defende que, desde esse momento, “o tema central do liberalismo não é a liberdade, mas a segurança”. E que foi a partir desta base teórica que se criou a polícia contemporânea.

Pela Europa central e ocidental, é também por essa altura que começam a emergir as atuais instituições policiais. Em Portugal, é por volta da década de 1820 que as cortes nacionais começam a discutir este novo conceito de polícia. A constituição de 1822 deixou logo claro que o objetivo daquele documento era manter a (cito) “liberdade, segurança, e propriedade de todos os portugueses”.

Já durante estas discussões fundacionais, havia em Portugal quem defendesse a abolição do policiamento, o fim de todas as instituições de “perseguição e intolerância”. E, claro, também quem exigisse a vigilância de toda a sociedade, para prevenir o crime. E esses debates iam sendo moldados pelos vários modelos de polícia que se testavam pela Europa.

A historiadora Maria João Vaz, novamente.

Maria João Vaz: E o modelo mais liberal e mais bem visto é o da Metropolitan Police de Londres. Portanto, esse é que era mesmo… Era o modelo da polícia liberal. Um homem com ar assim pacato, mas uniformizado, desarmado, que andava ali pelas ruas. E a população toda ficava calma. Passava a portar-se bem porque andava ali o polícia.

Ricardo Esteves Ribeiro: Para Maria João Vaz, a primeira tentativa de ter uma polícia moderna em Portugal é a criação das guardas municipais de Lisboa e do Porto, em 1834 e 1835. À imagem desse modelo de polícia liberal, foram projetos de instituições desarmadas responsáveis pela prevenção do crime. Mas não tardaram a falhar. O país acabava de sair de uma guerra civil e, em resposta à instabilidade política e à violência generalizada, as guardas municipais armaram-se e militarizaram-se. Em pouco tempo, tornaram-se instrumentos ao serviço do poder político, em vez de meros corpos profissionais dedicados a fazer cumprir a lei.

Só mais de 40 anos depois se criou o que a historiografia portuguesa considera ser a primeira polícia moderna do país. A Lei da Polícia Civil é publicada a 2 de julho de 1867, um dia depois da abolição da pena de morte para os chamados “crimes comuns”. O governo é autorizado a criar corpos de polícia em todas as capitais de distrito, começando por Lisboa e Porto. Isto há pouco mais de 150 anos. Quase 500 anos depois da criação dos quadrilheiros, a que a PSP chama o primeiro corpo de agentes policiais do país. Nas contas da Bíblia, uns três mil anos após o êxodo do povo hebreu do Egipto, onde a PSP situa a criação de um chefe de polícia.

A versão da instituição sobre a própria origem adere a uma narrativa: a de que a polícia surgiu como resposta ao aumento da criminalidade e da insegurança por a sociedade ter chegado (cito) “a um estado verdadeiramente doentio”.

Há outra perspetiva: as polícias foram criadas como instrumento para manter o poder e o controlo sob uma nova classe trabalhadora industrial.

Ricardo Esteves Ribeiro: Em qual destas ideias é que a Maria João vai?

Maria João Vaz: Eu acho que não fui mesmo por nenhuma delas, porque isso são posições muito extremadas. É um bocado caricatura aí, está a ver? […] Evidentemente que a criação das polícias corresponde a uma vontade do Estado de exercer o seu poder sobre o território e as populações. Evidentemente que o Estado é dominado pelas elites, portanto é a vontade dessas elites de dominar e de controlar o resto da população, sem dúvida. Que isso tenha sido justificado com a criação da polícia… Não acho que tenha a ver diretamente com o aumento da criminalidade, que é uma coisa que… A existência, o aumento ou não da criminalidade, muitas vezes tem a ver com sentimentos de insegurança da população, que faz mais queixas, capacidade mesmo de controlar e de tomar nota mais da existência dos crimes… Porque as pessoas ficam muito mais inseguras, e estão muito mais atentas, e não deixam passar nada. Qualquer coisa vão apresentar queixa… Isto faz um aumento. […] Portanto, eu não acho que tenha sido um aumento, claramente, do crime que levou à criação das polícias, como muitos justificam, assim naquela posição mais dura…

Ricardo Esteves Ribeiro: As funções da polícia moderna tinham tanto de combate ao crime como de “fabrico da ordem” ou “abolição da desordem”, nas palavras do cientista político Mark Neocleous. O Regulamento para os Corpos de Polícia Civil enumerava-as: patrulhar a cidade para proteger “eficazmente a segurança das pessoas e da propriedade e os demais direitos dos cidadãos”; vigiar reuniões públicas; fiscalizar casas de empréstimos e penhores; impedir o uso e porte de armas proibidas; reprimir a mendicidade, a vadiagem e as pessoas de (cito) “mau comportamento”; evitar que as “mulheres públicas” — como chamavam às trabalhadoras sexuais — causassem escândalo ou impedissem o trânsito; e também combater incêndios e fiscalizar a residência de estrangeiros.

Pelo levantamento de Maria João Vaz, nas primeiras décadas do Corpo de Polícia Civil de Lisboa, o crime registado era quase em absoluto praticado por pessoas pobres. A historiadora conta que as descrições na imprensa — dos esporádicos casos em que gente rica cometia crimes — vinham acompanhadas de explicações desculpantes. O crime para os pobres era a norma; para os ricos era um desencaminho pontual.

Pretendia-se, analisa Maria João Vaz, preservar “uma vida harmoniosa”, em que os ricos se mantinham ricos e os pobres se mantinham pobres, mas sem morrerem à fome.

Ricardo Esteves Ribeiro: As polícias são sistemas de perpetuação de desigualdades?

Maria João Vaz: Se a lógica da sociedade é baseada em desigualdades, a polícia o que tem é de zelar pela manutenção dessa ordem, certo? Dessa ordem social e política. E pelos interesses das elites, evidentemente. Por isso, evidentemente que vai ser um mecanismo de perpetuação dessas desigualdades. Mas a polícia não tem a tarefa de promover a igualdade. Não é essa a tarefa que ela tem. É promover a ordem, certo? E a segurança.

Ricardo Esteves Ribeiro: Em Lisboa, o povo revoltou-se. As primeiras estatísticas criminais pós-criação da Polícia Civil mostram que mais de um quarto das detenções anuais tinham sido por crimes contra a ordem e tranquilidade pública — onde se incluíam desobediência, falta de respeito à autoridade e intromissão no serviço policial. Nos 15 anos seguintes, esses crimes levaram a cerca de 40% de todas as detenções, a segunda razão mais comum para se ser detido.

A opinião pública contradizia-se. Em 1900, lia-se na revista Galeria de Criminosos Célebres em Portugal: “Hoje, graças à tão censurada polícia, podemos atravessar os bairros mais labirínticos e excêntricos da capital, a toda a hora da noite, com uma bolsa de ouro em cada mão, que ninguém nos toca.” Mas, também, a páginas tantas, se escrevia: “O que toda a gente se lembra é que a polícia prende, e como prende não é boa pessoa. Ódio, pois, à polícia. […] O povo frequentador dos bairros turbulentos está constantemente em conflito aberto com os agentes da autoridade.”

E, para resolver este conflito, o que fazia esta polícia civil? Reforçava o exercício da autoridade.

Ricardo Esteves Ribeiro: Isto é um ciclo vicioso?

Maria João Vaz: É. Mas, perante este confronto, que era uma escalada, normalmente esta coisa só tinha um fim quando os polícias civis desatavam a apitar e chamavam a Polícia Municipal, que, depois, aparecia em cavalo, armada, e tal, e ponha fim à coisa. Porque… Repare, a população não reconhecendo autoridade delegada que os polícias têm… Eles tinham também ideias do que é justo e que não é justo. Ideias próprias daquilo que é justo e que não é justo. Viam a polícia a praticar qualquer coisa que eles achassem que não estava justo, evidentemente reagiam. E é permanente. Os desentendimentos são permanentes.

Ricardo Esteves Ribeiro: Os polícias que compunham o Corpo da Polícia Civil de Lisboa e do Porto eram, essencialmente, homens das classes baixas, vindos da província para as cidades à procura de um emprego estável. “Polícias e ladrões vinham dos mesmos estratos sociais”, diz Maria João Vaz.

No fim do século XIX, Lisboa já era uma cidade altamente estratificada. Nos primeiros quase 40 anos de polícia civil na cidade, o número de habitantes da capital mais do que duplicou: ultrapassou as 350 mil pessoas à entrada do século XX. Nesta altura, cerca de 40% da população do concelho de Lisboa tinha nascido fora do distrito. Entre os mil homens da polícia civil, nove em cada dez agentes eram de fora da cidade. A maioria, de concelhos e freguesias rurais.

Mas, se Lisboa mudou muito desde o século XIX, o perfil destes agentes nem tanto. 150 anos depois da criação da primeira polícia moderna, os agentes que patrulham as duas grandes cidades do país podem continuar a ser descritos como há um século e meio, nos primórdios da instituição: proletários de fora dos maiores centros urbanos trazidos para policiar proletários citadinos.

