Fumaça & Divergente
Vista aérea de Lisboa, com filtro azul (design da série Fronteira do Medo)

Esta é uma transcrição de Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Feito em parceria com a revista digital Divergente. Ouve este episódio e sabe mais no website oficial da série.

TRANSCRIÇÃO

G. C. Viegas: Seguem-se descrições gráficas de violência física, incluindo mortes com recurso a arma de fogo. Também se usa linguagem racista. Pondera se queres continuar agora. Recomendo que oiças com auscultadores.

I

Ricardo Esteves Ribeiro: Pouco mais se pode subir além da Soeira, no concelho de Vinhais, em Bragança, sem se pisar fora de Portugal. Esta pequena aldeia de Trás-os-Montes, onde vivem menos de cem pessoas, fica nem a meia hora da fronteira. Tão perto da Galiza, no Estado espanhol, que não é impossível conhecer quem lá tenha nascido, crescido e feito vida, e ainda assim não se sinta português. Nem português nem espanhol — raiano, antes; da raia, a área que envolve a fronteira entre os dois territórios.

Foi na Soeira, há 33 anos, que nasceu Irineu Diniz. Mas neste fevereiro de 2005 estamos na Amadora, a 500 quilómetros da aldeia transmontana, mais de cinco horas de carro. Há dez anos que trabalha aqui, na esquadra de Alfragide da Polícia de Segurança Pública.

Pediu já transferência para o Comando Distrital de Bragança, para mais perto de casa. Mas a fila é longa: podem ser vários anos, mais de uma década à espera de autorização. Portanto, Irineu Diniz vai-se embrulhando no jogo das trocas de turnos para que a escala de serviço permita, de quando em vez, dar um salto à terra onde cresceu.

Hoje, dia 17 de fevereiro de 2005, faz o turno da madrugada. Irineu Diniz senta-se no lugar do pendura. O colega Nuno Saramago conduz o jipe da PSP. Saem juntos pela 1h30 da manhã. Fazem uma ronda pela parte de baixo do bairro da Cova da Moura, não muito longe da esquadra. As ruas estão desertas. Os agentes procuram carros roubados. Não os encontram.

Voltam para a esquadra, para comer qualquer coisa. Entretêm-se a falar com outros polícias. Antes das cinco, saem para uma segunda volta, agora na parte de cima do bairro. O sol ainda não nasceu.

Desta vez, veem gente, mas não param para lhes falar. Nada de suspeito. Nuno Saramago, ao volante, vira para a Rua Principal. Mas há um Renault Megane mal estacionado a bloquear o caminho. Faz a manobra e traz o jipe a ponto morto, antes de arrancar novamente.

Jornalista da TVI: Sem que nada o fizesse prever, Irineu é atingido. 22 tiros, seis deles na cabeça.

Ricardo Esteves Ribeiro: Nuno Saramago vê sangue e fumo. Reconhece o cheiro a pólvora. Inclina-se para a frente, mete a primeira e arranca. Tenta chamar ajuda, mas um tiro de caçadeira tinha destruído o rádio. Liga as sirenes. Na central da PSP, regista-se apenas “um grito aflitivo que tentava articular a palavra ‘apoio’”. Não percebem logo de onde vem.

Quando chega ao hospital Amadora-Sintra, sozinho, o agente Nuno Saramago ajuda a passar Irineu Diniz para a maca. Ainda não se tinha apercebido, mas ele próprio tinha estilhaços de chumbo na nuca.

Irineu Diniz é declarado morto às 6h30. Falta meia hora para acabar o turno. No processo judicial sobre esta noite, em que se baseia esta descrição, Nuno Saramago conta que começou aí uma baixa de quatro meses, para recuperar de ferimentos físicos e psicológicos. “Durante semanas”, nas suas palavras, “o pensamento mais recorrente era o momento em que a viatura começava a ser atingida”. Nesse mesmo ano, foi transferido de Lisboa para Santarém, de onde é natural.

Logo no dia em que Irineu Diniz foi morto, uma associação do bairro convocou uma “marcha pela paz”, com dezenas de crianças. Ao mesmo tempo, em várias esquadras, polícias depuseram as suas armas e recusaram sair à rua em patrulha. Foi um protesto convocado pelos sindicatos para denunciar a falta de proteção que sentiam.

Pedro Carmo, polícia há 30 anos, era presidente da Organização Sindical dos Polícias, hoje parte do SINAPOL, depois da fusão dos dois sindicatos em 2025. Já o ouvimos algumas vezes nesta série. A entrevista é de 2021. A esquadra de Alfragide foi a primeira em que fez serviço. Foi para lá em 1996, nove anos antes da morte de Irineu Diniz.

Pedro Carmo: Posso dizer que entrei ao efetivo, comecei a trabalhar efetivamente sozinho em agosto de 1996. E que, em dezembro, no dia de Natal, eu jantei com os meus pais na ceia, entrei à uma da manhã, e às duas e meia estava no meio do 6 de Maio. Éramos quatro colegas, todos da mesma escola, tudo, tudo — desculpem lá o termo, que é o que a gente costuma chamar — tudo maçaricada. Eu estava com uma metralhadora nas mãos, com a Beretta, e andava para lá tiros e garrafas para o ar, e gajos… Indivíduos a passar completamente… Não era… Naquela altura, não era nada contra nós, mas há uma confusão dos diabos nos becos e naquelas coisas todas, que eu ainda pensei para mim: “Epá, estava tão bem a trabalhar no LIDL” — que eu trabalhava no LIDL, saí do LIDL para ir para a polícia — “o que é que eu vim para aqui fazer?” Pronto, é um bocado…

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas, por exemplo, porque é que estava com uma caçadeira nas mãos no 6 de Maio?

Pedro Carmo: Porque havia tiros, pá. Havia tiros. E a gente, na altura, tinha as Walthers, que eram armas que já tinham passado de mãos de uns para os outros e que, inclusive, numa das ocorrências, com um colega que, mais tarde, veio a falecer, me encravou. E a Beretta, na altura, era a arma…

Ricardo Esteves Ribeiro: Quem era esse colega?

Pedro Carmo: O Irineu.

Ricardo Esteves Ribeiro: Como é que foi o pós-morte do Irineu? Uma…

Pedro Carmo: É duro, é duro, é duro. É complicado. É complicado principalmente para quem, de alguma forma…. e eu estava longe, eu estava em Cascais, aliás, eu, na altura, acho que até já estava em Oeiras. Um colega que a gente conheceu, que conviveu com ele, que trabalhou com ele, de patrulha, os dois um ao lado do outro. E, pá, uma pessoa impecável que não arranjava problemas com ninguém, nem mesmo criava hostilidades na rua. Epá, e uma pessoa saber aquilo que aconteceu e da forma como aconteceu é muito duro. É muito duro, porque é o que eu chamo a violência gratuita que naquelas zonas existia muito, e ainda existe.

Ricardo Esteves Ribeiro: Naquelas zonas, diz, na Cova da Moura, etc?

Pedro Carmo: Sim, sim. Existe muito.

Ricardo Esteves Ribeiro: O Correio da Manhã escrevia, no dia seguinte ao homicídio.

G. C. Viegas: “A morte de um agente da PSP na Cova da Moura é o culminar de uma série de incidentes que foram noticiados pelo CM no último ano. Polícias recebidos por matilhas violentas e que por isso batem em retirada até ao limite do bairro problemático. Cova da Moura, 6 de Maio, Fontainhas, tanto faz. A Grande Lisboa tem já várias bolsas onde milhares de pessoas vivem à margem das leis do Estado. Onde a ordem pública precária é garantida apenas pelo equilíbrio entre gangs. Cada vez mais violentos, bem armados, jovens.”

Ricardo Esteves Ribeiro: Logo após esse dia, a presença policial aumentou na Cova da Moura.

Miguel Curado: Ao nascer do sol dessa manhã de 17 de fevereiro, a PSP e a Polícia Judiciária já tinham cercado o bairro. […] Mas dos assassinos nem sinal. O medo e o silêncio dos moradores do bairro dificultaram a investigação. Foi preciso um mês e mais dois polícias mortos no mesmo bairro para identificar e localizar os homicidas.

Ricardo Esteves Ribeiro: Na verdade, a Polícia Judiciária recebeu uma denúncia com o nome de um dos homicidas no dia seguinte à morte, 30 horas depois dos primeiros tiros. E, ainda nessa tarde, tinha autorização para uma escuta. E não foi na Cova da Moura que os polícias Paulo Alves e António Abrantes foram mortos, a 20 de março de 2005, pouco mais de quatro semanas depois da morte de Irineu. Foi num bar à entrada do Bairro de Santa Filomena, também no concelho da Amadora. O homicida não era do bairro. Em dezembro desse ano, foi morto um quarto agente da PSP, desta vez em Lagos, no Algarve: Sérgio Martins.

Os sete homens envolvidos na morte em Lagos receberam penas entre seis e 22 anos de prisão. O assassino de Paulo Alves e António Abrantes teve uma pena máxima, 25 anos. Os dois responsáveis pela morte de Irineu Diniz foram condenados a 19 e 23 anos de prisão. Em 2006, no ano após estas mortes, o então presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia admitia que os homicídios mudaram a forma de policiar estas comunidades. Paulo Rodrigues, no programa Visão Global, da Antena 1:

Paulo Rodrigues: É evidente que, nesses bairros, mudou a forma de intervenção nos bairros. Neste momento, até porque o próprio governo tem floreado um pouco isso, tem havido um patrulhamento por parte das brigadas de intervenção rápida, o próprio corpo de intervenção normalmente patrulha de forma mais assídua esses bairros do que, propriamente, fazia anteriormente.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mudaram, pelo menos, duas coisas. Joaquim Raposo, que na altura presidia à câmara municipal da Amadora, defendeu logo que, citando, “a Amadora é um concelho de exceção que precisa de medidas urgentes”. A autarquia, apoiada por sindicatos da polícia, pediu que se mapeassem as zonas “de alto risco”, para as controlar com um sistema de videovigilância. Em 2006, a PSP aprimorou os requisitos para policiar o que chamava de “bairros problemáticos”. Mais tarde, chamou-lhes Zonas Urbanas Sensíveis. Só na Amadora, detetou uma dezena.

