Unidos em Defesa de Covas do Barroso
Depois ter ontem retomado um bloqueio dos trabalhos de prospecção da empresa Savannah Lithium, a população de Covas do Barroso prolongou por mais um dia este protesto. Perante o resultado da acção, que interrompeu durante todo o dia os trabalhos da empresa, cerca de quarenta pessoas voltaram a concentrar-se junto dos locais de sondagem a partir das seis horas da manhã, impedindo desta forma o acesso às máquinas de perfuração.

Durante o dia de ontem, a mobilização chegou a reunir cerca de cinquenta pessoas e conseguiu interromper os trabalhos de prospecção da empresa. A acção de hoje dá, assim, continuidade a uma resistência que já tinha levado à interrupção dos trabalhos a 9 de outubro, ocasião em que vinte e sete pessoas foram identificadas pela polícia. A população de Covas do Barroso mantém há oito anos a oposição à exploração de lítio no seu território, considerado pela FAO como património agrícola mundial.

Os trabalhos decorrem numa área de baldio abrangida por uma servidão administrativa que permite à empresa realizar operações de sondagem, apesar da oposição dos proprietários e compartes. Esta autorização dada pelo Governo permite à Savannah aceder a terrenos sobre os quais a comunidade mantém direitos e usos coletivos, contornando a recusa local em autorizar os trabalhos. A sua aplicação tem agravado a contestação ao projecto e alimentado um conflito em que está em causa o poder de decisão da comunidade local sobre o seu próprio território.

Para Rita Mó, presidente da Junta de Freguesia de Covas do Barroso, este protesto é sinal de determinação da comunidade local: “Com este bloqueio a comunidade está, mais uma vez, a mostrar o quão longe está disposta a ir para defender a sua terra. Para nós Covas do Barroso não é um lugar qualquer. É o sítio onde nascemos, crescemos, e onde queremos fazer a nossa vida. Temos muito amor à nossa aldeia, aos nossos costumes, às nossas paisagens. E se para defender a aldeia tivermos de continuar a fazer bloqueios, que assim seja. Vamos continuar a lutar até travarmos este projecto”.

Aida Fernandes, presidente dos Baldios de Covas do Barroso, situa o bloqueio numa defesa comunitária do baldio: “Toda a gente aqui está a lutar pelos seus próprios motivos pessoais, mas também por uma razão colectiva. Aqui crescemos a olhar para o baldio como a nossa herança comum, algo que é ao mesmo tempo de todos e de ninguém. Para nós é um lugar cheio de afectos, memórias, histórias. Não aceitamos que de um dia para o outro, a partir de gabinetes de Lisboa, decidam que o vão expropriar em nome de uma empresa privada. É muito revoltante. E por isso é que a comunidade se levanta com tanta determinação, para proteger o que é seu por direito”.

Por fim, explica Armando Gonçalves, morador na aldeia de Romainho: “Nós estamos a lutar pela nossa aldeia. Mas não apenas. Não quero que os meus netos um dia acordem num país em que os agricultores não têm direitos, em as pessoas já não têm dizer sobre o que é seu, e onde o lucro de uma empresa vale mais do que a nossa natureza. No fundo, nós estamos a lutar pela democracia em Portugal. E acho que por isso é que tanta gente pelo país apoia a nossa luta”.
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