Pós-tortura, 2019: Estou no Sul. Ligo aos ex-companheiros. O Luís Chambel diz-me “Vão acontecer umas coisas engraçadas”, e de facto há uma greve de combustíveis em progresso. Na sua última visita ao Magalhães Lemos, o Paiva deu-me um pin do gato assanhado e disse-me “Agora tens um jogo para jogar, joga-o bem. Estão todos os meus arredores a fazer-me uma perseguição danada, tenho stalkers a passar-me à porta de casa, pessoas a comentar sardonicamente a minha debilitação. A Isabel Camarinha ao telemóvel diz-me, condescendentemente “Tens a certeza de que não tens esquizofrenia?” e acrescenta um conselho “Agora vais ter de ser um bom menino e ajudar a tua mãe”. Vou falando com ela de vez em quando, ela saciando sua curiosidade pela vida alheia à medida que partilho os detalhes sórdidos da minha. Quando vou ao centro de saúde, a Inês Jurissen Rosa assegura “É recuperável, Bruno. Confia.”. Aparentemente, o esperado é que eu albergue uma confiança cega no próprio aparato médico-securitário que me torturou. Outros telefonemas já os registei noutra publicação no Indymedia, não encontrei nada senão escárnio e malícia.
Quando estava no Magalhães Lemos, liguei ao banco, à Caixa Geral de Depósitos, para acertar um assunto, durante uma saída (nos demais hospitais onde estive não nos permitiram usar telemóvel, pelo que este é um luxo raro) da tarde, estava junto da Madalena. Perguntam-me se alguma vez me tentei suicidar. Sim, do banco. O conhecimento da minha vida da parte de todo o arredor social é um factor ubíquo a toda esta experiência social bizarra, como lhe chamaram na associação-bar Desterro, de Lisboa, cerca de 2022.
No primeiro pós-tortura, com a marcação geral, digo à minha mãe que quero ir ao Garcia de Orta. O Marialma, junto de minha casa, toca uma canção, “…vamos agitar alguém…”; e de facto, estou agitado, sob uma agitação particular, uma provocada pela tortura pública, consensual e sabida, de que é suposto que me recomponha sem furor, sobre a qual não encontrei a solidariedade de ninguém, deparando-me apenas com a solidão incomensurável do abandono a que fui votado. No Garcia de Orta, sou atendido por uma Beatriz, que ordena o meu internamento. Sou amarrado, estou a tremer em cima de uma maca, o enfermeiro Luís Godinho ri-se alto e bom som “Acabou a greve dos combustíveis! Ah! Ah! Ah!”. Mal me consigo mexer, estou cabisbaixo nesse internamento, efeito do que me parece hoje ter sido já o controlo eléctrico sob o jugo do qual estou. Fico internado para aí 5 dias, tomando ainda antibiótico durante o internamento, acossado que estou pela infecção pulmonar. Depois saio.
Pouco depois, faço um programa para a Rádio Paralelo chamado justamente ‘Tortura’, e digo à minha família que o oiça. Não encontro senão incompreensão destes fascistas, sobretudo do meu tio bófia que, vim a saber mais tarde, chibava as manhas todas e dizia que era eu, que, não o afectando a ele, me diz que devo tomar a injecção para o resto da vida, que não é sacrifício de maior. “É mentira!”, diz ele, o player, sabendo de tudo que é verdade. Ele ia visitar-me ao Porto quando lá vivia e incitava-me “Isto o que o país precisa é de uma revolução!”, a que eu não dava troco.
Algum tempo depois retiram-me o compulsivo, por ordem da Margarida Bernardo, a quem o meu processo foi atribuído. Não tenho recordações felizes de casa e da zona onde a minha família vive, pelo que decido ir para Braga, onde encontrei um trabalho.

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