E, em 2008, em parceria com a polícia, a câmara pediu para instalar mais de cem câmaras no concelho. No projeto, falam num aumento de roubos e furtos no concelho. Listam também as Zonas Urbanas Sensíveis para referir, entre outras preocupações, a “composição étnico-social muito problemática” e o “historial de agressões à PSP preocupante” de bairros como a Cova da Moura. Na altura, a Comissão Nacional de Proteção de Dados esteve contra, porque, estatisticamente, não via um “risco razoável de ocorrência de crimes em locais públicos”, e porque havia um perigo que “não é totalmente imaginário” de restringir “o exercício na via pública das liberdades cívicas das franjas ou grupos desfavorecidos da sociedade”. Uma década e meia depois, com duas reescritas de projeto pelo meio, mais de uma centena de câmaras estão a funcionar no concelho da Amadora. Pedro Carmo, de novo.

Pedro Carmo: É assim, eu posso dizer que, pá, isto diretamente — mesmo que se tenha familiares polícias, que não é o meu caso — ninguém sabe o que é que é polícia. Só se sabe o que é que é polícia quando se começa a trabalhar e começa-se a deparar com as diversas situações que a polícia tem que resolver e tem que enfrentar.

Ricardo Esteves Ribeiro: Nos últimos cinco anos, entrevistámos mais de 40 polícias para tentar responder a isso mesmo: “O que é ser polícia em Portugal”? E, ainda, como é policiar bairros guetizados? É isso que vamos tentar perceber neste episódio.

Esta é Fronteira do Medo, uma investigação sobre o policiamento de bairros guetizados, as pessoas que ali habitam e os polícias que lá trabalham. Episódio 7: Ovo ou galinha. Seja toda a gente bem-vinda ao Fumaça, em parceria com a Divergente. Eu sou o Ricardo Esteves Ribeiro.

II

Ricardo Esteves Ribeiro: Desde o início do século, morreram, pelo menos, 31 polícias da PSP e da GNR em serviço. Pelos números do Relatório Nacional de Segurança Interna, mais de um por ano. Dois terços dos mortos eram militares da GNR. Os restantes, da PSP. Preservar a memória destas mortes é parte da cultura das polícias. No pátio da Direção Nacional da PSP, debaixo de uma arcada, está inscrito em pedra o nome de cada um dos agentes que morreram. Nas entrevistas que fizemos, são tema de conversa: polícias lembram o que as mortes de colegas os fizeram sentir: medo.

José Fontão Pereira: Quando és polícia, esse é o teu estado normal. Eu agora…

Ricardo Esteves Ribeiro: José Fontão Pereira tornou-se subcomissário em 2003. Está fora da PSP há mais de uma década, mas lembra-se de como ser polícia significava uma constante sensação de alerta, de stress.

José Fontão Pereira: A sensação de quando vais fazer uma intervenção num bairro difícil, ou numa situação de maior risco, pá, o medo está sempre lá. E não é um medo cobarde, é um medo de alerta, porque a minha integridade física está em risco.

Ricardo Esteves Ribeiro: O risco, dizem-nos polícias, é percecionado de maneira diferente tendo em conta a geografia do policiamento. “Bairros difíceis”, como lhes chama José Fontão Pereira, são tidos como ameaças de nível mais elevado, também pelas mortes de agentes em serviço. Dos 11 elementos da PSP que morreram entre 2000 e 2023, sete foram assassinados na Amadora, incluindo em locais classificados como Zonas Urbanas Sensíveis pela PSP: o antigo Bairro Santa Filomena, já demolido, a Damaia de Cima, ou a Cova da Moura, como o agente Irineu Diniz. O presidente do Sindicato Nacional da Polícia, o SINAPOL, descreve a consequência desta memória coletiva. Armando Ferreira, polícia desde 1994, que já ouvimos nesta série.

Armando Ferreira: Obviamente, os agentes, quando entram ali, epá, entram com medo. Eles estão com medo de também poderem ser baleados. Estão com medo de que alguém vá tocar a campainha da esposa, da mãe, do pai, e digam: “Olha, lamento, mas o seu filho morreu.” Não é?

Ricardo Esteves Ribeiro: Marisa Dolores, agente da PSP e dirigente na Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, a ASPP, defende que é “arriscado” patrulhar Zonas Urbanas Sensíveis.

Marisa Dolores: Somos apedrejados, somos ofendidos, barram-nos o caminho para entrarmos em determinados bairros.

Ricardo Esteves Ribeiro: Os polícias têm medo de entrar nesses bairros?

Marisa Dolores: Quem é que não tem medo de entrar numa zona em que coloca a sua vida e a sua integridade física em risco?

Ricardo Esteves Ribeiro: A linguagem com que polícias descrevem encontros com as pessoas que vivem em bairros guetizados é semelhante à linguagem que quem lá mora usa para descrever a própria polícia. Ouvimo-la no último episódio e vamos ouvi-la neste: violenta e ameaçadora; cria uma sensação de ameaça contínua, de permanente alerta, de risco constante. Pedro Carmo, o sindicalista que trabalhou com Irineu Diniz, descreve como é chegar a um destes bairros.

Pedro Carmo: Nós somos chamados por um simples ruído, e chegamos lá e é uma desordem dos diabos, e viram-se a nós. Às vezes nem é propriamente para estancar a situação porque se estiverem dez indivíduos ou 15 indivíduos embrulhados em desordem, não são dois polícias que chegam com um carro patrulha no meio de um beco que mal as portas abrem que vão conseguir acabar com aquela desordem. Principalmente quando aqueles dez indivíduos esquecem-se que estão em desordem uns com os outros e vêm diretos à polícia para agredir os polícias. Porque querem lá resolver as coisas à maneira deles e a polícia ali não é bem-vinda.

Ricardo Esteves Ribeiro: Carlos, o polícia que vive nas camaratas da PSP em Chelas, conta como esta oposição constante impede a atuação das polícias num bairro guetizado da Amadora. A voz e o nome estão alterados.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas já alguma vez foi agredido numa operação dessas?
Carlos (anónimo): Já, já. Várias vezes.
Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, uma pessoa agredir um…
Carlos: Inclusive já tive que fugir. Inclusive já tive que fugir. Não tenho vergonha nenhuma em dizê-lo. Eu e quem estava comigo. Tivemos que fugir.
Ricardo Esteves Ribeiro: De onde?
Carlos: Quinta da Laje.
Ricardo Esteves Ribeiro: Porquê?
Carlos: Porque estávamos a ser agredidos. Eram tantas as pedras que a gente, mesmo com escudos e capacete, não sabíamos onde é que elas vinham.

Ricardo Esteves Ribeiro: Carlos não é o único a descrever este “fenómeno metereológico”. O antigo agente e porta-voz do Movimento Zero, Hélder Gomes, também fala dele. Explica o jogo de gato e rato entre a polícia e os residentes dos bairros: “Vais dando liberdade, eles vão ganhando confiança.” Numa noite, conta que eram duas da manhã quando a PSP recebeu uma queixa de ruído no Bairro do Casalinho da Ajuda, em Lisboa. A equipa deslocou-se ao local.

Hélder Gomes: Vai a primeira vez, desligam a música. Passado meia hora, ou 40 minutos: “CSP”, outra vez, o carro, a nomenclatura. A central: “vá lá”. “Fogo, outra vez”. Chegas lá. Vêm a polícia a chegar, baixam a música. “Então, pessoal, olhem, mas vocês tem que pensar em recolher, pá, é uma da manhã”. “É só uma festa, o meu primo faz anos, e não sei quê”, e o caralh– “Está bem mas você têm aí pessoas…”. Lá está, eu fazia este discurso: “Vocês têm de convidar os vizinhos, pá, que as pessoas querem dormir. Pá, vamos lá acabar com isso se querem ficar cá fora” Para não sermos, para não fazermos coação, para não obrigamos os meninos a ir lá para dentro de casa. “Fiquem cá fora. Deixem estar assim a música desligada.” À terceira vez, achas que eu vou lá com o quê? Estes gajos andam a brincar connosco, pá. E com as pessoas a ligar: “Vocês não fazem nada!” E depois a central a colocar já tensão. Porque isto é… A central, que nem foi lá, diz-te assim… Imagina, vou-te dizer, para dar mais ênfase à coisa: “CSP4428, daqui CSP21”. “Escuto”. “Informe qual foi o procedimento tomado lá no bairro, não sei quê, de Casalinho da Ajuda”. “Oh 21, isso foi dito aos indivíduos…”. “Então desloque-se lá novamente, pá, porque os indivíduos estão outra vez a fazer barulho! Não é? Já são duas da manhã! Já é a a terceira vez…”. “Quê?! Hum?! Carago.” Vai logo: [Vocalização de sirene]. E nós ainda vamos às vezes com aquilo para avisar. Na esperança de que — não é? — eles ouçam aquilo, desliguem as músicas.

Ricardo Esteves Ribeiro: Que as pessoas saiam por vontade própria.

Hélder Gomes: Não. Ó Ricardo, diz-me lá: isto há condições? Vais logo ligado, chega à beira do bairro: [Vocalização de sirene]. A ver se eles vão embora. Não. Estão lá. O quê? Somos nós que vamos lá confrontar? Então: “Ok, vamos sair e vimos aqui depois com um reforço”. Demos a volta ao carro. E pronto, foi a chuva de pedras.

Ricardo Esteves Ribeiro: Isto tem efeitos na maneira como polícias policiam.

