2020-2022 – Braga, Porto, Sul: Agora trabalho. Quando fui parar ao Garcia de Orta os tais cinco dias, fui confrontado pela médica Renata:
– Então, qual era o seu problema?
– Com as pessoas da pequena-burguesia era uma coisa, com as pessoas da classe trabalhadora era outra
– E trabalham? – pergunta ela, intuindo-se daqui que o meu mal era falta de trabalho
Em Braga trabalho, até me mudar para o Porto, para casa da Penim Guerreiro, perto do Marquês. Sempre na condescendência geral, de quem tudo sabia educando a ignorância em pessoa, como nas minhas visitas ao Maldatesta não ouvia senão pessoas falando de mim como se eu não estivesse presente, “que espírito!”, dizem, na primeira vez que vou após a tortura com a qual ninguém se solidarizou, tomando parte da encenação geral, também me vão passando uns charros para testar o produto, uma vez que é do consenso geral que mais nenhuma utilidade tenho. No Moinho, o Taborda rouba-me telemóvel e lentes de contacto, dizem que estão a cozinhar a legalização da marijuana. Essa é a minha função. Está a cozinhar, está a cozinhar, diz a Yolanda. Não há afinidade possível que pudesse formar com quem quer que seja, a relação dos outros comigo é uma de uso.
Depois mudo para a residência de estudantes, na posição de persona non grata na faculdade, excluído dos grupos online onde se discutiam as matérias das aulas. Lá faço umas gravações sobre o que me acontecera até então, votando afastar-me de tudo, algo que infelizmente não fiz, instado que fui pelo Duarte a voltar ao Maldatesta – houve debate académico e parece que saí vencedor, apesar de ser apenas objecto e nunca sujeito.
Passado algum tempo, fiz uma magia, nem que eu morra aqui, sem me perguntarem nada faziam intenções de me esconder, ou assim me fizeram crer, o Tozé pôs o ‘Clandestino’ do Manu Chao a tocar no Gato Vadio. Sem qualquer relação de confiança mútua, estas pessoas, que sempre me votaram ao abandono quando mais precisava, que sempre ignoravam tudo o que eu pudesse ter a dizer, que sempre barraram qualquer iniciativa minha, criam de algum modo que lhes teria confiança o suficiente para aceitar ser transportado para um ambiente onde o seu controlo seria não apenas parcial mas total. Por outras palavras, como não me tratariam às escuras por comparação com o que já faziam às claras. Na minha posição de isco, toda a prática me foi vedada, nunca pude aprender nada, para depois ouvir do Jonas que o que importava era a serralharia não a literatura, quando a literatura era o pouco que o constante desterro me permitia e permite, e não sem também constante interrupção, tornando-me inapto, desadequado, burro.
Porque na residência chamaram a ambulância, neste consenso nacional de que sempre que faça eu algo que alguém não goste estou sujeito ao hospital psiquiátrico, levam-me para o São João, de onde me transferem para o Garcia de Orta. No primeiro, sentindo-me por cima, digo à médica, que numa altura mais tarde vi como enfermeira, e noutra ainda como recepcionista de teatro em Évora, que a psiquiatria rouba a individualidade de cada qual. “Concordo consigo”, diz-me, mas esta concordância não a impediu de acrescentar, “mas neste momento considero mais prudente que fique internado”.
Vou passando pelo Maldatesta de vez em quando, mas eles ainda estão retidos na iluminação cinemática e na absoluta falta de solidariedade, pelo que a certo ponto, vendo eu que não me aconteciam mais que novos internamentos, após os quais me tentava agarrar a esperanças infundadas de recomeços (quando me sentia saudável, que não é o caso agora), durante os quais me drogavam até um estado senciente, mas não consciente, em que faziam por me treinar obscuramente ou arrancar informações que nunca lembrarei ter ou não fornecido; desisto de lá ir. Até em Coimbra chamaram uma ambulância, onde quer que eu vá estou sujeito, e logo a minha memória se enfraquece com todo o dano que me foi causado.
Vou fazendo, quando fors de hospitais, uma vida algo boémia, em Lisboa. Mas sou seguido onde quer que vá. Até que sou expulso da Achada e no Desterro me cantam canções que intrometem com o de mais íntimo a minha vida poderia ter. Não estou cá a fazer nada se esta a crueldade absurda que tenho de enfrentar quotidianamente, pelo que opto pela tentativa de suicídio. O Filipe Vicente, médico no Garcia de Orta, diz que fiz uma birra. A Dulce diz que me deixe de pieguices. A minha vida foi roubada.
Depois do internamento do suicídio, há a tal altura em que o Sérgio Carvalho acorre à emergência médica, tentando tirar satisfações comigo. Em ninguém se pode confiar nesta vida, parece ser a lição que me querem dar, porque de novo vou parar à psiquiatria, primeiro ao Santa Maria, de onde tenho a cicatriz na sobrancelha, depois ao Garcia de Orta. Fico lá dois meses. Dois meses que nunca recuperarei, mais a medicação forçada, mais as amarras, mais o tempo de recuperação após internamento, mais o tempo de ameaça prévio. No total, já estive encarcerado dois anos. Oito anos de vida, e a contar, foram-me roubados. Nos hospitais, de tudo fazem para desestabilizar os utentes, com os seus jogos, rupturas e encenações. De outro modo, como poderiam justificar a sua actividade?
Uma vez perguntei ao Godinho que substância me estava a dar, acordei amarrado. Outra vez, fui socado por outro paciente, um Ricardo que anotava tudo o que eu dizia nas suas folhas – fui amarrado. Outra vez, tive desentendimento com um enfermeiro na zona do telefone, fui amarrado. E em diante. Com cinto de contenção e injecção de Haldol, para punição completa, para total estado de dependência.
Ninguém quis saber de mim quando me tentei suicidar pelo que do ponto de vista de toda a gente talvez haja sido pelo pior que não tenha sido bem-sucedido. Desde então, decidi não deixar ninguém para trás, não me enredar em fantasias revolucionárias que arrastem consigo sanismos vários. Comecei a usar a inernet, uma ferramenta em que a atomização obrigatoriamente imposta (ainda) não se totalizou, apesar de que o seu uso contínuo seja concorrentemente uma das suas causas (da atomização). É nessa actividade paradoxal que me encontro. A internet isola-nos quando é a comunicação única, mas a psiquiatria ainda mais nos isola quando tentamos recuperar a nossa vida e conhecer pessoas em carne e osso. Não só pelo sanismo vigente mas relações sociais e nos espaços libertários, como pelo exemplo punitivo que o internamento compulsivo oferece a todos quantos assistam alguém reclamando sua própria vida no aqui e no agora. Ou seja, preferia não ter a internet na minha vida, mas é o único espaço de expressão que me resta, uma vez que se fizer a vida em carne e osso como me aprouver, sempre estou sujeito à violência de torturas impunes com as quais ninguém se solidariza. É também o meu único espaço de identidade, ou seja, em que a minha expressão me outorga ser aos demais, pois que offline não encontro senão a indiferença daqueles para quem estaria tão bem morto quanto vivo. O obstáculo que separa o virtual do real é o que urge ultrapassar.

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