III

Ricardo Esteves Ribeiro: Não é fácil entrevistar polícias. Não falo sequer da dificuldade de entrevistar alguém que é polícia. Falo da dificuldade de chegar até essas pessoas. No início desta investigação, não conhecia nenhum agente da autoridade. Mas essa nem foi a maior dificuldade. A real barreira foi outra: a própria polícia; a instituição.

Para esta reportagem, focamo-nos na PSP, a Polícia de Segurança Pública. É ela que gere o policiamento das áreas suburbanas de Lisboa e do Porto, onde se situam muitos dos bairros guetizados de Portugal. Foi também a PSP que, na passagem de ano de 2015 para 2016, interveio na Praça Dr. Fernando Amado, à frente do Café Sousa e Monsanto, na Zona J, em Chelas, quando Pedro Lopes e os amigos festejavam a entrada do novo ano. E é na PSP que trabalha o agente Paulo Gonçalves, que diz ter sido agredido por Pedro Lopes.

Ora, a Polícia de Segurança Pública tem como um dos sete princípios da sua política de informação a (cito) “disponibilidade para a comunicação com os órgãos de comunicação social”. Mas, desde 2019 e quase até perto do fim desta investigação, a PSP tentou responder ao trabalho do Fumaça e da Divergente com um boicote quase total.

Não vamos entrar em detalhe nas obrigações legais do regime de acesso à informação administrativa e dos princípios de administração aberta. Mas temos de explicar por que não vais ouvir representantes da direção nacional da PSP a responderem às acusações que surgem neste e nos próximos episódios.

A PSP recusou-nos 12 entrevistas. Queríamos falar dos relatórios internacionais sobre brutalidade policial, das reivindicações de sindicatos de polícias e de outros temas de que vais ouvir falar nesta série. A umas, a direção nacional da PSP, na altura liderada por Manuel Magina da Silva, disse não ter nada a acrescentar. Para outras, nunca conseguiu encontrar espaço na agenda. Durante esta investigação de sete anos, a PSP autorizou uma única entrevista: sobre a formação de oficiais de polícia.

A direção seguinte da PSP, de José Barros Correia, chegou a aceitar responder a perguntas por escrito. Recuou um mês depois, porque não era “conveniente” pronunciar-se enquanto a Inspeção-Geral da Administração Interna tinha um inquérito aberto por um agente da PSP me ter agredido a mim à bastonada, enquanto cobria uma manifestação, em dezembro de 2023. Já o atual diretor nacional, Luís Carrilho, recusou dar-nos uma entrevista por questões de agenda, apesar de termos dado um prazo de seis meses para encontrar uma hora.

Sendo claro: a PSP não é obrigada a vir ao estúdio do Fumaça. Mas, por lei, como quase todas as instituições públicas, tem o dever de, em dez dias úteis, responder a todos os pedidos de acesso a informação e a documentos. Isto quer dizer que, sempre que pedimos, são obrigados a enviar manuais internos, dados estatísticos sobre os recursos humanos ou processos disciplinares, por exemplo. Há exceções, para proteger outros (cito) “interesses fundamentais” do Estado, mas têm de ser bem justificadas.

Só que, em resposta aos nossos pedidos, a PSP violou a lei dezenas de vezes. Não respondeu dentro dos prazos legais, vedou o acesso a informação sem justificação, mentiu sobre a existência de documentos. É um padrão para lá do Fumaça e da Divergente. O regulador estatal para este tema é a Comissão de Acesso a Documentos Administrativos. E a CADA, é assim que se chama, já tinha dado quatro pareceres favoráveis a queixas de jornalistas contra a PSP entre 2018 e 2022. Mas a PSP não seguiu um único. A Polícia de Segurança Pública insiste que costuma (cito) “acolhê-los” na “medida da sua exequibilidade”, de acordo com as leis de privacidade e de segurança interna.

Os pareceres da CADA não são vinculativos. E, várias vezes, a PSP não os seguiu. Portanto, durante meses, insistimos por email e telefone, todas as semanas, às vezes durante dias seguidos. Fizemos uma dúzia de queixas a reguladores públicos. Passámos a ter reuniões mediadas por advogados, num processo conciliatório promovido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social. E, em desespero de causa, levámos a PSP a tribunal para forçar o cumprimento das leis de acesso a documentos. Falamos desses processos noutro episódio.

A própria PSP garante que não há um boicote e que presta (cito) “a informação disponível, observando os procedimentos em vigor que são indistintamente aplicáveis a todos os órgãos de comunicação social”.

Portanto, nalguns momentos vais ouvir dados que a PSP acabou, a muito custo, por enviar. Recusou, de resto, todas as oportunidades de contraditório.

Mas a direção nacional não rejeitou apenas dar entrevistas de viva voz. Impediu também que polícias que lá trabalham o fizessem. Depois de o agente Manuel Morais, por exemplo, ter aceitado ser entrevistado pelo Fumaça em 2019, a PSP proibiu-o de falar, sob risco de ser punido disciplinarmente.

Dirigentes sindicais são os únicos profissionais da polícia que falam a órgãos de comunicação social sem autorização de superiores hierárquicos. Os restantes membros da PSP têm de pedir luz verde às chefias, sob risco de enfrentarem processos disciplinares. Para ultrapassar esta “lei da rolha”, a bem do interesse público, oferecemos, de forma excecional, anonimato a todos os polícias com quem falámos sem autorização da PSP. Vais ouvir estas pessoas com voz e nomes alterados. Aviso sempre que acontecer.

No total, entrevistámos 44 polícias e ex-polícias para esta investigação: 21 em entrevistas curtas, em manifestações ou conferências; 23 durante horas, em estúdio, em casa ou no escritório deles. Chegámos até eles de diferentes maneiras: apelos nas redes sociais, idas a manifestações de polícias, respostas às nossas newsletters, o tradicional boca a boca. E com um deles… Bem, com um deles foi ligeiramente diferente.

Ricardo Esteves Ribeiro: Por acaso, bebia um café. Tu tens moedas para um café?

Sofia da Palma Rodrigues: Tenho.

Ricardo Esteves Ribeiro: Eu e a Sofia da Palma Rodrigues estamos a principiar uma tarde de reportagem em Chelas. Haveríamos de passar umas horas entre entrevistas num vão de escadas de um prédio na Zona J, a uns metros do café onde nos encontramos. Por agora, esperamos confirmação de que as entrevistas que tínhamos agendado vão mesmo acontecer. Sentamo-nos e, enquanto engolimos uma sandes para enganar a fome, o interesse pelo trabalho de quem anda de microfone na mão faz uma funcionária perguntar-nos o que nos traz ali. “Somos jornalistas”, respondemos.

Conversa puxa conversa, juntam-se mais uma e duas pessoas, e acabamos a falar sobre o policiamento do bairro. Contam-nos que a presença da polícia se tinha tornado mais visível nos últimos dias, e também que os polícias que ali vivem são constantemente provocados, e até agredidos. “Este é o café dos polícias, porque estamos debaixo das camaratas”, diz uma. “Mas as camaratas são aqui neste prédio, mesmo?”, pergunto. “Mesmo aqui por cima”, confirmam. “Mas os polícias… moram aqui?”, pergunto, a gaguejar de surpresa. “Vivem mesmo aqui no bairro?”, pergunta a Sofia. “Vivem”, e explica: “Camaratas de um lado e bandidos do outro. E sempre viveram uns com os outros.”

Ricardo Esteves Ribeiro: Porque é que escolheu ficar a viver nas camaratas?

Carlos (anónimo): Porque não tenho capacidade financeira para fazer doutra forma. Eu não tenho capacidade financeira para arranjar uma casa, ou um quarto, ou o que seja, a pagar 400 euros, 500 euros por mês. Não consigo. E depois o que é que iria fazer? Iria roubar? Não, eu sou polícia. Iria traficar? Não, eu sou polícia. Eu quero que o meu filho, os meus filhos tenham orgulho em mim.

Ricardo Esteves Ribeiro: Carlos — vamos chamar-lhe Carlos — é polícia na PSP há coisa de 20 anos. Quando acabou a Escola Prática de Polícia veio para os subúrbios de Lisboa — por escolha, diz. Na terra onde vivia, a mais de 200 quilómetros de distância, deixou a família.

Chegou a dividir casa com outros polícias nos arredores de Lisboa. Por esta altura, vivia mesmo ali, na Zona J, nas camaratas da PSP, que ficam a pouco mais de 200 metros da praça Dr. Fernando Amado, onde Pedro Lopes e Paulo Gonçalves dizem ter sido agredidos na passagem de ano de 2015 para 2016, e onde esta história começa.

Partilhava a camarata com 43 colegas. Diz que já lá viveram 100, todos homens. Aqui, em vez de centenas de euros por um quarto num mercado a rebentar pelas costuras, pagava um valor que considera “simbólico”: pouco mais de 20 euros por mês.

Ricardo Esteves Ribeiro: E como é que são as condições? Como é que… É um quarto? É uma casa? É um apartamento?

