2023, ano zero; 2024, ano de controlo: Um colega de curso traficante aproveita-se da minha vulnerabilidade para me dar um charro para fumar, para de novo testar produto. Fico tão alterado que chamo eu mesmo a ambulância, vou parar a Setúbal, onde não me internam. O tribunal, no entanto, envia-me carta a casa a revalidar o tratamento em ambulatório em regime compulsivo, pelo que decido abandonar o curso e o país e procurar trabalho num sítio onde não me internem nem me mediquem forçosamente. Sem a medicação, sinto-me tão melhor, tão mais vivo e capaz, tão mais saudável. Tanto que, após deixar passar um tempo de esquecimento e regressar, consigo entrar em Matemática em Évora, na faculdade. Lá, recuperado que estou, sentindo-me saudável, escrevo uns textos no Indymedia, que atraem nova onda de repressão. Sou internado por ordem da polícia em inícios de 2024, mas saio do Garcia de Orta em regime voluntário. Depois, o controlo abate. Oiço a voz da Vera, psiquiatra no Garcia, à janela do meu quarto em Évora “se queres viver não bebas café!”. O café nunca me havia surtido efeito mais que o normal, mas com qualquer droga que me deram através de um qualquer dispositivo de controlo intravenoso (ou o que seja, isto um dia será sabido, para já é matéria para historiografia futura), fico agitadíssimo. Sei que há quem saiba do que é específico, mas nunca sou considerado digno o suficiente para que alguém me fale directamente, toda a comunicação comigo é feita por proxy, através da alusão ou da encenação. “(…) Confias na análise do Doutor House (…)” Decido sair de casa nesse instante e dirigir-me ao hospital, para que isto termine de uma vez por todas. Ainda passa o INEM por mim, dando-me ar para a cabeça, mas a minha resolução é inamovível. Estou em regime de compulsivo desde então, eles conseguem dar-me substâncias à distância que me deixam agitado, para que assim justifiquem a sua atrocidade. “Foi por um triz”, diz a enfermeira Rafaela, depois desse internamento, provavelmente algo que ver com o jogo macabro ao qual me sujeitaram contravontade.
Foi assim que conheci a Gisela. O André, utente do Garcia de Orta, carrega num botão do telemóvel de um controlador que o foi visitar, quiçá seu familiar, e passo mal logo que a substância bate. O segurança diz-me “Tu e a tua mãe são pessoas normais!” e o auxiliar Carlos assegura-me “Isto não tem nada a ver contigo”, pelo que não entendo este desperdício flagrante de recursos hospitalares em mim quando nada me diria respeito. Nesse internamento, a Gisela aperta-me a mão e diz-me “A morte não existe” e depois outros eventos, “para que achas que chamamos a Gisela?” pergunta-me o auxiliar/traficante Isaac, que esteve a cantar no Preço Certo, “se falas muito levas seringada”, assegura-me o João Xavier, um agente manda-chuva da companhia que foi visitar o internamento para ver se estava tudo em ordem, “você nunca devia ter vindo cá parar”, lamuria-se para mim o musicoterapeuta Gil, e por aí diante. O que escapa a todo este plano de me dar um sítio onde possa viver é que não tenho independência financeira e estou obrigado pelo estado à submissão voluntária, pois que todos os meus planos me são brutalmente interrompidos se assim não for. De qualquer maneira, dizem-me que já não sou imortal, assim o gritou a auxiliar Cátia depois de eu comer a gelatina. E a enfermeira Sara, recordo agora neste espaço, dizendo-me que foi uma fuga, que foi por eu ter fugido de casa que me internaram.
A partir daí, teria todo o tempo do mundo. Excepto que esta história da imortalidade é banha da cobra, ou um segredo tão bem escondido que alguém como eu pode aqui revelá-lo. Sinto-me velho, fraco e cansado, não vou viver para sempre.
Daí em diante, fiquei cada vez mais ciente do controlo, levo choques eléctricos caprichosamente, apercebo-me de que há outros ouvintes que, aparentemente, convivem muito melhor com esta ferramenta do que eu alguma vez serei capaz. Dão me doenças e depois a cura. Psiquiacia.

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