Hélder Gomes: Ou matas ou morres. […] Ou comes ou és comido. Olha, este é o melhor termo: ou comes ou és comido. E nós, nesse momento, não podemos mostrar fragilidade.

Ricardo Esteves Ribeiro: O presidente do SINAPOL, Armando Ferreira, que ouviste há pouco.

Armando Ferreira: Portanto, é natural que, em zonas que são consideradas perigosas e de risco, os polícias façam uma ação muito mais musculada do que fazem noutros sítios. E isso, se calhar, paga pessoas que não têm culpa por quem tem a culpa. […] Tal e qual como se pode dizer que aos polícias é incutido o medo de entrar naqueles bairros, a essas pessoas também é incutindo o medo das polícias.

Ricardo Esteves Ribeiro: A forma de responder às ocorrências em Zonas Urbanas Sensíveis é formalmente diferente. A PSP definiu regras específicas para as ZUS em 2006, numa diretiva estratégica confidencial. Assume, por exemplo, que, mesmo numa “situação normal”, sem perigo, os carros patrulha só podem entrar nos bairros com mais do que um tripulante, avisando antes a central rádio, e sabendo que há outro carro, pronto para dar apoio, no máximo, em cinco minutos. João — voz e nome alterados — é negro e passou parte da adolescência na periferia de Lisboa, no que o próprio chama “um guetozito”. Mais de dez anos depois de ter entrado para a polícia, diz que é importante “saber as coisas pelos dois lados”.

João (anónimo): Porque é que a gente não vai ao teu bairro? Há uma razão para a gente ir lá, não é? Agora é assim que nós também quando lá vamos não somos recebidos da mesma forma. Agora comportamento gera comportamento e já são anos e anos neste ramerrame. Isto é o jogo do gato e do rato. Eu não vou ao bairro para bater em ninguém, eu vou lá, porque eu sei que existem indícios de criminalidade ali. Porque a gente sabe que eles andam ali, a gente sabe há carros furtados num sítio e tal. Aquelas peças são dali, estão ali naquele sítio. E gente vai lá à procura delas e a gente chega lá e encontra as coisas.

Ricardo Esteves Ribeiro: O argumento de João e de outros polícias é o seguinte: se é um facto que existe mais crime em Zonas Urbanas Sensíveis, é normal que polícias sejam chamados a intervir mais vezes em Zonas Urbanas Sensíveis. E é, portanto, também claro que as pessoas que vivem em bairros considerados problemáticos cometem mais crimes. É estatístico. Mas a história da estatística criminal deve ser problematizada. Será que é nos bairros guetizados que se pratica mais atos considerados crimes ou será que é apenas aqui que o crime é mais vezes detetado, exatamente porque há mais policiamento? Afinal, o que nasceu primeiro? O crime ou o policiamento? A resistência ou a brutalidade?

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas admites que é diferente, ou pelo menos que a ação da polícia é diferente? Sei lá, é mais musculada, mais violenta, como queiras chamar, nesses bairros do que é noutros?

João (anónimo): Sem dúvida. Tem que ser mais musculada. Quando a gente vai à procura de alguma coisa a intervenção tem que ser mais musculada. Agora, há muitas intervenções dessas que nem sequer violência geram. Só que as pessoas normalmente vão sempre pegar no que é errado. Mas quantas operações anuais que se faz por aí que não há violência nenhuma? Bola. Só que depois há uma, específica, que aconteceu: “Eish, já há muita violência.”

Leonel (anónimo): É o que eu digo: q maior parte do pessoal vive numa bolha e não tem noção do que é que é lidar com esta gente que, infelizmente, […] que só respeita, muitas vezes, havendo a parte do medo ou da parte física de ter medo.

Ricardo Esteves Ribeiro: Leonel — voz e nome alterados —, polícia há mais de cinco anos.

Leonel (anónimo): Epá, é mesmo assim, não é a educação que eu e tu temos. Eles para respeitar alguém, vão muito pela parte da força física. Tu se fores um polícia que — é mesmo assim — que eles achem que é assim um caguincha, e que tem medo e que não tem força, eles testam-te, nestes bairros, eles vão-te testando. Eles depois, quando começas a ser conhecido, eles chamam: “Epá, atenção que este é o não sei quantos, é o Zé Manel, este gajo aqui não é de modas, que um gajo estica a corda, come logo com uma bolachada, então, calma.” Se tu fores um gajo muito educado… isso aconteceu, ao início, quando lá cheguei, estar a falar com um gajo, ser muito educado, pedir para ele desligar o telemóvel, que eu estava a retirar os dados deles, a identificação dele, e o gajo nada. Até que chega um colega meu, mais antigo, que vê aquilo, chega lá, o gajo estava ao telefone, tira-lhe o telefone da mão […] — supostamente não podes tirar o telefone assim a alguém, não é? —, mas tira-lhe o telefone e ele: “Ouve lá, estás a ouvir? Vais responder aqui alguma coisa, vais já dar os dados, se não comes já uma bofetada nos cornos. Está a falar contigo e estás a faltar ao respeito assim?” A seguir, a partir daí, o gajo foi o gajo mais colaborante e mais tranquilo comigo. E eu estava a tratar o senhor por você, e aquela linguagem toda que, se fosse nas Amoreiras, […] , com uma tia, se calhar, funcionava, não é? “Este senhor agente é todo educado. ‘Claro que sim, senhor agente’.” Agora, com aqueles gajos, tu seres muito bem educado, […] estão-te a tirar a pinta de otário. Tipo é a cena lá do bairro: “Ah, estás-me a tentar tirar a pinta de otário.” E pronto, se tu és muito bem educado com eles, eles acham: “Ah, isto é um Zézinho, um daqueles” — epá, em bom português — “um ‘coninhas’, um ‘atadinho’”, ou assim. Pá, e tu tens que adaptar a tua maneira de ser também conforme o local onde estás a trabalhar. Infelizmente, isto acontece.

III

José Fontão Pereira: Eu lembro-me. Olha, a primeira detenção que eu fiz, muito engraçado. E agora até, não sei tem….

Ricardo Esteves Ribeiro: José Fontão Pereira é o polícia que há pouco disse que o stress, alerta, medo são o estado normal de um agente. Passou pela esquadra de Investigação Criminal de Matosinhos e pelo núcleo de informações do Comando do Porto. Faz mais de 14 anos que se apaixonou por finanças e meteu uma licença sem vencimento. Hoje em dia é consultor na PWC e vice-presidente da organização não-governamental Transparência e Integridade.

Há duas décadas saiu da escola de oficiais feito comandante — da escola diretamente para o topo da carreira, sem nunca antes ter feito uma detenção. No primeiro posto na PSP, diz, liderava 50 operacionais, na Esquadra da Maia, distrito do Porto. Foi logo aí que, pela primeira vez, deteve alguém. Uma noite, juntou os agentes e disse-lhes: “Vamos à paisana. A malta aderiu em massa”, conta.

Tudo começou com uma série de denúncias anónimas. E, um dia, uma pessoa que se identificava como agente dos Serviços de Informação e Segurança entrou na esquadra informando a PSP de que havia, nas ruas perto de sua casa, tráfico de droga. Era preciso “fazer alguma coisa”, decidiu o comandante.

José Fontão Pereira: E, então, vamos fazer a rusga, não sei quê. “Vamos ali aos maninhos.” Pá, que costuma parar lá malta. Opá, malta a fumar uns charros, achava eu, achava eu. Pá, e estamos a falar tipo onze da noite. Não é quatro da manhã, é onze da noite. A malta dividiu-se, havia ali dois ou três grupos, e eu, assim que eu estou, saio do carro onde eu vinha, estou só eu e mais um agente, e, coincidência, do carro ao lado do meu saem quatro ciganos. Estão a sair, tinham acabado de chegar. E eu tive um disparo de adrenalina, do tipo “Isto está a acontecer, isto é real”. E eu chamo um deles: “Olhe, desculpe, chegue cá.” E ele teve uma atitude muito agressiva logo comigo.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas qual era a suspeita, nesse caso?

José Fontão Pereira: Opá, porque ali havia denúncias de muitos moradores ali à volta, que diziam que havia ali droga, e que havia ali bandidagem, e não sei quê. E o sentimento de insegurança, numa cidade como a Maia, é tão importante como a segurança efetiva. Se tu não tens crime ali, mas toda a gente tem medo de ser assaltada e nem sai à rua, porque tem medo, a segurança não se está a cumprir.

Ricardo Esteves Ribeiro: Claro. Mas porquê essa pessoa, em específico?

José Fontão Pereira: Opá, porque os gajos saíram do carro ao lado do meu. Eram ciganos, podiam ser, sei lá, outra coisa qualquer.

Ricardo Esteves Ribeiro: Se fossem brancos…

José Fontão Pereira: Não. Houve outros brancos a ser… Claro.

Ricardo Esteves Ribeiro: José Fontão Pereira garante que serem ciganos nada teve que ver com terem sido abordados pela equipa. “Toda a gente foi abordada”, diz, até “miúdos, putos de 14, 15 anos”. O comandante era, ele próprio, bastante jovem: tinha 25 anos. E, apesar da hierarquia, tinha “cara de puto sem barba, não metia medo a ninguém”.

José Fontão Pereira: Peço ajuda no rádio, porque estava só eu e outro agente, que ficou a falar com os outros três. E eu “ajuda, ajuda”, não sei quê, e a malta vem. E assim que vieram os outros — polícias, não é? Agentes batidos — o gajo afastou-se, ficou ali. Epá, cartela da porta, do lado do condutor, de onde ele tinha saído: uma nove milímetros com três carregadores cheios. Trinta e cinco munições. Tu não estás a ver… Aliás, eu fui para casa e depois não dormi de manhã. É que não era tipo: “Ah, eu tenho uma arma em casa, no cofre.” Não, era na porta, cheios, um deles dentro da arma. Aquilo, para mim, foi um disparo de adrenalina, de medo, de tudo. Aquilo foi uma cena, uma experiência. Mas pronto, foi a minha primeira…

Ricardo Esteves Ribeiro: Isso mudou a tua maneira de pensar ou de ver pessoas ciganas, por exemplo?