Carlos (anónimo): Não. Aquilo são vários quartos onde estão, em média, sete a dez elementos policiais por quarto.

Ricardo Esteves Ribeiro: Sete a dez por quarto?

Carlos: Sim, sim.

Ricardo Esteves Ribeiro: Em beliches?

Carlos: Sim.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, dorme num beliche?

Carlos: Durmo.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ah. Não fazia ideia.

Carlos: Sim. Não. É. E relativamente há pouco tempo é que alteraram os colchões, porque antigamente os colchões até eram, assim, um bocado… Eram de esponja, muito antigos, assim, já podres mesmo. E agora é que puseram uns melhorzinhos e fizeram algumas reestruturações, já cá há coisa de uns anos, nas camaratas, que ficaram a cargo até dos polícias.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, os polícias puseram dinheiro para mudar?

Carlos: Tempo. Foram os polícias que em vez de estar a fazer serviço de polícias, se queriam ter algumas condições, foram eles que arranjaram as camaratas.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, há vários anos que divide quarto com mais sete, oito, nove pessoas?

Carlos: Exactamente.

Ricardo Esteves Ribeiro: E como é que isso funciona?

Carlos: O ser humano adapta-se. Funciona… Várias pessoas, várias personalidades. Temos que nos entender uns aos outros. Respeitar o espaço de cada um. Tentar fazer o mínimo de barulho possível para não incomodar, porque ainda agora quando eu saí, tinha um colega meu acabado de fazer noite… Não vou estar a fazer barulho. E agora quando chegar não vou estar a fazer barulho que ele quer descansar. Tem que descansar, porque quando também faço noite também tenho que descansar.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas o nível de privacidade é baixíssimo.

Carlos: Não existe. Eu, se quiser falar com minha família, tenho que vir para o corredor, ou tenho que ir para outro sítio qualquer. Porque vou estar a falar e os meus colegas estão a conversar entre eles e eu não posso exigir que eles se calem. “Olha, não, espera lá que agora vou falar com a minha família. Façam pouco barulho.” Não, não acontece. Eu, se quiser falar com a minha família, tenho que vir para o corredor. Eu e qualquer um.

Ricardo Esteves Ribeiro: E depois há espaços comuns? Cozinha?

Carlos: Uma cozinha, sim.

Ricardo Esteves Ribeiro: Há uma cozinha que é usada por quantas pessoas?

Carlos: Todas.

Ricardo Esteves Ribeiro: Que são…?

Carlos: Quem lá está naquele momento a habitar. Se estiverem lá, suponhamos… Há pessoal que está de folga, não é? E esse pessoal não está lá. Aqueles que não estão de folga que habitam lá estão lá todos. Se lá estiverem 20, são 20 que vão cozinhar e comer ao mesmo tempo. É ficar a aguardar.

Ricardo Esteves Ribeiro: E é uma cozinha para essas pessoas todas?

Carlos: Uma cozinha. Essa cozinha já esteve lá com 50 pessoas à espera para fazer comer.

Ricardo Esteves Ribeiro: E quantas casas de banho?

Carlos: Cada compartimento tem uma casa de banho. Ou seja, são seis compartimentos e cada um tem uma casa de banho. Uma casa de banho com três chuveiros, duas sanitas para 20, sensivelmente. 20 homens.

Ricardo Esteves Ribeiro: A PSP garante que os polícias não são responsáveis pelas obras nas camaratas. Afirma que é a própria polícia ou a empresa pública dona de cada edifício a fazê-las.

Fora este esclarecimento, não foi fácil ter dados sobre o alojamento de polícias. Primeiro, a PSP disse-nos que não sabia quantas pessoas lá moravam, nem quanto pagavam de renda.

Pareceu-nos improvável, portanto, fizemos queixa à CADA. A comissão sugeriu à PSP “reverificar” a existência da informação. Quatro meses depois, recebemos uma parte das respostas.

A PSP garante que nas camaratas do Bairro do Condado havia, no final de 2023, no máximo, seis camas por quarto. E nem estava cheia: tinha duas a três ocupadas. Muito menos do que Carlos relatou uns tempos antes.

No total, a PSP diz que, no comando de Lisboa, há 265 polícias em camaratas. Pagam 19 a 52 euros por mês. Há outros 220 em apartamentos partilhados. Aí pagam, no máximo, 185 euros por uma suite dupla.

Havia, em abril de 2025, mais de 100 camas vazias nestes apartamentos. Os polícias preferem as camaratas, diz a PSP, por serem mais próximas da esquadra. Mas o objetivo é substitui-las pelas casas partilhadas. Para isso, os Serviços Sociais da PSP compraram três prédios para alojar 200 polícias na Amadora e nos Olivais. E vão construir mais quatro no distrito de Lisboa, com fundos europeus. Em 2023, a câmara de Lisboa também cedeu 18 apartamentos para este efeito.

Sobre as condições físicas, em 2016, uma notícia do Correio da Manhã dava conta de um quarto lotado na camarata da PSP na Ajuda, em Lisboa. Uma divisão escura que, pela fotografia, parecia ter menos de dois metros a separar as várias camas. Três anos depois, em 2019, fotografias divulgadas pelo Público mostravam paredes rachadas e com humidade na mesma camarata da Ajuda, e também em Braga, Entroncamento e Faro; e tetos degradados e casas de banho esburacadas em instalações no Porto. Em 2021, a PSP garantiu já ter feito obras. E diz-nos que ainda recuperou mais dez quartos nos anos seguintes.

Por todo o país, tem perto de 300 instalações para alojar polícias. Em 2023, diz que, dessas, 15% não estão em boas condições. Garante ainda ter desenvolvido “intervenções em parte significativa” delas e, até ao fim de 2025, contava terminar uma “empreitada de reabilitação de 1,2 milhões de euros.

Quando perguntamos a Carlos como é viver na Zona J, responde que “nunca teve problemas de maior”. Alguns colegas, sim, já foram ameaçados, já tiveram carros furtados ou danificados, e um deles chegou mesmo a ser agredido e a ficar com o telemóvel partido. Já ele diz sempre ter conseguido encontrar um espaço de diálogo com quem mora no bairro. Mas isso não significa que lá queira viver: desde que veio para a zona metropolitana de Lisboa, há mais de 20 anos, que deseja voltar a casa. Até que isso aconteça, usa as folgas para visitar a família.

Ricardo Esteves Ribeiro: E vai todas as semanas?

Carlos (anónimo): Todas as semanas.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, todas as semanas faz centenas de quilómetros para conseguir ir a casa e voltar?

Carlos: Sim. Sim. Cansativo.

Ricardo Esteves Ribeiro: E já pensou voltar?

Carlos: Já pensei ficar lá, sim. Já pensei muitas vezes deixar a profissão e ficar lá.

Ricardo Esteves Ribeiro: E já sabia que era assim quando entrou?

Carlos: Não. Quando eu cheguei, o que me disseram é que era “Ah, não, dez, onze aninhos, estás lá. E eu: “Ok, dez, onze, é perfeitamente aceitável. Percebo que não seja fácil vir para cá, porque é um comando pequeno”. Mas… mais de 20 anos, nunca pensei. Não estava, não estava mesmo nas minhas perspetivas.

Ricardo Esteves Ribeiro: Em mais de 20 anos, quantas vezes é que foi passar o Natal ou fim de semana a casa?

Carlos: Natais a casa… Ora bem, isso aí, isso aí, é…. Provavelmente, cinco. Cinco natais.

Ricardo Esteves Ribeiro: E fins de ano?

Carlos: Nenhum.

Ricardo Esteves Ribeiro: Trabalhou todos os fins de ano?

Carlos: Todos os fins de ano. Todos os fins de ano.

Ricardo Esteves Ribeiro: Susana Durão, a antropóloga que ouvimos há pouco, chama a estes polícias “citadinos forçados”, com “o coração em casa, na ‘terra’, e o corpo na cidade”.

Perguntámos à PSP qual a naturalidade dos polícias que emprega e quantos estão deslocados. Recusaram dizer, primeiro porque era um dado pessoal, depois, porque ia pôr em causa a segurança dos agentes. Acabaram por dizer que nem tinham a informação, sugerir que a conseguiam compilar, e, no fim, recusar dedicar recursos humanos a juntar os dados.

Ainda assim, investigação académica produzida nesta matéria e a experiência empírica dos polícias que entrevistámos para esta série vão ao encontro da definição de Susana Durão — pelo menos para a cidade de Lisboa, que emprega mais de um terço dos polícias.

As comparações entre quem são os polícias de hoje e quem eram há 150 anos, quando foram criadas as primeiras polícias modernas, não se esgotam no facto de grande parte acabar deslocada da terra onde nasceu para policiar as grandes cidades, ao serviço do Estado. O resultado da migração é também parecido: no século XIX, os agentes que abandonavam as famílias à procura de melhores vidas, salários mais altos e empregos mais estáveis, acabavam precários. Hoje acontece o mesmo a estes homens — uns nove em cada dez são homens.

