Antifascistas mobilizam-se a nível europeu contra conferência neonazi da NOS

Nota de conflito de interesses: por não sermos imparciais no que ao fascismo diz respeito, o FlashBack — Observatório Antifascista é um dos signatários do manifesto de convocação da Mobilização Nacional Antifascista.

Os antifascistas portugueses estão a mobilizar-se a nível europeu para se oporem à conferência neonazi organizada pela Nova Ordem Social, a 10 de Agosto, em Lisboa, “para que estes grupos percebam que Portugal não é um país onde são bem-vindos”. E uma comitiva de organizadores pretende reunir-se com partidos políticos para lhes exigir um “posicionamento e explicação das medidas que pretendem tomar para [que] este tipo de acontecimento não se possa reproduzir”, anunciam em comunicado.

Apelando a todos os cidadãos, partidos, sindicatos, movimentos e organizações para que se lhes juntem, os antifascistas garantem em manifesto (publicaram um manifesto e um comunicado) que não irão “aceitar que tal evento aconteça sem uma reacção da parte de quem esteja pronto a defender” a democracia portuguesa e a liberdade com ela conquistada. Mais de dez organizações antifascistas portuguesas subscrevem o apelo.

Os antifascistas dizem não compreender como é que “organizações racistas ou que perfilham a ideologia fascista, ou ainda que promovem a violência”, possam organizar este género de eventos em Portugal. E as críticas aos partidos da esquerda parlamentar são algo consensuais entre os antifascistas.

“O Bloco e o PCP são contra o fascismo, o problema é que não têm a noção do quão forte se está a tornar em Portugal e não levam com seriedade o seu combate. Acham que é algo que será sempre minoritário e que dá para ignorar”, criticou o antifascista e elemento da organização do protesto Ernesto Dinis (nome fícticio*) ao FlashBack, referindo não se recordar “de uma única vez em que trouxeram esse tópico para a Assembleia da República”.

Desconhece-se até ao momento o local onde a conferência terá lugar. No cartaz do evento apenas figuram os nomes dos convidados internacionais que marcarão presença, a data e a hora (14 horas). O local estará a ser mantido em segredo por parte de Mário Machado para evitar perturbações dos seus adversários políticos.

Os participantes serão membros da organização, simpatizantes ou futuros recrutas que se encontram num círculo próximo. E, porventura, o local será apenas anunciado por canais próprios da organização no dia anterior ou na própria manhã, para evitar fugas de informação — prática bastante comum em eventos organizados pela extrema-direita, como concertos.

A conferência de extrema-direita está a ser, segundo a agência Lusa, acompanhada “muito de perto” pelo Serviço de Informações de Segurança (SIS) — algo completamente normal. As autoridades têm conhecimento do local onde o evento se realizará e querem evitar que haja confrontos entre fascistas e antifascistas.

Os antifascistas recusam a violência, tendo inclusive acordado entre si não ceder a quaisquer provocações, e sabem que também estão a ser acompanhados pelas autoridades. “Acordámos não usar violência na manifestação”, garante Dinis, sublinhando que os “fascistas estão tentar jogar a cartada de não serem violentos”. Por isso, continua, “duvida que [violência] ocorra”.

Sobre quantos manifestantes estarão presentes na mobilização, Dinis não consegue avançar com um número concreto, esperando, no entanto, que se chegue a 400 pessoas, à semelhança da manifestação nacional contra o racismo em Fevereiro, em Lisboa — convocada depois de Machado ter participado em Janeiro num programa da manhã da TVI.

No panorama nacional, o NOS é ainda uma organização relativamente fraca em militância, se comparada com, por exemplo, o Escudo Identitário, composto quase exclusivamente por jovens. Todavia, não deve ser menosprezado por ter uma série de contactos internacionais de relevo — Machado viajou inclusive para a Suécia para solidificar os laços com o neonazi Movimento Nórdico de Resistência — e esta conferência ocorre precisamente para demonstrar essa capacidade.

