Anterior à primeira hospitalização, Porto, Novembro de 2017-Fevereiro de 2019: Bullying massivo no meio libertário, mais ostensivo da parte de alguns como o Jonas Ribeiro, mais subtil da parte de outros como a Sandra da Gazua, depois da Gralha; desvalorização geral da parte de todes de todas as minhas intervenções, e olhares de suspeita advindos de todos os lados, parece que todos me consideram uma figura odiosa e indesejável. Intromissão colectiva na minha vida privada, curiosidade da parte de César Figueiredo do Gato Vadio sobre o passado, sobre um qualquer segredo por desvendar. Culmina esta dinâmica grupal numa reunião do EAL a que faltei, uma reunião à qual deveria comparecer para pedir desculpa aos companheiros, ainda hoje não sei porquê. Tudo é comunicado através da encenação (na altura, discute-s. O Gonçalo pergunta-me na noite dessa reunião “Vais demorar?” enquanto muda a fechadura da casa onde ambos vivíamos. Desapareceram-me muitos, muitos pertences. Às vezes roubados em mão, como foi o caso quando o Abílio me levou na sua carrinha Renault amarela quase até Angeiras, para me dar uma lição de pragmatismo, ou de moral (qual é qual, pergunte cada qual), “Olha o André Ventura, deve ser grande foda”, diz ele, confrontando-me, na ideia dele, sabe-se lá com o quê.
O segurança que me dá o nó ao pescoço tornou-se meu conhecido, voltei a vê-lo no São João em 2021 e em Évora em 2024. É um cão de guarda. Antes do mata-leão, diz “Agora vais aprender a colaborar”. Antes disso, ao porem-me o cateter, ri-se a enfermeira alegremente “8 de Março, dia da mulher!”
Acordo no OBS, estou a comer em frente a um médico. Dão-me um comprimido. “Escondeu-o entre as gengivas”, denuncia o psiquiatra. Acordo, estou numa sala em isolamento com um colete de forças, batendo com a cabeça na parede. “Ninguém merece viver em isolamento! Ninguém merece viver em isolamento!”, grito eu.
Sou transferido para outro bloco. O José Paiva vem visitar-me, “Queres que chame a nossa companheira brasileira?”, referindo-se à Sofia Quintas. Não é preciso, respondo. Acrescenta ele, “Metemos aí malta da nossa”, como que impondo a inferência de um qualquer jogo macabro. No pátio do bloco está lá o tecido social todo “Sim, gostamos de ti, tens boas conversas”, diz uma rapariga nova de um grupo de raparigas novas, troçando da minha condição fisicamente fragilizada. Outro rapaz novo diz em espanhol “Te quiero, Bruno”, e uma mulher dos seus trinta e tal, quarenta, piscando-me o olho “Uma pena suspensa”.
Sou transferido para o bloco do qual sairei. Tenho visitas todos os dias. Da minha mãe ao fim-de-semana, da Madalena Morais e do José Paiva, da Ana Ferreira, do Jaime Oliveira, da Teresa Velasquez, da Cátia Vilaça, da Cíntia Regala, da Ruki Penim Guerreiro, todos estes viram a tortura em primeira mão, todos estes pactuaram com o jogo, todos estes viram a minha situação física e psíquica debilitadíssima.
O médico encarregue é o Pedro Moura e a enfermeira-chefe uma Luciana, se recordo bem (creio que sim). Tenho duas feridas simétricas em cada gémeo, cujas cicatrizes são visíveis ainda hoje, espalhadas de longo, como galáxias. Não sei como as tenho, mas lá estão. A certo ponto, a enfermeira-chefe diz, “Vão para a sala de fumo, por solidariedade!”. É aí que me é induzida uma infecção pulmonar, deliberadamente, tive de tomar antibióticos depois de ter alta médica, ou seja, depois de decidirem que me matarem seria demasiado espalhafatoso. O Pedro Moura parece nervoso no dia de anunciar a minha alta, como não estando certo de que o meu corpo resistisse por muito mais à tortura.
Uma altura, comecei a correr no corredor do internamento, “e eu é que sou maluco”, diz um paciente conivente com a tortura, um que uma vez tinha reagido com “és mesmo radical” à minha admissão de haver começado a fumar aos 21 anos. O Paulo Alves, que me fez companhia quase até ao fim, vaticina, “Tu és um fundista”, e a enfermeira-chefe, impedindo-me de continuar mas assegurando o restante povo “Ele não fez mal a ninguém!”
Um paciente, Carlos, se não estou em erro, diz que tenho de ter cuidado na estrada, posso vir a precisar de uma prótese. A paciente Luciana diz “um alarme!” em tom assegurado, quando se verifica que fiz o esforço dos esforços para falar a bem com os demais, debilitadíssimo que estava. A minha condição física anterior era invejável, desde a tortura que está ao capricho de controladores e médicos, consoante o meu comportamento segundo qualquer padrão de bem.
O André, outro utente, grita-me: “As pessoas não se julgam pelo estrato social, é pelas atitudes”. Todas estas pessoas que menciono sabem da tortura, participaram dela alegremente, fazem-se passar por quem não são, algumas até por dissidentes.
O Paulo, ao ver-me aceitar um comprimido: “Gostei. Sabes porquê? Porque já não te escondes”. Acho que isso supostamente importava, que eu não me escondesse, não tivessem as pessoas milhentas razões para se esconderem neste sistema e tempo repressivo. Creio que isto aconteceu no dia anterior à sexta-feira da minha alta, anunciada na terça-feira anterior. Eu queria sair de outra maneira, mas “mãe é mãe”, assegura o Pedro Moura. Partimos para o sul, a viagem de carro mais difícil que até ver fiz, estou num estado absolutamente frágil, depois desta terrível surpresa.

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