Quando Carlos entrou na polícia, recebia um salário base bruto um pouco acima dos 600 euros. Quase 80% acima do então salário mínimo nacional. Em 2025, um polícia em início de carreira recebe pouco mais de 1000 euros de ordenado base. 17% acima do salário mínimo.

Carlos (anónimo): Ou seja, eu conseguia ter uma estabilidade financeira, de certa forma, garantir condições de vida, para mim e para a minha família que atualmente não consigo. Atualmente o ordenado mínimo está colado ao ordenado de um polícia que sai da Escola Prática de Polícia.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, o ordenado mínimo cresceu nestas últimas duas décadas e o ordenado dos polícias manteve-se mais ou menos igual.

Carlos: Exatamente, estagnado.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, isso significa que, hoje em dia, quando alguém decide “quero ir para a polícia ou não quero ir para a polícia” há muitas outras profissões onde não ganhava assim tão menos e tinha muito menos…

Carlos: E ganhava bem mais. Agora, qualquer operador de um supermercado — e, atenção, não desprezo qualquer que seja a profissão que for. Acho que todas elas são importantes, todas elas são necessárias. O que podemos verificar aqui é a responsabilidade de cada uma. Eu não entendo que a responsabilidade de um operador de uma caixa de um supermercado, por melhor profissional que seja, seja a mesma de um elemento policial que anda com uma arma de fogo à cinta. Não é igual.

Ricardo Esteves Ribeiro: Nos anos 90, garante a agência Lusa, chegaram a candidatar-se à PSP 16 mil jovens num ano. Desde 2019, não se tem conseguido sequer preencher as mil vagas da Escola Prática de Polícia. Em 2020, no segundo ano em que ficaram lugares vazios, a PSP dizia que a quebra (cito) “indicia alguma falta de atratividade da função policial que urge recuperar e que a PSP tudo fará para conseguir”. Mas dois anos depois, com um terço dos lugares por preencher, cortou as vagas anunciadas para metade. Já em 2025, voltou a subir para as 800.

Os números que vais ouvir agora são os únicos que a PSP nos enviou ao primeiro pedido, dentro do prazo legal: em média, a remuneração base na PSP está um pouco acima dos 1500 euros por mês. São contas nossas considerando a distribuição real de polícias por categoria. Podes ver a tabela completa e muitos dos outros dados que ouves neste episódio em www.fronteiradomedo.pt.

Mas o que ganham polícias em média é diferente do que ganha a maior parte dos polícias. A PSP tem três carreiras: agentes, chefes e oficiais — por esta ordem hierárquica e de remuneração. A média do salário base, bruto, de oficiais — os que estão no topo da carreira — está pelos 2400 euros por mês, a de chefes pouco acima dos 1700. Já os agentes, que compõem cerca de 85% da corporação, estão a receber em média um salário base, antes de impostos, de 1460 euros por mês.

Esta explicação vai complicar-se um pouco, mas mantém-te comigo. Já vimos que a PSP tem três carreiras: a de agentes, a de chefes e a de oficiais. Subir de uma carreira para a seguinte é difícil e implica tirar o curso de formação de chefes e o curso de formação de oficiais de polícia.

Mas, dentro de cada uma das carreiras, há subidas de escalão por antiguidade e avaliação de desempenho e disciplina. A carreira de agente, por exemplo, tem três patamares: agente, agente principal e agente coordenador. Perto de um em cada seis elementos da PSP estão neste primeiro patamar — agente — a receber, em média, nem 1100 euros brutos de salário base.

Carlos é agente principal, o escalão seguinte. Vinte anos depois de entrar na polícia, está na segunda categoria da carreira. Tem um salário base de cerca de 1440 euros por mês. É um aumento real, ajustado à inflação, de 48% face ao que ganhava há mais de duas décadas. Pelos censos mais recentes, só até 2021, também ajustado à inflação, o valor médio de uma renda para habitação na Grande Lisboa subiu quase três vezes mais: 130%.

Dependendo das equipas em que cada agente é incluído e das tarefas que faz, podem receber suplementos de turno ou de patrulha. Todos têm um suplemento por serviço e risco (vamos falar mais sobre isto no próximo episódio) e ainda direito a subsídio de alimentação. E todos descontam para o IRS, os serviços sociais da PSP, o SAD (um subsistema de saúde para polícias), entre outros. Feitas as contas: em 2025, Carlos levava para casa, limpos, ao final do mês, menos de 1400 euros. Um agente em início de carreira, solteiro, sem filhos, a receber o primeiro salário, não chega aos 1000 euros líquidos por mês.

Mas também é preciso dizer que uma parte substancial da remuneração de polícias não vem de salários, subsídios ou suplementos. Vem de trabalho em horas extra.

Ricardo Esteves Ribeiro: Quantas horas é que costuma trabalhar por semana?

Carlos (anónimo): Por semana? Ora bem, as oito normais. Ainda ontem foram cinco horas de remunerado, mais as oito horas normais, por exemplo.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas isso não é todos os dias, ou é?

Carlos: Não, não é todos os dias.

Ricardo Esteves Ribeiro: Quantos dias é que costuma fazer remunerados por semana?

Carlos: Em média, estamos a fazer remunerados três, quatro dias.

Ricardo Esteves Ribeiro: Vezes, sempre cinco horas, mais ou menos?

Carlos: Quatro horas. É raro acontecer cinco.

Ricardo Esteves Ribeiro: Então, vamos dizer, entre 50 e 60 horas por semana.

Carlos: Sim, sim.

Ricardo Esteves Ribeiro: Remunerados — ou “gratificados” — são serviços realizados por polícias em horário pós-laboral, por requisição de entidades que não a Polícia. Ou seja, quando entidades públicas — como as câmaras municipais — ou privadas — como supermercados, ou clubes de futebol — pagam à polícia para vigiar um local ou um evento. E a PSP ou a GNR, por sua vez, recorrem aos seus trabalhadores, pagando-lhes um extra por cada hora trabalhada.

Ricardo Esteves Ribeiro: E porque é que faz tantos?

Carlos (anónimo): Porque tenho uma família. Eu tenho uma casa. Tenho contas para pagar. Tenho que as pagar. Não tenho uma vida de luxo. Não. Não tenho. Porque não é com um ordenado, como eu lhe mostrei, que uma pessoa consegue ter uma casa, ter uma família, e conseguir gerir isso tudo… Não é fácil.

Ricardo Esteves Ribeiro: Não é rara a situação de Carlos. A maioria dos elementos da PSP faz trabalhos remunerados. Em 2024, dois terços do efetivo aceitou estes serviços extra. Em média, cada um desses polícias fez 23 horas extra por mês; levou para casa mais 300 euros para além do ordenado normal.

Em 2023, perguntámos ao então ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, se, considerando tudo o que ouviste até aqui, achava a carreira policial atrativa. Garantiu que: “A valorização dos salários, das condições de vida e das condições de trabalho dos elementos das forças de segurança foram as prioridades políticas do ministério”.

Podes ler em www.fronteiradomedo.pt a lista de medidas que elencou para o provar. As ministras que se seguiram na tutela, Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral, nunca chegaram nem a aceitar nem a recusar uma entrevista.

Dos polícias com quem falámos a fazer este trabalho, muitos estão deslocados. Vão a casa nas folgas, mandam para lá parte do dinheiro que fazem em Lisboa. E esperam por transferência para outros comandos.

Sobre isto, como sobre várias outras coisas, a PSP mentiu-nos. Disse que não nos conseguia indicar quantos polícias esperavam por uma transferência porque a lista estava em atualização constante. Mas, ao fim de nove meses e três intervenções da CADA, no fim de 2023, enviaram-nos os números da última década. Já em abril de 2025, aceitaram atualizar o valor: quase cinco mil elementos da PSP estava na lista de espera para uma transferência. Perto de um quarto do efetivo não quer trabalhar no sítio onde está colocado.

Na última década, 55% de todas as transferências na PSP foram para sair do comando de Lisboa. O tempo de espera depende de para onde se quer ir. No pior caso, uma transferência de Lisboa para Viseu, há um polícia a aguardar autorização há 24 anos. Para ir para o comando de Coimbra, distrito de onde é o agente Paulo Gonçalves, 19.

Pedro Carmo, polícia há quase 30 anos, foi presidente da Organização Sindical da Polícia, um dos sindicatos da PSP que, em 2025, se fundiu com um outro sindicato, o SINAPOL.

Pedro Carmo: Lisboa é um sítio de passagem, porque a maior parte dos candidatos não são de cá, são do Norte.

Ricardo Esteves Ribeiro: E, na verdade, querem voltar para lá.

Pedro Carmo: Claro que sim, embora as transferências estejam muito demoradas. Eu posso dizer que, no meu tempo, de uma escola para a outra ia-se para o Porto. Ou seja, no mesmo ano, acabava a escola e a seguir iam logo para o Porto, e agora demora 15 anos a conseguir uma transferência para o Porto, que é o comando mais rápido.