José Fontão Pereira: Epá não, não mudou. Não mudou. Na Polícia, tens muitas realidades. A realidade do polícia da esquadra de Bragança é, eu diria, radicalmente diferente, do ponto de vista operacional e do ponto de vista emocional, do agente da esquadra da Amadora. Eu faço ideia de alguém que vem de um meio menos urbano e que, de repente, aterra num bairro onde há tiroteio todos os dias, ou uma coisa assim, percebes? Eu acho que desde que saí da polícia o problema dos ciganos, da comunidade cigana — até o André Ventura começar a fazer… — desapareceu da minha vida, deixou de ser um tema, nunca mais interagi com nenhum. E ouço alguém falar: “Ah, os ciganos, é um problema.” Pá, ok, eu hoje digo-te assim: há um problema? Acho que sim, há qualquer coisa aqui que era preciso resolver, a bem de todos. Mas, se me perguntas: “É o problema mais grave de Portugal, do país, neste momento?” Acho que não é. Mas, por exemplo, para quem está na polícia, as interações são muito recorrentes. Eu tinha muitas interações com o crime com comunidades ciganas, com situações de roubos, de tráficos.

Ricardo Esteves Ribeiro: Em algumas das entrevistas que fizemos para esta investigação, ficou evidente que, para vários dos polícias, há uma linha que separa um “nós” de um “eles”. De um lado, não apenas os ciganos, mas, no geral, populações residentes em bairros pobres. Do outro, quem sabe viver em sociedade e, também, respeitar aqueles que impõem a ordem. Para Luís Maria, então dirigente da Organização Sindical dos Polícias, hoje parte do SINAPOL, isto começa em criança. Conta que estava de serviço no Minipreço da Damaia de Baixo, na Amadora, quando uma senhora com um carrinho de bebé pediu que tomasse conta do filho enquanto fazia compras.

Luís Maria: Ela foi à vida dela e tomei conta do bébé. Sabe o que eu fiz ao puto? “Olá, está tudo bem?” Sabe o que é que ele me respondeu? “Mim mata tu. Mim mata tu.” Sabe o que é que eu fiz? Depreendi aquilo que você depreendia também: as crianças falam na rua aquilo que ouvem em casa. Se o pai está a comer à mesa e a falar com a mãe e a dizer assim: “Olha lá, o filha da puta do polícia, veio ali, eu estava com o carro mal estacionado, e começou a isto, coiso. É matar os gajos, e tal e coiso.”

Ricardo Esteves Ribeiro: Nesta entrevista, uns minutos antes, tinha tentado falar sobre a intervenção das polícias nestes bairros com Luís Maria e Pedro Carmo, presidente do sindicato. Interromperam-me antes de conseguir acabar a citação de abertura.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas sabe que eu uma vez ouvi do LBC, o Flávio Almada, do, dirigente do Moinho da Juventude, se calhar conhece, é uma das pessoas…

Luís Maria: Conheço muito bem. Trabalhei com eles na Cova da Moura. Fui a muitas reuniões lá, como sindicalista.

Ricardo Esteves Ribeiro: E o, e o, o Flávio disse-me uma vez: “Antes–”

Luís Maria: Eu estava lá dentro na reunião para sensibilizar aqueles jovens delinquentes, porque são jovens delinquentes, senão, não estavam lá.

Ricardo Esteves Ribeiro: É uma acusação muito grave dizer…

Luís Maria: São jovens delinquentes que lá estão e eu vou-lhe provar porquê.

Ricardo Esteves Ribeiro: É uma, é uma acusação muito grave dizer que os jovens são delinquentes quando não foram condenados de absolutamente nada, alguns deles.

Pedro Carmo: Não, mas a delinquência não tem a ver… Na nossa linguagem, delinquência é outra, não tem a ver com isso.

Luís Maria: Já vi que… A delinquência que está a entender não é essa. A minha percepção de delinquência não é essa.

Ricardo Esteves Ribeiro: É o quê?

Pedro Carmo: É diferente.

Ricardo Esteves Ribeiro: O que é que quer dizer com isso?

Luís Maria: É pessoas que são de famílias desestruturadas, que não têm acompanhamento…

Pedro Carmo: É tipo marginais, vá. A palavra é marginal, é delinquência…

Luís Maria: Escute, não têm acompanhamento tipo educação parental, não tem referências de pessoas adultas, referências boas. Têm mais referências é dos bandidos. “Epá, aquele vende droga, grande carro que ele tem, e tal, e coiso. Trabalhar na obra como o meu pai? Não, e tal e coiso.” Está a perceber? Jovens delinquentes. E que fazem asneiras que, para eles, não são crimes. Mas são crimes. Mas, para eles, não são.

Pedro Carmo: São só aquelas coisas para ser giro, para ser fixe, para ser cool.

Luís Maria: Entendem aquilo como uma coisa normal, está a perceber?

Ricardo Esteves Ribeiro: Vamos falar no próximo episódio de como está legalmente codificada a classificação de alguém suspeito, mas detenhamo-nos aqui por uns segundos. Leiamos um dicionário online, o Priberam, claro: “Delinquente: Que delinquiu. Pessoa que cometeu um delito.” “Marginal: Que ou quem vive à margem da sociedade, desrespeitando leis, costumes e valores estabelecidos […] igual a delinquente, vagabundo”

Ora, se, para Luís Maria e Pedro Carmo, quem faz parte do Moinho da Juventude, um coletivo de apoio mútuo na Cova da Moura, é delinquente, a que distância estarão de decidir detê-los a qualquer momento, de lhes revistarem a casa ou o escritório, ou de os identificarem na rua? Se quem é “de famílias desestruturadas”, ou não tem “acompanhamento tipo educação parental” é, por inerência, delinquente, onde está a fronteira que separa o “cometer uma ilegalidade” do “ser uma ilegalidade”? Os investigadores estadunidenses David Correia e Tyler Wall defendem que é a própria intervenção policial a criar estes rótulos. Escrevem no livro Police: A Field Guide: “As forças policiais produzem ordem porque a força policial fabrica espaço. […] A polícia, dizem-nos, não cria o gueto; a polícia patrulha bairros infestados pelo crime. Mas no espaço não se pode apenas estar. Faz-se o espaço. Torna-se realidade. A polícia executa práticas — detenção, uso da força, revistas — de formas que literalmente criam este espaço.”

Enviámos perguntas à Direção Nacional da PSP sobre vários dos testemunhos que ouves neste episódio. Recusaram responder. Já José Luís Carneiro, enquanto era ministro da Administração Interna pelo Partido Socialista, defendeu por escrito que: “A prossecução dos objetivos de defesa da ordem pública contra certas formas de criminalidade só pode ser feita nos casos e mediante os procedimentos previstos, sob pena de se começar a assistir a uma generalização de regimes de exceção de carácter securitário, que entram em conflito direto com as liberdades públicas e com as garantias dos cidadãos”. Tens a resposta completa em www.fronteiradomedo.pt. As duas ministras da Administração Interna seguintes, Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral, da AD, não aceitaram dar entrevistas. De volta aos testemunhos de polícias. Leonel explica como é diferente intervir na baixa lisboeta ou no que a polícia chama Zonas Urbanas Sensíveis.

Leonel (anónimo): Epá, estamos a falar de bairros que parecem favelas. Construções todas ilegais. Tu dentro de uma casa tens 20 indianos a viver. Na porta ao lado tens um casal de africanos com sete ou oito filhos, em que a mãe sai de casa às cinco da manhã para ir fazer limpezas nos bancos. E claro que aqueles miúdos andam todos ali um bocado ao Deus-dará. E, depois, tu nasces no meio de um bairro em que… E eu não estou a… A cena é, com isto, não é querer estar a desculpar, mas tu consegues, de certa forma, perceber porque é que isto acontece. Estes miúdos andam ali todos em bando no bairro. Depois aquilo ou jogam bola, ou têm a sorte de fazer uma coisa dessas, ou então eles andam ali, não têm nada para fazer, e fazem porcaria… Vão fazer porcaria. Mas não… Eu acredito que uma pessoa quando nasce, não nasce logo com uma disposição para agarrar em facas e roubar pessoas. Tu és o resultado do meio onde cresces, ou das pessoas com quem interages, dos valores que te são passados. Isso é que falta perceber: é que tu és resultado das vivências, e isto começa logo desde muito pequeno, e…

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas tu tens estas conversas com colegas teus?

Leonel: Não, não. Nem consegues. Pelo menos, eu não consigo. Eu… É muito complicado, porque a maior parte dos polícias, o pessoal não tem essa abertura a nível de mente para sequer conseguir sequer fazer este exercício. E, se fazes é: “Ah, és da esquerdalha”, ou “Deves ser mais um que também quer tirar o tipo de género que o cartão de cidadão tem”, ou “És mais um LGBT”.

Ricardo Esteves Ribeiro: Vasco — voz e nome alterados —, sobre a origem deste sentimento.

Vasco (anónimo): Às vezes, trata-se de um racismo… Eu nem gosto de lhes chamar racismo, porque não sei se enquadra aí. Mas talvez numa pessoa que não tenha qualquer tipo de experiência e que venha, se calhar, de uma aldeia, como eu vim, mas que… Imaginando: no teu dia-a-dia de trabalho, todos os dias tu és chamado para ocorrências em bairros onde lidas com determinado tipo de pessoas, ou pessoas de etnia africana, ou pessoas de etnia cigana, ou pessoas…. Todos os dias, tens problemas com essas pessoas. […] E, de repente, tu tens… Imagina noutro tipo de situação a acontecer: um assalto numa pastelaria em Campo de Ourique e tu chegas lá e vês uma pessoa de etnia cigana a fugir e vês um gajo de fato a fugir. Tu, derivado da tua experiência toda de trabalho, vais correr atrás de quem?

