Fumaça & Divergente

A escolha de palavras é um ato político. O jornalismo, por isso e mais, também. Escrever as quase 500 páginas de guião da série Fronteira do Medo, implicou milhares de decisões sobre que palavras transmitir e quais deixar de fora. Decisões que raramente foram finais: nos oito anos que passámos a investigar o policiamento de bairros guetizados com a revista digital Divergente, mudou a realidade à nossa volta, o significado que palavras carregavam, e, até, nós. Portanto alterámos também as palavras que utilizamos para descrever a realidade.

No Fumaça, era comum utilizarmos o termo “violência policial” para descrever eventos em que polícias batem em pessoas, como nesta entrevista ao ativista Mamadou Ba, em 2018, no ano seguinte, em entrevistas a Manuel Vicente (agredido por polícia no Bairro da Jamaica, Seixal) e Celso Lopes (sequestrado e brutalizado por agentes da PSP na esquadra de Alfragide, Amadora), e ainda em 2021, a Vitor Sanches, fundador da Bazofo, na Cova da Moura.

Foi já ao escrever os 14 episódios da série que começámos a publicar no mês passado que optámos por abandonar “violência policial”, por ser simultaneamente limitador e legitimador. Ao utilizar o termo apenas para os momentos em que a violência exercida pela polícia é física ou vai para lá dos limites legais, alimentamos a ideia de que apenas essas ações policiais são violentas, reproduzimos o mito de que eventos de “violência policial” são esporádicos, responsabilidade de algumas “maçãs podres” e não do próprio policiamento. Isso invisibiliza outras violências quotidianas da polícia. Podemos considerar violência o uso de autoridade para identificar gente na rua; a coerção à obediência, sob ameaça de agressões ou punição judicial; ou até a simples presença de agentes para condicionar o comportamento num espaço partilhado. Como diz a socióloga Cristina Roldão no episódio 11 da série — se tens uma contribuição recorrente ativa, já o terás recebido — “a polícia existe para exercer violência”, “é violência”. Por isso, decidimos coletivamente utilizar o termo “brutalidade policial” para descrever ações que incluem agressões físicas a civis, sem limitar a lente sobre a qual olhamos todas as violências do policiamento.

Para esta indagação foi particularmente importante o livro Police: A Field Guide, em que o geógrafo David Correia e o sociólogo Tyler Wall defendem que considerar violência apenas o seu uso para lá dos limites legais ou disciplinares “contribui para legitimar uma distinção entre a violência estatal aceitável e inaceitável” portanto “para legitimar todo o tipo de violência policial que possa não ser considerada excessiva ou ilegal”, normalizando “todo o tipo de terror legal racializado, classista e genderizado.” (Traduções nossas) Este livro de 2017 é um dos trabalhos que mais citamos ao longo da série. Na prática, trata-se de um dicionário crítico de  “linguagem policial”, ou cop speak, que me ajudou a desafiar a forma de falar que fui educado a assumir.

Incluindo a expressão “bairros problemáticos” que perfurou o dicionário mediático do país quando eu crescia – ouvia-a desde as bocas de políticos, de gente engravatada nos telejornais, nos programas da tarde, e até da minha família. Não me lembro de quando deixei de a usar, mas fez parte do meu vocabulário pelo menos até à adolescência. Como explicamos no quinto episódio de Fronteira do Medo, o termo foi introduzido no imaginário coletivo, alimentando um sentimento generalizado de insegurança (mesmo sem picos estatísticos de crimes registados) para implementar mais policiamento, mais barreiras à imigração e mais mecanismos de repressão contra jovens de bairros guetizados.

Silvia Rodríguez Maeso, que coordenou a feitura de outro livro central à investigação, Estado do Racismo em Portugal, explica que o conceito de “bairros problemáticos” não deve ser tratado como um facto que podemos avaliar como verdadeiro ou falso, já que o termo é “performativo”: o seu significado constrói-se e sedimenta-se no decorrer de uma avalanche de repetições quotidianas que gera efeitos sociais. Está a aplicar a teoria da performatividade da linguagem, pensada pelo filósofo J. L. Austin, e expandida pela também teórica Judith Butler. Falamos sobre isto no sexto episódio, que hoje publicamos: em “Lugares de Exceção”, o testemunho de residentes de bairros classificados pelas polícias e comunicação social como “problemáticos” demonstra como este discurso serve para delimitar espaços e comunidades onde a polícia age com mais brutalidade, e impunidade. Já podes ouvir em qualquer aplicação de podcasts e conhecer no site os dez mandamentos para residentes nestes locais lidarem com agentes. Para evitar perpetuar este processo, consensualizámos utilizar o termo “bairros guetizados”. Não “guetos” — como uma identidade —, mas sim bairros que foram guetizados, através de processos de precarização, empobrecimento, isolamento, policiamento e outros tipos de violências sistémicas exercidas particularmente pelo Estado.

Mas os exemplos de linguagem policial utilizada quotidianamente não terminam aqui. Porquê usar o termo eufemístico “gás pimenta” em vez de “gás lacrimogéneo”, que é exatamente o que ele é? Porquê classificar certas ações como “crimes”, em vez de utilizar a palavra “criminalizadas”? Ou “ilegais”, em vez de “ilegalizadas”? Cada uma destas palavras serve a legitimação destes sistemas de intervenção estatal. Desafiar-nos ativamente a substituí-las é, em si, um ato político.

 

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