Ricardo Esteves Ribeiro: A seguir a Lisboa

Pedro Carmo: A seguir a Lisboa. Talvez as ilhas demorem um bocadinho menos, mas também o efetivo das ilhas é menor.

Ricardo Esteves Ribeiro: Pedro Carmo não tinha forma de saber, mas o que diz não está certo. Pelos dados que a PSP agora enviou ao Fumaça, ir de Lisboa para o Porto leva sete anos, não 15. Mas é dos mais rápidos. Para metade dos comandos da PSP pelo país, o tempo de espera para uma transferência está acima dos dez anos.

Polícias recém-formados não vêm para Lisboa apenas porque querem. Vêm também porque, muitas das vezes, é a única hipótese depois de terminarem a Escola Prática de Polícia.

Pedro Carmo: As pessoas candidatam-se, ficam numa lista e, mediante a decisão da hierarquia do ponto de equilíbrio do efetivo dos comandos, abrem vagas para aqueles comandos. Quando há uma escola, acaba a escola, esses colegas são automaticamente enviados, normalmente, para Lisboa, que é onde há vagas. Porquê? Porque as outras vagas vão ser ocupadas pelos outros estão à espera.

Ricardo Esteves Ribeiro: A cada ano, há uma dança de cadeiras nos comandos da PSP. Reformam-se uns quantos polícias, mudam-se outros de freguesia, e os poucos lugares que abrem são distribuídos por quem está há anos à espera.

Um dos critérios para que um pedido de transferência seja aceite é — citando o estatuto da polícia — a “satisfação das necessidades e interesses do serviço”. Ou seja, se mudar um polícia de comando vai tornar o policiamento mais eficaz. Para além disso, também é possível ser-se transferido quando se recebe uma promoção, ou “por motivos disciplinares”.

Ao Fumaça, a PSP sublinha que tem “poder discricionário na gestão do seu efetivo” e “a obrigação de zelar pelo interesse público”. Significa que, em regra, cito, “quando um membro efetivo de um comando de polícia é colocado noutro, tem que, sempre que possível, ser colocado um outro em substituição do que foi transferido”.

Marisa Dolores, polícia na PSP, psicóloga clínica e dirigente na Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, o maior sindicato do setor.

Marisa Dolores: Temos colegas a 300 e 400 quilómetros de casa, em que são apelidados um bocadinho de “os colegas de mochila às costas”. Imagine, eles trabalham seis dias aqui em Lisboa e, para irem para a terra quatro dias, eles só vêem os filhos e a mulher quatro dias a cada seis. Como é que se constrói uma relação à distância? É difícil. Agora, imagine uma relação destas durante dez, 12, 13, 15 anos, 20 anos. Ser polícia é mau para a saúde. Ser polícia é mau para a gestão familiar. Ser polícia é mau para a gestão financeira, porque temos que pagar cá casa… casa não, quarto. Nós não temos a dignidade de ter um ordenado suficiente para pagar uma casa em Lisboa, mas sim um quarto, em que normalmente partilhamos com outros colegas. Ou, eventualmente, um quarto numa casa partilhada com outros colegas. Nós não conseguimos ter a dignidade de ter aqui casa em Lisboa e ter casa na terra. Ou temos casa em Lisboa e não temos casa na terra; mas para não ter casa na terra não podemos ter família na terra; se queremos ter a família na terra, não podemos ter casa em Lisboa, portanto, temos que partilhar um quarto. O que lhe estou a dizer é que ser polícia é um bocadinho doentio em termos familiares, em termos económicos, em termos sociais, porque perdemos as nossas redes de amigos, com os anos. Não conseguimos manter os amigos na terra e os amigos em Lisboa. E, quando o conseguimos manter, é uma logística gigante, tanto emocional como psicológica.

IV

Leonel (anónimo): Estava numa situação normalíssima, um Pingo Doce, um gratificado normalíssimo. Quem nunca fez um Pingo Doce, não é? […] A realidade é que eram quatro indivíduos negros. […] A verdade é que a maior parte das situações assim, porque é nos bairros, é com pessoal de ascendência africana. E que eles entravam pelo Pingo Doce adentro e vinham mesmo diretos a mim, para me confrontar. Depois eu estava ali num stress, numa ansiedade do que é que eu tinha que fazer. Vinham quatro, vinham a andar diretos a mim, ainda não tinham feito nada, mas tu vias, tu consegues ler as pessoas, consegues ver quando é que elas vêm para arranjar confusão.

E o meu dilema era: o que é que faço neste preciso momento que eles estão a vir? Estás dentro de um supermercado, está cheio de gente e quais são os meios que tens à tua mão, o que é que não tens, não tens rádio sequer para pedir apoio…

E depois acordo com esse dilema de eles me estarem já… Já se estarem a virar a mim e eu estar basicamente a ter que andar à chapada com quatro. E acordas assim todo desorientado, assim… Aqueles segundos em que ainda não sabes se estás a sonhar ou se aquilo é a sério. Pronto… E, como eu, há mais colegas, de certeza, a quem isto acontece. Já me aconteceu uma vez ou duas o pessoal, já não sei como, em conversa, tipo, assumir isso. Claramente, como eu, de certeza que há outro pessoal que tem situações de stress, ou assim, que, se calhar, devia ser… Que era importante falar sobre isso, mas eu não conheço mais nenhum polícia que faça, pelo menos assumido, ou que me tenha contado, que faça… Que tenha acompanhamento… Epá, que faça psicoterapia.

Ricardo Esteves Ribeiro: Leonel — nome fictício e voz alterada — era polícia há pouco mais de cinco anos, em Lisboa, quando conversámos pela primeira vez, em 2021. Depois de uns dias para trás e para a frente até conseguir encontrar um buraco na agenda que não estivesse preenchido com turnos ou gratificados, veio ter comigo à redação.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas quantas sessões de psicoterapia é que tu tiveste desde que entraste para a PSP?

Leonel (anónimo): Pela polícia, nada. Nenhuma, nunca tive nem nunca falei com nenhum psicólogo da polícia nem nunca… Esse acompanhamento não há.

Ricardo Esteves Ribeiro: A única vez que Leonel se lembra de ter falado com o departamento de psicologia da PSP foi quando ainda era aluno do curso de formação de agentes, na Escola Prática de Polícia. Depois disso, foi colocado em Lisboa e, desde aí, nunca mais teve uma consulta com um psicólogo da PSP. Acontece o mesmo aos colegas com quem trabalha. A não ser que se detete um “comportamento estranho” — palavras dele — ou algum comandante diga “Olhe que aquele elemento não anda bem”, polícias podem andar anos, décadas, sem acompanhamento psicológico regular.

Mas Leonel não se contentou com essa sorte. Começou a ter consultas de psicoterapia ainda antes de ser polícia. Até hoje, não sabe de qualquer colega que faça psicoterapia regularmente — nem dentro nem fora da polícia. Ele também não lhes conta.

Leonel (anónimo): Só um colega meu é que sabe.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas porquê?

Leonel: Porque eu não tenho confiança. Quer dizer, há colegas com quem eu tenho confiança e que são… Com quem tenho confiança, posso-lhes contar muita coisa da minha vida, mas isso, em específico, não conto. Epá, porque eu tenho noção que é possível que seja olhado um bocado de lado, ou… É como se… É como se duvidassem das tuas capacidades. Tu podes ser uma pessoa super operacional e capaz e que situações de stress… […] “Se for preciso ir ali para o meio do bairro, numa operação qualquer, se calhar já não… Ah, o não sei quantos, como faz… Como é maluquinho, ainda se passa, ainda pega na arma e dá para lá uns tiros”. O que é ridículo, não é? Se calhar, estou mais bem preparado, porque tenho as coisas mais bem resolvidas dentro da minha cabeça do que eles, só que isso não é entendido assim.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas como é que, então, quem não faz terapia — porque, obviamente, pelo que me parece, não há, pelo menos, sessões regulares, não há acompanhamento regular…

Leonel: Não, não há acompanhamento.

Ricardo Esteves Ribeiro: Como é que, como tu dizias, as pessoas “resolvem as coisas da cabeça” deles, não é?

Leonel: Pois, não resolvem.

Ricardo Esteves Ribeiro: Porque ser polícia significa ter…

Leonel: Não resolvem.

Ricardo Esteves Ribeiro: O acompanhamento psicológico dentro da PSP não era, à partida, um dos temas prioritários desta série. Mas, à medida que fomos conversando com mais e mais polícias — de diferentes contextos, com diferentes carreiras —, ficou claro que a saúde mental é um tema nesta profissão.

João, nome fictício e voz alterada.

Ricardo Esteves Ribeiro: Quantas sessões de terapia com psicólogos é que tu tiveste desde que entraste na PSP?

João (anónimo): Nenhuma. Já tive testes. Sim. Já tive testes psicotécnicos. Já tive… Ya. Mas com um psicólogo nunca fui a nenhuma reunião. Não. Só fui fazer os testes.

Ricardo Esteves Ribeiro: Há quanto tempo é que és polícia?