Ricardo Esteves Ribeiro: Pedro Carmo e Luís Maria, sindicalistas.

Pedro Carmo: É normal se, alguém que vem de uma terra em que… Pá, uma terra pacífica, que não se passa lá nada de especial, é inserido numa grande metrópole, Lisboa, e que passa ali dois, três, quatro, cinco anos, cada vez que há problemas, é com cidadãos de raça negra, ou com indivíduos de etnia cigana, ou com ucranianos, ou com o que for, é normal, psiquicamente — e isto não é só dizer que é racista — é normal psiquicamente aquela pessoa ficar com uma certa adversidade.

Luís Maria: Há um estigma ou uma aversão.

Ricardo Esteves Ribeiro: O psiquiatra francês, argelino e martinicano Frantz Fanon tinha uma ideia diferente. Em Pele Negra, Máscaras Brancas, de 1952, defende que este sentimento não é criado apenas como resposta a situações do dia-a-dia. Advém de uma fobia coletiva, a negrofobia: “Uma neurose caracterizada por um receio ansioso por um objeto”, a pessoa negra — um, nas suas palavras, “objeto fobogénico, ansiogénico”.

Como resultado do projeto colonial de impérios como o português, qualquer pessoa que cresça e seja educada em Portugal (incluindo pessoas negras) tem medo e ansiedade não racionais. Fanon defende que antes de qualquer má experiência com pessoas de bairros guetizados, já cresce nas nossas mentes a ideia de que pessoas negras representam (citando) “o Lobo, o Diabo, o Génio Mau, o Mal, o Selvagem”. João, que também já ouvimos antes. Ele próprio um polícia negro.

João (anónimo): Que tipo de população é que existe na Amadora? Que tipo de bairros é que existe na Amadora? O indivíduo nunca teve, teve pouco contacto com este tipo de ocorrência, este tipo de crime, este tipo de indivíduos violentos. Pá, a maior parte da criminalidade, quer queiramos quer não, infelizmente, mas ali naquelas zonas, é da comunidade africana, não é? Pá, se ele está a levar com aquilo todos os dias, a primeira coisa que ele chega a um bairro e leva logo uma pedrada, ele vai logo começar “pá, mas este pretos do caraças”, muitas asneiras, “pá, estes gajos”. Ele vai começar a criar preconceito quer queira quer não.

Ricardo Esteves Ribeiro: A ideia de que são as pessoas negras que cometem mais crimes em Portugal é apenas uma sensação. Um preconceito sem base estatística, já que não se faz, cá, de maneira sistemática, recolha de dados etnicorraciais. Tiago é negro, filho de imigrantes de um dos territórios colonizados por Portugal. Passou a juventude num bairro da linha de Sintra que o próprio considera “muito complicado”. A voz e o nome estão alterados.

Ricardo Esteves Ribeiro: Já tiveste algum problema com a polícia?

Tiago (anónimo): Já, já. Oh, então não? Quando era puto tinha, não é? Vivia num bairro… […] Era um bairro muito complicado. Já tinha tido umas abordagens por estar um grupo de se calhar, seis, sete negros e na altura, como vivíamos na linha de Sintra, íamos para Sintra para beber uns copos. E fomos abordados porque alguém tinha feito uma denúncia que andavam a fazer furtos telemóveis, pronto. E, então, fomos levados para a esquadra. Fomos identificados. Tiraram-nos fotografias. E era uma situação assim, eram situações, assim, um bocado frustrantes, porque não estás a fazer nada. Estás aí com os teus amigos, querias ir a um bar, beber um copo, divertir-te, e és ali abordado, e… “O que estás aqui a fazer? O que vocês estão a fazer?” Uma abordagem assim: “Agora vão para a esquadra connosco”. […]

Ricardo Esteves Ribeiro: Qual é que achas que era o papel da tua cor de pele nisso?

Tiago: Era o papel, era o principal. Era o que determinava. E que ainda hoje muitas das vezes determina a ação de certos colegas. Ou seja…

Ricardo Esteves Ribeiro: Achas que quem é negro é suspeito?

Tiago: Sim. Acho que sendo negro e pobre, porque acho que a pobreza também ajuda, é suspeito.

Ricardo Esteves Ribeiro: Depois dos estudos, decidiu juntar-se à polícia.

Ricardo Esteves Ribeiro: Como é que é ser já do outro lado? Como é que é ser…

Tiago (anónimo): É interessante. É interessante. É interessante policiares, e policiares com colegas quando usam a expressão “Isto é só merda”, não é? E teres que explicar aos teus colegas que não é só merda, porque eu também vim de um bairro igual e não quer dizer que seja só merda.

Ricardo Esteves Ribeiro: O racismo nas polícias portuguesas não é um assunto novo — vários relatórios nacionais e internacionais alertam para isso mesmo. Mas um dos que mais tinta fez correr nos últimos anos acabou por nunca ser publicado. Em maio de 2018, no dia antes de começar o julgamento de 17 agentes da PSP pelo caso de brutalidade policial na esquadra de Alfragide, na Amadora, o agente principal Manuel Morais denunciou ao Diário de Notícias o que chama de “preconceitos étnicos” na PSP. Estava, diz, a fazer uma tese de mestrado sobre a relação dos polícias com os jovens desses “bairros periféricos” que o sugeria. Em 2019, Manuel Morais foi impedido pela Direção Nacional da PSP de dar uma entrevista ao Fumaça. Mas, no ano seguinte, falou à SIC sobre o questionário que fez aos colegas.

Manuel Morais: Uma entrevista que fiz a todos os polícias: o crime tem uma relação direta com a etnia?

Sofia Pinto Coelho: O que é que responderam?

Manuel Morais: “Então, tu não sabes? Ou eles são todos pretos ou ciganos.” Isto é 90% das respostas.

Sofia Pinto Coelho: Dos polícias?

Manuel Morais: Dos polícias.

Ricardo Esteves Ribeiro: Em resposta, Manuel Morais garante que recebeu ameaças de morte. Decidiu não publicar a investigação. Dias depois desta entrevista, veio a público que deixou também o cargo de vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia. Numa publicação na página pessoal de Facebook, escreveu, dois anos mais tarde: “Fui afastado pela direção da ASPP, sindicato que servi durante 30 anos, não é menos verdade que as razões que motivaram a direção a tomar essa decisão, foram as minhas declarações sobre os preconceitos étnicos na sociedade e nas forças de Segurança… Qualquer outra versão é pura ficção…”

Cristiano Correia, agente principal da PSP e secretário nacional da ASPP, tem outra versão: foi uma decisão mútua.

Cristiano Correia: O “ruído”, entre aspas, que estava a provocar o próprio estudo do Manuel Morais e toda a controvérsia que ele gerou… Estava a criar um ruído tal que as lutas e as reivindicações da ASPP não estavam a ter um enfoque que a ASPP desejaria e o tema Manuel Morais, que é de uma pessoa, independentemente de ser o vice-presidente, era de uma pessoa, estávamos a verificar que estava a consumir tudo aquilo que é o importante do sindicato. E o importante do sindicato são as lutas sindicais.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ao longo desta investigação, perguntámos a cinco dirigentes sindicais ou ex-dirigentes sindicais da PSP se o racismo nas polícias era um problema estrutural, que devia ser combatido de forma prioritária. Nenhum concordou. Alberto Torres, fundador e ex-presidente da ASPP.

Ricardo Esteves Ribeiro: Não vê ideias racistas?

Alberto Torres: Não, não, não vejo. Localmente, por força das situações em que nós vamos encontrar, às tantas há reações que nos levam a aí. Eu trabalhei num sítio um bocado para o complicado onde não havia ciganos, não haviam pretos, não havia não sei quantos. E eu, às vezes, dizia aos meus colegas: “Epá, se vocês forem ali a tal sítio, se os pintarem todos de preto, vão ver qual é a diferença.” E estava a falar de pessoas da nossa raça, não é? De maneira que… E não tínhamos lá pretos, nem tínhamos ciganos, nem tínhamos indivíduos de outras etnias. Tínhamos pessoas da nossa raça. Só que os comportamentos deles, a vida diária deles, eu diria que não eram muito diferentes dos outros. Então, o porquê de nós termos um discurso às vezes “Epá, porque estes e aqueles são piores do que os outros, e não sei quanto”. Não é nada disso. Não é?

Ricardo Esteves Ribeiro: Em novembro de 2022, o Consórcio – Rede de Jornalistas de Investigação publicou reportagens na SIC, no Público, no Setenta e Quatro e no Expresso sobre o discurso racista e de ódio de centenas de polícias nas redes sociais. Um dos visados foi Luís Maria, na altura dirigente sindical na Organização Sindical dos Polícias, que ouvimos antes. Aí, mostram publicações em que Luís Maria por exemplo, faz referências pejorativas a pessoas racializadas, ou afirma querer recrutar um sniper “com experiência em ministros e presidentes”. A entrevista ao Fumaça, em conjunto com o então presidente do sindicato, Pedro Carmo, foi gravada antes de publicarem essa investigação.

Luís Maria: Eu só conheço uma raça, é a raça humana. Não me venha cá com histórias de amarelos, brancos, vermelhos…

Pedro Carmo: Eu, por mim, quando abordo uma pessoa, seja por ela ter pedido auxílio, seja por ela, supostamente…

Luís Maria: O racismo é uma questão política, sabe porquê? Porque dá dinheiro. Mas em Moçambique violam-se crianças, cortam-se pescoços a crianças, matam-se pessoas só porque… Eu sou preto, tu és preto, mas tu és de uma aldeia e eu sou de outra, portanto vou-te matar. Ninguém fala no racismo. Onde é que está o racismo, agora? Onde é que estão os ditos — como é que se chama? — os ditos entendidos do racismo? […]

Pedro Carmo: É assim: há pessoas que são racistas? Há. Em todo o lado há. Há pessoas que não são? Há.

