Floresta 2026
O início deste mês foi devastador, com mais de 15 mil hectares de área ardida, o que faz do incêndio de Vouzela um dos maiores mega-incêndios da história recente de Portugal. Nada do que está a acontecer era inesperado ou inevitável. Nos meses que se aproximam é expectável um cenário ainda mais grave, já que a floresta derrubada pelas tempestades de janeiro continua acumulada no terreno, secando à espera de arder, enquanto o abandono do mundo rural e a eucaliptização do território são piores do que nunca. Entretanto, o Primeiro-Ministro deslocou-se aos Estados Unidos para assistir ao Mundial, enquanto em Portugal pessoas morriam devido ao calor extremo e à inalação de fumo.
É preciso recuar ao ano traumático de 2017 para encontrar uma situação comparável à atual. Os 30 mil hectares de área ardida até ao passado dia 6 confirmam um cenário amplamente previsível, tendo em conta as tempestades de janeiro, o calor recorde associado à crise climática e o Super El Niño que já começou. Portugal continua a ter a maior área relativa de eucaliptal do mundo, com cerca de um milhão de hectares, continua a ter um mundo rural profundamente abandonado e extensas áreas sem gestão, e continua particularmente exposto aos efeitos mais severos da crise climática. Segundo Sílvia Carreira, da Rede de Resposta Floresta do Futuro, “Perante esta realidade, a resposta é permitir que o abandono se agrave e criar condições para uma exploração cada vez mais intensiva dos solos, dos recursos naturais e das populações. A política pública é extremamente simples: deixar queimar e promover o abandono que embaratece a exploração dos solos, dos recursos e das pessoas que ainda resistem no interior.”
Enquanto estas catástrofes, promovidas pelo modelo económico que continua a favorecer a exploração intensiva do território, incluindo os setores da pasta de papel e dos combustíveis fósseis, contam com a complacência deste Governo e dos anteriores, o principal responsável político do país, Luís Montenegro, deslocou-se aos Estados Unidos, com recursos públicos, para assistir ao Mundial de Futebol. A imagem transmitida é profundamente reveladora do distanciamento entre o poder político e a realidade vivida pelas populações. O abandono do país e em particular da regiões rurais é absoluto, intencional e que já nem sequer é escondido. O abandono das regiões rurais tornou-se estrutural e a ausência de respostas políticas à altura deixou de poder ser ignorada. O povo está entregue a si mesmo e os governos completamente divorciados de quem supostamente representariam.
A Rede de Resposta a Incêndios Floresta do Futuro, com membros por todo o país, está atenta e continuará a responder aos cenários cada vez mais preocupantes que enfrentamos, rejeitando a ideia de que os incêndios são inevitáveis, recusando a sua normalização e contestando a falsa inevitabilidade de um modelo territorial que produz tragédia após tragédia. A rede defende uma transformação profunda do mundo rural, assente na redução da dependência do eucalipto, na descarbonização da economia baseada na redução efetiva das emissões de combustíveis fósseis, e não na mera substituição do problema por megaprojetos energéticos sem ordenamento do território, e na democratização da gestão do território e dos seus recursos.
Mais informações: florestadofuturoi2026[arroba]gmail.com

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