Ceuta e Gaza são duas faces da mesma moeda. Apresentam uma imagem do futuro.
Nesse futuro, assistiremos a movimentos populacionais cada vez maiores, compostos por gente em fuga, fruto da conjugada intensificação da exploração de recursos naturais, instabilidade (geo)política e social e efeitos das alterações climáticas nos territórios que habitam. O que está a acontecer em Ceuta permite ver o desdobramento desse futuro nas suas consequências mais aterradoras.
O que há de aterrador nesse futuro, e contrariamente ao que parece constituir um certo consenso, não está na multidão de pessoas que, pela frincha de um muro, procura escapar de um mundo que as repugna e encontrar do outro lado uma vida melhor. Está na naturalidade com que se disseminou e instalou a perceção de que o “problema” está na imigração, que esta (e que aqueles sujeitos em particular) constitui necessariamente um problema ou uma ameaça e que deve ser contida.
Essa perceção projeta o inimigo num plano “exterior” e num outro que ameaça as “nossas” fronteiras, a “nossa” soberania” e o “nosso” modo de vida; afirma que o inimigo vem de fora e esconde o inimigo que está cá dentro.
É disso sinal, e não uma simples coincidência, a espontaneidade das reações que, de forma quase hegemónica, mobilizaram de imediato temores imaginários e recalcados, recriando os filmes e séries televisivas que fantasiam hordas indomáveis de zombies invasores nas ruas e bairros das nossas cidades. Em maior ou menor grau, esta perceção é partilhada da esquerda à direita.
Não estamos perante uma simples armadilha em que, como é habitual, a esquerda parece escorregar. A esquerda não é uma vítima que se vê instrumentalizada por um processo ou narrativa que lhe é imposta. Ela participa ativamente na sua reprodução. Tal como a extrema-direita, que mais ganha com ela, tem sido visível que a esquerda teme o fim dos muros que nunca deviam ter existido e contribui alegremente para a destruição dos muros que devia aprender a erguer.
É da mobilização desses temores (mal) ocultos, onde se revela o racismo latente e amplamente disseminado que encontra automaticamente no outro o inimigo e um agente do caos e da destruição, que se justificarão mil Gazas, mil enclaves, que permitirão conter, controlar e, se necessário, matar, essas hordas de bárbaros que trepam os muros e as grades que nos “protegem”.
Palavras como “soberania”, “fronteira” e “invasão” são o centro de uma gramática que aponta aqueles que correm na nossa direção descontroladamente, sem outro rumo que não o de destruir o “nosso” modo de vida e de “nos” sugar até ao tutano. Tudo em nome de uma ilusão que persiste e de que poucos parecem querer libertar-se: a da civilização e da democracia, com a sua proclamada estabilidade e segurança.
É aí que Ceuta e Gaza se encontram. E como isso torna evidente, Israel não está a perder a guerra: pode não estar a conquistar corações, mas está a arrancá-los. E, contra o século XX do “consenso fabricado”, é disso que será feito o futuro. A força contará mais do que a propaganda.
Gaza é um ensaio geral para essas mil Gazas que veremos espalharem-se pelo território. As máscaras de muitos humanistas, progressistas, democratas, até revolucionários, caíram com Gaza. Mas serão ainda mais aquelas a cair perante qualquer simulacro que aparente ameaçar a ficção da superioridade ocidental e do seu “modo de vida”. Nestes dias, vimos a extensão do temor com a “invasão dos bárbaros”, vimos apelos mais ou menos contidos para “controlar” e “conter” a situação e vemos, agora, regozijo com a forma como Sánchez “resolveu” o “problema”, recambiando de volta as pessoas que tinham entrado em Ceuta.
Para proteger a sua posição, muitos asseguram que Ceuta não é um território colonizado, pela sua antiga e indisputada integração no reino espanhol. O que cria esta ironia: a de ignorar o caráter interno da colonização, de que Espanha é um caso evidente. A ideia de que a colonização é fundamentalmente extraterritorial e que não existe quando aparentemente não há resistência, torna invisíveis os processos de homogeneização, afirmação e imposição dos Estados. Nega o caráter histórico desse processo e naturaliza-o, um processo de resto recente, e, em muitos casos, em aberto; como acontece em Espanha, um Estado-Nação em que essa colonização e soberania interna permanecem incompletas e contestadas.

Deixe um comentário