As Acampadas de Lisboa e do Porto foram esta madrugada violentamente despejadas por batalhões de Polícia após ordem do Governo. Em Lisboa, mais de 55 pessoas foram feridas, presas ou desaparecidas. No Porto, pessoas foram esta madrugada brutalmente atacadas, no seguimento de várias intervenções policiais ao longo dos últimos 10 dias, que causaram mais de 50 feridos na quinta feira passada.

Comunicado de Imprensa da Acampada de Lisboa:

Por volta das 5h45 da manhã, enquanto a maioria das pessoas dormia, o corpo de intervenção da PSP apareceu no local onde estava, desde Sábado, a decorrer uma acampada para exigir soluções para a crise da habitação.
Em menos de 15 minutos, e, ao contrário do que aconteceu simultaneamente no Porto, não dando sequer tempo aos presentes para recolherem os seus pertences, a polícia começou a reprimir aqueles que têm lutado por esta causa tão justa, empurrando violentamente as pessoas que lá estavam reivindicando os seus direitos e formavam um cordão humano, fazendo-os cair por cima das tendas e detendo arbitrariamente dezenas de pessoas que se encontravam no local.

A resistência à carga policial, por parte de quem pernoitava pelo direito à habitação, foi feita de forma absolutamente pacífica, sem registo de qualquer provocação por parte dos que pernoitavam, que, para que não restassem dúvidas, gritaram repetidamente à polícia “pacíficos”, enquanto eram reprimidos.
Além das tendas e dos pertences individuais, também a comida que durante os últimos dias tinha sido doada por pessoas solidárias com o movimento foi apreendida pelas forças de segurança, assim como materiais que foram sendo disponibilizados solidariamente por vários cidadãos.
Os números exatos ainda estão por confirmar, mas tudo indica que o número de detidos se situa entre 30 e 50 pessoas. Estas detenções foram feitas de forma arbitrária, visto que nenhum dos civis presentes fez qualquer tipo de provocação à polícia, e, apesar da resistência pacífica, os detidos foram algemados.

Os detidos foram levados para a esquadra na Rua da Palma e a esquadra de Campolide, onde algumas pessoas também se juntaram numa vigília em solidariedade com os detidos e apelando à sua libertação.

Perante a repressão, os presentes reafirmaram a decisão, já tomada em assembleia popular, de regressar hoje, às 19h, ao Rossio, para protestar pelo direito à habitação, mantendo a convocatória para reunir todos os dias nessa hora e local até obterem respostas às suas reivindicações. Assim, apelam a toda a sociedade civil que se revê nesta justa luta, para se juntar hoje às 19h no Rossio.

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“A Ordem Reina no Rossio”: A PASSARADA – JORNAL AUTÓNOMO DA ACAMPADA 

As 05h45 de 20 de Outubro a ordem foi resposta. Quem tenha passado no Rossio numa das últimas noites viu algo ao mesmo tempo familiar e impossivel. Gente, imensa gente, a conviver, a conversar, a rir, a viver em conjunto, num local público, sem hora de ir embora, sem que se tratasse de um evento comercial ou institucional. A coisa mais normal do mundo surge hoje como a miragem de algo distante, perdido, proibido. Pela primeira vez em anos podia-se respirar em Lisboa, a cidade parecia uma cidade e nao um parque de diversões. Em trés dias, centenas de pessoas montaram uma estrutura funcional de coabitação e ressonância. Vinham de sitios diferentes, de experiências diferentes, de ideias diferentes. Uma comunidade militante alheia as instituições estava a conseguir superar a sua atomização congénita para se constituir em movimento, transcendendo os seus próprios limites, criando uma posição de antagonismo e resistência no coração da metrópole, criando uma subjectividade aberta e plástica capaz de tornar material a recusa da humilhação e da miséria que nos impigem enquanto resiliência e empreendedorismo.