Luís Maria: Mas não é estrutural. Não é estrutural.

Pedro Carmo: Agora, se a polícia faz um trabalho isento? Faz. Dentro da polícia pode haver um colega ou outro que seja racista. À imagem de ser do PSD, ou ser do Benfica. […] Porque o muçulmano também não gosta dos católicos e os mata e, no entanto, também não é ilegal se não matar ninguém. […] Ou seja, não é ilegal ser muçulmano se não andar aí a matar pessoas. Se não já é islâmico, já é jihad, já é isto, já é aquilo. Já é os extremistas e enfim.

Luís Maria: Aliás, eu tenho falado com muitos muçulmanos que que vêm dizer que isso não tem nada a ver com os muçulmanos, mas pronto.

Pedro Carmo: A nossa opinião pessoal, as nossas convicções pessoais, existem. Somos pessoas.

Luís Maria: Eu conheço muitas pessoas muçulmanas que são pessoas pacíficas, trabalhadores.

IV

Jornalista do Correio do Manhã 1: Retomamos o alerta com que iniciámos esta edição das notícias CM. Um polícia está ferido e a receber tratamento hospitalar, devido a um incidente numa esquadra em Alfragide.

Ricardo Esteves Ribeiro: No dia 5 de fevereiro de 2015, a CMTV iniciava o programa Notícias CM com um “Alerta CM: Invasão em esquadra: um polícia ferido em Alfragide”, depois de um residente do Bairro da Cova da Moura, na Amadora, ter sido detido pela PSP.

Jornalista do Correio do Manhã 2: Um grupo com cerca de duas dezenas de moradores do bairro, deslocou-se para aqui para a esquadra – distância são cerca de 500 metros a 1 quilómetros – e começou num ambiente hostil para com a PSP, no sentido de tentar, eventualmente, libertar o detido. Os meios policiais no local, que seriam cerca de meia dúzia, conseguiram suster o ambiente pesado que se fazia sentir, mas foram necessários mais reforços, nomeadamente das divisões da Amadora e de Sintra, para a situação acalmar. É uma situação que acaba por ser normal aqui na zona da Amadora, nomeadamente, devido à grande proximidade que existe entre esta esquadra de Alfragide e o bairro da Cova da Moura.

Ricardo Esteves Ribeiro: Se é verdade que entre a Cova da Moura e a esquadra da PSP dista nem um quilómetro, essa é talvez a única informação verdadeira que ouvimos o jornalista da CMTV relatar à porta da esquadra.

O que o tribunal deu como provado, anos mais tarde, foi que um residente da Cova da Moura foi levado para a esquadra e seis amigos — alguns deles dirigentes na associação Moinho da Juventude — se deslocaram à esquadra de Alfragide para pedir informações sobre a detenção. Pouco tempo depois, quatro deles — e um outro encontrado nas imediações da esquadra — foram sequestrados pela polícia. Ficaram detidos cerca de 46 horas. Foram espancados repetidamente. E dizem ter ouvido coisas como: “Tiveste um AVC? Agora vais ter outro que te vai matar”, ou “Ainda por cima é pretoguês”, ou “Pretos do caralho, vão para a vossa terra!”.

Os seis residentes da Cova da Moura começaram por ser constituídos arguidos por terem, afirmavam os polícias, tentado invadir a esquadra. Dois anos mais tarde, em 2017, o Ministério Público levou um caso muito diferente a julgamento: acusou 18 polícias de quase 200 crimes.

Em 2020, houve uma sentença final. Oito agentes foram condenados. Provou-se o sequestro agravado, ofensas à integridade física, falsificação de documento, denúncia caluniosa e injúrias. Um dos polícias foi condenado a uma pena de prisão efetiva: um ano e seis meses. Quando aconteceu o caso de Alfragide, ainda estava a cumprir uma pena suspensa por outra ofensa à integridade física, também em funções. Os restantes agentes receberam penas suspensas e tiveram de pagar, no total, cerca de 60 mil euros em indemnizações. O Diário de Notícias garante que é o maior número de sempre de agentes condenados num só processo.

Miguel Oliveira Rodrigues: Eu acho que eles estão a mentir.

Ricardo Esteves Ribeiro: Miguel Oliveira Rodrigues, dirigente do Sindicato Independente dos Agentes da Polícia.

Miguel Oliveira Rodrigues: É assim: eu sou polícia. Toda a gente diz “está a puxar a brasa à sardinha dele”. Mas eu não acredito, piamente, que aquilo terá acontecido. Terá acontecido ali um desentendimento entre aquela gente toda. Depois, já na esquadra como eles falam, porque dizem que foi lá que ocorreram as maiores agressões. Mas aquilo que foi provado…

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas há, pelo menos, relatórios de que.…

Miguel Oliveira Rodrigues: Os relatórios médicos…

Ricardo Esteves Ribeiro: Médicos e hospitalares de que eles saíram…

Miguel Rodrigues: Mas isso nunca foi negado por eles, que houve agressões e estiveram em luta corpo a corpo e afins. Mas eu não acredito que aquilo tenha acontecido. Mas foi provado pelo relatório… pela base do que os indivíduos disseram. Um já está em prisão. Nunca mais vai ser a polícia, não é? É um miúdo novo.

Ricardo Esteves Ribeiro: Esta ideia não é rara. O presidente do Sindicato Nacional da Polícia, Armando Ferreira.

Armando Ferreira: Alfragide é uma esquadra que está numa péssima localização. Sem capacidade de proteção. Viu-se confrontada com um cerco feito por uma multidão que ameaçava invadir a esquadra para retirar de dentro da esquadra pessoas…

Ricardo Esteves Ribeiro: Não foi isso que ficou condenado.

Armando Ferreira: Não. Não. Eu estou a contar é o cenário da história do início. Invadir a esquadra para pessoas que estavam lá dentro a ser identificadas não serem identificadas ou não serem detidas. A situação extrapola-se. E eu não vou estar aqui a falar de um caso que a Justiça está a lidar.

Ricardo Esteves Ribeiro: Não está a lidar. Já foi confirmado.

Armando Ferreira: Sim, mas está a lidar no sentido de que…

Ricardo Esteves Ribeiro: Já lidou e foram condenados.

Armando Ferreira: Sim, sim. Mas está a lidar. Não sou eu o juiz. Nem fui nunca, nenhuma vez, ao julgamento. Mas num caso que a Justiça está a lidar eu não vou falar. Aquilo que eu posso dizer é que os polícias são seres humanos, e que também cometem erros, e que também têm limites. E que, se calhar, a determinada altura, perdeu-se o controlo sobre o que se podia estar a passar.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas, Armando, no início da conversa estava-me a dizer “Bem os polícias dizem que é verdade, eu acredito nos polícias e depois o tribunal tem que dizer se…”

Armando Ferreira: Até… Eu acredito nos polícias e, se ouvir a gravação, vai ver. Eu acredito nos polícias até prova em contrário. Porque é isso que eles são obrigados a…

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas foi provado o contrário.

Armando Ferreira: Pronto. E foi provado. E quando foi provado foi o que eu disse: tem que haver consequências jurídicas, disciplinares e administrativas. […]

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas a minha pergunta é se é grave ou não é grave o que aconteceu.

Armando Ferreira: Grave é sempre, logo desde o momento em que acontece. É grave a partir do momento em que pessoas cercam uma esquadra.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas não cercaram uma esquadra.

Armando Ferreira: Não…

Ricardo Esteves Ribeiro: O tribunal provou… Ou seja, o Armando não pode por um lado dizer “Eu acredito no que o tribunal diz”.…

Armando Ferreira: O tribunal não é não provou que não cercaram. O tribunal diz é que não tentaram invadir a esquadra. […]

Ricardo Esteves Ribeiro: A minha pergunta era apenas se o Armando achava grave. Eu já percebi que não vai dizer que acha…

Armando Ferreira: Não, não. Mas eu já lhe disse que, para mim, é grave desde o momento em que começa…

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas é que o Armando está a comparar — e isso é que me parece a mim estranho — o Armando está a a comparar um tal cerco, ou uma multidão à porta da esquadra, com um ato de quase tortura.

Armando Ferreira: Não. Não. Não. Coisas diferentes. Ainda não me deixou concluir sempre a frase. Para mim, tanto é grave a situação de estarem pessoas cá fora a tentar, vamos dizer, coagir os agentes para não atuarem e para não deterem ou não identificarem, ou o que quer que seja, como pode ser grave se houve comportamentos inadequados por parte dos agentes da polícia que estão, que estão a trabalhar.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas não é se houve. Houve. Foi provado em tribunal.

Armando Ferreira: Mas eu como lhe disse agora não estou a falar já do caso em concreto. Porque casos em concreto…

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas eu estou-lhe a perguntar neste caso em concreto. É que…

Armando Ferreira: E eu não posso estar a dizer uma coisa…

Ricardo Esteves Ribeiro: Tudo bem. Vamos passar à frente.

Ricardo Esteves Ribeiro: João, que já ouvimos antes — nome e voz alterados.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas surpreender-te-ia saber que houve pessoas que foram espancadas numa esquadra?

João (anónimo): Se me surpreendia? É assim, surpreende. Baterem nas pessoas assim à toa, assim algemadas e tudo. Eu não estou a ver.

Ricardo Esteves Ribeiro: Nunca viste?

João: Mano, já bati muito. Mas é o que eu te digo: já bati muito, já levei muito. Quem vai à guerra, dá e leva. Isto é muito fácil o juiz está sentado… O juiz ou um procurador, seja quem for, está na sua secretária e nós estamos lá no terreno. É complicado, amigo. Não estou a defender os os meus colegas, entendes? Agora é assim quando tu, de repente, por causa de uma situação dessas levas os miúdos para a esquadra e, de repente, tens a esquadra invadida por X pessoas que querem vir tirar X pessoas lá dentro porque sim? Então, mas estamos onde?

