A Europa é uma potência declaradamente colonial. Ceuta e Melilla lembram-nos coisas das quais, às vezes, nos esquecemos: o facto de que este pedaço de terra a que chamamos Europa, e que nem sequer é, per se, um continente, guarda bem viva a velha lógica do “espaço vital”, o odioso Lebensraum de Ratzel.
Além de Ceuta e Melilla, Espanha mantém sob o seu domínio colonial o Peñón de Vélez de la Gomera, o Peñón de Alhucemas e as Ilhas Chafarinas, ironicamente chamadas de Praças de Soberania.
A França de Macron (le petit Napoléon), por sua vez, continua a exercer soberania sobre Mayotte, Reunião e as Ilhas Esparsas, no oceano Índico. Aliás, a dimensão talassocrática da França e, por conseguinte, da própria UE deve-se também a esses domínios ultramarinos, que lhe garantem vastíssimas zonas económicas exclusivas e uma presença geoestratégica à escala planetária. Além disso, são espaços marítimos riquíssimos em recursos marinhos, com enorme potencial, sobretudo ao nível farmacêutico.

O velho Reino Unido mantém Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha e o Arquipélago de Chagos, do qual faz parte Diego Garcia, onde se encontra uma das mais importantes bases militares anglo-americanas do mundo.
Quando falamos da atualidade do colonialismo e da necessidade de reparação (que muita gente, sobretudo os ditos “aliados”, gosta de circunscrever à questão cultural, mormente museológica), estamos a falar de forma bem concreta do facto de, mais de meio século após as independências africanas, a Europa continuar a controlar territórios geopoliticamente importantes do continente africano. Historicamente, as ilhas, pela sua posição geoestratégica, têm sido autênticas fortalezas militares naturais, usadas pelas potências coloniais para projetar poder sobre o continente. A título de curiosidade, Kabuverdi esteve na mira não só da Alemanha nazi como também dos dois blocos durante a Guerra Fria.
O facto de a Europa controlar uma parte significativa dos arquipélagos africanos faz do continente um alvo permanente das suas vontades. Porque razão a unidade africana é, então, importante? Porque só com uma África unida, agindo como um só corpo, os litígios territoriais e as reivindicações de países como as Maurícias, sobre o Arquipélago de Chagos, ou das Comores sobre Mayotte, por exemplo, poderão ser levados a sério no plano internacional. A unidade, minha gente, serve para obter ganhos concretos nas grandes negociações internacionais.
O mundo está em chamas e é inconcebível que África esteja fora dos grandes debates que determinarão o futuro ou que, quando esteja presente, a sua voz não seja relevante. Sabem aquela história de dizer que o futuro do planeta está em África e associar esse futuro ao facto de a maior parte da população mundial vir a ser africana? Pois bem, é um discurso utilitarista profundamente capitalista, interessado no potencial mercado de consumidores que o continente representa e que, à moda do diktat de Berlim, exclui os próprios africanos desse propalado futuro.
Precisamos de pensar estrategicamente numa política externa panafricana capaz de projetar os interesses de África no tempo e no espaço.
Mas, para isso precisamos também de lidar com as potenciais colónias africanas, como Marrocos, um Estado afrofóbico, estruturalmente racista, e que tem instrumentalizado a imigração em função dos seus interesses. A decisão do Governo espanhol de acolher Brahim Ghali, líder da Frente Polisário, em abril de 2021, não terá certamente passado despercebida a Marrocos. As intenções do reino alauíta no Saara Ocidental são contrárias aos objetivos da unidade africana. Lembremo-nos de que Marrocos abandonou a então Organização da Unidade Africana, em 1984, em protesto contra a admissão da República Árabe Saarauí Democrática, regressando apenas à União Africana em 2017. Marrocos, tal como certos países africanos apresentados pela própria Europa como campeões do desenvolvimento, como é o caso do Ruanda, mantém relações com dois dos grandes inimigos da unidade africana, o criminoso Estado de Israel e os bombeiros pirómanos de nome Estados Unidos. As vidas perdidas em Ceuta são também da responsabilidade de Rabat, a fronteira externa da União Europeia. Temo-nos preocupado com a presença de bases militares estrangeiras em África, precisamos igualmente estar atentos aos acordos de mobilidade, autênticos instrumentos de militarização da migração, que vários dos nossos Estados, sobretudo no Norte do continente, têm vindo a assinar com a União Europeia.
A migração é uma das grandes questões do nosso tempo, porque os imigrantes são os mais eficazes bodes expiatórios dos movimentos de extrema-direita. E estejamos atentos aos avanços da direita e do fascismo em África. O caso da África do Sul mostra-nos que não podemos negligenciar a perigosa articulação internacional entre projetos conservadores e de apartheid social que se tem infiltrado no continente. Temos de escrutinar cada vez mais os nossos governos, os partidos políticos e todos aqueles que, com financiamentos duvidosos, têm normalizado agendas contrárias à unidade e à soberania africanas. Há instituições e personalidades africanas, nacionais e regionais, que, para escamotear os seus interesses de recolonização das nossas sociedades com ideias contrárias aos projetos de libertação, têm instrumentalizado discursos contra o Ocidente e banalizado o nome do panafricanismo. Estejamos atentos.
Camaradas panafricanistas de todo o mundo, temos de começar a pensar geopoliticamente a nossa luta e voltar a colocar a abolição das fronteiras africanas no centro das nossas questões. Sim, a cultura, mas uma cultura política, geopolítica e internacionalista. A revolução africana será geopolítica ou não será!
“Invasão de Ceuta”, dizem! A Camões se referem?
Definitivamente, isto não sendo sobre Ceuta, não deixa de ser sobre o longo empreendimento colonial europeu em África. E, portanto, tudo isto é sobre Ceuta.
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