João: Sou há 15 anos.

Ricardo Esteves Ribeiro: Miguel Oliveira Rodrigues, dirigente no Sindicato Independente dos Agentes de Polícia.

Ricardo Esteves Ribeiro: Quando é que tiveste essa consulta?

Miguel Rodrigues: Há cerca de dois anos.

Ricardo Esteves Ribeiro: Portanto tu estiveste 15 anos na polícia sem nunca ter tido uma consulta de psicologia?

Miguel Rodrigues: Eu e, se calhar, muitos durante os 30 anos que foram polícias nunca tiveram nenhuma.

Ricardo Esteves Ribeiro: Vasco, nome fictício e voz alterada.

Ricardo Esteves Ribeiro: Não há consultas de rotina psicológicas dentro do…?

Vasco (anónimo): Não. Não. Não. Nenhuma consulta de rotina. Tu atravessas situações que, se calhar, poderiam chocar qualquer pessoa… Sei lá, desde crianças mortas à tua frente, desde cenas de homicídio que, se calhar, reviravam o estômago às pessoas mais sensíveis… E tu sais daquela ocorrência e tens que entrar no dia seguinte às 8h como se nada fosse, e tens que ir para casa e lidar com os teus problemas todos em casa como se nada fosse.

Ricardo Esteves Ribeiro: Pedro Carmo, na altura dirigente da Organização Sindical da Polícia, que já ouvimos neste episódio.

Pedro Carmo: É uma coisa que a gente vai aprendendo a fazer na polícia é… Não é esquecer, mas é tipo dissolver na mente aquilo que nos perturba, é um bocado isso. A gente vai dissolvendo. Elas ficam cá, mas a gente vai dissolvendo e esquece as datas, esquece os episódios, e tenta, de alguma forma, andar para a frente.

Ricardo Esteves Ribeiro: Carlos, o polícia que vive na camarata da Zona J, em Chelas, que ouvimos há pouco.

Ricardo Esteves Ribeiro: E quantas sessões de terapia com psicólogos é que teve desde que entrou na PSP?

Carlos (anónimo): Nenhuma. É verdade que existe um gabinete de apoio. Eu pessoalmente nunca tive, mas conheço colegas meus que sim, que recorreram e que foram ajudados.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas apenas em emergência, no sentido em que eles pediram?

Carlos: Emergências, sim.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, não há rotina de acompanhamento psicológico?

Carlos: Não, não, não.

Ricardo Esteves Ribeiro: Deveria haver?

Carlos: Deveria, sim, deveria haver. Eu acho que… Eu acho que é um problema que se varre para debaixo do tapete. Eu tenho casos de colegas que só, porquanto foram ao psicólogo, porque precisavam desabafar, não sei, lá os problemas deles, entravam nas esquadras e até os próprios chefes, os comandantes diziam: “Então, já tomaste o comprimido?”

Ricardo Esteves Ribeiro: A sério?

Carlos: E eu olhava para aquilo e dizia: “Então, mas vocês querem ajudar, querem enterrar? Epá, agarrem e dêem a arma ao homem. E depois, olha, vão buscar o corpo.”

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas isso deve fazer com que ninguém então vá….

Carlos: Foi o que eu disse…

Ricardo Esteves Ribeiro: ….ao acompanhamento psicológico.

Carlos: Claro. Se tiver que o fazer, nunca irei ao acompanhamento psicológico da polícia.

Ricardo Esteves Ribeiro: Vai um privado.

Carlos: Vou a um privado.

Ricardo Esteves Ribeiro: E paga do seu bolso.

Carlos: E pago do meu bolso.

Ricardo Esteves Ribeiro: E que consequências é que o não acompanhamento tem no policiamento?

Carlos: Se calhar, suicídios de muitos colegas meus.

Ricardo Esteves Ribeiro: As forças de segurança estão mais do que identificadas como um dos grupos prioritários para intervenção em prevenção do suicídio. Entre 2004 e 2024, 78 polícias suicidaram-se, segundo a PSP. A GNR recusou enviar quaisquer dados, contrariando um parecer da CADA. Pedimos também ao Ministério da Administração Interna de Margarida Blasco. Não enviaram.

Uma das razões para polícias não pedirem ajuda? O salário. Agora, Luís Maria, então dirigente da Organização Sindical da Polícia, que se fundiu com o SINAPOL em 2025.

Luís Maria: Eu posso-lhe dizer, daquilo que conheço, porque tenho acompanhado n casos, n casos… A instituição não está preparada para pessoas que tenham, por exemplo, stress pós-traumático, síndromes depressivos, síndromes de ansiedade. Não está preparada para isso. Porque estigmatiza, isola, desarma e cria problemas maiores ainda.

Ele é o graduado de serviço e eu trabalho com ele. Eu chego ao pé dele: “Ó chefe Carmo, epá, passou-se isto, assim, assim, estou a bater mal, e tal.” Eu vi dar esta resposta a muitos colegas: “Opá, caga nisso. Manda foder isso, caga nisso.” Mas isso não é psicologia. Isso é um gajo dizer assim: “Agora não me lembro disto, mas lembro-me daqui a um bocado. Daqui a um bocado não me lembro, mas lembro-me depois.” E depois anda uma data de tempo a lembrar-se das coisas, não é? Porque o trauma psicológico, ou mental, ou seja lá o que for, não sei como é que hei-de chamar, não sou especialista, o trauma está lá e tem que ser tratado. O trauma tem que ser tratado. Como é que eles tratam…

Ricardo Esteves Ribeiro: Em muitos casos é uma doença, tem que ser tratada.

Luís Maria: Escute, como é que eles tratam o trauma? Tiram-lhe a arma de serviço, porque têm medo que você se mate. O que é que lhe vão causar com isso? Perde o suplemento de patrulha. Não pode fazer turnos, perde o suplemento de turno.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, quem está doente, com uma doença mental…

Luís Maria: Ainda fica prejudicado financeiramente.

Ricardo Esteves Ribeiro: Perde dinheiro?

Luís Maria: Perde dinheiro. Perde dinheiro. Perde dinheiro.

Ricardo Esteves Ribeiro: A relação entre o acompanhamento psicológico e a retirada da arma de serviço não é tão causal como Luís Maria parece indicar. Mas a mesma ideia paira na cabeça de vários dos polícias com quem falámos.

No entanto, o que nos explicam duas profissionais de saúde que trabalham com polícias é que a arma só é retirada em casos graves, quando se acredita existir um risco concreto de a pessoa se magoar a si ou a outros. É o que está descrito no Estatuto de Profissionais de Polícia: “Quando existam fundados indícios de perturbação psíquica ou mental.” Ou seja, quando um polícia tem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, a arma não lhe é retirada automaticamente.

Só que ficar sem a arma de serviço pode equivaler a uma perda financeira significativa. Pode chegar a centenas de euros por mês, se estiver em causa a perda de subsídios de turno, de patrulha ou remunerados extra, porque o agente é afastado das ruas e relegado a funções de apoio. E isso poderá contribuir ainda mais para o estigma.

Susana Pinto Almeida, psiquiatra prisional no Hospital de São João de Deus, em Caxias, perita forense no Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, e co-autora de um estudo que recolheu as perceções de mil militares da GNR sobre saúde e doença mental.

Susana Pinto Almeida: Se eu estou a exercer uma profissão, e que essa profissão exige que eu traga comigo uma arma, à partida, e todos nós sabemos que será assim, estas pessoas estão capacitadas psiquicamente — nem sequer estou a falar da parte física, obviamente estão mais do que habilitados para lidar com armas de fogo —, mas da parte psíquica serão pessoas que estão aptas. O que exige que, periodicamente, estes agentes sejam sujeitos a uma avaliação do seu estado mental.

Ricardo Esteves Ribeiro: Desde 2007, todos os polícias têm de passar por uma reavaliação psicológica regular. São feitas pelo departamento de psicologia da PSP: em 2025, estavam lá empregues 47 psicólogos. Dão consultas regulares em todos os comandos de polícia do país, menos em Viana do Castelo. Não há departamento de psiquiatria.

De acordo com a PSP, desde 2018, mais de 22 mil polícias passaram por consultas de despiste no departamento de psicologia. É mais do que todo o efetivo. Só em 2024, foram mais de cinco mil. Mas o resultado destas consultas, diz-nos a própria PSP, não é afastar polícias do serviço. O objetivo é, apenas, encaminhar polícias para terem consultas regulares de psicoterapia, caso precisem.

E, aí, a Polícia garante desconhecer que cobertura tem, porque não regista quantos polícias estão a ter acompanhamento. Sabe que, em 2024, os psicólogos que emprega deram pouco mais de 15 mil consultas. E tem um único número para os polícias abrangidos: dos mais de 12 mil que foram reavaliados desde 2022, nem 200 pediram para ter acompanhamento psicológico. Nos anos anteriores, não fez qualquer registo.

Antes de recebermos estes números, perguntei à psiquiatra Susana Pinto Almeida sobre o caso de um dos agentes que acabaste de ouvir, na polícia há quatro, cinco anos, sem alguma vez ter falado com um psicólogo.