Ricardo Esteves Ribeiro: Que não foi o que ficou provado no tribunal, não é? Não acreditas que foi assim?

João: Eles foram para a esquadra. Eles foram para a esquadra, foram invadir a esquadra, para ir lá buscar a malta de lá. Foram fazer barulho.

Ricardo Esteves Ribeiro: Desarmados?

João: Pois, isso eu já não sei.

Ricardo Esteves Ribeiro: É que iam desarmados.

João: Sim. Armas não têm, não é? Armas não têm. Mas há pedras na calçada, e o pessoal é corajoso, e entra por aí dentro e queriam ir buscar a malta lá dentro, pronto, whatever. […] Quantas vezes aconteceu connosco? Nós prendemos a malta, eles queriam entrar para dentro, abriam-nos porta do carro-patrulha para tirar o indivíduo do outro lado? O pessoal é maluco.

Ricardo Esteves Ribeiro: Nuno, polícia há mais de dez anos — voz e nome alterados –, não tem dificuldade em acreditar que estas agressões aconteceram.

Ricardo Esteves Ribeiro: Isso surpreendeu-te?

Nuno (anónimo): Não.

Ricardo Esteves Ribeiro: Porquê?

Nuno: Porque isto já aconteceu no passado. Sem dúvida. […] Eu lembro-me, inclusive, quando era miúdo, estava no posto da GNR, uma vez, de Alcabideche e vi as ciganas a tentarem invadir a esquadra, porque os jovens tinham sido levados, porque tinham feito alguma, já não me recordo, tentarem invadir, pá, e a serem afastadas à cacetada. Também elas não foram detidas, mas a serem afastadas à cacetada, pronto. A situação de Alfragide. Estou a perceber como é que aquela situação surgiu, não é? Uma passagem da carrinha de piquete pelo bairro, algum ato de insolência por parte de algum jovem que ali está, um tentar impor respeito por parte dos elementos de polícia, e esse respeito é tentado impor com a lei da selva, com violência. Essa violência descamba em uma necessidade de detenção. Eles vêm para a esquadra. Eu acho que é uma reação normal, os elementos lá do Moinho da Juventude. […] E depois, pronto, foram arrebatados lá para dentro. Compreendo que o espírito de, que já vinha do fora, leve a que, em grupo, o pessoal venha a cometer exageros. Uma coisa são dois polícias que prendem um elemento e a situação ficou ali circunscrita. Isto envolveu sete, dez, não sei quantos polícias. E este espírito grupal de violência, de “Estes gajos são todos iguais, cambada de pretos filhos da puta…” Pá, se isto é racismo? Eu não sei. Eu acho que, se calhar, diria que não. É um insulto dito da boca para fora. Não sei se já assisti a um racism–

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas aconteceria aquilo que aconteceu na esquadra de Alfragide, se eles fossem brancos?

Nuno: Eu acho que sim. É a minha opinião pessoal. Brancos marginais. Claro que…

Ricardo Esteves Ribeiro: O que é que queres dizer com brancos marginais?

Nuno: Imagina um branco de um bairro social. Sei lá, imagina em Rabo de Peixe, que eles são brancos e não têm etnias. Eu acredito que esse tipo de situação aconteceria no Rabo de Peixe.

Ricardo Esteves Ribeiro: Ou seja, para ti tem muito mais a ver com o espaço, o bairro ser desprivilegiado, do que a cor da pele?

Nuno: Sim. O bairro ser desprivilegiado, o facto de, de, dos jovens que lá vivem não terem uma noção de sociedade. Não têm mesmo. E nós também a termos enviesada, os polícias. Claro que eu também compreendo que trabalhar ocorrências de porcaria umas a seguir às outras, tu, às tantas, tendes a banalizar a tua profissão. E, pronto, perdes o profissionalismo e a seriedade. Acho que não tem a ver com etnias ou minorias, acho que tem a ver com o facto de serem cidadãos de segunda, pá, que não têm o mesmo respeito. Nós não lhes damos o mesmo respeito.

Ricardo Esteves Ribeiro: Para Marisa Dolores, dirigente da ASSP, a questão não é discutir casos específicos, é pensar como contextualizamos o uso da força por polícias. Não está a responder sobre Alfragide, para que fique claro.

Marisa Dolores: Será que a sua questão mais direta é: a polícia usa de forma abusiva a força física e os meios com coercivos? É essa a sua questão?

Ricardo Esteves Ribeiro: É uma das, sim.

Marisa Dolores: Parece-lhe que isso existe, efetivamente? Será que quando falamos em violências não nos estamos a referir ao uso dos meios coercivos? À necessidade de recorrer a eles para acabar com situações ilícitas que estejam a ocorrer? Sabemos o que são os usos, o uso coercivo? […] Vou-lhe dar um exemplo. Imagine que alguém está com uma faca a ameaçar um polícia. O polícia tem que fazer uma escalada do uso dos meios coercivos, certo? Que é uma série de ferramentas, ou de utensílios, ou de materiais — é mais fácil dizer desta forma, para o público — que tem que recorrer para cessar a ameaça que está, a ameaça iminente. Se for sem nada nas mãos, se calhar não é suficiente para se defender de uma faca, correto? Imagine que, a seguir, usa o gás pimenta. Manda o gás pimenta à pessoa, a pessoa acaba por ficar lesionada nos olhos, vão dizer que a polícia foi abusiva. A verdade é que, se não o fizéssemos, se calhar, podíamos nós estar a correr o risco de termos sido esfaqueados, imagine. A minha questão é: perguntar a um cidadão normal como é que a polícia pode não ser tão violenta, como dizem, mas tentar cessar as ameaças iminentes, sim. Ajudem-nos a pensar: como é que um cidadão normal faria? Isto é ser violento?

Ricardo Esteves Ribeiro: Hélder Gomes, ex-polícia, uma das caras do Movimento Zero, continuando o processo de recontextualização.

Hélder Gomes: Mas convém fazer um parêntese sobre o agredir. […] Nos termos técnicos, por exemplo, eu nunca agredi ninguém. Para mim, agredir é uma pessoa deliberadamente, sem justificação, vai perante a outra e vai com a intenção de o agredir. O que há muito na esquadra, eu próprio fiz isso, e não me sinto com consciência pesada porque eu nunca agredi, estás a entender? Eu nunca agredi ninguém. Agora já tive que aplicar técnicas policiais que me ensinam e que eu procurei também como matéria teórica, procurei as desenvolver, para minha salvaguarda sobretudo profissional e física, que teria que usar na esquadra com indivíduos algemados. E vi isto… E via regularmente, sobretudo trabalhando ali na zona de Alcântara…

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas porquê?

Hélder Gomes: Porque os indivíduos não param quietos. Esta é a realidade. Agora se há alguém que é agredido de forma gratuita com intenção de “Estás-te a portar mal e vais levar dois socos e nem tenho nada a ver contigo”? Eu não vou dizer que não é verdade se há estatística e há colegas a ser condenados por isso. Não vou dizer que não é verdade.

Ricardo Esteves Ribeiro: Miguel Oliveira Rodrigues, dirigente do Sindicato Independente dos Agentes da Polícia, que disse há pouco que as vítimas do caso de Alfragide mentiram.

Ricardo Esteves Ribeiro: Mas tu viste casos em que houve maus tratos e que portanto a violência foi desproporcional?

Miguel Rodrigues: Até agora, até agora, e trabalhei nestas zonas mais sensíveis de Lisboa durante muitos anos, eu nunca vi aquilo que eu achasse que não deveria de ser feito. Ou seja, nada de ilegal nas intervenções dos meus colegas, que pudesse ser apelidada de irresponsável, exagerada. Depois há aquela fronteira. Então, mas fomos agredidos, fomos apedrejados, temos um colega com a cabeça partida, estamos a algemar estes indivíduos que foram eles que foram identificados. Teve que se fazer força, eles não aderiram, não facilitaram. Tivemos… Houve um até que o braço ficou partido na algemagem. É claro que isto vai ser apelidado de agressividade, exagero, só que só quem lá está naquele momento é que consegue perceber como é que as coisas funcionam.

Ricardo Esteves Ribeiro: José Fontão Pereira, antigo comandante da esquadra da Maia, de novo.

José Fontão Pereira: Há uma expressão na polícia que é: “Foi usada a força estritamente necessária.”

Ricardo Esteves Ribeiro: Claro, sim.

José Fontão Pereira: E esta frase, parecendo um chavão, a minha experiência é que ela é realmente assim. E há vezes que usas mais força, outras menos força, mas esta expressão corresponde àquilo que foi a minha vivência da polícia.

Ricardo Esteves Ribeiro: Com as duas dezenas de polícias com que falámos durante horas, há uma linha que separa os que ouviste agora, que dão a cara, dos colegas que falam sob anonimato por não terem autorização da hierarquia. Quem fala sem nome assume de forma muito mais direta que cometeu atos de brutalidade ou, pelo menos, já os viu a serem praticados. Nuno, que já ouvimos antes — voz e nome alterados.

Nuno (anónimo): O que acontece é que nós, às tantas, fazemos muitas abordagens. E imagina, às vezes, um gajo vem da escola da polícia e quer ser operacional e para onde é que vamos? Para a porta dos bairros sociais apanhar mitras a acabar de sair, os putos que vivem em Sintra ou o que seja, que andam de cabelos… Pretos ou brancos, que andam de chapéu virado para trás, que têm aquela pinta um bocado mais marginal, e aborda-se. Aborda-se um dia. Não tem nada. Mas tem uma atitude assim um bocado mais arrogante, porque aqueles miúdos já são abordados todos os dias. Mas depois tu, polícia, não gostas que aquele miúdo esteja a ser arrogante contigo. Mas a arrogância não é crime, pá. E aquilo espoleta-se ali um bate-boca, uma discussão, ou uma falta de respeito de parte a parte, que, muitas vezes, é o polícia que vem a cometer o primeiro crime, que vem a cometer a primeira injúria, e que vem a levantar a mão em primeiro lugar. E isto acontece muito.

