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Não Passarão: Sobre o 3 de Fevereiro

via: @naopassaraonuncapassarao

SOBRE O 3 DE FEVEREIRO

No último sábado, 03 de fevereiro, evidenciou-se, mais uma vez, a complacência das forças de segurança com os grupos racistas de extrema direita. Após terem sido proibidos pela justiça e terem recurso negado, um agrupamento neonazi insistiu marchar sob o detestável slogan “Contra a Islamização da Europa”, reunindo pouco mais de 3 dezenas de racistas. Este processo contou com a escolta ostensiva da PSP, que fez tudo o que estava ao seu alcance para garantir que o grupo neonazi cumpria o seu objetivo de marchar.

Simultaneamente, cerca de 40 coletivos e associações juntaram mais de 2 mil pessoas no largo do Intendente para fazer uma concentração de caráter político-cultural para celebrar a diversidade e dizer um sonoro “NÃO” ao racismo e fascismo. O protesto cultural contou com artistas migrantes de diversas partes do mundo, além de contar com discursos e gritos de protesto contra o racismo, o fascismo e o colonialismo. Durante 6 horas, garantiu-se um espaço seguro, naquela que é a zona com maior diversidade cultural de Portugal, e que estava, há semanas, ameaçada de ataque por estes grupelhos racistas. Esta manifestação contrariava conscientemente a recomendação do presidente da junta de freguesia de Arroios, que, demonstrando uma clara complacência com o que há de pior na sociedade portuguesa, apelou para que migrantes e pessoas racializadas ficassem em casa, entregando as ruas a estes grupelhos neonazis. Cabe ressaltar que a proibição da manifestação racista só se deu devido à iniciativa da sociedade civil, convocando, a partir das suas bases, uma reação antirracista.

Enquanto ocorria a concentração no largo do Intendente, reuniram-se mais de uma centena de pessoas para afrontar e tentar barrar o percurso de ódio da marcha nazifascista, rumo à Praça do Município. Ao ingressarem no Largo do Municipio, e colocarem-se em posição de bloqueio, cantando cânticos de repúdio ao fascismo e ao racismo, a PSP, sem dar nenhum aviso prévio, ou encetar qualquer tentativa de diálogo, atacou violentamente os manifestantes antirracistas, com bastonadas, socos e pontapés, numa ação completamente desmedida e desproporcional com a situação. Nenhum agente de polícia estava identificado. Seis pessoas foram parar ao hospital, pelo simples motivo de serem ativamente antirracistas. Ainda foram detidas três pessoas, libertadas logo em seguida, sem acusação.

Junto aos nazis, os polícias estavam sorrindo, apertando as mãos e dando palmadinhas nas costas. Acreditamos que isto não é acidente: há não muito tempo foi publicado um dossier, por diversos meios de comunicação, mostrando o quão alastrada são as ideias da extrema direita dentro das forças policiais. Esta afinidade reflete-se em situações como esta, que acabam sendo uma amostra da seletividade eletiva com que operam as forças. Isto mostra que a partir das forças de segurança, não há segurança possivel para as pessoas racializadas, migrantes e dissidentes políticos e sexuais. Repudiamos ainda o papel da mídia de massa, que serviu de microfone para o racismo e o fascismo, realizando um directo durante a marcha neonazi com direito a entrevistas com racistas notórios e reprodução acrítica de palavras e discursos de ódio.

Alguns diriam que os neo-nazis estavam ordeiramente a usufruir da sua liberdade de expressão, enquanto faziam saudações nazis, gritavam por passados coloniais, pela supremacia branca e pelo ódio racial. Uma caricatura assustadora da ordem social em que vivemos, personificada pelos assassinos de Alcindo Monteiro e seus apoiantes, desfilou pelas ruas do centro de Lisboa, levados ao colo pela PSP.

Na complexa linha de comandos que dá legitimidade a uma mão cheia de polícias, o uso da violência extrema, contra mais de uma centena de contra-manifestantes que se opunham a tudo o que está referido acima, foi legitimado por uma série de responsáveis que não pensaram duas vezes antes de emitir ordens para partir cabeças às pessoas que se encontravam em frente à Camâra Municipal da cidade onde habitam, gritando “fascismo nunca mais”. Tal como a 10 de Junho de 1978 – quando a PSP disparou a matar contra uma contra manifestação antifascista exatamente nas mesmas ruas, assassinando José Jorge Morais, a história repete-se. 46 anos depois, a mesma força policial provou, mais uma vez, que a sua índole fascista, racista e de controlo social é estrutural, faz parte da sua essência e não pode ser reformada. Novamente, vemos que a luta contra o racismo e o fascismo nunca foi feita com a permissão das forças de ordem, muito pelo contrário.
Para pessoas migrantes e racializadas, um desfile supremacista como o que ocorreu no dia 03 é de uma violência tremenda: questiona o status da nossa humanidade, colocando-nos em uma categoria inferior; ameaça a nossa integridade física e moral, apontando-nos como responsáveis por tudo que há de errado no país; nos rebaixa e marginaliza. Não há complacência possivel com este tipo de violência. Saudamos todes aqueles que ousaram se levantar contra estes seres abjetos.

Não passarão!

Fascistas, racistas,
chegou a vossa hora!
Os imigrantes ficam
e vocês vão embora!