Susana Pinto Almeida: Pois, isso é preocupante, não é? Pelo menos eu julgo que será de preocupar, se assim for. E esse agente tem capacidade para perceber que precisa de ajuda psicológica e procurou essa ajuda. Mas quantos não existirão que não têm essa capacidade para perceber que precisam dessa ajuda? Ou, mesmo que tenham, ou não têm capacidade económica para pagar consultas particulares de psicologia, porque as consultas particulares de acompanhamento psicoterapêutico terá que ser semanalmente, ou duas em duas semanas, dependendo do que for acordado entre o terapeuta e o agente da PSP, mas, não tendo essa capacidade económica, de certeza que, dificilmente, irão chegar à tutela pedir para serem avaliados, ou para serem observados, ou para serem acompanhados, não é?

Ricardo Esteves Ribeiro: Lúcia Pais é psicóloga e, desde 2006, professora no Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna, onde se formam os oficiais da PSP. Não sabe ao certo quantos polícias já entrevistou na sua vida, mas não ficaria surpreendida se fossem à volta de 200.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas quantos polícias da PSP é que conhece que têm acompanhamento psicológico?

Lúcia Pais: Quer dizer, não sei quantos. Mas existem pedidos, não é? Quer dizer, há pessoas que são acompanhadas. Fora.

Ricardo Esteves Ribeiro: Fora da PSP?

Lúcia Pais: Claro!

Ricardo Esteves Ribeiro: Porque claro?

Lúcia Pais: Precisamente por causa do estigma que existe e por causa do receio que existe de ser olhado como menos valioso, menos confiável, mais fraco.

Ricardo Esteves Ribeiro: E, portanto, os polícias têm que sair da PSP, pagar do seu próprio bolso a…?

Lúcia Pais: Vamos lá ver: não têm que. Mas isso acontece.

Ricardo Esteves Ribeiro: É que a maior parte dos polícias que eu entrevistei a quem perguntei “Quantas consultas, sessões de terapia tiveram com psicólogos na vida inteira profissional na polícia?”, dizem zero.

Lúcia Pais: Pois. Não sei o que lhe diga.

Ricardo Esteves Ribeiro: Portanto, não há consultas de rotina.

Lúcia Pais: Dentro, não.

Ricardo Esteves Ribeiro: Em 2023, antes de deixar o poder o governo do PS, perguntámos ao então ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, se era suficiente o apoio psicológico prestado a polícias. Afirmou que tinha, no ano seguinte, “o objetivo de aprofundar os apoios prestados no domínio da saúde mental nas Forças de Segurança”. Em fronteiradomedo.pt podes ler as medidas que explicou já estarem em vigor. Em 2024, dois meses depois de tomar posse, o governo PSD/CDS de Luís Montenegro anunciou que ia criar uma via verde para facilitar o acesso às urgências psiquiátricas e centros de saúde por elementos da PSP e GNR a precisar de apoio. A Inspeção-Geral da Administração Interna ficou encarregue de recolher estatísticas que hoje não tem: quantos agentes precisam de acompanhamento e quantos são acompanhados.

Foi precisamente numa conferência organizada pela Inspeção-Geral, em outubro de 2022, que a psicóloga Lúcia Pais apresentou os resultados preliminares de uma investigação onde entrevistou 62 polícias sobre as consequências do policiamento para a saúde.

Questionados sobre os impactos psicológicos da profissão, polícias das equipas de combate à violência doméstica nomeiam sensações como exaustão, sofrimento emocional e frustração. Já polícias do corpo de intervenção dizem sentir irritabilidade, inutilidade e frieza emocional. E quem policia bairros considerados perigosos pela PSP e GNR, as chamadas Zonas Urbanas Sensíveis, de que iremos falar mais à frente nesta série, dizem também sentir frieza emocional, distúrbios do sono, medo e hipervigilância. Polícias das esquadras de turismo falam em agitação, hipervigilância e frieza emocional. Todos são unânimes em dois sentimentos: a inquietação e a preocupação.

Lúcia Pais: Vocês imaginem o que é uma pessoa do corpo de intervenção que é chamada a uma ocorrência, não é? Portanto, vai uma equipa e vai com a adrenalina! Caramba, aquilo vai aumentando, aumentando. As pessoas estão completamente ativadas e focadas naquilo para que foram chamadas. E, depois, chegam lá e a coisa já se resolveu. Agora, o que é que acontece, não é? Quer dizer, o quê? Para onde é que vai a adrenalina? Para onde é que vai tudo aquilo? Toda aquela mobilização e ativação, para onde é que vai aquilo tudo? Imagine viver com uma pessoa que se sente de alguma maneira inútil, e que está permanentemente com níveis de irritabilidade imensos, e que salta com qualquer coisa que lhe seja dita, e responde, que está sistematicamente com uma impressão de frustração e de menos-valia… O que é viver com uma pessoa nestas condições? Difícil, não é? E se houver miúdos? Crianças pequenas? Difícil, não é? Quer dizer, é uma pessoa que está triste, que se sente desvaliosa, que muito provavelmente tem pouca perspetiva para diante. E isso é uma coisa que, para mim, me assusta enquanto clínica. Qual é o projeto que esta pessoa tem para si e para os seus? Se não há projeto, eu estou aqui a fazer o quê? Não é?

Ricardo Esteves Ribeiro: Novamente, Pedro Carmo.

Pedro Carmo: Só fica na polícia quem tem uma pancada. Porque não se consegue aguentar isto de outra forma. Porque, se a gente de alguma forma não conseguirmos transmutar… Mas é a transmutação visível. Eu vou transmutando, acabo de ir à ocorrência, aquilo chateou-me imenso, perturbou-me imenso. É nojento, é isto, é aquilo… Seja o que for, eu faço a transmutação. Passado um bocado, já estamos a contar anedotas, como se costuma dizer. Mas elas ficam cá. Elas ficam cá. A gente vai para casa, ninguém me consegue compreender. Ninguém em casa consegue compreender o polícia. O polícia que vai para o pé da família… E, depois, a maior parte dos polícias não vão para o pé da família, vão para o pé da camarata, onde a conversa de caserna é outra vez polícia. Vão para um apartamento onde vivem com mais três ou quatro, onde a conversa é outra vez polícia. E a realidade das coisas é que, ao longo de alguns anos de serviço policial, a pessoa muda. A pessoa ganha um transtorno emocional. E, depois, trabalha por turnos…

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas que impacto é que isso tem no dia-a-dia dos agentes que estão na rua?

Pedro Carmo: O que eu noto a nível do dia-a-dia dos agentes que estão na rua, e eu noto, e conheço alguns colegas que a postura deles, prontos, verifica-se, a gente vê os miúdos quando chegam, muitos são bem dispostos, outros são pessoas assim soltas, outros são pessoas muito calmas, e nota-se a diferença de comportamento. Uns ficam mais irritados, outros perdem a boa disposição.

Ricardo Esteves Ribeiro: A psiquiatra Susana Pinto Almeida vai mais longe. Explica que a experiência regular de situações com grande potencial traumático, quando não processadas da melhor forma, pode levar ao desenvolvimento de perturbações de stress pós-traumático. Pergunto-lhe se a falta de acompanhamento de saúde mental pode levar ao aumento da violência e brutalidade das forças de segurança.

Susana Pinto Almeida: Não acho que seja uma conclusão desadequada ou despropositada. Eu acho que é uma conclusão até que faz bastante sentido. Para mim, enquanto psiquiatra, faz bastante sentido. Se eu exerço uma profissão em que o risco está permanente e persistente na minha vida diária, se eu não tenho, do ponto de vista psíquico, a estrutura adequada, porque estou num processo de doença, ou num desenvolvimento de doença mental não identificado e não tratado, eu acho que, facilmente, se pode conseguir enquadrar isso na falta de saúde mental das forças de segurança, sim. Poder-se-á. Obviamente não é uma afirmação, mas é uma probabilidade, quanto a mim, bastante alta.

Ricardo Esteves Ribeiro: A psicóloga Lúcia Pais.

Ricardo Esteves Ribeiro: Concorda?

Lúcia Pais: Quer dizer, eu seria um bocadinho cautelosa a estabelecer essa relação direta. Eu não sei. Não tenho conhecimento para responder de forma taxativa àquilo que me está a perguntar. Não tenho. Se calhar, é um bocadinho um passo maior que a perna. Mas não sei.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas eu volto a perguntar: alguém com estas características e que sente isto — irritabilidade, frustração, hipervigilância, medo —, está mais suscetível a praticar violência extralegal?

Lúcia Pais: Claro. Porque de alguma maneira — e isso também está escrito na literatura científica — é por essa via que ocorre a naturalização da violência, não é? Quer dizer, se essa resposta tende a repetir-se, e se não há consequências outras relativamente a esse estilo de resposta, ele vai-se instalando e atravessa todos os domínios da vida da pessoa. Isso está escrito.