Ricardo Esteves Ribeiro: E tu já viste isso acontecer?

Nuno: Deixa-me fazer aqui um exercício de… Já vi injúria, sem dúvida. Pá, tentando-me lembrar aqui se já vi gente a levantar a mão e a dar um enxerto de porrada… Provavelmente sim, mas não te vou dizer com certeza, agora, que é. Olha, eu próprio já bati, não é? Também quando era jovem.

Ricardo Esteves Ribeiro: Queres contar-me essa história?

Nuno: Já bati várias vezes. […] Já bati várias vezes. Uma: uns miúdos a fazer um graffiti. Adolescentes. Estão a fazer um graffiti. Explico-lhes que aquilo é errado. Há uma certa arrogância da parte deles, e de um deles. E eu nem o deixo acabar de falar e espeto-lhe logo com uma galheta. […] Dei-lhe logo um chapadão, quase em tom de educação, quase como um pai faz. E, muitas vezes, os polícias fazem isto. Atenção que muitas vezes o bater, eu tenho de concordar que é quase o equivalente a um paternalismo. Pronto, e isso foi uma vez. Outras vezes quando, às vezes, nós apanhamos alguém a fazer um roubo, ou um crime assim mais grave, pá, não encontramos o objeto do roubo ou do furto, é natural, ou, às vezes, normal virmos a apertar com a pessoa: berros e injúrias, e algumas agressões vieram a acontecer, até alguns atos de tortura.

Ricardo Esteves Ribeiro: Leonel, uma última vez.

Ricardo Esteves Ribeiro: Quantas vezes já aconteceu que a pessoa foi agredida dentro da esquadra?

Leonel (anónimo): Ui. Isso é uma conversa. Pá, eu vou-te ser sincero: não sou o tipo de polícia que acha que ando aqui para ter que… Epá, não me cabe a mim andar aqui a bater nas pessoas. Mas, também, falando abertamente, também sou sincero que há gajos que o único castigo que levam a sério é uma chapada que um polícia lhe dá na altura da detenção. Mas o que eu faço é: por exemplo, estes gajos que se viraram a mim, quando é a altura dos deter, isto de forma muito resumida, quando eu lhes mando ao chão, eu a fazer as técnicas que estão escritas e bem feitas… Posso dizer que um gajo a quem eu fiz ficou com o sobrolho que ficou do lado do chão assim aberto ou marcado de eu lhe estar a esmagar a cabeça contra o chão para o conseguir algemar e não sei quê. Sou mais abrutalhado. Agora, desde a altura em que ele está algemado o que está escrito é que “está algemado, não encher o saco a ninguém”. Epá, e eu não sou de andar a encher o saco ninguém depois de estar algemado. Tanto que, depois, quando é um detido meu, nem deixo ele chegar à esquadra e o pessoal ir para lá molhar a sopa ali no gajo que é meu detido, porque depois eu é que vou responder por aquilo. Mas, epá, acontece. Que acontece nas esquadras… Às vezes, chegam lá e o pessoal já está tão revoltado e pega e dá assim… Epá. Não se iludam. Então, principalmente, nessas esquadras assim, em bairros mais complicados… […] Acontece. Mas também posso dizer que já aconteceu um gajo estava algemado, estava detido, pediu para ir a casa de banho, o colega desalgemou-o, e ele […] chega ao pé de uma parede e manda uma cabeçada de propósito na parede para abrir o nariz. Epá, isto é surreal, isto parece… […]

Ricardo Esteves Ribeiro: E tu viste isso?

Leonel: Epá, isto não vi, mas foi-me contado por mais do que uma pessoa que assistiu. Aí é mesmo, não foi inventado, aconteceu mesmo.

Ricardo Esteves Ribeiro: João, que também já ouvimos antes, justifica os excessos que polícias possam cometer com o stress constante. “Andas todos os dias a mexer na porcaria”, diz. “O discernimento das pessoas não é o mesmo todos os dias.”

João (anónimo): Qualquer dia um gajo passa-se. Não é? Tu deixas de ter um discernimento. Até a tua paciência por vezes numa situação que não tem nada a ver, ou mínima, vais rebentar por todas as outras que já acumulaste. Tu és um ser humano, também estoiras. […]

Ricardo Esteves Ribeiro: Já ultrapassaste linhas que não devias ter ultrapassado por causa desse stress e por causa disso tudo?

João: Sim. Quando estou confrontado com as situações, meu amigo, esquece, eu não tenho farda. Quem me dá uma chapada na cara, em função do meu serviço, vai ter que se embrulhar comigo até eu meter-lhe as algemas em cima. Se ele é homem para me bater, vai ser homem para levar. Ponto. Tenho contas em casa para pagar, pá. Isto é ser o mais direto possível. E lá o que é a disciplina da polícia, epá, manda isso para o lado. Isso tudo o que está escrito, é fácil estar escrito. “Não devas fazer. Não podes…” Está bem, não posso, mas depois eu é que levo no focinho e depois quem é que coiso? Não. Isto não…. Jesus Cristo veio à terra, deu uma face, deu a outra, foi pregado, mas a função dele era outra. Eu não sou Jesus Cristo. Sou abençoado, mas não sou Jesus Cristo.

V

Ricardo Esteves Ribeiro: O caso de Alfragide não foi histórico só por condenar polícias por sequestrarem e agredirem pessoas numa esquadra. Foi também histórico porque se provou que, para encobrir essas agressões, polícias mentiram ao registar o que tinham feito: falsificaram o documento em que registam a sua versão dos factos, o auto de notícia.

Um polícia que entrevistei — um de um total de quatro dezenas — dizia-me que não se pode registar uma ilegalidade que se comete, tem de se escrever as coisas “de uma maneira que faça sentido”. Os atos que descrevem Vasco, Leonel e João não cabem nos documentos oficiais. Quando escrevem sobre esses dias, para os dar a conhecer a superiores e juízes, encobrem o que aconteceu.

No próximo episódio, voltamos à madrugada de 1 de janeiro de 2016. E perguntamos: será que o agente Paulo Gonçalves poderia ter feito o mesmo? Mentir no auto de notícia?

TEASER

Armando Ferreira: Eu, como polícia, tenho que acreditar que todos os polícias dizem a verdade.

Hélder Diakos: Se calhar, disse isso […] para limpar um bocado da imagem do que eles fizeram ali na altura.

Luís Maria: Então, andamos a brincar ou andamos à tourada? […] Vou ali, sou assistente social, o que é que eu sou? […] Portanto, não reagem bem, tem de se escalar para outros meios, não é? O polícia sou eu.

Marco (anónimo): São capazes de rasgar as próprias fardas para dizer que a gente agrediu.

Leonel (anónimo): Uma coisa é tu dares uma bofetada a um gajo de mão aberta, outra coisa é tu desfigurares a cara a um gajo.

João (anónimo): Algemado eu nunca deixei bater em ninguém algemado […]. Queres bater, sacas as algemas, dizes assim: “Está aqui, quando quiseres bater podes começar. Dou-te cinco segundos para me aviares. Depois a partir daí vais ter que correr.”

Samuel (anónimo): Há aquela velha história que é: “Epa, mano, ele está a sangrar tens de o deter.”

CRÉDITOS

G. C. Viegas: Acabaste de ouvir Ovo ou galinha. Estamos a meio de Fronteira do Medo. Este foi o episódio sete. Mas já podias ter ouvido a série completa, com 14 capítulos. Salta o mês e meio que falta para o final: faz uma contribuição recorrente em www.fronteiradomedo.pt/contribuir e recebe-os todos. Apoia o jornalismo independente: doa hoje para o Fumaça ou para a Divergente. Não esperes mais para ouvir um trabalho que começámos há sete anos, boa parte dedicada a ouvir polícias descrever como é policiar bairros guetizados.

No site, tens a transcrição do episódio, dados adicionais, fontes, e, neste capítulo, os dez mandamentos que um polícia deve seguir quando está perante um morador de um bairro social — com ilustrações do Diogo “Gazella” Carvalho. www.fronteiradomedo.pt.

Este episódio foi escrito pelo Ricardo Esteves Ribeiro, com quem eu, G. C. Viegas, fiz a investigação. Editei esta peça com a Sofia da Palma Rodrigues. A verificação de factos é de Margarida David Cardoso, a revisão de Luciana Maruta e a consultoria jurídica de Leonor Caldeira. O desenho e edição de som, como a composição e interpretação da banda sonora, couberam ao Bernardo Afonso. O Diogo Teixeira de Abreu tocou a bateria acústica. O José Mendes criou o design do site. Joana Teresa Batista fez materiais gráficos e pensou a comunicação com Beatriz Walviesse Dias, Lucas Grimault de Freitas, Maria Almeida e Ricardo Esteves Ribeiro. Ainda participaram na construção coletiva desta série: António Assunção, Diogo Cardoso, Luis Marquez, Rafaela Cortez, Pedro Miguel Santos e Fred Rocha.

Ouviste áudios da CMTV, SIC, TVI e RTP. Para a pesquisa foi importante a tese “Beyond Loss: Race, Displacement and the Political”, da antropóloga Ana Rita Alves. E também o livro Os polícias não choram, do sindicalista da PSP Miguel Oliveira Rodrigues.

Para desenvolver esta série, recebemos doações da fundação Rosa Luxemburgo. Ao longo de 2026, o trabalho do Fumaça é suportado em parte por bolsas da Fred Foundation e da Limelight Foundation. Os contratos estão em www.fumaca.pt/transparencia. A Divergente recebe uma bolsa estrutural da Civitates.

Até já.

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