O maior medo do poder, o maior medo de Moedas, Montenegro e Seguro, é que ocorra uma inversão desse fatalismo generalizado que nos é vendido enquanto identidade nacional. E que, de um momento para outro, toda a autocomiseração de quem dia após dia, ano após ano, amocha a razão de um estado cretino e prepotente se torne numa irrupção vital de alegria comunal e insurrecional. Foi essa possibilidade que nasceu nas acampadas e que urge, por todos os meios, controlar, reprimir, fazer regressar aos quadrantes da institucionalidade e do espectáculo. Nao vão conseguir. Quem sente o cheiro de uma vida diferente, quem a experimenta materialmente entre velhas e novas amigas, nao o cede assim tao facilmente. A questao nao é apenas a casa, o salário, o trabalho, ou os direitos. A questao é existencial. E recusar, cabalmente, tornar-nos pouco mais do que autómatos de um capital que nos é enfiado pela goela a baixo.


Comunicado da Acampada do Porto:

Na madrugada desta quinta-feira, às 02h56, as forças policiais intervieram violentamente na acampada pela habitação na Praça D. João I, no Porto, numa operação destinada a pôr termo ao protesto.

Após ordem da PSP, os manifestantes desmontaram todas as tendas de forma pacífica e toram confrontados com violência extrema e injustificada por parte da brigada de intervenção que chega depois, inclusive a destruição de hens O materiais e comida, deitando ao lixo os nossos pertences, incluindo telemóveis, carteiras, mochilas, tendas, etc.

Segundo o balanço preliminar, 37 pessoas ficaram feridas, 35 com ferimentos ligeiros e duas com ferimentos graves.

Este é o panorama da situação: cidadãos pacíficos apenas a protestar por melhor direitoshabitacionias, foram encontrados com violência desmedida, aterrorizante e covarde quer por parte da força policial quer por parte 3 das instituições portuguesas e em específico do presidente da câmara Pedro Duarte, que deu a ordem, sem qualquer tentativa anterior de diálogoconnosco para navegarmos este problema transversal, que era tudo o que queríamos.

Nós então perguntamos, faz sentido manifestantes pacíficos após dormirem dias no chão, depois de oferecerem refeições e cultura grátis ao povo e apenas por ocuparem o espaço público (que pertence a todos) limpando, cuidando do espaço, serem recebidos com pancadaria ecacetetes na cabeça? Apenas por protestarmos porque queremos poder morar na nossa cidade?

O objetivo desta intervenção polícial não toi retirar as tendas, foi mostrar ao povo quem é que manda e que a nossa única opção é comer e calar.A acampada procura denunciar o agravamento da crise da habitação e e exigir condições de vida dignas. O movimento sublinha que o direito à habitação, à liberdade de manifestação e à integridade física são direitos fundamentais que devem ser respeitados. Os acontecimentos desta madrugada exigem respostas, transparência e responsabilídade e consequente justiça.

Quem esteve connosco sabe, quem acompanhou sente, nós não somos violentos e só queríamos um mundo melhor.Aguardem por mais novidades. A luta continua!

Apelamos à partilha destas imagens, e das vossas pessoais. Não dormimos e queremos contar a nossa versão da história antes que branqueiem o que aconteceu nesta noite.
Dizem nas notícias que usaram força porque nós resistimos a tirar as tendas. A violência policial foi depois das tendas serem todas retiradas por nós enquanto cantávamos a Grândola. Qual é a desculpa agora? Estado opressor e violento.
A polícia depois de nos expulsar da praça ainda partiu tudo o que havia lá inclusive a casa de banho pública que nós usávamos todos os dias e fazíamos turnos rotativos para as manter limpas e destruiu tudo para criar uma imagem falsa nossa que não corresponde à realidade.
@acampadaporto 15/10/2026
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mais informação:
https://vozoperario.pt/jornal/2026/10/20/repressao-policial-na-acampada-pelo-direito-a-habitacao-em-lisboa-55-detidos-e-2-feridos-ligeiros/

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