Ricardo Esteves Ribeiro: Hélder Gomes, o homem que ouvimos no início deste episódio e que, desde jovem, tinha o sonho de ser polícia.

Ricardo Esteves Ribeiro: Como é que se gere essa tensão dentro da PSP?

Hélder Gomes: É difícil. Simplesmente no carro patrulha tens três homens que podem estar frustrados, numa carrinha tens seis, se calhar. Tens mais tensão. Se eu tivesse três elementos ou quatro tensos… É sempre maior a probabilidade de vir à baila uma “Vieram aqui partiram isto tudo”, “Ai foram ali, bateram”. Aí, desculpa bati aqui no micro. Foi só para dar o “puff”.

Ricardo Esteves Ribeiro: Nem é preciso sound design.

Hélder Gomes: Exato. Mas posso te dizer uma situação em que vi que aquilo descambou, depois acalmou felizmente… Porque felizmente quando vamos em três há sempre alguém que está mais… Naquele momento ou está a iniciar o turno, ou até está numa cena mais zen, nem está com problemas na vida dele, entre aspas, não está tão tenso, “Vamos ter calma”. E temos ali polícias a tentar gerir polícias, que é verdade. Estamos entregues a nós.

Ricardo Esteves Ribeiro: Isso acontece? Ou seja, acontece…

Hélder Gomes: Ai, muito. Mas isso é diariamente. Colegas às vezes até “Oh, calma”.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, acontece que, por exemplo, há um agente, ou um polícia que está mais alterado e que os outros vão e tentam acalmar?

Hélder Gomes: Isso é muito. Isso é muito. E também foi uma das coisas que pesou na balança eu ter saido da polícia. Que é, pá, estamos entregues a nós mesmos e às vezes, pá… Não é dizer que somos um perigo para nós. Os polícias em si. Eu próprio tive momentos em que podia representar um perigo para os meus colegas. Se eu estou emocionalmente destabilizado e tenso, e tenho três elementos comigo, se aquilo descamba por minha causa, sou um perigo para mim e um perigo para quem trabalha comigo.

V

Ricardo Esteves Ribeiro: As queixas de agentes da autoridade, acumuladas durante décadas, explodiram nos últimos anos. Em 2019, um grupo de polícias descontentes começou a organizar-se nas redes sociais, com um mote fácil de reter: Zero.

Bento Rodrigues, jornalista da SIC: Bem-vindos. Começamos com imagens dos últimos instantes. Um protesto de vários agentes da PSP, que esta manhã viraram costas às principais figuras do Estado. O protesto do chamado Movimento Zero…

Rita Marrafa de Carvalho, jornalista da RTP: É a primeira vez que se assumem como movimento. E é a primeira entrevista que dão, para deixarem uma ameaça.

Polícia do Movimento Zero à RTP: Já estamos esgotados. Neste momento, preparem-se porque vai acontecer algo muito grave. Algo de que o país não está à espera. Acreditem, que o país não está à espera do que vai acontecer.

Bento Rodrigues, jornalista da SIC: Os polícias aqui formam o “zero” com os dedos, sublinhando o movimento a que pertencem.

Fernando Rosas: “É giro, é o Zero. Estou a fazer o Zero. Não estou fazendo o símbolo do supremacismo”. Não. Está a fazer o símbolo do supremacismo, apesar de disfarçado de Zero, não é?

Manifestantes à RTP: Nós só queremos o Ventura no poder! Ventura no poder! Ventura no poder!

Pedro Pinto, jornalista da TVI: Preocupa-o, enfim, a infiltração da extrema-direita dentro da PSP, como acontece com o Movimento Zero?

Manifestantes à RTP: Ventura! Ventura! Ventura!

Manifestante: Só lhe quero dar um beijinho. Obrigada, grande guerreiro, grande homem!

Manifestante: Grande homem! Grande homem! Grande homem!

Pedro Pinto, jornalista da TVI: Isso é uma preocupação para o Diretor Nacional?

Magina da Silva, então diretor nacional da PSP: A minha perceção é que a política não é um assunto para os polícias.

Ricardo Esteves Ribeiro: O Movimento Zero precisava de uma cara. Alguém que pudesse falar sem ser punido disciplinarmente pela PSP.

Hélder Gomes: Falaram comigo. Por mim, o que precisarem. Eu dou a cara.

Ricardo Esteves Ribeiro: O homem que fez flexões com a ponta dos dedos abandonou o sonho de ser polícia em janeiro de 2019.

Hélder Gomes, num vídeo do Movimento Zero: Olá, caros seguidores do Movimento Zero. Alguns de vocês certamente já me conhecem. O meu nome é Hélder Gomes. Atualmente, sou empresário. E digo atualmente, porquê? Porque há relativamente pouco tempo, era polícia. Sim, ouviram bem. Fui agente da Polícia de Segurança Pública. Mas, como costumamos dizer, uma vez polícia, polícia para sempre. E é precisamente por isso, por ter vivido de perto, e por ter sentido na pele todas as injustiças que os polícias passam, que rapidamente me identifiquei com o propósito deste movimento. […] E, tal como todos os polícias, apesar de ter abraçado outro projeto, estou aqui, ao lado do Movimento Zero e da sua luta.

Ricardo Esteves Ribeiro: Hélder Gomes foi uma das caras do Movimento Zero, um grupo informal que levou milhares de polícias à rua. Era ele uma das pessoas que víamos nas manifestações, em cima do palco, ou a dar ordens sobre o que fazer, por onde marchar. No próximo episódio, falamos dos movimentos de trabalhadores das polícias.

TEASER

Brotas: Há 31 anos que venho às várias manifestações com as camisolas do Che. […] Era um revolucionário, e o que este país parece que está a precisar, pelo menos na segurança, é de uma revolução.

Ricardo Esteves Ribeiro: E o que é que, hoje, vocês estão aqui a exigir, à frente da assembleia?

Duarte Teixeira: Tudo o que nos foi prometido durante estes anos todos e não foi cumprido. O ordenado digno, uma reforma digna.

Cavaco Silva: É preciso que se diga que, por detrás destas movimentações da polícia, estão forças extremistas, forças comunistas, alguns socialistas, espero que isolados.

Alberto Torres: Ficámos com uma convicção muito segura de que estaria ali preparado um banho de sangue com a intenção nítida de acabar com o movimento sindical.

Sérgio Barbosa: Já começamos a ter alguma dificuldade em perceber se a pessoa, por si só, também já não está naquele ponto de explodir, de dizer: “Chega! Basta! Não quero mais! Vou tirar as algemas ao chão! Vou fazer outra coisa qualquer!”

André Ventura: Não queriam que aqui viessemos. Montaram barreiras para nos impedir de falar.

CRÉDITOS

G. C. Viegas: Acabaste de ouvir Homens de polícia, o terceiro episódio de Fronteira do Medo, uma série com 14 capítulos. Para ouvir já o próximo, sobre décadas de luta de polícias nas ruas, através de sindicatos e movimentos vai a www.fronteiradomedo.pt/contribuir e faz uma contribuição recorrente. Só com o apoio de quem nos ouve, vê e lê podemos passar anos a forçar instituições públicas a enviar-nos a informação que ouviste neste episódio.

Se queres a transcrição, vai a www.fronteiradomedo.pt. Estando por lá, podes ver dados adicionais, imagens, ilustrações: diferentes histórias complementares a este podcast incluindo, neste episódio, uma cronologia que recupera a história da Polícia de Segurança Pública.

O episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro. E investigado pelo Ricardo, por mim — G. C. Viegas — e por Sofia da Palma Rodrigues. A edição foi nossa, e do Pedro Miguel Santos. A verificação de factos de Margarida David Cardoso, a revisão de Luciana Maruta e a consultoria jurídica de Leonor Caldeira. O desenho e edição de som, como a composição e interpretação da banda sonora, couberam ao Bernardo Afonso. O Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. O José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida e Ricardo Esteves Ribeiro. Ainda participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Diogo Cardoso, Luis Marquez, Rafaela Cortez e Fred Rocha.

Ouviste no episódio áudios da SIC, RTP e TVI. Para descrever a história do policiamento em Portugal foram importantes os livros Fardados de Azul, de Gonçalo Rocha Gonçalves. Também Polícia e Polícias em Portugal: Perspetivas Históricas, com coordenação de Gonçalo Rocha Gonçalves e Susana Durão, e O Crime em Lisboa: 1850-1910, de Maria João Vaz. Sobre a história da polícia internacionalmente, lemos Police: A Field Guide de David Correia e Tyler Wall, que nos vais ouvir citar ao longo da série, e A Critical Theory of Police Power, de Mark Neocleous. Também usámos como fonte uma longa entrevista ao historiador Diogo Palacios Cerezales.

Para produzir esta série, recebemos bolsas da Fundação Rosa Luxemburgo. Este ano, o trabalho do Fumaça também tem apoio da Fred Foundation e Limelight Foundation. Lê os contratos em www.fumaca.pt/transparencia. A Divergente, está a receber uma bolsa da Civitates.

Até já.

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