Para Machado, como o próprio disse num vídeo promocional da conferência, este evento tem como objectivo “estreitar os laços” e permitir à organização “aprender” com congéneres europeus.

“Creio que esta conferência seja importante para a extrema-direita portuguesa porque provavelmente vai reunir muitos adeptos e pessoal interessado”, disse Dinis, ressalvando o objectivo da conferência também passa por “normalizar o racismo e o ‘orgulho’ pela ‘raça’”. Todavia, é de frisar que a capacidade de atracção do NOS é bastante mais reduzida face a outros grupos de extrema-direita portugueses — em parte por causa da imagem que Machado possui, não esquecendo a sua estratégia política.

Além disso, e em comparação com outros países, o movimento antifascista em Portugal é encarado como relativamente fraco, daí o país ser uma preferência para hospedar um encontro internacional. Por exemplo, Alemanha, França e Espanha possuem movimentos relativamente fortes e, sempre que um evento fascista de âmbito internacional ocorre dentro das suas fronteiras, os fascistas vêem-se confrontados com oposição organizada e mobilizada. E confrontos ocorrem.

As actividades da NOS

Apesar de se manter relativamente discreto, o NOS tem realizado uma série de actividades nos anos meses, muitas delas para apregoar o seu nacionalismo étnico (neonazi) e lavar a imagem. Os seus órgãos reúnem-se com alguma regularidade, seja em Lisboa ou no Porto, e até já criou um núcleo feminino com pelo menos, diz a organização, 30 mulheres — as fotos por si divulgadas, no entanto, nunca o provaram.

No início deste mês, o NOS organizou a “a semana do Orgulho Branco”, em oposição ao “Gay Pride” e ao “Black Pride” — e chamou-lhe “White Pride”. “Acções serão feitas em todo o território nacional até ao dia 9 de Julho”, anunciou o grupo no seu blogue. Todavia, foram poucas as acções que se viram, mostrando que a sua capacidade de mobilização é bastante frágil.

Entre as suas iniciativas figura, por exemplo, a visita a museus com militantes, envergando camisolas da organização, para abordar a história de Portugal — há até crianças nas fotografias. Ou, mais recentemente, no início de Junho, a realização de um treino de paintball.

Em Outubro de 2017, Mário Machado e próximos seus tentaram formar uma equipa de airsoft (desporto de cariz militar criado para treino de forças especiais): “Com o propósito de formar, um espírito de Camaradagem, e Amizade entre todos NOS, dirimimos sobre a constituição de uma equipe de AirSoft. Os nacionalistas interessados devem contactar-nos”, lê-se no seu blogue. O acolhimento não foi nem de perto o melhor entre o universo do desporto e o grupo acabou mesmo por não ir avante.

O treino de paintabll é uma tentativa encapotada de fornecer um momento militarista camuflado de convívio por uma organização que se encontra sob monitorização da Polícia Judiciária e secretas.

Mas o NOS também tenta, à semelhança de outras organizações de extrema-direita nacionais e internacionais, lavar a sua imagem distribuindo alimentos e vestuário, divulgando rapidamente essas acções no seu blogue. Fê-lo em meados de Junho na estação de comboios do Oriente, em Lisboa — a 10.º acção de solidariedade, segundo a NOS. Nas fotos apenas se vêem portugueses caucasianos e, tendo em conta que a NOS se inspira na grega Aurora Dourada (deputados neonazis estiveram presentes no evento da sua fundação, em Lisboa, em 2016), não é de afastar a possibilidade de pedir um comprovativo de nacionalidade antes de dar os bens a quem lhos pede.

Machado tenta desde 2016 recolher as 7500 assinaturas necessárias para legalizar o NOS junto do Tribunal Constitucional, sem que tenha sucesso. Tinha prometido conseguir fazê-lo rapidamente, mas a realidade mostrou-se adversa para o neonazi condenado por crimes de ódio e criminalidade variada.

FlashBack - Observatório Antifascista

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