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Nas últimas semanas, tomámos a missão de levar a nova investigação Fronteira do Medo, até quem nos ouve. Estivemos em Lisboa, na Oficina Fritta. No Porto, com a Oficina Mescla. E na Cova da Moura, com a Bazofo: mais de uma centena de pessoas ouviu presencialmente o primeiro episódio da série. Em cada evento, a conversa entre as pessoas presente seguiu os seus próprios caminhos. Mas uma questão foi constante: “porquê ouvir bófias?” A terminologia denota uma ideia já formada sobre polícias, que acho comum entre quem se apercebeu ao longo da própria vida que a polícia, enquanto instituição, nunca servirá para proteger quem é oprimido, mas para proteger quem oprime. Portanto, porquê ouvir o braço armado da opressão? Porquê discutir as queixas de agentes sobre condições de trabalho, como fazemos no terceiro episódio da série (lançado hoje publicamente, em qualquer aplicação de podcasts, e no site interativo, produzido com a revista digital Divergente), ou seguir as suas lutas sindicais, como no quarto capítulo (disponível para quem tem uma contribuição recorrente ativa)?
Até a mim me inquieta. Sou anarquista, abolicionista. Já fui espancado por agentes várias vezes. Já vi gente amiga ainda mais violentada do que eu. E, depois de anos a investigar Fronteira do Medo, fica cada vez mais claro para mim que devemos imaginar mundos sem polícia, e organizar-nos coletivamente, sem intermediários, para os criar através de ação direta. Não é uma ideia consensual, defendida pelas redações do Fumaça ou da Divergente. É uma convicção minha, pessoal. Mas que torna fácil compreender quem pergunta: “porquê ouvir bófias?”
Atravessei um caminho labiríntico até encontrar uma resposta. Houve momentos em que achava que não fazia sequer sentido tentar falar com agentes. Outros em que achava crucial. Nos processos de edição coletivos, incluindo as duas redações, muitas vezes discordámos. Mas, no final, consensualizámos que, para compreender o policiamento, é essencial o testemunho de quem o executa diariamente. E, notando que outros meios de comunicação não escolhiam, ou não podiam escolher, fazê-lo de maneira crítica e com a profundidade necessária, deveríamos nós fazê-lo. Não ouvimos polícias apenas para simular ouvir “os dois lados” (até porque histórias complexas têm centenas de lados). Acreditamos que, para compreender os dois séculos que leva o policiamento, é preciso ouvir e desafiar as pessoas pagas para perpetuar este sistema, criado com os estados nação contemporâneos.
Para além disso, tínhamos uma outra ideia. Acreditávamos que se falássemos com polícias com tempo e disponibilidade para tratar os temas que lhes interessassem, eles eventualmente admitiriam o que, há décadas, dezenas de residentes de bairros guetizados, militantes antirracistas, e investigadoras têm defendido: há um policiamento “de exceção” em bairros pobres, com mais brutalidade, e impunidade para a maioria dos agentes transgressores. Talvez até assumissem que se mentia em tribunal para branquear abusos, e sustentar falsas acusações de resistência contra civis. Demos o salto de fé.
Fizemos pedidos online para que nos contactassem, passámos anos a reportar desde manifestações de polícias, escrevemos a sindicatos, perguntámos em cafés ao pé de esquadras. E, no fim, entrevistámos 44 agentes, alguns durante várias horas, em estúdio. A todos eles, disse a verdade: que pretendíamos falar sobre o que os preocupava na polícia, mas, principalmente, sobre brutalidade policial. A todos eles, disse a verdade: que sou anarquista, que acredito na abolição da polícia. Que não acreditamos em jornalismo imparcial, isento, neutro, mas sim em jornalismo transparente, honesto, rigoroso; jornalismo como um método. Aceitaram falar, creio que até se abriram mais.
E, anos depois, podemos dizer que tínhamos razão. No episódio de Fronteira do Medo que lançamos hoje, ouves agentes descrever como são violentas as suas condições laborais. Mas os mesmos policiais assumem, depois — como pode ouvir quem contribuiu para o Fumaça, e para a Divergente no sétimo e oitavo capítulos — que há mesmo uma cultura de falsificação de documentos e policiamento mais violento em bairros guetizados. Foi também por isso que os ouvimos.
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